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Pedro Rolo Duarte

07
Ago10

Um caminho

 

 

Não damos valor aos privilégios que, por boas ou más razões, nos caem no colo. Sou um bom exemplo disso: queixo-me eternamente da falta de tempo – mas depois, se calha haver menos trabalho e mais tempo livre, queixo-me do excesso de tempo livre.

Este Verão tenho tido mais tempo livre do que é costume. Mais tempo comigo. Mais tempo. Desta vez decidi não me queixar – e aproveitar.

Mais praia. Mais sono. Mais sonho. Mais água.

Leio mais livros, escrevo projectos, penso em ideias, repenso o que vivi, sigo a aritmética pessoal para perceber onde afinal perdi tempo, onde ganhei, onde parou o tempo e o que é feito do que sobra dele.

Leio até ao fim uma notícia sobre a doença que mata os morcegos nos Estados Unidos. E outra sobre crocodilos anões. Fiquei com vontade de conhecer os Lagos Lazio, perto de Roma.

Tenho tempo para recombinar encontros adiados. Não tenho a certeza de querer.

Tenho tempo para acertar. Tenho tempo.

Na verdade, sei que o tempo voa e isso irrita-me. Mas, lá está, Nick Hornby dá uma ajuda: “a mentira começava a parecer verdadeira através da persistência e da repetição, da mesma forma que um caminho se torna um caminho se suficientes pessoas caminharem sobre ele”.

Caminho sobre o tempo para que ele se torne o meu caminho e não me incomode demais. Por excesso ou por defeito.

06
Ago10

Estou a ler

Em chegando à página 136:

“Vivia permanentemente inquieto, como quem está num aeroporto à espera de avião. Dantes, quando voava muito, nunca era capaz de se concentrar num livro até o avião levantar voo, portanto passava o tempo antes do embarque a folhear revistas e a ver coisas nas lojas de lembranças, e para ele é esse o sabor das duas últimas décadas: o longo folhear de uma revista. Se soubesse quanto do seu tempo ia ser passado no átrio do aeroporto que era a sua vida, teria feito outros planos de viagem, mas assim ali estava, a suspirar e a agitar-se, e mais frequentemente do que seria aceitável, a implicar com os companheiros de viagem”.

O que eu gosto nos livros de Nick Hornby (o “Como ser Bom” continua no meu top de livros para curar desamores com ironia e sarcasmo, e este de que falo é “Juliet Nua”, traduzido este ano para português) é a capacidade que tem de nos fazer pensar sobre uma ideia simples e forte, como esta da inquietação que nos deixa a viver não mais do que como folheando uma revista. E a ideia desliza assim, suavemente, no meio de uma novela irónica sobre a vida moderna, sem pretensões mas (lá está…) superiormente inteligente do ponto de vista da relação entre a realidade e o humor. E deixa-nos a pensar.

Gosto disso numa noite quente de Agosto. É o caso.

05
Ago10

Coisas que me encanitam (VI – agora, Verão)

Julgo que vai ser preciso criar uma comissão. Ou um gabinete.  Ou um grupo de estudo. Mas alguém vai ter de o fazer (e eu, se faz favor, gostava de fazer parte, se não for pedir muito). O Verão ainda vai a meio, por mim podem dispor.

Então é assim (como se fosse num reality-show): quanta quantidade de cerveja leva uma “imperial”? Ou um “fino”, se preferirem?

Como é possível num país civilizado, que tem ASAE por tudo e por nada, e Instituto de Conservação da Natureza, e Provedores, e PGR, e pertence à mesma Europa que normaliza o tamanho das batatas e dos morangos e das maçãs, repito, como é possível que uma imperial possa ter 20 centilitros de cerveja aqui, 25 ali ao lado, e generosos 30 centilitros nos mais decentes locais?

Mais, como é possível que as próprias marcas de cerveja - nomeadamente as sempre bem vindas Sagres e Super-Bock – comercializem copos de diferentes dimensões para o mesmo final “fino”. Não estou a falar de canecas nem de girafas, nem de tulipas do Gambrinus – estou a falar de “imperial”. Ou imperiais, porque nunca é só uma. Eu próprio, recente proprietário de uma máquina de tirar imperiais em casa, tenho dificuldade na aquisição dos copos a usar. Nunca sei se os de 25 cl são forretas face aos de 30, mas também já vi imperiais com 33 cl…

Por fim, e é de somenos mas às vezes é de mais: o preço. Parece diferente pagar um euro por uma imperial de 25 cl numa esplanada a armar, ou ir à tasca da esquina pagar 80 cêntimos por uma imperial de 20 centilitros. Mas afinal é o mesmo: dá sempre quatro euros por litro. Um roubo.

Não há quem ponha ordem nisto?

02
Ago10

Sobre o Mário

Algures no Outono de 1992 recebi uma chamada de Mário Bettencourt Resendes, director do Diário de Notícias. Eu era um colaborador regular do suplemento de espectáculos do jornal, mas tinha chegado ao DN propondo o meu trabalho a Rogério Petinga e Pina Cabral, e não conhecia pessoalmente o director.

Mário Bettencourt Resendes convidou-me para cear com ele no Gambrinus. Fiquei estupefacto com o convite, vindo de uma pessoa com quem nunca tinha falado. Na verdade, chegado ao restaurante fui obrigado a pedir ajuda a um dos empregados, porque nem sequer conseguia identificar fisicamente o Mário. Nessa altura, ele ainda não era um comentador na televisão.

Uma hora depois de me ter sentado, tinha um “pequeno problema” entre mãos: aceitar ou não o convite que me fazia, ali mesmo, à mesa do Gambrinus, para ser editor executivo do Diário de Notícias.

Acabei por não aceitar o convite (coincidiu com o desafio de Cáceres Monteiro para fazer de raiz a newsmagazine que se viria a chamar “Visão”…), mas o episódio ficou-me marcado como um sinal do homem e do profissional que era o Mário. Não pelos meus eventuais talentos, que não são para aqui chamados nem interessam – mas pelo facto de, num país (e num meio…) que vive de amiguismos, conhecimentos, favores e trocas de favores, haver um director de um grande jornal diário que desafia para um lugar de responsabilidade um jornalista de quem não é amigo, que não conhece, e em quem aposta apenas pelo que conhece profissionalmente dele.

Nunca antes tal me tinha sucedido. Nunca tal me voltou a suceder. Nunca esquecerei – e felizmente tive oportunidade de, em vida, lhe dizer o que sentia sobre esse momento. O Mário respondeu: “Lá está o Pedro a exagerar…”. E sorria. Mas ele sabia que me ensinou nesse dia a ousar arriscar - e por causa disso, anos mais tarde, eu também soube convidar quem não conhecia e pensar esta profissão com horizontes mais largos.

Claro que aquele momento foi o começo de uma longa história – saltei do suplemento cultural para colunista regular do primeiro caderno, dois anos depois desafiou-me para fazer critica diária de Telejornais, e depois veio o DNA. O Mário sabia muito bem como modernizar o Diário de Noticias, conciliando passado e futuro sem conflitos maiores do que os essenciais (foi no seu tempo que o jornal voltou a ter vendas que se vissem, facto irrepetível até aos dias de hoje).

Tornou-se, para mim, um mestre na arte da diplomacia jornalística, que consiste em conseguir puxar pelo melhor de cada profissional e, ao mesmo tempo, deixá-lo livre para se desmultiplicar. Independentemente dos vários pais e padrinhos que o DNA teve, o Mário foi seguramente o seu mais entusiasta defensor, e o responsável pela liberdade criativa que a equipa do suplemento teve sempre. Sempre. Nunca me questionou mais do que o óbvio sobre o suplemento. Nunca me pediu para fazer uma capa com este ou aquele. Nunca me criticou por ter feito capa com pessoas de quem não gostava ou que tinham conflitos com o próprio DN. Defendeu-me várias vezes nas pequenas e médias tricas internas que o suplemento foi provocando ao longo dos anos, e sei que me poupou e amparou dos golpes e pressões clássicas sobre o meio. Às vezes falava sobre um ou outro politico que insinuava gostar de ser entrevistado para o DNA para mostrar o seu “lado humano”, mas sempre em tom de brincadeira. Nunca me disse o nome de um único que tivesse tentado a sua sorte.

Uma vez por ano, jantávamos. Era um sábio do jornalismo, e tinha uma capacidade única de relativizar aquilo que, pela minha natureza, tendia a radicalizar. O Mário ensinou-me algo que ainda hoje é precioso: para se ser um pouco mais feliz às vezes basta ser um pouco mais ponderado. O suficiente para transformar um drama num caso. Ou menos que isso.

Num momento critico da minha vida, quando fui falar com ele e anunciar que ía meter baixa médica e deixar o jornal durante alguns meses, ele levou-me ao barzinho do hotel das traseiras do DN e em frente a um copo perguntou-me:

- Pedro, tem lá quem tome conta do DNA? Pode fazer um telefonema por semana a controlar a coisa? Mantém aquilo mesmo à distância?

Respondi que sim. E ele: “Esqueça lá isso da baixa, vá tratar de si e volte quando estiver bom. Quem é que nunca passou por isso?”

Escrevo estas histórias e comovo-me. Mesmo. Juntamente com o Cáceres Monteiro e o Miguel Esteves Cardoso, o Mário foi o meu director de referência. Nunca deixei de o tratar por director, antes e depois de ser meu superior directo. Ele não permitia qualquer espécie de subserviência tola, e ria-se quando ainda agora lhe chamava director – mas sabia que eu o fazia por admiração e com profundo gosto.

Hoje de manhã, quando acordei e vi a mensagem da Sónia, passaram-me estes episódios todos pela cabeça. E mais um jantar em Achen e um encontro em Bruxelas, momentos irrelevantes que acabam por ser sal e pimenta dos dias. Sabia que estava pior e que o tempo começava a ser finito. Mas nós nunca queremos saber mais do que o que está antes do que não queremos saber. Não sou excepção.

Sorte daqueles que conheceram e privaram com o Mário Bettencourt Resendes. Pobres dos que nunca perceberam o que o distinguia.

E quando o encontrar, quer ele queira ou não, vou tratá-lo como desde sempre: “oh director…”. Foi sempre assim, sempre assim vai ser. Onde quer que esse “vai ser” ganhe vida. Não me enganei: disse vida, sim. Quem fica connosco nunca morre.

01
Ago10

Um livro (fim de episódio...)

Amanhã vou ao correio pôr os últimos 15 envelopes. A ideia de oferecer 20 livros foi. E fico contente por ter ido. Muito contente.

Perdi a conta no exemplar 80… Entre 80 e 100, foram os que mandei a quem quis receber, desde o dia em que publiquei este post. Agora vou parar. Mesmo que peçam, vou parar – porque também estou, como Portugal inteiro, em regime aparentado a férias, e porque faço questão em oferecer, não quero portes pagos nem envios à cobrança. O “Fumo” teve o seu tempo nas livrarias – se sobraram estes, era porque não havia mais gente para os comprar. Ou a editora não sabia como fazer. Sinceramente, o motivo interessa pouco – é muito mais gratificante publicar um post e receber dezenas de mails e comentários… Para mim, humildemente, foi como se o livro tivesse sido reeditado. Que bom.

Perto do Natal volto a abrir esta caixa do correio “expressa” para o “Fumo”.

Agora vou mergulhar no mar. Sempre por perto.

O blog este ano não fecha para férias.

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Gisela João O doce blog da fadista Gisela João. Além do grafismo simples e claro, bem mais do que apenas uma página promocional sobre a artista. Um pouco mais de futuro neste universo.

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