






O melhor das palavras é o tempo que duram. Mais tempo. Menos tempo. Tempo nenhum. Uma estação, uma época, uma geração. E o melhor do tempo que as palavras duram é o significado que têm – e também ele muda com o tempo. Quem trabalha com palavras e vive de as conjugar sob muitos tectos, em plataformas diversas, sabe bem como as palavras vão e vêm, como se encostam aos momentos, como desaparecem sem deixar rasto – como se tivessem vida própria. Emendo e ressalvo: as palavras têm vida própria. Têm a existência que lhes damos nos dias que elas ganham.
Ainda alguém se lembra de conduzir na “broa”? Já ninguém conduz na “broa”, agora guia-se muito depressa, ou “bué rápido”. Nem sequer se conduz na “ganga”. Já não há pessoas “baris” e as casas não tem carpetes. Nunca mais soube da existência de escalfetas, nem de carcaças, nem tão-pouco de números que se “discam” num telefone. Os táxis substituíram os “carros de praça” há muitos anos.
Muda tudo – e as palavras, ora vão à frente, tomando uma dianteira tantas vezes desnecessária e apressada, ora seguem a mudança com o ligeiro atraso que lhes dá estilo e charme. Ainda dizemos televisão e televisor – por mais que as palavras ecrã e plasma queiram tomar-lhes o lugar. Ainda dizemos filmar quando na verdade estamos a gravar. Ainda vemos um filme, mais do que um DVD.
A gestão corrente das palavras é um dos mais fascinantes mistérios da língua, porque é como a água - que corre sempre na direcção da foz, e vence barreiras, contorna impossibilidades, numa autonomia incontrolável e feliz -, mas não se vê o seu labor. Nunca se viu uma palavra esgueirar-se pela janela e voar para o infinito, ou agarrar-se às saias da mãe para não desaparecer ao anoitecer.
Não sei se lutou muito ou pouco pela sua sobrevivência, não sei se saiu discretamente de cena ou foi empurrada por palavras mais novas e mais apetecíveis, mas ainda hoje recordo com saudade a palavra “tara”. Não foi assim há tantos anos que estava na moda, era sofisticada, e dita com sonoridade fatal: “essas calças são uma tara!”; “aquela rapariga é uma tara!”; “que tara de vestido!”. Tara de tarar, tara de deixar tarado qualquer um.
E deixar qualquer um tarado era bom, muito bom – tão bom quanto hoje pode ser mau. Ou pelo menos esquisito. A palavra não se agarrou às saias de quem a usava - e foi pelo cano, sabe-se lá onde anda hoje.
Quando dei pela minha existência no mundo, ouvia as raparigas falar da “Tara” – uma boutique que abriu em Cascais e depois em Lisboa, nos anos 60 do século passado. A “Tara” estava na prateleira de sucesso dos “Porfirios”, da “Maçã” e de outras boutiques que trouxeram inovação ao comércio do trapo nos tempos finais da ditadura – e o nome da loja remetia para essa ideia: “é uma tara!”.
Passaram mais de 30 anos. A palavra teve o seu tempo e perdeu-o. Se eu disser que vou a uma loja que se chama “Tara”, posso ser denunciado, olhado de lado, ou discretamente interrogado: “algum fetiche por lá?». Já não há taras como antigamente. Já não há tarados sem mal algum. Ou melhor: há. Só as palavras mudaram. E é o melhor delas, essa capacidade de mudarem ou entrarem na reforma sem nos darem cavaco. Por falar nisso: cavaco, esse cavaco que se dá ou não dá, também é palavra que já foi. É assim.
Depois dessa experiência intensa e rica, fui sabendo aqui e ali das suas intervenções públicas, mas não mais do que isso. A vida não tem sido amiga de Paula Teixeira da Cruz – mas às adversidades ela tem respondido com empenho e resistência. Esta mulher nunca desistiu, mesmo quando era evidente que desistir era mais cómodo e até compreensível.
Fiquei a saber agora que apoia Pedro Passos Coelho na corrida à liderança do PSD. Não sendo militante do Partido, nem sequer eleitor habitual, a escolha da Paula acaba por determinar (ou talvez, para ser rigoroso, reforçar...) a minha simpatia nesta eleição. E ao que já vinha de trás se junta este momento da entrevista ao “i”, que mostra uma vez mais de que (boa) massa é feita esta mulher:
A pergunta de Ana Sá Lopes: Na sua opinião, Pedro Passos Coelho é o homem certo para esta altura?
A resposta de Paula Teixeira da Cruz: “Não acredito em homens providenciais. Agora, penso que Pedro Passos Coelho fez três coisas que me levaram a apoiá-lo neste momento. Preparou-se - que é uma coisa a que estamos pouco habituados. Em Portugal, as pessoas têm horror a preparar-se e de improviso em improviso estamos a chegar aqui. Passos Coelho foi-se preparando com naturalidade e começou a construir a casa pelos alicerces: proposta de revisão do programa do partido, que não é alterado desde 1982, e proposta de governo para Portugal, ou um conjunto de propostas. Foi inequívoco numa atitude de querer a abrangência dentro do partido. Eu não o apoiei nas eleições anteriores! Não vejo mais ninguém a fazer este trabalho e a fazê-lo de uma forma coerente. Isto é, preparando-se, ouvindo, ouvindo, ouvindo, que é algo a que os nossos decisores também têm horror. Depois, abrindo um espaço de debate sobre o programa do partido, apresentando um projecto que porá à consulta de todos os militantes e recolherá contributos de todos, recentrando a matriz ideológica e apresentando uma alternativa a este governo. Não vejo mais nenhum dos candidatos de que se fala a fazer este esforço. Eu estarei onde estiverem as ideias que se aproximam mais daquilo que é o interesse público e o interesse nacional".
... A ouvir pérolas como esta:
Lendo a matéria de capa da revista de domingo do jornal espanhol El Mundo, e sabendo que, pelo menos, em política, “ter razão antes de tempo é o mesmo que não ter razão”, resta-me aceitar, conformado, que nasci cinco anos antes do ano ideal para ter nascido.
Por um lado, foi antes. Por outro lado, já sabia contar até dez quando os de 69 começaram a nascer. Pergunto-me se a politica imita a vida, porque nesse caso nascer antes de tempo é o mesmo que não nascer.
Ainda assim, e como diz o poeta, para todos os efeitos “Sinto-me nascido a cada momento / Para a eterna novidade do mundo...”
Este post foi escrito por Bruno Sena Martins no Arrastão:
"Sei-me incapaz de votar num Manuel Alegre próximo (ainda que remotamente) daquele que se apresentou a votos nas últimas eleições presidenciais. É verdade que Alegre foi obrigado a encontrar o seu espaço entre as candidaturas de Cavaco Silva, Mário Soares, Francisco Louçã e de Jerónimo de Sousa. Com o território à esquerda tão densamente povoado, é lícito supor uma adaptação às circunstâncias no modo como a campanha viria a transformar Alegre numa insólita miscelânea de populismo anti-partidos, nacionalismo saudosista e memória anti-fascista (versão narcisista).
Se acaso votar em Manuel Alegre nas próximas eleições será porque a vontade de me despedir de Cavaco Silva encontrou respaldo na capacidade de esquecer o Manuel Alegre de 2006. Não depende de mim"
Se eu tivesse escrito sobre o tema, era mais ou menos isto que tinha escrito. Assim poupo-me um bocadinho, que ando muito cansado...