






Um de vários mails recebidos nas ultimas semanas oriundos de pessoas que não conheço e que obviamente me não conhecem (só a referência às caixas de comentários diz tudo sobre a construção do mail “to all”...). O objectivo é que eu responda por escrito, permitindo um copy-paste sem qualquer trabalho de reflexão, organização de ideias, investigação, escrita. Fica o mail integral, exemplar, de uma colecção que nos ultimos anos atinge as duas ou três dezenas, e depois podemos falar de ensino “superior”:
“Olá !
Peço desculpa por estar a incomodar, mas a situação é a seguinte: costumo acompanhar os vossos blogs, estudo na Faculdade de Ciências sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, e como este é o meu último ano estou a frequentar a cadeira de Seminário de Inglês, na qual tenho que desenvolver um trabalho de pesquisa com vista à criação de um ensaio. Como os temas se enquadram todos no Pós-Moderno, optei pela Cibercultura. Mais especificamente, a importância das novas tecnologias no papel desempenhado pelo leitor, na medida de haver uma substituição da passividade pela interactividade, o jornalismo de opinião, os blogs, como é que os comentários influenciam ou não o seu conteúdo, e coisas desse género...
Pelo que, era uma óptima ajuda se pudesse 'entrevistá-lo' para saber como funciona com o seu.
E as questões são as seguintes:
1 - Qual o papel que desempenham os comentadores no seu blog?
2 - Em que medida é que os comentários influenciam o conteúdo do blog?
3 - Qual o critério que leva a que um comentário seja excluído?
4 - No seu blog os comentários estão abertos a todos. Porque optou por essa acessibilidade? Pensa que os comentários são então parte fulcral do blog, sem discriminação?
5 - Se não for indiscrição, a sua carreira está de algum modo relacionada com a escrita/jornalismo ou trata-se apenas de um hobbie? (na maioria dos casos sei à partida a resposta, apenas preciso confirmar)
6 - Leva em conta e valoriza a participação/opinião dos users?
7 - Alguns autores no campo dos media afirmam que 'cada cidadão pode ser um repórter' ou questionam 'can bloggers be journalists?' , Qual a sua opinião?
Agradeço à partida a atenção dispensada e agradecia realmente muito que respondesse.
Cumps”
Assina uma das muitas Sandras, Vanessas, Joanas e Timóteos que por essas Universidades fora chegam assim ao final dos seus cursos. Em breve andarão por aí.
(Crónica publicada na edição de hoje da revista do i, Nós, Infiéis)
Em Novembro passado, o i publicava a noticia: “O site gleeden.com apresenta-se como um “jardim de felicidade” e já são 1500 os portugueses inscritos neste portal dedicado às pessoas casadas que querem ser infiéis, mas de uma forma discreta”. Prometia-se então que, depois de passar a versão beta, “os interessados poderão encontrar parceiros disponíveis para uma aventura extraconjugal. Dos 1500 portugueses já inscritos, 65% são homens e 35% são mulheres. O facto de o site não ser gratuito não parece ser impeditivo para os interessados numa relação fora do casamento”.
A última barreira abateu-se: até para a infidelidade a Internet encontrou facilidade de acesso, rapidez de execução, eficácia na concretização. Podem os conservadores vir falar dos tempos modernos e do fim da ética e da moral, podem as igrejas continuar a pregar no deserto, podem os teóricos construir teses sofisticadas sobre o mundo moderno. Nada ultrapassa a simplicidade dos factos: há um problema? Há uma fronteira para ultrapassar? Há uma dificuldade para vencer? Falta-lhe qualquer coisinha? Alguém, a esta hora, num qualquer canto do globo, está a tratar do assunto. Não tarda e aí estará o site que vai tornar banal o que antes era incomum.
A Internet é o maior facilitador da vida – no que isso tem de deslumbrante e útil, mas também de perigoso e falso. É um pouco como crescer a comer hambúrgueres – não há duvida de que é prático, mas no dia em que um bife nos aparece à frente, não sabemos o que fazer com aquele bocado de carne e é muito provável que tenhamos problemas de resistência nos dentes. Para tudo, na vida, tem havido equilíbrio – excepto para a Internet, avassaladora na sua criatividade, imaginação, no seu caos e felicidade, na sua reinvenção diária.
Foi nisso que pensei quando li aquela notícia – bolas, já nem para ser infiel é preciso trabalho, estratagema, um guião bem afinado, um novelo bem enrolado. Nada disso. Um click, uma password, e navegamos na infidelidade controlada. Por pouco, combinada com o cônjuge, já agora podem enganar-se em dias certos, sempre se poupa qualquer coisa...
Não consigo conceber facilmente a ideia de infidelidade – e nisso parece que sou antigo. Mas consigo menos ainda conceber a traição com “profile” incluído e cartão visa em site devidamente protegido. No meio de tanta felicidade ao alcance de um click e de uma password, onde fica o velho e bom lugar do talento, do saber, da aprendizagem?
Ser infiel dá tanto trabalho como ser fiel - porque ambas as condições exigem dedicação, vontade e às vezes algum esforço. Pedem sabedoria, na verdade e na mentira, na escolha daquilo que queremos para a nossa vida, e na metódica dedicação à causa. Há anos que alimento a ideia simples de que a infidelidade não compensa – bom é estar com quem se gosta enquanto se gosta, e não ter medo de mudar de vida quando se deixa de gostar. É mais fácil de dizer do que de fazer – mas quando se faz e se persiste, tem compensações evidentes. Dorme-se mais tranquilamente. É-se mais feliz. E mesmo na infelicidade consegue-se paz, que é um dos bens mais preciosos da vida. Não me tenho dado mal com o princípio.
Talvez por isso me tenha chamado a atenção a notícia do site que promove a infidelidade de forma prática, discreta e eficaz. Tenho vontade de me inscrever e passar a mensagem aos sócios: em vez de trair a sua mulher (ou o seu marido), já pensou em tentar ser feliz? Sabe que pode divorciar-se e ter o mundo todo pela frente? Não é tão fácil, talvez, mas é muito melhor. E nem precisa de password.
Num país que compra e lê poucos jornais, um “jornal de letras, artes e ideias” resistir 30 anos é em si absolutamente extraordinário. Ter a capacidade de continuar a renovar-se, é ainda mais extraordinário. E ganhar uma nova vida, é a cereja em cima do bolo.
O JL que ontem chegou às bancas ganhou uma nova vida – um design rejuvenescido, elegante, atraente na sua clássica discrição, actual sem se armar em moderninho. Desde a fórmula gráfica original – com aquele modelo de capa notável que João Segurado criou, com as chamadas em passadeira seguida e o desenho de Abel Manta a encher a página... – que não via o JL com tão bom aspecto. A fonte “glosa”, criada por Dino de Santos, é um encontro feliz entre tradição e contemporaneidade, e cai que nem uma luva no inspirado projecto gráfico de Vasco Ferreira. É um jornal que respira e dá vontade.
É claro que continua a ser o jornal de uma “certa” cultura, muito oficiosa e previsível, e que lhe faltam mais Josés Luís Peixotos na sua lista de colaboradores (falta-lhe, nomeadamente, a frescura com que, no mundo dos blogues, se olha a literatura e as artes em geral...). Mas os defeitos do JL não ofuscam a sua maior qualidade – que é a resistência, a persistência, e a forma feliz como foi absorvido sem ser asfixiado dentro do universo comercial do grupo Impresa. José Carlos de Vasconcelos é o obreiro dessa obra.
Aos 45 anos, voltei a comprar o JL. Tinha 15 quando o conheci.
Arraso a forma como já lá fui algumas vezes tratado, irrita-me frequentemente a ausência de funcionários em número suficiente para a atenção que o volume de clientes exige – mas, mesmo assim, o IKEA encanta-me desde os tempos em que tínhamos de ir a Madrid para comprar irrelevâncias essenciais (o paradoxo é propositado, só quem nunca viveu a “experiência IKEA”...), ou mobílias de casa completas, do pano de cozinha ao “vaso sanitário”...
E encanta-me mais quando esbarro num utensílio que imaginei existir, que sonhei que existia, que pensei que devia existir, mas nunca imaginei que alguém inventasse tão depressa e bem.
Ei-lo, então: o apoiozinho almofadado para estar com o portátil ao colo em qualquer lado sem aquecer as pernas e irritar o corpo. Tão simples, tão óbvio. Mas foi lá que encontrei, sempre com um nome “a condizer”: “Bräda”. Trocadilho tipo Sílvia Rizzo: já bradava aos céus, é verdade.
Nem vi o preço, comprei logo. É essa a ideia, certo?
Resultados práticos da vitória do Benfica:
1. Portugal deixou de estar em crise.
2. Chegou a Primavera, acabou a chuva.
3. A produtividade nacional, pelo menos amanhã, vai subir brutalmente.
4. Hoje e amanhã os indices de violência doméstica descem para valores irrelevantes.
5. Seis milhões de portugueses sorriem como há muito não se via.
6. O número de portugueses deprimidos desce para níveis historicamente baixos.
7. José Sócrates vai ter uma semana de descanso.
8. A oposição bem pode dizer que o rei vai nu, que ninguém quer saber disso.
9. Somos felizes, enfim.
O meu Benfica é assim.
Portugal segue dentro de momentos.