Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Pedro Rolo Duarte

26
Mai11

Escravos do tempo

 

(Crónica originalmente publicada na revista Lux Woman. Fotografia do autor sob o titulo "Roupa a secar ao ar livre"...)

 

“Somos, por pouco que o queiramos, servos da hora e das suas cores e formas, súbditos do céu e da terra. Aquele de nós que mais se embrenhe em si mesmo, desprezando o que o cerca, esse mesmo se não embrenha pelos mesmos caminhos quando chove do que quando o céu está bom” – se há obra de Fernando Pessoa que me acompanha para todo o lado, é o Livro do Desassossego de Bernardo Soares. Há anos suficientes para reconhecer nesta citação um bocadinho do que somos, como quase tudo em Pessoa. Desta ideia me lembro sempre que o tempo muda, ou sempre que me vejo a falar do tempo como superior hierárquico dos dias. No taxi onde o motorista saúda o dia de Sol que supreendeu em Fevereiro, na esplanada que a empregada desaconselha porque vem aí aguaceiro, no elevador onde me cruzo com um conhecido que apenas diz “não nos bastava a crise, ainda estes dias cinzentos...”.

Não fui sempre assim, ligado ao tempo. Quando me estreei na rádio, em 1984, pela mão do saudoso Henrique Mendes, lembro-me de uma recomendação que me fez reiteradamente e cuja lógica me escapava: “Pedro, nunca se esqueça de dizer, pelo menos duas vezes por hora, a previsão da meteorologia para o dia seguinte e a temperatura no momento”. Confesso que, aos 20 anos, achava ridícula a sugestão. Tinha coisas muito mais interessantes para dizer, como as datas dos espectáculos dos grupos cujas canções passava ou mensagens subliminares para a namorada do momento. O estado do tempo era irrelevante para determinar os meus dias, e não percebia essa obsessão dos mais velhos com o tempo. Ouvia o meu pai referir-se a “eles”: “eles dão chuva”, “eles disseram que a temperatura se mantinha”, e não percebia o tempo perdido com esse outro tempo.

Com o passar dos anos, dei por mim a ganhar proximidade com este tipo de informação, interesse pelas temperaturas, um olhar mais ou menos tímido à previsão para o fim-de-semana. No Verão fazia sentido ver as tabela das marés, para perceber o mar, e já agora espreitava a meteorologia. Quanto mais anos passavam, maior se tornou o meu interesse pelo estado do tempo. Hoje, tenho três aplicações no telefone para saber as previsões, não falando dos atalhos no computador

Não me foi difícil perceber o que mudou em mim para evoluir da dispensabilidade da meteorologia para a certeza absoluta sobre a sua relevância. Bastou-me este Inverno, e o seu final. Bastou-me a crise profunda em que mergulhámos, o dinheiro que nos faltou e nos falta, o desemprego que nos assola, a politica que nos desencanta. Bastou-me ver o momento do país somado ao Inverno – e de como tudo mudou quando os primeiros bocados de Sol e Primavera chegaram.

Portugal está na mesma, ou está pior. Mas o tempo foi mudando e, como Pessoa bem dizia e o meu primeiro chefe me recomendava, não andamos “pelos mesmos caminhos quando chove do que quando o céu está bom”. Nada mudou na essência da nossa condição actual – mas haver Sol e azul no céu, ser possível passear na rua e sentar num banco de jardim, poder voltar a olhar o mar sem ser abrigado no carro ou no restaurante, enfim... Fazer do tempo o aliado que nos permite, com maior força e empenhamento, resistir a esta outra tempestade que se abateu sobre nós, é o antidepressivo mais barato e eficaz que temos ao dispor. E ansiolítico também. E até comprimido para as dores de cabeça. Olhemos os primeiros dias de sol como Pessoa olhou – e como me ensinaram os mestres da comunicação – e saibamos dar-lhe o valor que têm. Porque é, mais coisa menos coisa, o valor da vida no que de melhor pode ter.

3 comentários

Comentar post

Blog da semana

Ladrões de Bicicletas. Voltar a um dos mais clássicos blogues colectivos de análise e pensamento social e político e reencontrar excelentes textos, opiniões pensadas antes de escritas, e o prazer de um bom serão ao sofá a ler. Like.

Uma boa frase

“O centrão político - conservadores, liberais, social-democratas, trabalhistas - anda há mais de vinte anos a liberalizar os movimentos de capitais, a desregulamentar as actividades financeiras, a promover o "comércio livre", menorizando as consequências resdistributivas destas opções. Andaram a promover a ideia de que o mundo é mais bem gerido pela "mão invisível" dos mercados do que pelos poderes democraticamente eleitos. De que é que precisam mais para perceber que este é o resultado da sua globalização: que Marine Le Pen vença as presidenciais francesas?" Ricardo Paes Mamede, Ladrões de Bicicletas

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mais comentários e ideias

pedro.roloduarte@sapo.pt

Seguir

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2014
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2013
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2012
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2011
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2010
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2009
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2008
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2007
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D