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Pedro Rolo Duarte

08
Abr10

A face lunar do Facebook

O meu irmão António, que nos deixou há quatro anos, era um internauta muito militante. Na altura ainda as redes sociais estavam no começo, mas eu sei que ele navegava um bocadinho por todo o lado. Tinha tempo e era uma das muitas formas de se manter em dia com a tecnologia.

Desde que morreu, pensei várias vezes no que poderia ter acontecido às suas contas de e-mail, a eventuais perfis em redes sociais, à sua presença na Internet. Como foi tudo muito de repente, não teve tempo nem razão para desactivar, apagar, “desarriscar-se”, como dizem os do futebol. Ao que sei, ninguém tinha as passwords de acesso aos seus espaços individuais. Há um limbo na Internet, que cresce todos os dias, sem saída nem solução, onde estão os que desistem, os que desaparecem, os que deixam de poder aceder. O que acontece a essa informação? Quem toma conta desse arquivo? Pode a família fazer alguma coisa por isso?

Lembrei-me disto, uma vez mais, esta semana, porque me voltou a suceder um facto profundamente infeliz e triste e lamentável no Facebook (rede a que pertenço com gosto - e que defendo, sublinhe-se): na coluna lateral direita, onde o sistema sugere que retomemos contacto com alguém com quem não falamos há tempos, ou pergunta mesmo “tens sabido novidades dele?”, apareceu o nome e a fotografia do Jorge Ferreira, o político e blogger (eu conheci-o nessa condição) que morreu em Novembro do ano passado. Está nos meus amigos do Facebook e o sistema automaticamente escolhe-o para me sugerir que retome o contacto. O sistema deve procurar ficheiros de pessoas que não activam a sua página há algum tempo e por isso estimula a ideia de rede em movimento. Eu sei que a coisa é aleatória e não contempla condições inesperadas. Mas...

É imaginável o arrepio que se sente, a tristeza e ao mesmo tempo o profundo incómodo de ter ali aquele mensagem, aquele pedido: “porque não comunicas com o Jorge Ferreira?”.

Mesmo que fosse humor negro, era infeliz e sem graça.

A pergunta que eu deixo é simples: entre o Facebook, a família e a chamada grande sociedade de informação, não há uma maneira qualquer de resolver isto sem que, daqui a 50 anos, metade dos nomes que aparecem na coluna da direita do Facebook estejam efectivamente incontactáveis, como será seguramente o meu caso?

07
Abr10

Momento (parte II)

Por razões que só eu sei, voltei a este video, que de resto foi post na passagem de 2009 para 2010. E a única coisa que me ocorreu ao vê-lo - vê-lo devolveu-me ar e vida - foi: bolas, faz tanto sentido que é melhor ver de novo, partilhar, deixar que se solte no ar. Como se fosse uma estaca zero, ou o sonho de um recomeço. Um momento é isso - quer saibamos ou não como se faz, nem que seja para fazer de novo. É assim:

 

 

 

04
Abr10

Quatro anos

Um dia, uma ex-fumadora, mãe de duas filhas, disse-me: “O Pedro pode não acreditar, mas quando me perguntam qual o dia mais importante da minha vida, muitas vezes hesito na resposta: o dia em que deixei de fumar é tão forte na minha existência quanto os dias em que nasceram as minhas filhas. Só quem já fumou e venceu o vício pode perceber o que digo”.

Confesso que me pareceu absurda a comparação e claramente exagerada. Mas na altura ainda fumava os meus dois e meio, três maços por dia.

Neste 4 de Abril, passam quatro anos sobre o dia em que me impedi de fumar. Tenho a tentação de dizer que este é seguramente um dos dois ou três dias mais relevantes da minha existência.

Doze quilos mais tarde, tenho orgulho na obra. E vou continuar.

03
Abr10

Na roda do destino

(Crónica da revista do i deste sábado, Nós Jogadores)

 

Estou a ler a entrevista de Margarida Marante à jornalista Cândida Santos Silva, na revista Única da semana passada, e reparo que ela começa por lançar uma ideia que depois repete várias vezes ao longo da conversa: “A nossa vida define-se muito pelos bons e maus encontros”. Sempre que quer explicar mudanças na vida, recorre a esta espécie de jogo de sorte e azar que são os encontros - no limite, também os desencontros – e assim deixa uma margem generosa para a reflexão de quem lê. Marante podia bem ser um case study da raça humana – não tanto por ela, que tem vivido um pouco o que todos vivemos, porventura de forma mais intensa e radical, mas por aqueles que dela se aproximaram e afastaram conforme os seus momentos, as suas vitórias e derrotas, os altos e baixos de uma vida. Diz: “Isso é dos livros (...) Nos momentos maus há sempre pessoas que se afastam. Mas há outras que permanecem e são essas que dividem as águas”.

A ideia de glória e fracasso, de vitória e derrota, associo-a sempre a algo próximo do jogo. Como se a vida fosse efectivamente um desafio, e cada uma das nossas decisões fosse a aposta seguinte. Determinamos, com as escolhas individuais e o trabalho, uma percentagem de probabilidades de vitória muito segura. Mas essa vitória é sempre uma soma de circunstâncias, de que a sorte é certamente uma delas. Às vezes decisiva, outras vezes apenas o empurrão que faltava para fazer brilhar o nosso esforço. Nesta relação de forças, a ideia de jogo faz todo o sentido – e nessa medida, somos todos jogadores, como o percurso de Margarida Marante acaba por mostrar.

Não tive com Margarida Marante uma relação próxima – pelo contrário, razões diversas alimentaram até um distanciamento acentuado -, por isso nem me atrevo a usar o seu exemplo para lá das banalidades de uma crónica. Mas ao ler a entrevista, e ao pensar nesta edição, acabei por ir à procura de um verso de uma canção que pairou sobre parte da minha adolescência e aqui cai como uma luva. Trata-se do fado que Sérgio Godinho escreveu para a banda sonora do filme “Kilas, o Mau da Fita”, de José Fonseca e Costa. Não tenho o disco, mas a voz de Lia Gama ecoa claramente à minha volta: “E na roda desta vida/ nunca se sabe o que se nos depara/ e os que ainda andam na mó de cima/ têm que saber que a roda não pára/ e fatalmente o fim se aproxima/ a vida não pára”.

Cresci com esta imagem da roda que não pára, da roda que quando sobe é seguro que mais tarde descerá, e com a convicção de que não adianta sermos taxativos nos momentos de glória – porque nos que se seguem a taxatividade esfuma-se mais depressa do que a “nuvem passageira” da canção.

A vida é felizmente muito mais do que um jogo. Nem por isso deixa de obedecer a códigos, lógicas e sequências que se assemelham aos jogos que deixam tantos de cabeça à roda, viciados e dependentes, e outros indiferentes, como se nem sequer existisse a tentação. No jogo, pertenço ao grupo dos indiferentes – mas na vida, há jogos e regras de jogos que me deixam muitas vezes com a cabeça à roda. E a cantar como a Lia Gama, olhando para trás ou lendo a entrevista da jornalista: “Foi num velho cinema de reprise/ que eu revi a minha história/ a memória é uma armadilha/ quanto mais solta mais se ensarilha// E na roda do destino/ nunca se sabe o que se nos depara/ e os que ainda andam na mó de cima/ têm que saber que a roda não pára/ e fatalmente o fim se aproxima/ a vida não pára”.

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Blog da semana

Gisela João O doce blog da fadista Gisela João. Além do grafismo simples e claro, bem mais do que apenas uma página promocional sobre a artista. Um pouco mais de futuro neste universo.

Uma boa frase

Opinião Público"Aquilo de que a democracia mais precisa são coisas que cada vez mais escasseiam: tempo, espaço, solidão produtiva, estudo, saber, silêncio, esforço, noção da privacidade e coragem." Pacheco Pereira

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