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Pedro Rolo Duarte

30
Jul08

850 dias depois...

“Lendo o seu livro, apercebi-me que deve ter deixado de fumar, se não teve alguma recaída, há dois anos, mais ou menos. Gostava de saber o que sente ainda hoje, se sente, se pensa no tabaquinho ou se é daqueles fundamentalistas que odeiam fumadores...”

 


Comecei a responder ao mail deste leitor, mas às tantas admiti que a resposta pudesse servir a mais pessoas, a mais fumadores, ex-fumadores, curiosos ou interessados pelo tema. Por isso, partilho o essencial da resposta que dei por mail:

 

 

 

Primeiro, as más notícias...

Dois anos e três meses depois, cerca de 850 dias mais tarde, este fumador de três maços diários que decidiu privar-se dos cigarros (e por isso não se sente ex-fumador, apenas uma pessoa que se impediu a si própria de continuar a fumar), continua intoxicado pelo tabaco porque:

- Em cada dez sonhos de que se lembra na manhã seguinte, oito envolvem cigarros, regressos e recaídas, mentiras que escondem recaídas, e passas cheias de prazer em ocasiões quase sempre convidativas.

- Ao longo do dia, nas ocasiões mais disparatas (além das óbvias, que são sempre o café, o final da refeição, o whisky pela noite...), este fumador sente ainda que lhe falta qualquer coisa. Como se lhe tivessem amputado uma parte de si, que não sendo essencial à existência, com frequência faz sentir a sua própria ausência.

- Da mesma forma, com desmedida regularidade e método, há um sentimento ansioso que obriga a uma respiração funda, a uma espécie de pausa no correr do tempo. Como se de vez em quando fosse essencial parar para recomeçar.

- Engorda-se quando se deixa de fumar. Parece que é mais ou menos o mesmo que estar habituado a correr 4 quilómetros por dia e parar de correr de um dia para o outro... Neste caso, dez quilos.

- Por fim, não raras vezes o ex-fumador que tenta nascer dentro do fumador observa este ultimo com um olhar nostálgico quando outras pessoas fumam cigarros e revelam na atitude o prazer que constitui fumar um cigarro.

 
Mas...
Depois, as boas notícias...

Dois anos e três meses depois, sempre que penso em tudo aquilo que abandonei (pior agora, com a recente legislação), experimento uma sensação de liberdade única: deixei de estar ansioso para que o filme acabe no cinema; nunca mais senti o cheiro detestável do tabaco na roupa, no cabelo, na casa; perdi a ansiedade de não ter cigarros; estou fisicamente mais perto do meu filho; subo melhor uma escada. O balanço é positivo porque:

- Dei uma alegria grande ao meu filho e à minha mãe. Esses momentos, e o prolongamento que vão tendo ao longo destes anos, são reconfortantes e não têm preço.

- Não fiquei incapacitado, como receava... A ideia de fumar associada ao acto de escrever, trabalhar, estar concentrado, era tão forte, que admiti poder não conseguir trabalhar sem fumar. Falso. Consigo, claro.

- Eu não fumava por prazer (o que é excelente e eu recomendo...) – eu fumava sem princípio nem fim, sem lógica, apenas para satisfazer uma dependência. Talvez houvesse dois ou três cigarros diários que fumava com efectivo prazer – todos os outros davam apenas o pequeno prazer de suprir uma carência.

- Tenho a perfeita consciência de que fumadores como eu não têm meio-termo: ou seguem o seu rumo, ou deixam de vez. É uma escolha – eu fiz esta, estou convencido das vantagens da minha escolha, apesar dos sacrifícios e das penas. Fez bem à minha auto-estima a ideia de “ser capaz” – uma ideia difícil para quem fuma tanto e durante tanto tempo. Muitas vezes (até publicamente) afirmei que não seria capaz.

- Não me tornei fundamentalista, de todo. Mas confesso que sou hoje sensível à presença do tabaco como antes não era, e há locais onde vou menos por serem demasiado “atabacados” e outros onde passei a ir com gosto porque se respira melhor. Acho aliás curioso, nestes dias abafados de Verão, que nos espaços fechados se respire melhor do que à porta desses mesmos espaços...

- Deixei de fumar sem os medicamentos da moda nesta matéria, e também sem os pensos e os substitutos. Fui eu, uma hora a seguir à outra, um dia após o outro. Ansiolíticos, de vez em quando. Voltar a ignorar a colesterol e não me privar do prazer de comer, do prazer de beber. Deixar fluir...

- Apesar das más notícias lá de trás, à pergunta “sente falta do tabaco?”, a resposta é clara: “não”. Sinto falta do que sinto que me foi amputado, mas também sinto que não me faz falta para viver. E ser feliz.

E nesta dicotomia de sentimentos, todos os dias me sinto mais longe daquela dependência, todos os dias me sinto mais perto de uma qualquer ideia de liberdade. Porque, na verdade, em casos de dependência como o meu, fumar passou a ser, além de tudo o que se sabe, uma espécie de prisão - com liberdades condicionais pontuais para andar de avião, ir ao cinema, passear num museu... E não é bom viver assim. Mesmo nada bom.

Tenho pena, na verdade, de não ter conseguido nunca ser um fumador por prazer, sem qualquer espécie de dependência, como tantos que conheço.

Agora é tarde para recomeçar. Foi assim.

28
Jul08

Impunidades (parte III)

A respeito deste post e dos comentários menos elegantes que ali se encontram, devo acrescentar ao que escrevi os seguintes pontos:

1. Ao contrário do que determina a convicção de Gonçalo Amaral (e de alguns dos autores dos comentários ao meu texto), recuso fazer julgamentos prévios, e na praça pública, sobre factos que não testemunhei e sobre os quais não tenho dados suficientes que me permitam sequer ter uma opinião. Ou seja: não faço a mais pequena ideia se a “pequena Maddie” foi raptada ou morta, e se os pais têm qualquer relação com os factos. Nem eu, nem o ex-inspector Gonçalo Amaral – porque se efectivamente soubesse e pudesse provar, há muito este caso estava a ser julgado.

2. “Caso em aberto” - é esta a situação, e daqui deve decorrer a atitude de qualquer comentador ou jornalista. Se os leitores deste blog puderem provar qualquer tese sobre o desaparecimento da criança, ou puderem provar que a convicção de Gonçalo Amaral tem sustentação factual, a justiça, os jornais e o mundo agradecem.

2. Critiquei e critico o livro do ex-inspector Gonçalo Amaral – do qual li as passagens essenciais para poder manifestar esta opinião – apenas pelo facto de misturar as suas convicções pessoais com presumíveis indícios, manipulando esses mesmos indícios a seu bel-prazer, num processo de julgamento público que reputo de pouco sério. Aprecio o facto de se ter reformado porque não quero que a Policia portuguesa tenha nos seus quadros elementos que admitem validar o julgamento na praça pública com base em convicções pessoais. 

3. O arquivamento do processo Maddie resulta justamente do facto de não terem sido encontrados indícios suficientes para manter arguidos os pais da criança – ora, isto não significa que eles sejam inocentes, significa apenas que não há matéria que permita mantê-los na qualidade de arguidos. O livro de Gonçalo Amaral não adianta um dado que seja (cientifico, factual, rigoroso) que altere esta linha de actuação.

4. Assim sendo, as convicções de Gonçalo Amaral constituem um momento penoso para a polícia portuguesa – porque consubstanciam a ideia de que uma convicção forte, acompanhada de uma manipulação mais ou menos inteligente dos factos, chegam para incriminar alguém. Desejo sinceramente que nunca os comentadores de serviço ao meu post passem pela mesma situação – não vá ocorrer-lhes o mesmo que ao toxicodependente espanhol que esteve 13 anos preso por engano dado o facto de ser estrábico como o efectivo criminoso que andou à solta até agora (noticia no mesmo Correio da Manhã de ontem onde o infalível e inefável Moita Flores volta a defender a tese do crime familiar, como se a vida das pessoas fosse um jogo de apostas...).

5. Desde o começo deste caso que me revoltam e me inquietam as “opiniões públicas” feitas por “palpite”: “foram os pais de certeza, vê-se logo...”; “já o teu cunhado sempre disse que eles eram os culpados”; “não, coitados, de certeza não foram eles...”. A imagem é fatal e vivemos o tempo em que ela é o tribunal popular: vê-se a tromba do presumível criminoso na TV e logo se diz: “tem mesmo cara disso...”. Ou o contrário. As pessoas gostam de dizer coisas, acreditar em coisas. Que o façam dentro de casa, problema delas – brincam com a vida dos outros, apenas... Que o façam em livro, nas televisões, em entrevistas e debates, tendo um passado de responsabilidade e envolvimento, misturando alegremente palpites com indícios, e apostas com provas, parece-me, além de perigoso, rasca, reles e pobre.

Foi só isto que eu quis dizer. Não represento nenhuma das “partes”, não estive envolvido na cobertura noticiosa dos factos, de momento nem sequer tenho “carteira profissional” de jornalista. Limitei-me a expressar uma opinião sustentada no código deontológico que rege a minha vida. E esse código impede-me de queimar na fogueira da praça pública aqueles que o meu “achismo” me diz qualquer coisa como... “cheira-me que são culpados!”

Fica a notícia do tal estrábico espanhol no Correio da Manhã, para alimentar a fogueira...

 

26
Jul08

A sociedade numérica

Na passagem do 25º aniversário, a revista francesa «Le Point» vem lembrar-nos uma contradição terrível: no mesmo mundo em que a comunicação é a chave-mestra dos dias, as palavras valem menos do que os números. Vivemos cercados de números – que nos limitam, nos asfixiam, nos condicionam, e no limite nos lixam...

Como que provando tal ideia, todo o suplemento de aniversário da revista é constituído por números: um dia de França em estatísticas, sondagens, levantamentos, valores monetários, pesos e medidas. São páginas e páginas de infografias e análises – tudo com base em números. O resultado é assustador: desaparece o indivíduo e no seu lugar apenas existe o grupo. E o grupo só existe se for representativo, quer dizer, se a soma dos seus elementos chegar ao patamar mínimo considerado pelo «desenho» ou pelo critério de cada artigo. Não há mais nada a não ser números – e o único que fixei é aquele que diz que o cérebro humano toma em média cinco mil decisões por dia. Que canseira, meu deus...

Olho à volta e é assustadora a paisagem. Um fim-de-semana prolongado ou um final de férias traduz-se, na informação, pelo número de acidentes, mortos e feridos. Um dia nacional de qualquer doença é apoiado pela estatística: um em cada não sei quantos portugueses padece de... Os partidos, os líderes, os governantes, são vistos pelos media através de painéis onde «sobem» e «descem» de popularidade ou agrado. Um artista é contabilizado pelos discos de ouro e platina, numa aritmética que resulta da compra e não do agrado. Não falando dos livros, e das vendas dos jornais…

Depois há os índices que todas as discussões provocam: os dois virgula qualquer coisinha por cento de aumento que a função pública não quer, os menos que zero da inflação, os valores da bolsa, e a taxa de juros, e o preço das acções. Há os números com que nos identificam e que nos denunciam e condenam, há o «preço do dinheiro» e a obsessão galopante do consumo. Há «dos zero aos cem em 6 segundos», há as garantias de 36 meses, há o «esta semana no Pingo Doce» e o preço do novilho, há as manchetes que revelam dívidas de milhões, falências de milhares, desemprego em «números redondos». Um secretário de estado demite-se por falta de verba, um ministro orgulha-se dos milhões que gastou.

Chego ao fim do dia e o que resta de tudo o que passou são números. Ou são trocos, já nem sei. Cansado, nem me apercebo de que, entre tantos por cento, sou um deles. Muitos zeros virgula qualquer coisa.

As palavras e os argumentos não fazem falta nenhuma: se tivermos números, eles explicam tudo.

 

De vez em quando, memórias revistas e editadas. Publiquei esta crónica, na sua versão original, em Outubro de 1997 na revista Visão.

25
Jul08

Impunidades (parte II)

Não li o livro do ex-inspector da PJ Gonçalo Amaral. Bastou-me tudo o que contou nos jornais e nas televisões entre ontem e hoje. E encontro nesta vaga de fundo uma boa e uma má notícia.

A boa notícia é que Gonçalo Amaral se reformou. A má notícia é que ele pode constituir, ainda assim, o protótipo do inspector da Policia Judiciária.

A admitir esta hipótese, francamente plausível, o pior que nos pode suceder na vida é estar no sítio errado na hora errada. Porque, nessas circunstâncias, um qualquer inspector de PJ pode ter “convicções profundas”, acreditar em teses desmentidas por cientistas, juntar dados de um puzzle inexistente, e repentinamente sermos arguidos de um processo que nem sabíamos existir. Do que li e vi, estamos perante mais um julgamento popular sob a forma de livro assinado por autoridade aparentemente competente.

Convém notar: não é autoridade por ter convicções e opinar, não é competente porque não prova nada do que diz, e não julga porque obviamente não pode. Nem sabe...

... Quem sabe, isso sim, se a língua portuguesa não ganhou hoje um novo verbo – o Muratear. Ou seja, tornar arguido um qualquer Murat que se atravessou no caminho de um investigador da PJ.

Confesso: depois do espectáculo do dia nos jornais e nas televisões, olho com outros olhos o poder real de um polícia. E estou assustado.

 

PS – Também noto, à margem do processo, a incompetência editorial da coisa: quando se abre ao meio a galinha dos ovos de ouro, a galinha morre e deixa de dar ovos... Parece ter sido essa a estratégia de marketing para o livro: já tudo foi contado, não resta nada para ler.

23
Jul08

Impunidades

 

Sem querer repetir o que já foi dito – e acho que tudo já foi dito -, o que verdadeiramente me atormenta no “Caso Maddie” é a incapacidade de as diversas frentes em jogo (jornais, televisões, familiares e amigos da criança, PJ...) darem o braço a torcer, assumirem uma postura de humildade e dizerem: pedimos desculpa, isto não correu nada bem.

Reparem que estamos a falar de pessoas, atitudes de pessoas, sentimentos de pessoas. Somos todos iguais. Todos erramos. Ora, neste caso, até hoje, não houve uma só pessoa que tivesse a coragem – neste caso, humildade e sabedoria – de dizer: errei.

Nem os pais, que terão sido, no mínimo, um bocadinho negligentes. Nem as policias, que investigaram mal e porcamente e acusaram sem fundamento. Nem os jornais e televisões, que foram “engolindo” diariamente as versões, teorias e conspirações que lhes garantiram audiências, créditos e renovadas fontes, sem nunca fazerem o seu próprio trabalho de casa.

O que fica deste caso é a ideia de que se pode sacudir a água do capote impunemente. Em todas as frentes. Sempre. Com um saldo dramático: três arguidos que afinal foram injustamente acusados (e julgados no mais penoso dos tribunais, que é o da opinião pública). Uma criança eternamente desaparecida. A culpa morrerá solteira: “aos costumes disse nada”.

21
Jul08

Às vezes, ter razão é triste

 

No auge da minha paixão pela Costa Alentejana, mais precisamente pela Zambujeira do Mar e “ilhas” adjacentes, tive longas discussões com os proprietários dos cafés e restaurantes que frequentava. Eles acusavam-me – a mim e a mais uns tantos maduros... – de querermos aquele paraíso só para nós...

Eles, comerciantes, queriam a Zambujeira “para todos”, por isso aplaudiam o Festival do Sudoeste em pleno Agosto, por isso cediam às cadeiras foleiras e aos chapéus-de-sol das marcas de cerveja (aquele largo da aldeia, no Verão, parece um verdadeiro supermercado de marcas e cores, um monumento de poluição visual), por isso faziam sanduíches de mau fiambre e pior queijo, e maus sumos (laranja e já era obra...) e fritavam batatas congeladas e vendiam chouriços industriais...

A minha argumentação era sempre a mesma: se eles cultivassem qualidade, iriam ter qualidade de retorno. Isso significava clientes fiéis, dispostos a pagar o justo preço da qualidade, menos instáveis mesmo em momentos de crise. Eu só queria que a Zambujeira fosse autêntica como há 20 anos, e não plástica e massificada, como se estava a tornar.

A argumentação deles era clássica: só temos o Verão para facturar, mais vale imperial a rodos em copos de plástico durante 3 dias de festa. O futuro que se dane.

“Eles” ganharam – e depois de darem cabo do melhor bar de praia do país (ler a história aqui ) , e por consequência da própria praia, e depois de arrasarem com o mês de Agosto a golpes de festival e quartos alugados em garagens de automóveis, e depois da conversa de sempre – “no Inverno esgotam os jornais, porque somos poucos; no Verão esgotam os jornais, porque somos muitos” -, desisti: despachei a casa e larguei a Zambujeira (como eu, a maioria dos veraneantes que conheci nestas décadas). Voltei a viajar e a ter a capacidade de descobrir outros paraísos.

Por tudo isto que aqui desabafo, não me surpreendeu a reportagem de Carlos Dias no “Público” de ontem. Infelizmente. O texto sustenta-se na teoria da crise – mas na verdade, a questão é mais vasta e tem outras cambiantes: tivesse aquela população percebido o valor e a importância de um turismo de qualidade (que ali se dispôs a aportar sem pedir em troca mais do que autenticidade e paz...), e a crise suportava-se hoje bem melhor. Como aquela gente preferiu o lucro rápido e imediato nos anos loucos da “expansão”, agora “é assim”:

“É uma sensação estranha atravessar de automóvel, em plena época balnear, as localidades costeiras do litoral alentejano de Azenha do Mar, Zambujeira do Mar, Almograve, Porto Covo ou São Torpes. As viaturas circulam sem estarem sujeitas a qualquer congestionamento de tráfego e até se consegue estacionar, logo à primeira, e em qualquer lugar. Nas praias da Zambujeira do Mar e Porto Covo, uma dúzia de chapéus de praia dispersam-se pelo areal que parece imenso, comparando-o com anos anteriores, quando os banhistas disputavam uma nesga de espaço para estender a toalha.
Nas esplanadas abundam as cadeiras e mesas vazias ponteadas por meia dúzia de pessoas à volta de um pequeno prato com salada de polvo que cavaqueiam sobre o seu aborrecimento e consternação por tão fraco afluxo de turistas”.

(...)
“A escassez de veraneantes estende-se inevitavelmente aos estabelecimentos de restauração. No snack-bar O Martinho com uma excelente panorâmica para a praia da Zambujeira do Mar, a clientela "é fraca" e "pouco endinheirada", diz António Lopes. Com efeito, as escolhas dão preferência ao frango no churrasco com batata frita. Pedidos de peixe, "apenas pratos de sardinha de vez em quando" ou então "um peixito para sete pessoas para ficar mais barato". Há três anos, a clientela era muita e "até aceitava esperar pelo peixe que vinha da lota". Este ano é tão pouca que "nem dá para aquecer", apesar do calor”.

20
Jul08

Uma história de amor

Estava um grupo de amigos à conversa. Na verdade, havia alguns amigos, misturados com conhecidos, e ainda algumas pessoas que só conheciam dois ou três dos presentes. Um grupo heterogéneo que se juntou, quase por acaso, naquele final de tarde.

E falava-se de amor e relações amorosas, e trocavam-se ideias, umas mais banais que outras, todas elas próprias de pessoas que já viveram alguma coisa, que já se desiludiram um bocadinho, mas que ainda querem acreditar. O normal, portanto.

Até que uma das presentes, que até ali limitara a sua participação a frases soltas e um permanente e muito genuíno sorriso, decidiu falar. E disse assim (omito ou mudei pormenores, porque a história é verdadeira):

“Eu sou feliz e quero ser feliz todos os dias porque acredito no amor, e porque tenho uma história que me faz acreditar e a isso me leva. Há muitos anos, a minha mãe, certa manhã, ao chegar ao emprego, deparou com um jovem, muito mais novo que ela, com um aspecto muito descontraído, sentado num muro junto à entrada. Olhou para ele – contou-me mais tarde, evidentemente, eu não era ainda nascida –, e ficou petrificada. A palavra que ela usa é “petrificada”. A minha irmã mais velha, que ia com ela, puxou-a pela mão, ‘anda mãe!’, mas a minha mãe parecia que não conseguia andar. Sentiu algo fortíssimo, uma atracção, uma empatia, algo que não sabia explicar.

Apesar de o seu casamento viver uma crise, não estava no horizonte da minha mãe mudar de vida. Sucede que, uns dias depois, o marido, que trabalhava no mesmo local, chegou a casa e contou-lhe que um jovem que estava na empresa há poucos dias precisava de umas explicações para desenvolver a área onde se movimentava. A empresa decidira que era ela, minha mãe, quem o deveria acompanhar. Ao final da tarde, fora do horário de trabalho, numa espécie de “aula extra”. A minha mãe disse que sim, não imaginando quem seria o novo funcionário.

Quando lhe apareceu à frente, o mundo desabou: era o tal rapaz que ela tinha visto à entrada da empresa...

... A minha mãe tinha filhos, estava casada, e apesar da crise emocional, estava longe de qualquer atitude radical. Mas o que sentiu por aquele rapaz - dez anos mais novo do que ela... - foi tão forte, tão profundo, tão intenso, que se atirou de cabeça. Deitou tudo a perder, desfez a família, e juntou-se àquele homem – que é meu pai, e com quem a minha mãe está há 35 anos. Feliz todos os dias do ano. E ainda hoje apaixonada como naquele tempo inicial.

Numa primeira reacção, a família tentou tudo para evitar o que considerava uma leviandade e um disparate: as irmãs deixaram de falar à minha mãe, os amigos desapareceram, todo o mundo se virou contra ela. Mas a minha mãe não desistiu nem se deixou vencer. E um dia disse-me esta frase que eu nunca esquecerei e que explica tudo:

- Minha filha, eu teria aquela família por toda a vida, mesmo que me ignorasse ou maltratasse. Agora, a felicidade, eu sabia que tinha com aquele homem, nem que fosse por um minuto. E nada me garantia que de outra forma a tivesse, por um minuto ou para o resto da vida”.

Há 35 anos que aquele casal está junto, há 35 anos que esta filha, que agora nos conta a história dos seus pais, vive com um sorriso rasgado e lindo. Tendo estado certa vez entre a vida e a morte, ela pensou: “eu não posso menosprezar o exemplo da minha mãe”. Venceu a morte, e no regresso mudou de vida para ter a certeza de que não escaparia à felicidade. Não escapou. E ei-la à minha frente, num fim de tarde inesperado que me deixou sem palavras. Ou melhor, que me deixou com a sua história no colo e uma imensa vontade de a contar. Aqui fica.

 

Contei esta história há uns meses na Lux Woman, onde escrevo uma crónica permanente. Apeteceu-me recuperá-la neste domingo quente.

19
Jul08

A terceira via

 

A avaliar pela imprensa de ontem, parece que há um “duelo de titãs” marcado para este fim-de-semana na zona de Lisboa. De um lado, Bob Dylan. Do outro, Leonard Cohen.

Ok. Como raramente me sucede tal facto, devo assinalá-lo: fui pela terceira via. Nem Dylan, que não consegue mais do que o bocejo e a memória de aprender a tocar viola com o “Blowing in the Winds”, nem Cohen, ao som do qual namorei em Cascais há milhares de anos (e nem sequer correu muito bem...). Tem razão o leitor Alexandre, que me corrigiu: o duelo era com Lou Reed, de quem até gosto bastante, e estava na capa do Público direitinho e com rigor. Mas como Dylan tocou em Lisboa na semana passada, e eu escrevi o post a desoras, baralhei tudo. É a PDI, se me faço entender...

Terceira via, portanto.

Esta: ontem no Coliseu, com Milton Nascimento e o Trio Jobim (na verdade composto por quatro elementos, mas tudo bem, acordo ortográfico, coisas que acontecem...). Derreti-me com as consecutivas homenagens ao pai da Bossa Nova, com o regresso da voz de Milton a temas antigos, dos tempos de Wayne Shorter e Herbie Hancock, e com a comoção de ver o Bituca de boa saúde depois do susto de há uns anos (uma qualquer forma de diabetes rapidamente “boatada” para outras doenças).

Percebi, uma vez mais, que volto sempre às canções “onde” fui feliz. Milton tem uma generosa dose delas – dos tempos de “Courage” aos das duplas com Paul Simon e os “Duran Duran” (sim!), passando pelos temas partilhados em discos diferidos com Elis Regina ou ao monumental “Sueño Con Serpientes” com Mercedes Sosa. Sem deixar de passar pela “casa de partida” que são, para os admiradores incondicionais, os duplos “Milagre dos Peixes” e “Clube de Esquina”.

Os discos de Milton foram os meus mais fiéis e leais companheiros de juventude – mesmo no frenético tempo em que a adolescência nos obriga a mudar de gostos e paixões todos os dias... – porque conjugaram sempre uma sólida construção musical, original, fora do comum, ligando o jazz à MPB, com textos que me diziam qualquer coisa, nem que fosse um amor perdido ou recuperado.

Voltar ao Coliseu e voltar a Milton foi tudo isso. Ou apenas isso.

São memórias tantas, e tantos acordes que me acordam para o essencial da vida. Que é apenas, e afinal, viver. Estupidamente simples...

... Como este tema brilhante de Milton e Fernando Brand que levantou por fim o Coliseu:

 

“Foi nos bailes da vida, ou num bar em troca de pão
Que muita gente boa pôs o pé na profissão
De tocar um instrumento e de cantar
Não importando se quem pagou quis ouvir, foi assim
Cantar era buscar o caminho que vai dar no sol
Tenho comigo as lembranças do que eu era
Para cantar nada era longe, tudo tão bom
'Té a estrada de terra na boleia de caminhão, era sim
Com a roupa encharcada e a alma repleta de chão
Todo artista tem de ir aonde o povo está
Se foi assim, assim será
Cantando me disfarço e não me canso de viver nem de cantar”
 
... É isso: “Para cantar nada era longe, tudo tão bom”.

17
Jul08

Tanto barulho por nada

Houve até quem me chamasse “urbano-depressivo”, na fase em que tal miserável estado de alma estaria na moda. Na verdade, urbano. Sempre urbano e dependente da cidade – na sua oferta, no seu caos, no que tem de contraste entre o provinciano óbvio que resulta de quem chega e o tolo cosmopolita de quem acha que Lisboa é grande em pequenino. Gosto de táxis, odeio táxis. Não vivo sem cinema, sem restaurantes, sem esplanadas no rio, sem o cheiro a carro novo, sem elevadores, sem “eventos” (especialmente para poder decidir não ir), sem comida japonesa, sem manjericão fresco, sem pimentos padron, sem limoncello de Sorrento. Também não vivo sem encontrar de vez em quando esta pessoa, aquela pessoa, aquele cromo. Feira do livro, vou sempre. Domingo à beira-rio, até no Inverno. Frango da Valenciana, é óbvio. Fazer compras. A FNAC. E gosto de aproveitar os semáforos para fazer outras coisas, e gosto de estacionar em lugares impossíveis, e gosto do Corte Inglês.

Tudo isto para dizer que sou urbano, não Tavares Rodrigues, menos ainda depressivo.

Mas começo a ter dúvidas.

Por causa do ruído. Do barulho. Das duas coisas.

Tomo um Bromalex logo que vejo um empregado de café aproximar-se da pilha de pires & chávenas acabados de lavar. Já sei que vem um ruído ensurdecedor na hora de arrumar os pratos e as chávenas, que me deixa arrepiado e hipertenso – mas que ninguém parece notar, nem reclamar, a começar no próprio empregado. Normalmente, este barulho insuportável da loiça a ser empilhada ou desempilhada é acompanhado pelo não menos incomodativo ruído da máquina de moer o café. Sou só eu que oiço?

Além disso:

Há sempre um apartamento em obras perto da minha cama.

A porta do edifício onde vivo (um 4º andar...) bate como se fosse a ultima vez que batesse e a seguir o prédio desmoronasse. Oiço cá em cima.

A porta do elevador também.

Viajo muito de táxi à noite e não raras vezes me vejo na contingência de falar mesmo muito baixinho para obrigar o motorista a descer o volume do rádio para um nível abaixo do standard “estádio de futebol ao rubro”.

Os carros do INEM fazem barulho mesmo quando o ferido grita “silêncio!”.

Buzinar é em Lisboa mais ou menos o mesmo que assobiar, estalar os dedos ou fazer aquele gesto manual de “a conta, por favor”: não conta, faz-se.

As crianças portuguesas falam mais alto do que as outras.

Nos homens, quanto mais alcool, mais alto o volume. Beber ensurdece?

Quanto mais distante, mais se grita ao telemóvel.

Eu não aguento mais o ruído. O barulho. As duas coisas.

E então começo a pensar se serei ainda o “urbano” de sempre – ou se me terei tornado noutra coisa qualquer e esteja à beira de uma mudança efectivamente radical.

Se acontecer, começou com o ruído das chávenas e pires de café a serem empilhados depois de lavado. E continuou com a obras à volta do meu sono, sempre do meu sono, todos os dias, excepto naqueles em que o ruído eram pessoas a rir ou a falar ou a ver televisão muito alto. Estou farto.

15
Jul08

Na arena

 

“A operação de cedência de créditos fiscais e da Segurança Social ao Citigroup, realizada por Manuela Ferreira Leite enquanto ministra das Finanças do Governo PSD/CDS-PP, está a ficar cara ao Estado: dos 11, 44 mil milhões de euros cedidos ao Citigroup em 2003, mais de 3,74 mil milhões foram substituídos por outros créditos cobráveis dos anos seguintes. Com esta substituição, o Estado cedeu ao Citigroup um montante total de créditos de cerca de 15,2 mil milhões de euros.

Ao que o CM apurou, o montante dos créditos fiscais substituídos apanhou de surpresa o Governo de José Sócrates, dado que Ferreira Leite garantira na altura, que a taxa de substituição desses créditos não seria superior a um dígito. Em vez de uma taxa de substituição inferior a dez por cento, o negócio com o Citigroup acabou por traduzir-se na substituição de 33% do total de créditos cedidos àquele grupo financeiro norte-americano. E esta taxa de substituição é mesmo superior à previsão do Instituto para o Desenvolvimento e Estudos Económicos, Financeiros e Empresariais (IDEFE), do ISEG, entidade contratada por imposição do Eurostat para fazer uma avaliação independente da carteira de dívidas: o IDEFE previu que 19% dos créditos transferidos não eram cobráveis”.

Correio da Manhã, 14/07/08

 

O que desta notícia resulta é o final antecipado de uma imagem, de uma postura, e de uma atitude. Em resumo, de uma liderança e presumível alternativa.

Manuela Ferreira Leite não quis afirmar-se pelo marketing e pela comunicação. O marketing e a comunicação encarregaram-se de aproveitar essa sua “deixa”.

Manuela Ferreira Leite talvez tenha presumido que unira o PSD. Basta uma vista de olhos aos blogues social-democratas e/ou próximos, para sentir e ouvir o chiar das facas afiadas...

Manuela Ferreira Leite não quis entrar no reino do confronto pela imagem e pelo soundbyte – serão justamente a imagem e o soundbyte a determinar o futuro político da líder do PSD.

A lição destes dias é a mais óbvia de todas: não se pode entrar na arena do circo sem a técnica do malabarista, a sabedoria do domador, e a graça do palhaço. Infelizmente, foi aqui que a política chegou.

Como costumo dizer, se aqui chegou, foi por via democrática: votaram neles. Agora aturem-nos.

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O Diplomata. Dez anos de blog é obra. Alexandre Guerra festeja, e com razão, um espaço de reflexão, análise e opinião do mundo político internacional. Merece o bolo.

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