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Pedro Rolo Duarte

26
Ago08

If we do this right...

 

A edição deste mês da Portfolio (uma revista do grupo Conde Nast que parece feita de propósito para pessoas que têm com a economia e a gestão uma relação como a minha, feita de muita curiosidade e ainda mais ignorância...), traz um excelente perfil de Katharine Weymouth (foto ao lado, tirada da revista), a nova Publisher do Washington Post. Neta de Katharine Graham, a “dama de ferro” do jornal durante décadas, esta mulher, de pouco mais de 40 anos, tem pela frente um pequeno desafio e uma gigantesca batalha. O desafio é recuperar o jornal, que nos últimos anos perdeu demasiados leitores e muitos anunciantes. A batalha da sua vida é descobrir em que é que se vai transformar a marca Washington Post, e que futuro lhe está reservado neste tempo a que chamamos “período de transição”. A Portfólio começa por garantir que chamar-lhe “de transição” é eufemismo puro. O tempo é de rotura e revolução: a acreditar no que disse aos editores do Post Steve Ballmer, da Microsoft, dentro de 10 anos não haverá jornais diários em papel, tudo passará pela net.

Ora, isso tornaria a missão de Katharine Weymouth relativamente simples: fortificar a marca, transferi-la para a rede, e viver alegremente os novos tempos. Estava decidido o futuro...

Mas as coisas não são assim tão simples – as receitas na Net são baixas e ainda não se descobriu a galinha dos ovos de ouro da rede, as plataformas de consumo de informação continuam a ampliar-se e a ganhar novas ramificações, e a massa crítica de credibilidade de um jornal ainda se encontra na circunstância de ser impresso. Como se o papel fosse o termo de responsabilidade ou o contrato de garantia de uma marca informativa...

Em dez anos muita coisa mudou – em dez anos muita coisa mudará. Mas a Katharine do séxulo XXI do Post parece aberta a um futuro de incógnita, e por isso também de oportunidade: “My goal is to make sure that the Washington Post is reporting and writing great stories and distributing them to our readers on whatever platform they want to get it on. If we can do that, then it won’t matter whether revenues at the website are bigger than those at the newspaper or vice versa. If we do this right, we will be a news company”.

Quando a Publisher de um jornal tem o foco nas “great stories”, as coisas ficam bem encaminhadas. Temos jornalismo pela frente. Gostei de conhecer Katharine Weymouth nas páginas da Portfolio.

24
Ago08

Vinte anos depois

 
Um dia telefonou-me o João Amaral, que eu tinha conhecido em 1984 na Rádio Renascença, e perguntou-me se eu gostaria de conhecer um novo projecto de jornal e quanto me pagavam como “avençado” no “Sete”. À primeira disse sim, à segunda disse quanto.

Uns dias depois, conheci o Paulo Portas numa conversa informal num escritório com vista para a Maternidade Alfredo da Costa. O Miguel só me conhecia de nome.

À terceira pergunta, “vens?”, disse sim outra vez.

Entrei para “O Independente” poucas semanas antes do jornal nascer. Sabia bem menos de jornais do que julgava. E tive a minha primeira directa a golpes de stress no “fecho” do jornal que mostro neste vídeo.

Quando acordei na sexta-feira e vi a primeira página que o Miguel, o Paulo e Manuel tinham feito com o Jorge, percebi que tinha aceite o convite incerto para o mais certo jornal do meu tempo.

Passaram duas décadas e eu não imaginava como tanto poderia mudar em apenas 20 anos. Mas na altura eu devia achar que 20 anos seriam uma eternidade – e hoje, claro, parecem-me grãos de areia a voar nesta ventania de Agosto em Lisboa.

Já o Chiado, bom. Voltou a nascer.

E todos os anos me lembro destas noites de brasa – de como então aprendi a conviver com a felicidade e a tragédia nesta profissão, e de como aprendi que, no confronto entre um sentimento e um facto, ganha sempre o sentimento.

Vinte anos depois, regresso ao Chiado. E àquele bocado de mim num jornal de tantos.

 

21
Ago08

Um país bipolar

 

As férias, por mais curtas que sejam, têm sempre a vantagem de nos permitir olhar o mundo com alguma distância. É a essa distância – algures entre a incredulidade e a verdadeira ignorância – que me ocorrem as seguintes perguntas soltas:
 

1. Vicente de Moura, manda-chuva dos nossos Olímpicos, anunciou há dois ou 3 dias que abandonava as suas funções, dado o insucesso da nossa missão, e o generoso número de alarvidades e inanidades proferidas por vários atletas. Hoje, com a medalha de ouro de Nelson Évora, Vicente de Moura diz que reconsidera e, se lhe pedirem com jeitinho, fica. Eu sei que aos desportistas se pede corpo e mente flexíveis – mas também faz parte ter a coluna vertebral flexível ao ponto de se enrolar sobre si própria?

 

2. Ao contrário do que sucede com uma selecção nacional de futebol, numa delegação olímpica o que se espera do seu desempenho não é um resultado colectivo, mas a presumível soma de resultados individuais. Nelson Évora não tem culpa de João Rodrigues, Emanuel Silva nunca viu a égua histérica, e Vanessa Fernandes nunca nadou ao lado de Daniela Inácio. Nessa medida, fará sentido julgar um colectivo e condená-lo pelas patetices de meia-duzia dos seus elementos? Ou será mais sensato criticar o Comité Olímpico, que prometeu resultados que não podia garantir, e ignorou que o mediatismo deste tipo de eventos obriga a algum investimento na formação dos atletas também para os momentos em que falam aos media?

 

3. Leio Pedro Sales, no blog Zero de conduta há dois dias: “A Austrália investe 33 vez mais dinheiro do que Portugal. Eles têm 35 medalhas, Portugal tem uma. Estas coisas contam. Têm a certeza que querem medalhas ou é só conversa?”. É óbvio que o dinheiro conta, mas alguém me pode dizer o valor do investimento olímpico do Zimbabué (4 medalhas até agora), da Bielorússia (13 medalhas), ou do Cazaquistão (8 medalhas)? Neste momento, a contabilidade coloca Portugal ao nível da Mongólia e da Estónia. Falamos apenas de dinheiro?

 

Estes Jogos Olímpicos – um pouco como os desempenhos mais recentes da Selecção Nacional de Futebol - deixam-me uma interrogação genérica, retórica, porém sentida: entre a medalha de ouro de Nelson Évora e o atleta que de manhã “é mais caminha”, não estará aqui o “esplendor de Portugal” – ou seja, a capacidade de oscilar entre o melhor e o pior num mesmo cenário, quase em sequência?

Um país bipolar? Eis o diagnóstico que fica dos sintomas que vou vendo. Distantemente, como convém em Agosto...

10
Ago08

Coisas estranhas que se fazem em férias (II)

Tentar perceber o PC recentemente adquirido e a sua relação com “pen’s” de banda larga da TMN

 

O exercício é inútil: não apenas se percebe um boi desta relação aparentemente amigável, como a probabilidade de nos irritarmos em férias – isto é, quando não é suposto… – é enorme. No ano passado, no Verão, havia amigos que gozavam comigo porque o meu velho portátil não se ligava à Net quando eu queria, mas sim quando ele queria, e isso tornava-o inútil. A mim, e aos amigos que se penduravam no computador para “já agora deixa-me lá ir ver o mail…”. Eles tinham razão, mas eu nem me queixava – afinal, era um pc de férias, e todos temos direitos nestes momentos.

Um ano depois, eu tenho um computador novo todo XPTO, praticamente “tuneado”, Windows Vista (a pior coisinha que a Microsoft conseguiu inventar desde o tempo do saudoso Windows 3.1), uma placa que a TMN me “vendeu” com pontos do telefone, e tudo deveria ser mega-ultra-hiper-rápido. Pois bem: a “pen” “internet em qualquer lugar” nem sempre tem rede e é tão rápida como a placa anterior. Para mim, sempre demasiado lenta. E quanto à ligação à Internet, é também a seu gosto: liga quase sempre, mas desliga-se sozinha sem avisar e faz de conta que continua ligada. Quando “a apanho”, faz birra e demora meia-hora a ligar de novo. Escrevo este post enquanto espero que lhe passe mais uma fita e me deixe continuar a navegar…

Irrito-me. Tento entender. Começo a vasculhar “o meu computador” e coisas parecidas. Arrependo-me sempre.

E penso - quando tenho um computador novo nas mãos - o mesmo que penso há uns bons 15 anos: enquanto não for tão implacavelmente simples como um televisor, esqueçam lá isso. Não substitui porra nenhuma. Já foi mais difícil ter um computador novo – mas continua a ser chato como a potassa recriar todas as rotinas e sentir-me outra vez amigo da máquina.

Lá está: vou voltar para o mar. Está-se tão bem dentro de água. E quando se mergulha não se ouve nada.

 

PS - Mas é claro que este post é uma brincadeira ao lado desta desmontagem literal de mais uma peça de marketing do Governo que os jornais e as televisões engoliram sem o prévio trabalho de casa. Ao contrário do que pretende Miguel Sousa Tavares, felizmente há blogues... Caso contrário, jamais saberíamos algumas verdades e as debateríamos livremente, como a caixa de comentários do post confirma.

06
Ago08

Coisas estranhas que se fazem em férias

 

Comprar jornais/revistas que nunca se compram no resto do ano.

 

Foi o que fiz hoje, e dei comigo pela noite, no telheiro, a ler a nova versão/revista do “Courrier Internacional”. Confesso que sempre me agradaram os “digest’s” de informação (fui assinante da excelente “Cover”, nos idos de 90 do século passado…), mas nos tempos que correm tenho as maiores dúvidas sobre a viabilidade destas publicações. Pergunto-me a quem podem servir. Em qualquer dos casos, esta “Courrier”, dirigida por Fernando Madrinha, constitui um excelente mix de bons artigos publicados um pouco por todo o mundo.

A páginas tantas, leio um texto (publicado em Junho, no El Pais) sobre “O novo rosto” de Portugal. As obras públicas são a base do elogioso artigo, que relaciona a modernização nacional com a capacidade de vomitar cimento (das máquinas das empresas que depois financiam as campanhas eleitorais de todos os partidos…), e duplicar a paisagem construída. Daí nascem ruas, estradas, prédios e auto-estradas – logo, o país está moderno.

… Mas isso agora interessa pouco.

O que me interessa é que leio, cito, que “os avultados fundos comunitários permitiram a construção de dois mil quilómetros de auto-estradas, que atravessam o país de norte a sul”.

Eu estou na costa alentejana e apetece-me perguntar: e porque raio, no meio desses 2000 quilómetros, se esqueceram de Beja? Beja, senhores?

Beja é distrito e tem capital em Beja. Tem 18 freguesias e mais de um milhão de quilómetros quadrados. É verdade que a cidade tem menos de 40 mil habitantes, e ganha a todo o país na estatística sobre suicídio – mas ainda assim, ou talvez por causa disso, alguém me explica porque motivo se vai a Beja atravessando dezenas de aldeias com semáforos a controlar a velocidade para desculpar o óbvio, que é a falta de uma via rápida? Ou mais directamente: alguém me explica como é possível que não haja estrada decente para uma das 18 capitais de distrito de Portugal?

Leio num documento qualquer na Net que “A Assembleia Municipal de Serpa decide congratular-se com o anúncio do Governo – depois de muitos anos de promessas incumpridas – do arranque das obras do IP8, em Outubro de 2008, no troço Beja/Sines, e da sua conclusão prevista para finais de 2011”. Mas isso não responde em profundidade à minha pergunta: sendo certo que um Governo governa para todos os portugueses, e por isso todos o elegem, porque raio todos os governos dos últimos 30 anos se esqueceram de Beja?

Diz um pragmático junto de mim: “Porque nada se passa lá”. E eu ainda assim pergunto: não são pessoas a governar para pessoas iguais às pessoas que vivem em Beja?

Mas isto já é muita areia para camionetas puramente liberais. Ou socialistas. Ou sociais-democratas. Ou sei lá.

Vou voltar para o mar. Está-se tão bem dentro de água. E quando se mergulha não se ouve nada.

Blog da semana

O Diplomata. Dez anos de blog é obra. Alexandre Guerra festeja, e com razão, um espaço de reflexão, análise e opinião do mundo político internacional. Merece o bolo.

Uma boa frase

“Se isto fosse no tempo do Sócrates, a esta hora o Trump já tinha em cima da mesa uma proposta da Mota-Engil para a construção do muro. Com financiamento do BES e projecto do Siza Vieira." Rui Rocha, Delito de Opinião

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