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Pedro Rolo Duarte

11
Mai10

Um olhar (ainda assim) laico

Pode parecer estranho, mas é o que sinto: a capacidade de mobilização que a visita do Papa a Portugal conseguiu reunir, a convocação mediática e popular, surpreendem-me e comovem-me.

Ainda que não me sinta católico, não deixo de sentir o que mexe com aqueles que me rodeiam. Sendo Bento XVI bem menos próximo dos fiéis e pouco “peregrino”, a sua visita é mais valiosa porque venceu obstáculos, congregou o mundo católico, e parou um país sem contestações maiores do que as que alguns blogues sempre agitam. Por mais petições que a laicidade inspire, o Portugal que passamos a vida a discutir é mais este, que hoje se curva perante o chefe da Igreja Católica, do que o aparente país moderno e cosmopolita que certa esquerda nos pretende vender.

Bem sei que rezar é o que nos resta.

Bem sei que o marketing (é que...) faz milagres.

Mas não restam dúvidas sobre a fidelidade nacional. Não mudou. Não muda. Merece respeito. E contenção. Merece a tolerancia que também nos identifica no Mundo.

09
Mai10

Talvez pensando na visita do Papa

Percebi que dificilmente seria crente quando li, aos 14 anos, “Um Homem Só”, de Roger Vailland, e tropecei nesta frase: “Se Deus existisse, o meu pai não teria morrido e eu não seria o homem mais infeliz do Mundo”. Uns anos mais tarde, esta mesma frase foi-me devolvida, pela facciosa memória, numa tarde muito triste de Fevereiro, quando o meu pai partiu. Tinha passado um bom bcoado a rezar a algo ou alguém que não sabia onde estava nem se existia. No desespero do momento, achava que as coisas não podiam ser assim - a não ser que Deus existisse e não fosse o que se dizia que era.

Nos últimos anos, muitas vezes me deu jeito ter fé. Nunca consegui.

Não é vã a estatística que atribui aos crentes uma vida mais longa: quem acredita tem sempre um corrimão a que se agarrar. Pessoas como eu, pobres de espírito sem capacidade para sentir o intangível, escorregam nos degraus dos dias, e sentem-se muitas vezes perdidas num mundo cheio de fenómenos por explicar, injustiças por perceber, e verdades por encontrar. As escadas nunca têm fim e são sempre abismos faseados.

É a ignorância que me move neste caminho – e nessa ignorância só encontro conforto na contradição e no paradoxo. Todos os dias tenho mais uma pergunta sem resposta. Todos os dias tenho mais uma resposta para uma pergunta que não fiz. Em nenhum dos dias que vivi me encontrei com Deus.

Que posso eu fazer, a não ser continuar na escadaria, sem corrimão, aprendendo a andar, como se não houvesse amanhã?

07
Mai10

Passar de moda

(Crónica originalmente publicada na edição do mês passado da Lux Woman)

 

Quinze anos é muito tempo? Quanto tempo passa quando passam 15 anos? Esta pergunta, numa revista onde a moda é tema dominante, faz o mesmo sentido que faria levar areia para o deserto.

Não faz sentido. O tempo da moda é diferente daquele que comanda os nossos dias – e ainda que, de certa fora, a moda mande em nós, nunca ultrapassa o limite razoável da democracia: a moda manda, enquanto nós deixarmos que mande. Mas há sempre qualquer coisa de cruel na ideia de moda. Porque despreza e deixa na margem o que está fora dela, e porque mata sem dó nem piedade quem “lhe passa” – e aqui a língua portuguesa não é traiçoeira: passar de moda usa o mesmo verbo do que morre.

Foi nisto que fiquei a pensar depois de um confronto duro com o fim da moda. Ou com o peso da moda que passa. Recuemos no tempo. Lá está: quinze anos, mais coisa menos coisa.

Estávamos em 1995 e Paris tentava ressurgir e reagir como capital da moda. Londres e Nova York dominavam o espectro “do que está a dar”, e Paris atrasava-se na recuperação da sua condição. As cidades são sempre o reflexo da sua cultura, e seria na condição urbana que a capital francesa teria de dar passos de gigante. É neste ambiente que nasce o Buddha Bar – o primeiro tijolo de um império de restauração e entretenimento que marcaria uma nova moda, sinalizada pela lounge music, e que ganharia dimensão na década seguinte. Claude Challe, o “homem do leme”, já tinha sido o herói de Les Bains Douche, e estava nas suas sete quintas ao misturar a música pop com os sons indianos, latinos, africanos.

Tive a sorte de ir a Paris nesses anos, e de assistir ao boom do Buddha Bar, seguido pela expansão do conceito de restaurante/bar/discoteca um pouco por todo o mundo, e pela popularização dos discos com o ambiente do espaço original. A moda galgou os seus criadores e replicou-se na roupa, na cultura da filosofia indiana, na música.

Em 1996, ir ao Buddah Bar de Paris exigia marcação com muitos dias de antecedência e algum tempo de espera na porta, uma atenção desmedida ao aspecto do cliente e pressão sobre as horas de jantar ou sobre os copos a beber. Os três andares do edifício transbordavam de gente e quando ali entrávamos sentíamos que estávamos no centro da galáctica ardente. Foi nesses anos que conheci o Buddah Bar.

Quis o destino, no entanto, que há poucas semanas, passeando por Paris à noite, desse comigo na rua do Buddah Bar. Era uma noite de sexta-feira em plena semana da moda. Quando me apercebi que estava na rua do bar, tive a tentação de o revisitar, ressalvando com quem estava o facto de, numa noite de fim-de-semana a probabilidade de chegar perto da porta ser remota...

... A realidade demonstrou ser bem menos criativa: não havia qualquer aglomeração à porta e os porteiros escondiam-se do frio atrás das grandes portas de ferro e vidro. Entrámos sem qualquer resistência, pergunta ou olhar inquisitivo. O restaurante estava vazio, o bar tinha talvez 30 pessoas nos seus dois pisos. A música ecoava sozinha e os empregados, displicentes, nem se davam ao trabalho de ir às mesas. O ambiente era desolador. O Buddha Bar morreu e ainda não tomou conhecimento.

Dez minutos depois, desolado pelo reencontro sem chama, abandonámos a casa. Os porteiros abriram-nos a porta sem estranheza, como se fosse óbvio não ficar ali.

E eu fiquei a pensar na crueldade da moda. Ou melhor: na profundíssima crueldade que constitui ser moda em algum momento da vida. Porque isso significa que um dia a moda vai passar. E tudo morre no mesmo momento, como se nunca tivesse existido.

05
Mai10

Na Feira do Livro (I)

 

Já dei uma primeira voltinha pela Feira do Livro. Confesso que a Feira é, para mim, um lugar de passeio, uma peregrinação anual, mas não é ali que compro a maioria dos livros que leio.

Às vezes encontro um livro antigo que procurava, ou descubro uma novidade inesperada – mas em geral a coisa fica por aí. O meu filho é mais metódico – e compra na Feira muitos livros que vai anotando mentalmente nos meses anteriores. Ele é muito melhor leitor do que eu.

A Feira é um final de tarde feliz, uma fartura, dois dedos de conversa, memórias, amigos. Tenho isso – entre tantas outras coisas... – em comum com a S., o que facilitou esta primeira abordagem que fizemos. Basicamente, passeámos. Às tantas lá me confrontei com os restos dos meus próprios livros a 4,99 euros, o que estranhamente me agradou: quer dizer que ainda não foram para a guilhotina...

Curiosamente, foi no mesmo stand onde os livros que publiquei dão os seus últimos suspiros, já em respiração assistida, que mais nos rimos e divertimos, quando peguei neste, cuja capa mostro com gosto, e li à S. algumas passagens, algumas ideias, e de repente ríamos os dois desbragadamente com os textos do Carlos Quevedo, do Miguel, do Alberto, do Nuno, do António.

Uma vez mais, não tive dúvidas: a Oficina do Livro tratou com os pés o livro que reúne alguns dos melhores delírios escritos na revista K. Como é possível aquele livro não ter passado da primeira edição, sabendo-se o culto que a revista ainda hoje convoca, e os milhares de leitores que deliram com o que se publicou?

Com carinho e dedicação – isto é, marketing e trabalho – este livro saído da K tinha sido um bestseller, e sobre isto não tenho duvidas. Aliás, toda a revista K é um bestseller por explorar: entrevistas, reportagens, portfolios, ensaios, o design das páginas, está tudo por fazer com aquilo a que hoje se chama “conteúdos” e antes se chamava... sei lá, revistas porreiras já editadas.

Bom, a verdade é esta: uma das melhores partes da K está neste livro. E ninguém sabe que ele foi lançado. E existe. E está à venda na Feira do Livro pelo preço da uva mijona. Não aproveitem, não...

03
Mai10

Vida privada

Quase todos os dias passo por esta pergunta - e em muitos dias fico a pensar na resposta. Não quero chegar a conclusões, mas reconheço que ser assim interpelado em plena rua por uma pergunta com lata deixa-me inquieto. Gosto de perguntas que me desinquietam.

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Blog da semana

Mesa do ChefePara quem, como eu, gosta de cozinha, gastronomia e restauração, este é mais um dos poisos certos...

Uma boa frase

O Insurgente“Isaltino Morais: perda de mandato autárquico; condenado a 9 anos de prisão por fraude fiscal, abuso de poder, corrupção passiva para acto ilícito e branqueamento de capitais. Resultado 2017: 41.7% Esta é a imagem do país. Em suma, temos o país que merecemos, com os políticos que merecemos, com o fado que merecemos." Mário Amorim Lopes

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