






Poder combinar logo mas não combinar. Adiar. Assim: “ligo-te para a semana e combinamos almoçar”. Ou: “já te digo qualquer coisa e combinamos”. Ou ainda: “A ver se falamos com calma um dia destes...”
O interlocutor não quer combinar coisa alguma, sabe perfeitamente que não vai ligar nem combinar nem falar, mas não quer fazer figura de desmancha-prazeres. Uma espécie de mensagem no Facebook que procura evita um contacto. Um desviar de olhos.
Tenho uma lista de pessoas a que chamo os “já te ligo”. Os que ficaram de ligar, os que prometeram, os que se desculparam, os que deixaram de precisar mas nunca disseram, os que a qualquer momento voltam como se nada fosse. Enfim, esses.
Vivemos num tempo em que não há desculpas para a ausência de comunicação. Talvez por isso, todos os dias inventamos novos pretextos para continuarmos cada um para seu lado. A ver se falamos um dia destes.
Os jornais online e os militantes das noticias em primeira-mão andam há 3 ou 4 horas a gritar que o iPad começa a ser vendido esta noite em Portugal. Se lessem o Correio da Manhã, saberiam da noticia desde manhãzinha (está na página 48) e até saberiam quem são os "famosos" que se chegam á frente para não pagar o gadjet...
Bom, a propósito do iPad, um anuncio que mão familiar me fez chegar. Muito bom...
Quem me conhece sabe que gosto de comer bem. Que gosto de gastronomia. Que gosto de cozinhar (e tenho a mania que sei...). Não me passa ao lado a diferença entre dois bifes, como distingo o ponto de uma pasta. Ou a presença de flor de aniz num caril. Da mesma forma, sei por que raio me falhou um cabrito assado no forno. Ou uma açorda. Ou porque me espalho sempre com os pastéis de bacalhau. Sei. Digo eu, claro.
Este intróito vaidoso serve para dizer que noto, com satisfação, que Lisboa se tornou uma cidade mais próxima de Nova York do que de Madrid: o número de restaurantes que abriu em 2010, na escala e proporção da cidade – seja no tamanho, no rendimento, ou na condição económica... – é brutal e indicia tudo menos crise.
(Ou talvez não: foi nos momentos críticos da vida americana do século XX que mais se desenvolveu a indústria do entretenimento... Talvez pudesse ir por aí.)
Mas isso agora não interessa nada. O que interessa é que, apesar de ainda não conhecer a maioria dos novos restaurantes, ontem, numa sincera homenagem à ideia “só gosto do que já conheço”, voltei ao Painel de Alcântara para o clássico Cozido à Portuguesa de sábado. Há o de quarta, que foi quando tudo começou. Mas fiquemos assim, por este.
Não há nada melhor que voltar a uma casa que se conhece de longe. O cozido, apesar da multiplicação de comensais, não mudou. Continua a ter tudo - e tudo continua bom, com ressalva ligeira para o arroz, que veio espapaçado, mas teve desculpa porque eram três da tarde...
O serviço, que sempre foi simpático sem ser perfeito, está igual. E confesso que só por vergonha não fui reler o artigo emoldurado na parede (publicado na “Preguiça”, de O Independente), assinado por Pedro Mana, o meu heterónimo naquela revista que o Miguel criou e dirigiu.
Tenho a certeza de que dizia bem. Mas não sei se está lá escrito o essencial. Fica aqui: voltar a uma casa como o Painel de Alcântara e encontrar tudo como estava há mais de dez anos, não é obra. É milagre. Pelo menos, é o melhor que pode encontrar quem nunca procurou mais do que isso.
Os novos restaurantes podem esperar.
(Texto originalmente publicado no blog Delito de Opinião, a convite do Pedro Correia)
Há uns anos, ao balcão de um conhecido restaurante lisboeta, debatia com o empregado a essência da democracia. Ele saudava – com saudade e em saudação... – Oliveira Salazar, e afirmava que os melhores anos da sua vida tinham sido passados sob a ditadura.
Eu tentava explicar-lhe as vantagens da democracia: o direito de voto, a liberdade de expressão, a fiscalização permanente do poder.
Em vão. À liberdade de expressão, respondeu-me: “de que me serve poder gritar se não tiver o que comer e por isso nem força terei para gritar?”. Ao direito de voto, disparou: “de que me serve votar, se ganham sempre os mesmos desde 1974? Ao menos com o Salazar não havia ilusões de mudança”. E à fiscalização do poder, foi claro na resposta: “quando alguém percebe o erro que eles cometeram ou os abusos praticados, já eles estão longe a administrar empresas privadas ou mesmo públicas...”.
Na simplicidade da argumentação, aquele homem calou-me. Era impossível dar-lhe razão, mas era ainda mais difícil rebater a argumentação.
Tenho-me lembrado dele nestes dias de crise. Nestes dias em que de nada serve a liberdade de gritarmos contra o sistema, de pouco serviu a presumível fiscalização do poder que nos cabe, nestes dias em que está à vista o que do nosso voto foi feito.
No caldo que está criado para desacreditar o sistema, abrem-se as bolhas da intolerância que resultam nos raciocínios simples, lineares, difíceis de rebater. Quando a democracia não responde por si, naturalmente, a quem dela duvida, quem por ela pode responder que não seja ditadura? Foi aqui que chegámos. É aqui que estamos. De uma vez por todas, alguém que nos grite o essencial: que este é o pior dos regimes, com a excepção de todos os outros. É por isso que clamam os democratas. É por isso que clamo e reclamo. Mas também é isso que, como o empregado salazarista do restaurante que frequento, começo a precisar que me provem. Já não chega acreditar.