Blog da Semana
Catedral da Luz
Já o tinha destacado aqui ao lado, mas ainda não tinha sido eleito aqui para o cantinho...
Uma boa frase
“Desta vez não há um lord Byron a defender a civilização helénica... A opinião publica europeia é bem mais fraca do que há dois séculos. Uma vergonha para tantos recursos humanos «well educated»”
José Medeiros Ferreira, Cortex Frontal
Mais comentários e ideias: pedro.roloduarte@sapo.pt
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Terça-feira, 31 de Agosto de 2010

O meu amigo Gonçalo Rosa da Silva, que conheci nos bons tempos do Liceu de Camões e se manteve por perto – e eu por perto dele – até aos dias de hoje, amigos e cúmplices disto e mais umas botas, sempre foi um homem ligado ao campo, à natureza. Apesar de cosmopolita – estudou fotografia em Londres, viajou por todo o mundo, é hoje editor fotográfico da revista Visão -, nunca perdeu o “chamamento” da terra. E a ela volta, na paisagem alentejana de Moura, seja para reconstruir um monte ou passear pelas ruas da vila e voltar a ser o filho da terra, para uma época de caça ou um fim-de-semana entre amigos à volta da lareira.

Há tempos, falou-me com entusiasmo de terras herdadas onde noutros tempos a sua avó produzia azeite. Estudou, investigou, percebeu a lógica das variedades da oliveira que os antigos tinham estudado e plantado para que, na mistura final, o azeite conseguisse o sabor e a acidez desejadas. Azeitona galega, cordovil, verdeal, que proporção, que tempo de maturação? Sonhou então voltar a fazer azeite.

Quando o Gonçalo sonha, se apaixona e envolve num projecto, ninguém o consegue deter. E nos últimos dois anos eu fui ouvindo, a espaços, a evolução desta redobrada paixão: plantar as oliveiras, perceber os tempos da azeitona, procurar a garrafa certa, o lagar que cumpria as exigências. Garantir a colheita no tempo, o transporte, os rótulos, as análises, as provas cegas.

Há uns meses, o Gonçalo apareceu-me com uma lindíssima garrafa escura, pose antiga, e um rótulo de design clássico e elegante: “Angélica”. O azeite que ele sonhou. E concretizou. No contra-rótulo, a explicação: “Nos anos 40, já viúva do meu avô Armando, Angélica Rosa da Silva assumiu os destinos da lavoura e de Manantiz, o monte principal situado a dez quilómetros de Moura, onde durante alguns anos viveu e criou os filhos. A produção de azeitona era na altura, tal como hoje, a riqueza da propriedade. O azeite que aqui se apresenta é uma homenagem à minha Avó Angélica, a quem devo o gosto pelo campo e pelas tradições do Alentejo”.

O azeite tem passado testes e provas profissionais com altíssima classificação. É um azeite especial, de sabor vincado e profundo. Perfeito para o meu gosto: frutado, gosto de o misturar no manjericão, no tomate, na mozarela. Molhado no pão, ganha ainda mais vida.

Há poucos dias, recebi da Anabela, a mulher do Gonçalo, uma foto tirada no telemóvel com garrafas de Angélica nas prateleiras da loja Gourmet do El Corte Inglês. O azeite, que era uma brincadeira de 500 litros, não ficou no romantismo da atitude. Foi além. Sorri e pensei: quem ama o que faz, faz bem e vence sempre.Tenho muito orgulho em ter um amigo chamado Gonçalo Rosa da Silva. Faz azeite. Que coisa mais bonita.



publicado por PRD às 14:55
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Sábado, 28 de Agosto de 2010

 

 

 

Claro que a maioria dos filmes que vejo é apenas porque sim, e não me apetece discutir a sintaxe desta frase. Mas há circunstâncias que me empurram para filmes que já vi, ou que julgo ter visto, e que mudam tudo - porque são elas, as circunstâncias, a determinar o olhar sobre o filme. Como se mudasse de azimute e ganhasse um nova “tomada de vista” (como se diz em cinema). É nesses momentos que há surpresas.

Foi o caso. Voltei a “Out of Africa” por razões altamente definidas. Se lhe quiserem chamar HD, aceito. Queria rever o épico de Sidney Pollack, mas sabia muito bem porquê. Ou para quê. Em rigor, por quem.

Da vaga memória do visionamento de estreia, algures no final dos anos 80, ficaram alguns momentos, quase todos irrelevantes neste segundo olhar: a primeira viagem de avião dela, o casamento, os confrontos entre animais e pessoas na savana africana. A banda sonora, evidentemente. Paisagens a perder de vista. Sentimentos cruzados. Era disto que me lembrava.

E agora, revisitado o cenário, reconheço as razões daquela razão: a economia dos diálogos que os transformam em aforismos sobre a vida, o amor, as relações de poder, o poder; a ironia sempre a par e passo com o conflito sem nunca descambarem, uma ou outro; o encontro e o desencontro nas suas formas mais puras e sinceras, muitas vezes dolorosas também; o poder da solidão e a sua força redobrada quando à solidão se junta a obstinação. O que é o amor. O que é a vida. Por fim, mas no começo, os sentidos que dão sentido à vida.

Dei razão à razão de rever o filme. Mas, verdade seja dita, o que foi mesmo decisivo e relevante foi encontrar quem eu queria encontrar naquelas duas horas. Sim, Sofia: “como se dissesse água”.



publicado por PRD às 17:39
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Quinta-feira, 19 de Agosto de 2010

"Sunset" faz parte das canções da minha vida. Inspira-me quando preciso, convoca-me quando me vou abaixo, acompanha-me em todas as viagens. Ajuda-me nos dias, quando eles custam a passar mas também quando passam rápidos como olhos a piscar. É romântica e doce no começo, mas tem sangue na guelra a meio do caminho, e fecha como os olhos dos bebés se fecham quado adormecem. Parece ter todo o Universo dentro de uma só canção. Enche-me as medidas.

Kate Bush é mais ou menos como David Sylvian: “faz questão” de aparecer na minha vida nos momentos cruciais. Nos dias que decidem tempos. Um disco novo. Tropeçar num vídeo. Um artigo sobre ela, um vídeo no You Tube. Normalmente fica por perto, a rondar, a pairar, como se de uma sombra se tratasse – uma sombra que me protege e abençoa, me refresca e arrefece. Ou será um anjo, se eu acreditasse em anjos?

Tropecei neste video há dois das. E ele não me larga, nem quando o largo.

Durante uns dias, vou deixá-la a tomar conta da casa.

 



publicado por PRD às 02:05
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Quarta-feira, 18 de Agosto de 2010

Estou numa estação de comboios suja, triste e pobre, como se pertencesse a um subúrbio de um país cujo nome não localizamos no mapa. Procuro um café e descubro uma pequena esplanada à sombra. O vento arrasta latas de cerveja e copos de plástico pelo chão, voam guardanapos de papel, os pombos debicam os restos de comida que morrem nos cantos. O balcão onde se pede café já foi branco. A montra onde arfam, desmaiados, doces que parecem salgados, e salgados que parecem uma espécie de “delicias do mar” compostas de gordura, não inspira mais do que desprezo. Peço uma garrafa de água e sento-me cá fora. Estou à espera do comboio. Pouso a perna - sublinho, a perna, calçada de jeans, não o pé nem o sapato - num canto da cadeira que está à minha frente. Solícito, um empregado de unhas inadvertidamente escurecidas vem explicar-me que “assim” não era forma de estar. Levantei-me, mandei-o à fava e disse: “e se começasse por limpar a nojice que vai pelo chão e depois lavasse as mãos?”. Como era no Norte, o homem mandou-me discretamente para a p*** da minha mãe. Eu ri-me, o que o irritou ainda mais.

E fui para o comboio, onde regularmente me perguntaram se “desejava” alguma coisa. Respondi baixinho uma vez, mas ninguém ouviu: desejava outro sítio, se faz favor.



publicado por PRD às 10:52
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Segunda-feira, 16 de Agosto de 2010

Saber como se faz. E fazer.

"Oh sing of summer and a sunset
And sing for us, so that we may remember
The day writes the words right across the sky
They go all the way up to the top of the night"

Kate Bush

 



publicado por PRD às 15:21
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