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Pedro Rolo Duarte

31
Mar10

Assim se estuda nas Universidades portuguesas

Um de vários mails recebidos nas ultimas semanas oriundos de pessoas que não conheço e que obviamente me não conhecem (só a referência às caixas de comentários diz tudo sobre a construção do mail “to all”...). O objectivo é que eu responda por escrito, permitindo um copy-paste sem qualquer trabalho de reflexão, organização de ideias, investigação, escrita. Fica o mail integral, exemplar, de uma colecção que nos ultimos anos atinge as duas ou três dezenas, e depois podemos falar de ensino “superior”:

 

“Olá !

Peço desculpa por estar a incomodar, mas a situação é a seguinte: costumo acompanhar os vossos blogs, estudo na Faculdade de Ciências sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, e como este é o meu último ano estou a frequentar a cadeira de Seminário de Inglês, na qual tenho que desenvolver um trabalho de pesquisa com vista à criação de um ensaio. Como os temas se enquadram todos no Pós-Moderno, optei pela Cibercultura. Mais especificamente, a importância das novas tecnologias no papel desempenhado pelo leitor, na medida de haver uma substituição da passividade pela interactividade, o jornalismo de opinião, os blogs, como é que os comentários influenciam ou não o seu conteúdo, e coisas desse género...

Pelo que, era uma óptima ajuda se pudesse 'entrevistá-lo' para saber como funciona com o seu.

E as questões são as seguintes:

1 - Qual o papel que desempenham os comentadores no seu blog?

2 - Em que medida é que os comentários influenciam  o conteúdo do blog?

3 - Qual o critério que leva a que um comentário seja excluído?

4 - No seu blog os comentários estão abertos a todos. Porque optou por essa acessibilidade? Pensa que os comentários são então parte fulcral do blog, sem discriminação?

5 - Se não for indiscrição, a sua carreira está de algum modo relacionada com a escrita/jornalismo ou trata-se apenas de um hobbie? (na maioria dos casos sei à partida a resposta, apenas preciso confirmar)

6 - Leva em conta e valoriza a participação/opinião dos users?

7 - Alguns autores no campo dos media afirmam que 'cada cidadão pode ser um repórter' ou questionam 'can bloggers be journalists?' , Qual a sua opinião?

Agradeço à partida a atenção dispensada e agradecia realmente muito que respondesse.

Cumps”


Assina uma das muitas Sandras, Vanessas, Joanas e Timóteos que por essas Universidades fora chegam assim ao final dos seus cursos. Em breve andarão por aí.

27
Mar10

Infiel ponto com

(Crónica publicada na edição de hoje da revista do i, Nós, Infiéis)

 

Em Novembro passado, o i publicava a noticia: “O site gleeden.com apresenta-se como um “jardim de felicidade” e já são 1500 os portugueses inscritos neste portal dedicado às pessoas casadas que querem ser infiéis, mas de uma forma discreta”. Prometia-se então que, depois de passar a versão beta, “os interessados poderão encontrar parceiros disponíveis para uma aventura extraconjugal. Dos 1500 portugueses já inscritos, 65% são homens e 35% são mulheres. O facto de o site não ser gratuito não parece ser impeditivo para os interessados numa relação fora do casamento”.

A última barreira abateu-se: até para a infidelidade a Internet encontrou facilidade de acesso, rapidez de execução, eficácia na concretização. Podem os conservadores vir falar dos tempos modernos e do fim da ética e da moral, podem as igrejas continuar a pregar no deserto, podem os teóricos construir teses sofisticadas sobre o mundo moderno. Nada ultrapassa a simplicidade dos factos: há um problema? Há uma fronteira para ultrapassar? Há uma dificuldade para vencer? Falta-lhe qualquer coisinha? Alguém, a esta hora, num qualquer canto do globo, está a tratar do assunto. Não tarda e aí estará o site que vai tornar banal o que antes era incomum.

A Internet é o maior facilitador da vida – no que isso tem de deslumbrante e útil, mas também de perigoso e falso. É um pouco como crescer a comer hambúrgueres – não há duvida de que é prático, mas no dia em que um bife nos aparece à frente, não sabemos o que fazer com aquele bocado de carne e é muito provável que tenhamos problemas de resistência nos dentes. Para tudo, na vida, tem havido equilíbrio – excepto para a Internet, avassaladora na sua criatividade, imaginação, no seu caos e felicidade, na sua reinvenção diária.

Foi nisso que pensei quando li aquela notícia – bolas, já nem para ser infiel é preciso trabalho, estratagema, um guião bem afinado, um novelo bem enrolado. Nada disso. Um click, uma password, e navegamos na infidelidade controlada. Por pouco, combinada com o cônjuge, já agora podem enganar-se em dias certos, sempre se poupa qualquer coisa...

Não consigo conceber facilmente a ideia de infidelidade – e nisso parece que sou antigo. Mas consigo menos ainda conceber a traição com “profile” incluído e cartão visa em site devidamente protegido. No meio de tanta felicidade ao alcance de um click e de uma password, onde fica o velho e bom lugar do talento, do saber, da aprendizagem?

Ser infiel dá tanto trabalho como ser fiel - porque ambas as condições exigem dedicação, vontade e às vezes algum esforço. Pedem sabedoria, na verdade e na mentira, na escolha daquilo que queremos para a nossa vida, e na metódica dedicação à causa. Há anos que alimento a ideia simples de que a infidelidade não compensa – bom é estar com quem se gosta enquanto se gosta, e não ter medo de mudar de vida quando se deixa de gostar. É mais fácil de dizer do que de fazer – mas quando se faz e se persiste, tem compensações evidentes. Dorme-se mais tranquilamente. É-se mais feliz. E mesmo na infelicidade consegue-se paz, que é um dos bens mais preciosos da vida. Não me tenho dado mal com o princípio.

Talvez por isso me tenha chamado a atenção a notícia do site que promove a infidelidade de forma prática, discreta e eficaz. Tenho vontade de me inscrever e passar a mensagem aos sócios: em vez de trair a sua mulher (ou o seu marido), já pensou em tentar ser feliz? Sabe que pode divorciar-se e ter o mundo todo pela frente? Não é tão fácil, talvez, mas é muito melhor. E nem precisa de password.

25
Mar10

30 anos de letras, artes e ideias

Num país que compra e lê poucos jornais, um “jornal de letras, artes e ideias” resistir 30 anos é em si absolutamente extraordinário. Ter a capacidade de continuar a renovar-se, é ainda mais extraordinário. E ganhar uma nova vida, é a cereja em cima do bolo.

O JL que ontem chegou às bancas ganhou uma nova vida – um design rejuvenescido, elegante, atraente na sua clássica discrição, actual sem se armar em moderninho. Desde a fórmula gráfica original – com aquele modelo de capa notável que João Segurado criou, com as chamadas em passadeira seguida e o desenho de Abel Manta a encher a página... – que não via o JL com tão bom aspecto. A fonte “glosa”, criada por Dino de Santos, é um encontro feliz entre tradição e contemporaneidade, e cai que nem uma luva no inspirado projecto gráfico de Vasco Ferreira. É um jornal que respira e dá vontade.

É claro que continua a ser o jornal de uma “certa” cultura, muito oficiosa e previsível, e que lhe faltam mais Josés Luís Peixotos na sua lista de colaboradores (falta-lhe, nomeadamente, a frescura com que, no mundo dos blogues, se olha a literatura e as artes em geral...). Mas os defeitos do JL não ofuscam a sua maior qualidade – que é a resistência, a persistência, e a forma feliz como foi absorvido sem ser asfixiado dentro do universo comercial do grupo Impresa. José Carlos de Vasconcelos é o obreiro dessa obra.

Aos 45 anos, voltei a comprar o JL. Tinha 15 quando o conheci.

24
Mar10

Publicidade totalmente gratuita

Arraso a forma como já lá fui algumas vezes tratado, irrita-me frequentemente a ausência de funcionários em número suficiente para a atenção que o volume de clientes exige – mas, mesmo assim, o IKEA encanta-me desde os tempos em que tínhamos de ir a Madrid para comprar irrelevâncias essenciais (o paradoxo é propositado, só quem nunca viveu a “experiência IKEA”...), ou mobílias de casa completas, do pano de cozinha ao “vaso sanitário”...

E encanta-me mais quando esbarro num utensílio que imaginei existir, que sonhei que existia, que pensei que devia existir, mas nunca imaginei que alguém inventasse tão depressa e bem.

Ei-lo, então: o apoiozinho almofadado para estar com o portátil ao colo em qualquer lado sem aquecer as pernas e irritar o corpo. Tão simples, tão óbvio. Mas foi lá que encontrei, sempre com um nome “a condizer”: “Bräda”. Trocadilho tipo Sílvia Rizzo: já bradava aos céus, é verdade.

Nem vi o preço, comprei logo. É essa a ideia, certo?

21
Mar10

Portugal segue dentro de momentos

Resultados práticos da vitória do Benfica:

1. Portugal deixou de estar em crise.

2. Chegou a Primavera, acabou a chuva.

3. A produtividade nacional, pelo menos amanhã, vai subir brutalmente.

4. Hoje e amanhã os indices de violência doméstica descem para valores irrelevantes.

5. Seis milhões de portugueses sorriem como há muito não se via.

6. O número de portugueses deprimidos desce para níveis historicamente baixos.

7. José Sócrates vai ter uma semana de descanso.

8. A oposição bem pode dizer que o rei vai nu, que ninguém quer saber disso.

9. Somos felizes, enfim.

O meu Benfica é assim.

Portugal segue dentro de momentos.

19
Mar10

Hipermercados abertos, sempre!

O Chiado e a Baixa estão cheios de pequenos comerciantes, de sapatarias a lojas de café, de boutiques a lojas de recuerdos. Desde há uns anos que, na sequência da recuperação daqueles quarteirões vítimas de incêndio (e depois, muito por causa da FNAC, da H&M e de outras marcas multinacionais, abertas ao fim de semana em horários generosos), aquela zona da cidade recuperou vitalidade e vida. Os novos restaurantes e cafés, sempre abertos ao fim de semana, contribuíram para o movimento. Nos dias que correm, os sábados e domingos do Chiado e da Baixa são dias fortes de comércio.

No entanto, o pequeno comércio – da sapataria, da loja de bijutaria, da pequena boutique -, resiste estoicamente: não abre ao sábado à tarde nem ao domingo, e fecha às sete da tarde mesmo nos dias de Verão em que só anoitece às nove. Se lá forem perguntar, queixam-se todos da crise...

O exemplo serve para explicar ao autor deste post porque motivo a Sonae tem razão em querer libertar os hipermercados da idiota lei que os impede de abrir ao domingo à tarde. É que essa lei foi criada para proteger o mesmíssimo pequeno e médio comércio que se está literalmente nas tintas para o consumidor e fecha à hora do almoço e não serve depois das 19:00, não alarga horários a não ser no Natal, e fecha ao domingo “para descanso do pessoal”.

Eu defendo o comércio local. Gostava muito de poder fazer compras nas excelentes charcutarias e mercearias do meu bairro (Alvalade/Av. de Roma). Infelizmente, fecham à hora do almoço de sábado e só reabrem à segunda-feira. Aos dias de semana, persistem em fechar às sete da tarde, como se os lisboetas saíssem todos às seis dos seus empregos. Algumas delas até fecham à hora do almoço.

Os anos encarregaram-se de demonstrar que a crise do comércio local resulta da negligência e preguiça do próprio comércio local. O facto dos hipermercados estarem fechados ao domingo à tarde não mudou minimamente o estado das coisas, pela simples razão de que também o comércio local fecha ao domingo. Ninguém faz guerra a quem não está no campo de batalha.

Assim sendo, é altura de deixar cair a hipocrisia legal e a demagogia de quem a defende. Se o comércio local quer sobreviver, ponha os olhos nas capitais da Europa: dê o corpo ao manifesto e esteja disponível para os consumidores nos horários de quem consome.

Venha lá a petição para abrir os hipermercados ao domingo – eu assino.

14
Mar10

Teatro sem sombras

Vou passando os olhos, de vez em quando, pelos intermináveis directos do Congresso do PSD e quanto mais vejo, mais me convenço da farsa que constituem estes eventos muito mediatizados e pensados para serem transmitidos pelas televisões. Já o tinha sentido na última operação de aclamação de José Sócrates no Congresso do PS, e aqui repete-se em clima de pré-campanha eleitoral para a liderança do partido.

O paradoxo é óbvio: o partido está ali reunido para se organizar, para se estruturar, para se confrontar consigo mesmo. Fazê-lo à porta fechada (ou pelo menos resguardado dos olhares cuscos das câmaras) garante sinceridade, frontalidade, verdade – fazê-lo sob o olhar de todo o país, em directo e ao vivo, presume encenação, teatro, e uma preocupação permanente com o que “passa cá para fora”. O resultado é aquele que Vasco Pulido Valente bem antecipou no Público: “em ambiente de comício e muito pouco tempo (...), nada de sério se pode discutir”. Com o beneplácito do jornalismo político, assim foi. Um teatro sem sombras, só luzes. Uma projecção para português ver.

 

(Fiquei a saber que o Presidente da Câmara de Mafra deu a si próprio o nome do pavilhão onde decorre a cerimonia. Não podia haver simbolismo mais óbvio e ironia mais certeira dos tempos que vivemos no mundo politico. O senhor – e o pavilhão... – chama-se Engenheiro Ministro dos Santos...)

13
Mar10

Um verbo que nunca acaba

(Crónica da revista do i de hoje, Nós Viajantes)
 

Gosto muito da expressão “viajar na maionese”. Gosto da imagem de quem perde o controlo sobre o corpo e se deixa ir ao sabor do chão que pisa. Neste caso, escorregadio como uma maionese. Imagino aqueles escorregas de água intermináveis onde os filhos ousam ser radicais e os pais fazem de conta que são filhos. Imagino texturas suaves, macias, delicadas. Tudo não passa do domínio da imaginação.

Cá em baixo, no mundo real, “viajar na maionese” traduz algo como estar fora do mundo, passar ao lado, espalhar-se ao comprido sem sequer dar por isso. Não parece bom – mas não é isso que fazemos tantas vezes sem que venha daí mal ao mundo? Não é esse um dos segredos da felicidade nacional, uma espécie de viagem em permanência na maionese dos problemas, sempre à procura de uma saída airosa e de preferência indolor...

Viajar é, nessa medida, um dos verbos mais dinâmicos da nossa existência. Viaja-se sem sair do mesmo lugar, e nessa aparente contradição entre ficar e partir podem convocar-se mil ideias de partida e de chegada. Fazemos todos a “última viagem”, ou a “viagem das nossas vidas”. Viajamos porque nos obrigam, por prazer, correndo, fugindo. Para descansar. Para nos cansarmos. Em paz. Em esforço. Por amor. Ou em nome do ódio. O verbo é usado na nobreza e felicidade de uma descoberta ou na terrível condenação final. Uma passagem pelas crónicas de viagem assinadas hoje por Filipa Martins, Cláudia Köver e João Maria Condeixa mostra-nos esse lado tortuoso e inesperado de um verbo que associamos ao prazer e à felicidade - e que até parece irradiar luz.

Mas que luz irradia uma viagem para a morte? Onde fica o “glamour” de quem viaja para se refugiar? Como evitar associar o verbo à diáspora do povo hebreu desde sempre (e, pelos vistos, para sempre...)? Como explicar nos dias de hoje uma viagem para a tortura?

“Viajar! Perder países!/ Ser outro constantemente,/ Por a alma não ter raízes/ De viver de ver somente!” – Pessoa escrevia assim e falava da “ausência de ter um fim” para considerar que “Viajar assim é viagem”. A raiz é o ponto zero da viagem – ter ou não ter, querer manter ou querer descobrir, fugir da raiz ou procurá-la até ao fim dos dias. É o confronto connosco e com a nossa existência – ou a fuga deliberada, tantas vezes desesperada, a esse mesmo encontro.

Na dinâmica dos significados do verbo, da sua assertividade, do seu significado mais profundo, encontro riqueza e sabedoria. Os sábios levam-nos a viajar sem saírem da sua sala de estar - e mesmo quando parecem perdidos no caminho, encontram a saída quando menos esperamos. Aqueles que viajam na imaginação não são menos viajantes do que os caminhantes que desbravam o mundo.

Viajam na maionese? Talvez. Mas a verdade é mesmo essa: “viajar na maionese” não deixa de ser viajar. Mesmo que nos deixe invariavelmente no chão. Sem saber o que fazer. Ou sabendo menos do que antes sabíamos. A dúvida também é o começo de uma viagem. Talvez a melhor de todas elas.

12
Mar10

Adeus tristeza

(Actualizando o blog com calma: esta foi a crónica publicada na revista do i, Nós Tristes, da semana passada... Amanhã sai a Nós, Viajantes... Countdown para o final deste projecto..)
 

Estava a ver, domingo passado, o espectáculo que a SIC produziu para ajudar a reconstrução da Madeira, e às tantas detive-me na letra de “Adeus Tristeza”, de Fernando Tordo, que cantou ao lado do notável Hélder Moutinho. Tordo escreveu e canta qualquer coisa como “adeus tristeza, até depois/ sinto-te triste por sentir que entre os dois / não há mais nada para dizer ou conversar / chegou a hora de acabar”.

Foi na relação entre quem canta e a quem se dirige a canção que fiquei a pensar. A ideia de tratar a tristeza como uma pessoa, com quem não há mais conversa, cuja relação chegou ao fim e é essencial gritar esse fim, é muito bonita e romântica. Dava imenso jeito nos momentos menos bons que todos vivemos.

Porém, não existe para lá do criativo e talentoso momento de Fernando Tordo (que, tanto quanto sei, compôs a canção nos Açores, num período de isolamento especial da sua vida). Bem podemos gritar aos quatro ventos que não há mais conversa com a tristeza, que nos caiu a ficha e não há moedas, que a bateria do telemóvel acabou – nada disso resolve as passagens da vida em que efectivamente nos sentimos tristes, em que a vida não nos sorri, em que o cinzento toma conta da paisagem e a única ideia firme e hirta é esta: “não há nada a fazer”.

Se eu fosse interrogado para aquela maravilhosa página da revista Esquire que reúne mensalmente o “que a vida me ensinou”, e onde figuram os maduros que os editores decidem entrevistar, talvez falasse sobre a tristeza – porque fui descobrindo, com o passar dos anos, que a tristeza muda com o tempo que passa. Que a tristeza convoca paralisia numa idade infantil, quando não sabemos sequer conviver com aquele sentimento; depois, puxa pela revolta, na adolescência, no tempo em que tudo se mede pela intensidade e nada pela profundidade, e reagir é o verbo mais comum; por fim, a tristeza ganha os seus contornos e sentidos finais, mais calmos, mais pantanosos, porventura mais próximos da verdade.

É quando aceitamos que estamos tristes. Que estar triste é em si um estádio – uma passagem, certamente, mas algo que se não vence por um simples acto de revolta ou reacção. A tristeza também é um direito que nos assiste – e há momentos em que dá um jeito do caraças. Porque estar triste é respeitável. Porque estar triste é como passar por um mau momento e ele ser uma porta giratória, que rapidamente dá a volta, que isola o passado do futuro.

Gosto de portas – mas gosto ainda mais da ideia de portas que cortam fogo, que isolam, que separam. E nessas suas funções primordiais, dão sentido à tristeza. Algo que vem, mas não fica. Algo que se vive e se resolve. Uma doença com cura.

Quando voltei a ouvir a canção “Adeus, tristeza”, pensei nessa ideia da tristeza personificada, a quem se diz “vai-te embora, não te quero mais”. Mas depois caí em mim e nesta edição. E concordei logo com o poeta que ficou na página 46: “triste é viver na solidão”. Triste é o que quisermos, nunca querendo.

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Blog da semana

O Diplomata. Dez anos de blog é obra. Alexandre Guerra festeja, e com razão, um espaço de reflexão, análise e opinião do mundo político internacional. Merece o bolo.

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