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Pedro Rolo Duarte

07
Abr09

Perder o pé

 
 Há 10 anos, quando comemorou meio-século, a revista francesa Paris Match editou dois volumosos livros, de generosas dimensões, que me apressei a comprar e guardo ainda hoje. Constituem basicamente uma gigantesca edição da revista com as suas melhores histórias, furos, instantâneos, reportagens. É meio-século de vida ilustrada...

A Paris Match foi, durante décadas, a Life europeia (em Portugal tivemos a Flama, onde o meu pai trabalhou como jornalista e mais tarde como colunista de humor...). “O Match”, como costumava ouvir dizer em miúdo, nunca teve o glamour, a qualidade e o rasgo da revista norte-americana – mas, misturando alguma frivolidade na receita de publicação de actualidades fotográficas, sobreviveu razoavelmente às diversas crises que esse meio-século viveu.

A Life não resistiu ao tempo, aos tempos.

Aqui há dias reparei na banca nesta capa da Paris Match. Passaram mais dez anos e agora já são 60... Comprei a edição, coisa que não fazia há tempos. Notei que a revista resistiu.

E o que encontrei? Encontrei uma publicação literalmente à deriva, entre a glória passada e a ausência de uma perspectiva consistente de futuro. As matérias – normais ou especiais do aniversário – parecem coladas com cuspo, e o grafismo baixou para patamares quase amadores. Da revista de corpo e alma, restam meia-duzia de fotografias produzidas e um logótipo que felizmente nunca foi muito mexido. Desolado, ia deitar fora “aquilo” quando vi o anuncio, nas páginas interiores, da sua nova edição on-line...

Esperançado, fui bisbilhotar. Encontrei uma espécie de revista de papel no ecrã (pior só mesmo a mania actual dos jornais de reproduzir em papel os mecanismo que só na net existem – simbolozinhos tipo “play” ou “link”, nos quais não adianta “clicar”, porque nada acontece no papel...). Uma pobreza sem princípio nem fim. Um marasmo completo e uma má notícia anunciada.

Percebi o que um dia me disse um administrador de uma empresa no momento de a abandonar: nem sempre desaparecemos porque deixamos de fazer sentido – muitas vezes deixa de fazer sentido aparecermos...

 

03
Abr09

Vítor Direito

 
Já aqui contei que o Correio da Manhã foi o primeiro jornal onde publiquei. Na altura, não conheci o director (e fundador) Vítor Direito, por razões que se podem ler no post em causa.

Acabei por conhecê-lo, muitos anos depois, em circunstâncias especiais. Estava a fazer o DNA, no Diário de Notícias, e em Abril de 2004, para assinalar o trigésimo aniversário da revolução, tive uma ideia que me pareceu eficaz e criativa: conceber uma edição do suplemento submetida ao crivo da censura. Criar graficamente um processo de cortar os textos (ou bocados de texto) que a censura, se ainda existisse, eliminaria. E assinalar assim o que me parece ser, ainda hoje, a maior conquista do movimento militar: a liberdade. De informar, de opinar, de viver.

Para fazer esse trabalho, convidei um dos profissionais que mais sofreu com os cortes do lápis azul, e cujo perfil me garantia uma atitude pelo menos bem-humorada face ao desafio: António Ruella Ramos, que foi director do Diário de Lisboa. Simpático e cortês, Ruella Ramos aceitou o desafio, mas disse-me que achava um trabalho pesado para um homem só, e tinha dúvidas sobre as suas qualidades em matéria de “corte” – mas, como achou piada à ideia, sugeriu dividir o trabalho com um amigo que também tinha vivido activamente esses tempos em que escrever era fácil, mas publicar bem difícil. O amigo era Vítor Direito.

Juntos, eles leram as 48 páginas do suplemento e com mestria e rigor “cortaram-no” literalmente às postas. O designer Paulo Barata conseguiu um traço azul suficientemente visível, para se perceber a ideia, mas que ao mesmo tempo permitia ler o que estava cortado - e daí ser possível aferir os critérios da censura, tão ideológicos quanto, em determinadas áreas, ridículos na tentativa de “contornar” a vida comum de todos os dias.

Na capa desse DNA (dedicada a Salvador Dali...) surgiu o velho carimbo “Visado pela Comissão de Censura”. E surtiu efeito a ideia.

O que mais me surpreendeu, confesso, foi a forma absolutamente séria, profissional e empenhada como Vítor Direito e Ruella Ramos levaram até ao fim a missão - que, para mim, apesar de tudo, era uma brincadeira para marcar uma data.

No fim, ao agradecimento reconhecido que lhes fiz, encolheram os ombros como se não fosse nada com eles. Ou melhor: como se estivessem numa redacção de jornal a cumprir a missão que lhes tinha calhado em sorte.

Ontem, ao saber da morte de Vítor Direito, recuperei o mesmo pensamento que tive nesses dias de 2004: gostava de ter tido a oportunidade e o tempo para o ter conhecido melhor. Aprender com quem viveu é aprender duas vezes.

 

(A fotografia foi a que saiu nesse DNA, assinada por Alberto Pico)

02
Abr09

Noticias contra a crise

 

O número 37 da Rambla Catalunha alberga desde há dias a primeira Livraria Bertrand em Barcelona. 1500 metros quadrados, 100 mil títulos, um espaço para eventos, jardim, zona exclusiva do Circulo de Leitores – a nova Bertrand junta-se assim às sete que o grupo Bertelsmann já abriu aqui ao lado: Madrid, Múrcia, Saragoça, Oviedo…

Bem sei que a marca Bertrand já não é portuguesa – mas é ainda Portugal que lhe está colado ao nome, e não deixa de ser um orgulho entrar no site espanhol da empresa e ler que “En 1732 el librero francés Pedro Faure abrió una librería en la Rua Direita de Loreto en el centro de Lisboa. Para asegurar la continuidad del negocio, Pedro casó a su hija con Pierre Bertrand, otro librero francés, quién junto a su hermano Jean Joseph inició el proyecto de Livrarias Bertrand”…

O que começou entre Lisboa e Paris, vive hoje entre Portugal e a Alemanha. Com um pé bem assente em Espanha. Gosto desta mistura – gosto especialmente que o nome e a marca Bertrand não apenas não se percam como, pelo contrário, ganhem asas. Em tempo de crise, resistir é investir.

 
(“Roubei” a foto no blog El Ojo Fisgón)

 

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Blog da semana

Por Falar Noutra Coisa. Humor neste reacordar do blog. Rir é o melhor remédio. Lugar comum indiscutível.

Uma boa frase

“Sucessivos governos ficaram irritados, o actual vai um pouco mais longe, esquecendo que votar é um direito mas nunca uma obrigação. Em países desenvolvidos os cidadãos até votam durante a semana, ao passo que na choldra querem proibir jogos de futebol para obrigar o povo a ir votar." António de Almeida, Aventar

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