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Pedro Rolo Duarte

08
Out10

Fenómenos insólitos

Não sou um leitor militante de Mário Vargas Llosa – o livro que dele li do princípio ao fim, com gosto, foi “A Casa Verde” -, mas sinto com o escritor uma afinidade especial.

E tem uma razão. Uma boa razão. Por sugestão do Mário Bettencourt-Resendes (saudades...), o DNA acolheu dez anos a fio a crónica “Pedra de Toque”, que ainda hoje brilha nas páginas do El Pais (e de outros jornais de referência que não se incomodam com crónicas de 7500 caracteres...).

Na verdade, foi como se, durante aquele período, Vargas Llosa fosse colaborador da casa. Falávamos “do” Vargas Llosa como se ele estivesse em Campo de Ourique, sendo certo que nunca trocámos um só mail com o autor. Tudo no domínio virtual do agenciamento.

Quem edita jornais ou revistas percebe o que escrevo. Mas estes são aqueles mistérios, aquelas magias, que nos ligam para sempre ao papel que um dia vimos impresso. E nas mãos dos outros.

06
Out10

6 de Outubro

Não tenho nada contra a monarquia. Gosto da democracia britânica, defendo a Espanha sempre que o “complexo de inferioridade” português se manifesta, e reconheço o sucesso do permanente e – esse sim... – verdadeiro reality-show que constitui, em geral, a casas realeza europeia, dando de comer a uma viçosa imprensa cor-de-rosa, e deixando sonhar uma multidão de plebeus leitores.

Dito isto, não percebo o debate centenário.

A aparente vantagem de um rei – o simbolismo, a permanência, a ideia de continuidade dinástica, o estatuto de isenção e superioridade face à querela partidária – parece-me claramente irrelevante e pouco sedutora face à possibilidade de votar, eleger, e por consequência mudar de Presidente. Ao contrário, estarmos condenados a uma linha sucessória, e a alimentarmos a pão-de-ló uma família sobre a qual ninguém teve voto na matéria, parece-me muito pouco civilizado e, no limite, pouco inteligente. Além da despesa, claro...

Já a discussão sobre a “qualidade” dos regimes do ponto de vista da democracia e da liberdade é obviamente espúria: conhecemos monarquias e republicas, no passado e no presente, de todos os estilos e cores. A nossa I Republica não pode servir de bombo da festa permanente para os monárquicos reclamarem para si o exclusivo da liberdade de expressão.

Ao ver ontem os festejos da Republica já achei que tínhamos salamaleques em dose mais que suficiente. Se fosse com rei, oh meu deus, ainda agora estavam todos nos Paços do Conselho a dizer ámen ao monarca... Felizmente, há Republica. E à noite já tinha passado tudo.

05
Out10

Visto de fora

Parece que houve 1,4 milhões de portugueses que viram a estreia da “Casa dos Segredos” na TVI. Não me surpreende, nem percebo qualquer espanto que o número provoque – desde há dez anos, quando estreou o primeiro Big Brother, que se sabe que os espectadores portugueses não são diferentes dos espectadores dos outros países e gostam de ver este género de programas. 1,4 milhões de espectadores é pouco menos do que os votos do PSD nas ultimas legislativas (1,6 milhões), é mais ou menos a soma dos votos no Bloco de Esquerda, PCP e CDS nesse mesmo acto eleitoral. É quase 60 vezes o número de compradores regulares do Diário de Notícias.

Faço parte desse número, embora só parcialmente, porque entre uma crónica por escrever e os “Ídolos”, acompanhei a “Casa” com menos empenho. Mas ontem voltei a ver no canal que “dá” aquilo em permanência e em directo. Confirmei o que já se podia adivinhar.

A mecânica do jogo sofisticou-se, naturalmente. Há mais elementos de perturbação e conflito, de tensão e competição.

Mas o que mudou mesmo foi a consciência e a percepção do “fenómeno” por parte do “elenco” escolhido para a série. Aquela gente entrou a matar num tudo ou nada de mediatismo. Pareciam candidatos a políticos, autarcas em campanha no Brasil, vendedores de feira.

No primeiro Big Brother, havia espaço para a ingenuidade, a sinceridade, o lado mais pobretanas do concorrente ignorante que não imagina as voltas que a televisão dá à cabeça de quem nela entra e de quem cá fora a vê. Agora, uma década passada, todos os concorrentes sabem ao que vão, sabem rigorosamente o que deles se espera ou o que podem fazer para que deles se espere alguma coisa. São amadores altamente profissionais.

São actores - de vão de escada, ainda assim actores – a desafiar o monstro triturador da televisão. No começo, a guerra era entre os concorrentes e os espectadores. Agora, é entre os concorrentes e a o próprio meio-televisão.

E nós? Nós vamos ver a novela que eles criaram antes de entrarem na casa. Já não a novela da vida real, mas da vida que eles inventaram para ganhar protagonismo.

Não é melhor nem é pior – é apenas o tempo a passar e nós com ele. E afinal de contas, quem quer mesmo saber da realidade?

02
Out10

No Rio de Janeiro, de passagem (II)

Tinha uma memória do Rio de Janeiro que convocava violência, insegurança e indigência. Voltei ao Rio de Janeiro e fiz as pazes com a cidade. Passeei tranquilo, não vivi a ansiedade do passado, e consegui sentar-me na amurada do calçadão sobre a praia sem esperar o momento do assalto mais que certo.

Mas o melhor deste reencontro foi ouvir o mar, na varanda de um 12º andar, num quarto de hotel, como se estivesse com os pés na areia. Uma cidade que dá esse privilégio - essa banda sonora - é uma cidade especial.

01
Out10

No Rio de Janeiro, de passagem (I)

No meio do engarrafamento permanente que liga o Leblon a São Conrado, o taxista, habitante da Rocinha, explica o método da eleição:

- Você vai votar no deputado estadual, no deputado federal, nos senadores, no Governador e no Presidente. Todos os candidatos têm um número. Para não fazer confusão você pega um papel, vai tomando nota do número do corrupto em quem vai votar, e depois é só colocar o voto nos seus corruptos.

Por instantes, pareceu-me não perceber. Mas foram instantes breves – o motorista não chamou “corrupto” a um político, chamou a todos. Como se fosse sinónimo de politico. Sem revolta nem indignação. Conformado.

Acrescentou:

- Na verdade, já sabemos que eles vão lá roubar. Só não queremos que roubem demais. Lula não roubou muito, e fez coisas pelas comunidades. Por isso eu voto na Dilma – no resto voto nulo, não voto corrupto em tudo.

Na camisa do motorista estava bordada uma bandeira do Brasil.

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Blog da semana

Gisela João O doce blog da fadista Gisela João. Além do grafismo simples e claro, bem mais do que apenas uma página promocional sobre a artista. Um pouco mais de futuro neste universo.

Uma boa frase

Opinião Público"Aquilo de que a democracia mais precisa são coisas que cada vez mais escasseiam: tempo, espaço, solidão produtiva, estudo, saber, silêncio, esforço, noção da privacidade e coragem." Pacheco Pereira

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