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Pedro Rolo Duarte

13
Jan09

Agora querem nacionalizar o Ronaldo...

Acho extraordinário que se discuta horas a fio Portugal, os portugueses, e “a marca”, sob o chapéu colorido de uma vitória individual. Na “palheta”, somos realmente notáveis...

... Mas a conversa da marca e do orgulho nacional não retiram um pingo à meridiana realidade das coisas: Cristiano Ronaldo é o melhor jogador de futebol do mundo por mérito dele, exclusivamente dele, só dele. Portugal contribuiu com o argumento menos relevante: um bilhete de identidade.

Da mesma forma que Maradona é argentino mas não é Argentina e Beckham é inglês mas não é Inglaterra, também Ronaldo é português mas não é Portugal.

Ronaldo não é o melhor do mundo porque Portugal fabrica génios, porque investe na prática do futebol, porque “lhe deu oportunidade”. Nada disso. Cristiano Ronaldo é o resultado excepcional de um trajecto absolutamente normal: putos que jogam à bola, olheiros que os topam, clubes que os formam, exploram e vendem. Deu-se o caso de ele ser notável. Mas sublinhe-se a construção frásica: é ele que é notável, não a sua condição de português ou de produto nascido de uma certa forma de ser português.

Estamos perante uma vitória individual. Mérito, paixão, dedicação e génio. Neste caso até me apetece citar José Sócrates: Ronaldo joga à bola enquanto o resto do país descreve o jogo da bola.

Mais nada.

Aproveitar esta vitória individual para, como agora é moda dizer-se, “cavalgar” a onda da glória nacional, é pura demagogia. Para não dizer hipocrisia. Percebo que faça falta ao espírito e ânimo da nação – mas é mais uma daquelas patranhas só comparável à publicidade da “west coast”. Adoramos propaganda e fogo de artificio, é um facto.

Deixem o prémio ao puto, que o mérito é todo dele. Mais um bocado e nacionalizam-no, não?

 

12
Jan09

Algumas coisas que aprendi na cama (com a generalizada gripe):

Fala-se muito alto na televisão

Grita-se por tudo e por nada, no drama de uma novela ou no depoimento de rua, no desesperado pedido para um palpite concurseiro a meio da noite, ou na tentativa de explicar uma fotografia de uma revista numa tertúlia de analfabetos. Até no Eixo do Mal se grita, meu deus.

 

Dramatiza-se muito na televisão

Não me lembro de ter visto tanta gente a chorar num só dia: Fátima Lopes chorou com um ex-colaborador que teve um acidente: o ex-colaborador chorou; a mulher dele chorou; boa parte do público chorou; no noticiário que se seguiu vi gente a chorar em Gaza; à tarde, vi um homem chorar no programa da Júlia que não tinha a Júlia; à noite, nas novelas que fui “picando”, choram muitos e desalmadamente; E ainda vi gente chorar num documentário do canal 2 que não consegui identificar. Quando desliguei o aparelho, estava fartinho de gente a chorar.

 

Há muitos canais que não interessam ao careca, ao menino Jesus, a ninguém, nem mesmo a quem está doente

Não é o caso do Benfica TV, especialmente quando fala de ténis de mesa, que é uma especialidade.

 

O Ilvico não é mau

Mas o Cê-gripe dá-se melhor comigo. E o novo Bisolvon é bastante eficaz, ainda que uma noite de sono profundo careça sempre de um Codipront.

 

A canja de galinha é melhor com arroz

É uma velha discussão que opõe os militantes da massa aos do arroz. Esta época passaram-me as duas pela goela – e confirmei a minha aposta na canja com arroz. Quanto à galinha, sendo embora mais rija e difícil de cozer, fica sempre mais saborosa do que o frango-aviado-no-aviário. Hortelã, sempre.

 

O plástico das garrafas de água de 1,5 litros é cada vez mais manhoso

Quem está deitado e lhe deita à mão arrisca-se a deformar-lhe o feitio para todo o sempre. Não era assim...

 

O Público tem textos que começamos a ler e não acabamos e o Correio da Manhã tem tudo

Ler com olhos de ler é mesmo quando se está deitado numa cama. O “Público” tem bons textos longos que se lêem às partes, em capítulos, ao longo das crises de febre ou falta dela. Já o “CM” é jornal cheio de notícias, emoções, coisas miúdas, parece uma canja já previamente organizada para manter a chama acesa.


O chá de limão – feito com a casca, cortada sem a parte branca, e mergulhada na água a ferver... – é das mais brilhantes invenções da raça humana

Só comparável à torrada com pouca manteiga. Ao galão. E à carcaça da Mexicana às oito da manhã.

 

Já passou

É a frase que os outros querem ouvir quando estamos assim. Já passou.

08
Jan09

Afinal, houve algum dia, nas nossas vidas, sem crise?


“A situação do País, todos o sabemos, é uma situação difícil. E é especialmente difícil, nunca o esqueçamos, para aqueles que têm mais frágeis rendimentos ou que sofrem o flagelo do desemprego. Os dados oficiais ontem divulgados são claros: em 2004 a economia portuguesa saiu e voltou a entrar em recessão. Os indicadores de confiança permanecem desfavoráveis; o pessimismo marcou de forma decisiva os últimos anos da vida dos portugueses”

José Sócrates, Tomada de Posse do Governo, Março de 2005

 

“Os portugueses sabem bem das razões que levaram o País à situação em que hoje se encontra: sabem do fracasso da governação nos últimos três anos; sabem que tivemos duas graves recessões económicas; sabem que essas recessões provocaram um significativo aumento do desemprego - que ainda hoje se faz sentir - e sabem que, afinal, o problema do défice orçamental se agravou, em vez de ser resolvido”

José Sócrates, Debate Estado da Nação, Maio de 2005

 

“Esta é a terceira vez na História da democracia portuguesa que um Governo do PS é chamado a resolver um problema orçamental grave e uma situação económica difícil. No passado, soubemos fazê-lo com resultados positivos. Fá-lo-emos agora de novo”.

José Sócrates, Apresentação do Orçamento de Estado 2006

 

“Estamos a terminar um ano particularmente difícil da vida nacional. Como sabem, por esse mundo fora - na Europa, na América, no Japão - os tempos têm sido de dificuldades. Essas dificuldades sentem-se também no nosso país. As famílias portuguesas conhecem bem o que significou o abrandamento económico mundial, o problema do emprego e da diminuição do consumo. Estamos, de facto a acabar um dos anos mais difíceis da nossa história recente”

Durão Barroso, Mensagem de Natal 2003

 

“Num tempo de sérias dificuldades, como é aquele em que vivemos, são enormes as responsabilidades que impendem sobre os titulares de cargos políticos. No respeito pelas diferenças e pelo debate de ideias, os Portugueses esperam e exigem dos políticos, que democraticamente escolheram, que deixem de lado divisões estéreis, minudências e querelas que pouco ou nada têm a ver com a resolução dos problemas nacionais. Que não percam tempo e energias em recriminações sobre o passado e pensem no futuro do País, porque é esse que agora interessa”
Cavaco Silva, tomada de pose,
Março 2006

 

“O ano que hoje começa é crucial para o futuro do nosso País. (...) O quadro internacional apresenta-se particularmente difícil. Basta pensar no elevado preço do petróleo, na subida das taxas de juro e nas ameaças à paz e estabilidade em várias partes do mundo. Não podemos esperar que alguém nos poupe ao esforço exigido para resolver os nossos problemas”.

Cavaco Silva, Discurso de Ano Novo 2007

07
Jan09

Novo jornalismo ou apenas gripe?

Este blog encontra-se em estado gripal, razão pela qual não há posts nem o postal de Natal sai dali. Espero melhorar até ao fim de semana.
 

... Mas entretanto, no meio da febre, acontecem coisas. Toca o telefone. Eu atendo. A voz que fala do outro lado não pergunta se está mesmo a falar comigo nem se identifica. Diz apenas:

- Olhe, eu tou a falar da Time Out e nós tamos aqui a fazer um trabalho sobre o falhanço do programa Zé Carlos e queríamos que nos falasse disso...

- Falhanço de quem?
- Do falhanço do Zé Carlos...
- Mas eu não acho que tenha sido um falhanço...

- Ai não? É que nós estamos a fazer um trabalho sobre o falhanço do programa Zé Carlos, mas se acha que não foi um falhanço talvez também tenha interesse... Podemos citá-lo?

- Podem, desde que ressalvem que eu não vi os programas todos, vi só alguns...

- E dos que viu?

- Dos que vi, gostei bastante e não acho que seja um falhanço.

- Bom, mas viu poucos, não é? Por isso também não é assim uma opinião muito...

- Pois, talvez...
- Obrigado, então.
E desligou.
Teria sido uma piada? Estou a delirar com a febre?
 
Vou voltar para a cama. Quando estiver melhor eu volto.

 

03
Jan09

2009

Leituras atrasadas e acumuladas fizeram-me aterrar numa reportagem do El Pais (ainda de 2008) que dá conta dos estudos científicos que se dedicam à felicidade. Genética, filosofia, psicologia, sociologia, antropologia – todas as disciplinas contribuem para validar estes estudos. Fixo estas ideias fortes:

- O altruísmo contribui mais para a felicidade do que a busca individual de prazer pelo consumo.

- O efeito do dinheiro (isto é, de ter dinheiro...) sobre a felicidade é transitório.

- Dormir contribui mais para um sentimento de felicidade do que comprar um carro.

- Não são mais felizes as crianças de hoje, submersas em consolas, telemóveis e internet, do que os seus avós, que brincavam na rua com bolas de pano e carrinhos de latão.

- O estado de felicidade de um vencedor de lotaria é passageiro. Pouco tempo volvido sobre o “choque”, volta ao estado em que vivia antes de ganhar o prémio.

... Assim sendo, sejam todos muito bem chegados ao ano 2009. Por pior que vá ser, não será por aí que estaremos mais felizes do que estávamos. Ou mais tristes.

Mais pobres, isso seguramente. A tempo de recuperar a mais triste das expressões populares portuguesas: “pobretes, mas alegretes”.

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Blog da semana

Gisela João O doce blog da fadista Gisela João. Além do grafismo simples e claro, bem mais do que apenas uma página promocional sobre a artista. Um pouco mais de futuro neste universo.

Uma boa frase

Opinião Público"Aquilo de que a democracia mais precisa são coisas que cada vez mais escasseiam: tempo, espaço, solidão produtiva, estudo, saber, silêncio, esforço, noção da privacidade e coragem." Pacheco Pereira

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