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Pedro Rolo Duarte

31
Dez10

Blog do ano (pelo menos para mim...)

... E por fim, o meu blog do ano 2010. Desde 2006 que na Janela Indiscreta da Antena 1 escolho aquele a que chamo “blog do ano”. A expressão é exagerada – para cada ano, haveria umas largas dezenas que mereceriam o falso prémio -, mas optei por assumir essa escolha, de acordo com a própria coerência da crónica diária que faço na rádio. Olhando para os anos que passaram, e vendo blogues que foram “premiados”, como A Causa Foi Modificada, Ouriquense, Ardeu a Padaria, reconheço que a minha escolha foi sempre o resultado do talento especial do seu autor, da escrita, das ideias. Sendo na origem uma plataforma de texto, o universo dos blogues empurrou-me para os novos talentos da escrita. E bem.

Mas, este ano, a coisa não seguiu o mesmo caminho. Em 2010, juntei criatividade e a situação de Portugal, sem pensar muito na qualidade do texto. O resultado deu crise, claro, falta de dinheiro, e uma rapariga que deu a volta a isso. Assim:  “I have a dream que, para já, passa por Bruges, mais concretamente pelo College of Europe. Acontece que um Master of Arts (...) é coisa para me deixar penhorada por sete gerações. Ora como eu não tenho onde cair morta e estou longe de vir a herdar o que quer que seja, não me resta outra alternativa que não seja vender o recheio da casa. Quem quiser ajudar, basta divulgar”.

Nasceu desta forma o blog Take Us to Bruges, uma ideia de Maria, que quis financiar o mestrado começando por leiloar o seu próprio espólio e aceitando quem tivesse coisas de que se quisesse desfazer: “Para além de livros, cds, colchas bordadas à mão, carteiras, tachos quase a estrear, serviços de loiça, cristais e porcelanas, isto vai começar a parecer a Feira do Relógio. Preços amigos do cliente, artigos em belíssimas condições”.

Estamos perante um blog que não é mais do que um leilão privado para financiar os estudos de Maria. E o sucesso tem crescido, com ramificações ao facebook, ao twitter, e com a actualização regular do balanço de compras e vendas.

Tudo em nome de um sonho. Escreve a Maria: “Explicar a razão de ser de um sonho que acalentamos desde criança é quase tão complicado quanto explicarmos a essência de que somos feitos. Eu nunca quis ser polícia, artista de circo, super-herói. Nunca partilhei as vocações dos outros meninos porque eu, desde que me lembro se ser gente, que digo que quero correr o mundo. É este o meu sonho: correr o mundo. (...) Toda a formação, todo o dinheiro, todo o tempo, o melhor de mim, mesmo nos momentos em que parece que nada faz sentido e em que equacionamos se não seria mais fácil, menos duro, sonhar outra coisa qualquer. O meu sonho tem um nome. Chama-se ONU e um dia, um dia, eu hei-de cumpri-lo…”

Ou seja, Maria quer um dia ser voluntária. E vai ser. Seguramente que sim: demonstra tenacidade, ousadia, coragem - e humor, que também faz falta para que o difícil se torne mais fácil. O seu mestrado é parte de um caminho que ela partilha com os seus leitores, a um tempo também mecenas e patrocinadores. A sinceridade nas intenções e um despojamento na forma são absolutamente irresistíveis e contribuíram para esta escolha do ano – afinal, uma forma de incentivar quem, por estes dias, sinta o aperto da crise. Há sempre um caminho, há sempre uma alternativa: a Maria criou este. Outras ideias haverá por aí.

Do que falo neste blog do ano é disso mesmo: de continuar a fazer do mundo dos blogues o epicentro de um terramoto permanente de ideias, criatividade, inovação. Quem quiser, que se chegue à frente. E sonhe com um 2011 diferente. A Maria fez do seu 2010 algo efectivamente novo. Não podia ser melhor.

29
Dez10

Blogues da Semana 2010 (III)

Na Janela Indiscreta, crónica diária que assino na Antena 1 e que pretende ser uma revista dos acontecimentos de cada dia através dos olhares do mundo dos blogues, escolho todas as sextas-feiras um “blog da semana”. Os critérios desta escolha são múltiplos: criatividade, inovação, temáticas fora do comum, temáticas especializadas relacionadas com a actualidade. No fundo, uma vez por semana tento sair fora do registo diário das notícias. Estou a deixar aqui a lista dos blogues da semana de 2010. Termina hoje a maratona... Uma espécie de balanço, se quiserem. É provável que faltem algumas escolhas, daquelas que possa ter escrito num computador emprestado e que a minha desorganização organizada não registou. Mas penso que estão quase todos...

 

Portugal a Pé, do jornalista Nuno Ferreira, que nos últimos anos correu Portugal de Norte a Sul. Sempre a pé.

 

António Boronha, o blog sobre futebol do ex-vice-presidente da Federação Portuguesa de Futebol. Sem papas na língua.

 

Posts de Pescada, um blog de estudantes de Coimbra que reflecte as suas preocupações, anseios, gostos, desgostos.

Hospedaria Camões, um blog que soma poesia de todas as origens, sempre portuguesa

 

Risco Continuo, onde Pedro Quartin Graça elogia e destaca os melhores “Portugueses por esse mundo”

 

As penas do Flamingo, blog de Luís Naves, do Diário de Notícias, e João Vilallobos. Ambos dão largas aqui às suas veias poéticas, de ficcionistas, de escritores.

 

Da Ultima Fila, um blog colectivo de um quarteto afinado: Cecília Meireles Graça, Filipe Lobo d´Ávila, João Pinho de Almeida e Michael Seufert. Os novos deputados do CDS/PP

Era uma vez na América, um blog dedicado à “politica e cultura nos Estados Unidos”.

 

Centenário da Republica, um blog monárquico no ano da Republica.

 

Todos Pela Liberdade, um blog politico debaixo do chapéu destas ideias: “O primeiro-ministro de Portugal tem sérias dificuldades em lidar com a diferença de opinião”

 

O Canto de Brel, o blog de Sérgio Paixão que relata a passagem de Jacques Brel pelos Açores

 

Sola Gasta, um blog dedicado a percursos pedestres.

 

Notas do Campo, o bloco de notas de Luis Quinta, um especialista em fotografia subaquática e também em fotografia do mundo selvagem.

28
Dez10

Blogues da Semana 2010 (II)

Na Janela Indiscreta, crónica diária que assino na Antena 1 e que pretende ser uma revista dos acontecimentos de cada dia através dos olhares do mundo dos blogues, escolho todas as sextas-feiras um “blog da semana”. Os critérios desta escolha são múltiplos: criatividade, inovação, temáticas fora do comum, temáticas especializadas relacionadas com a actualidade. No fundo, uma vez por semana tento sair fora do registo diário das notícias. Estou a deixar aqui a lista dos blogues da semana de 2010. Uma espécie de balanço, se quiserem. É provável que faltem algumas escolhas, daquelas que possa ter escrito num computador emprestado e que a minha desorganização organizada não registou. Mas penso que estão quase todos...

 

Caminhos de Ferro, Vale de Fumaça, um blog sobre comboios, amantes dos comboios, coleccionadores de comboios.

 

Dias com Mafalda, o blog da chef de cozinha Mafalda Pinto Leite

 

Luis Henrique Pereira, o blog do jornalista da RTP com o mesmo nome, especializado em vida selvagem e natureza.

 

António Lobo Antunes, blog “para a divulgação na internet do percurso literário do escritor português António Lobo Antunes”.

 

A cinemateca deu cabo de mim, blog da “cinefilia no sentido mais sujo do termo”.

 

My Artwork, blog de uma “fashionista a tempo inteiro na confecção de roupa por medida, - personal styling, - personal shopping - closet makeover”

 

Combate Desigual, “Blogue Oficial de Apoio à Recandidatura de António Marinho e Pinto a Bastonário da Ordem dos Advogados”.

 

Take us to Bruges, o blog de Maria, que teve um sonho: um “Master of Arts em Relações Internacionais e estudos diplomáticos”. O que ela criou: um blog para gerar dinheiro que lhe permita pagar o seu mestrado...

 

Desenhos do Dia, blog do urban sketcher Pedro Catarino

 

U2Only, o mais antigo blog português exclusivamente dedicado à banda irlandesa U2

 

A Devida Comédia, blog do jornalista Miguel Carvalho

Rita na China, o diário de uma jovem portuguesa que foi viver um ano para a China.

 

Coração Duplo, blog da jornalista e escritora Filipa Melo que se propõe partilhar um livro por dia, uma recensão ou um artigo, um autor.

 

O Senhor do Adeus, blog sobre cinema de João Manuel Serra, o homem que ficou conhecido por cumprimentar toda a gente que, todas as noites, passava na zona do Saldanha ou na Fontes Pereira de Melo, em Lisboa e que morreu no Outono de 2010.

27
Dez10

Blogues da semana 2010 (I)

Na Janela Indiscreta, crónica diária que assino na Antena 1 e que pretende ser uma revista dos acontecimentos de cada dia através dos olhares do mundo dos blogues, escolho todas as sextas-feiras um “blog da semana”. Os critérios desta escolha são múltiplos: criatividade, inovação, temáticas fora do comum, temáticas especializadas relacionadas com a actualidade. No fundo, uma vez por semana tento sair fora do registo diário das notícias. Nos próximos dias, vou deixar aqui a lista dos blogues da semana de 2010. Uma espécie de balanço, se quiserem. É provável que faltem algumas escolhas, daquelas que possa ter escrito num computador emprestado e que a minha desorganização organizada não registou. Mas penso que estão quase todas...

 

Pssht..ó menina!, “as aventuras de uma empregada de mesa” de um restaurante no Chiado.

 

A Douta Ignorância, Bruno Vieira Amaral, Rui Passos Rocha e Tiago Moreira Ramalho num blog de boa actualidade.

 

Pedro Lains, um blog “quase” académico sobre economia e politica económica.

 

7 Cronistas Crónicos, brasileiros e portugueses unidos pela língua. Sem acordo ortográfico. Mas, como diz a canção, com açúcar e com afecto.

 

Maria Alberta Menéres, o blog de uma escritora de sempre.

 

Brigada do Mar, um blog que quer limpar os areais e dunas de boa parte da Costa Alentejana

 

Horas Extraordinárias, o blog da editora e escritora Maria do Rosário Pedreira

 

Riacho, “um espaço de encontro e reflexão entre cristãos homossexuais”

 

Transatlântico, o blog pessoal e profissional do jornalista e escritor Paulo Nogueira

 

O homem que queria ser Luís Filipe Cristóvão, o blog de...  Luís Filipe Cristóvão, poeta, especialista em literatura, amante de futebol.

24
Dez10

Natal (com o sorriso irónico que Millôr convoca...)

Este ano fui pelo humor, depois de tropeçar, aqui, num “Poemeu de Natal” de mestre Millôr Fernandes, que até há pouco tempo ia lendo (e com ele sorrindo...) na Veja, e que sempre me consegue surpreender. Aqui fica, como se fosse um cartão de Natal para quem passa por aqui...

 

No Rio a gente sensata
Lutou por uma figueira
Mas não vi um democrata
Sair de sua banheira
Pra ver a causa mortal
Da árvore de Natal.

 

Dava bolas, não se lembram?
Dava velas multicores
Que iluminavam, na sala,
Uma breve noite sem dores.
Ainda existem, mas poucas;
Foram sendo destruídas
Pelo atrito entre as vidas
Foram sendo desprezadas
Pelas relações iradas.
E além disso, que má fé,
Eram banhadas apenas
Com lágrimas de jacaré.
Embora, entrando pelo tubo,
O povo, a todo momento,
Não lhe poupasse adubo;
Bosta de ressentimento.

Mas será que interessa
Em nome de uns inocentes
Crescer árvores inventadas
Pela imaginação das gentes
Sem utilidade prática
Frutificando presentes
(Que brotavam das raízes)
Só pra pessoas felizes?;
Nunca vi martelo ou pua
Ou uma colher de pedreiro
Frutificar nessa árvore
Fosfatada com dinheiro.

Era uma coisa maldita
Pois a praga da aflição
Crescia mais do que ela
E sem darmos atenção
Foram-se acabando as mudas
Não houve renovação
E cercada de fome e medo
Morreu toda a plantação.
Pode ser, eu não sei não,
Pois há ainda outra versão;
Ante a violência urbana
A árvore ficou tristonha
E como não era humana
Morreu mesmo é de vergonha.

Contudo, sou da esperança,
Do "quem espera sempre alcança"
E por isso deixo aqui
Meu voto de confiança
O meu apelo final
À árvore de Natal:
Mais popular, mais comum,
Quero ver-te renascer
Para que, em oitenta e um,
Possam os pobres te comer.

18
Dez10

Uma bateria pela cabeça abaixo

(Crónica originalmente escrita para a revista Lux Woman)

 

Confesso: gosto de ver os “Ídolos”. Nunca fui grande admirador deste tipo de programas, mas deixei-me “agarrar” pela última edição do concurso e fiquei “freguês”. Vejo aqueles miúdos sofrerem as passas do Algarve para conseguir um lugar ao sol – e inevitavelmente lembro um passado não muito distante em que uma “oportunidade” para brilhar na música era quase sempre fruto de um acaso, de loucura, ou de uma boa família. Pontualmente, lembro-me de mim...

Embora seja verdade que sempre tenha querido ser jornalista, ver os “Ídolos” devolveu-me um curto período da minha infância em que o meu coração balançou... Foi um balanço curto, mas intenso, que me levou a admitir a hipótese de um percurso na música. Sim, na música. Era ainda o tempo da televisão a preto e branco e do Festival da Canção.

Tudo começou com o convite para participar numa banda infantil, a Família Pituxa, integrado na qual gravei um single com quatro canções de Natal. Lembro-me de achar gigantescos os estúdios da Valentim de Carvalho. Nunca me senti artista ou sequer revelação – e depois dessa experiência não aconteceu nada: eu permaneci na escola, a aprender a ler e a escrever. E fiz bem.

Sucede que as gravações do disco decorreram em Outubro, mês em que tinha uma das mais agradáveis “tarefas” do ano: escolher, de um enorme catálogo de brinquedos, aquele que seria o presente de Natal que a empresa onde o meu pai trabalhava me iria oferecer, no decorrer da festa sumptuosa que juntava todos os trabalhadores e seus filhos no “falecido” teatro Monumental.

Naquele ano, entusiasmado com a Família Pituxa e os instrumentos que repousavam nos estúdios onde gravámos o disco, escolhi uma bateria como presente de Natal. Não era uma bateria profissional, mas era ainda assim muito próxima das “verdadeiras”. Montava-se peça a peça e era maior do que eu. O som assemelhava-se à de uma bateria “a sério”. Quando a recebi, decidi unilateralmente montá-la na sala, ao lado da televisão. Presumi que toda a família quereria ouvir a performance de um futuro artista. Como os meus pais tinham uma vida profissional muito ocupada, nem se aperceberam do que poderia significar a mistura explosiva de uma bateria com uma criança numa sala de estar...

É claro que ao segundo dia a minha irmã se fechou no quarto para não me ouvir, o gato Nabiça escondeu-se na varanda, e o meu irmão ameaçou radicalizar a resposta ao chinfrim. Não era preciso ser astrólogo para adivinhar que o “concerto”, mais cedo ou mais tarde, iria dar para o torto.

Deu mesmo. Numa bela tarde, a escassos dias de Natal, depois de avisar inúmeras vezes, o meu irmão cumpriu a ameaça: desmanchou a bateria e enfiou-me pela cabeça abaixo, um a um, os bombos, a tarola, enfim, tudo o que era passível de ser destruído sem danos maiores para o meu físico. O ataque de choro foi inevitável, a tristeza infinita, e a respectiva queixa à autoridade paternal, que lá arranjou forma de minimizar os danos com qualquer outro presente.

Para mim, foi o trauma – e o fim de uma eventual carreira no mundo da música. Quase todos os anos, lá em casa, na noite de Natal, recorda-se o episódio. Geralmente rio-me e não digo nada – mas para os meus botões penso como os tempos eram outros: se fosse hoje, bem podiam enfiar-me a bateria pela cabeça abaixo... Entre os Ídolos e a Operação Triunfo, ninguém travaria a minha vontade. E quem sabe não estaria agora a ensaiar para um Coliseu ou um Pavilhão Atlântico...

16
Dez10

O meu último encontro com o Carlos

Não vou dizer nada a mais. Vou reproduzir, na integra, o post aqui publicado no dia 29 de Maio de 2008, sob o titulo Coisas Fantásticas. Foi a ultima vez que estive com o Carlos Pinto Coelho. De quem vou ter tantas saudades. De quem neste momento não consigo mais do que lembrar este ultimo encontro – mas sobre quem prometo, um destes dias, doces memórias e mais um abraço...

 

“Vim a Beja fazer dois em um: cumprir a promessa de uma conversa na Rádio Pax com Madalena Palma, e participar no “Acontece” ao vivo que Carlos Pinto Coelho promove, aqui na Biblioteca Municipal, uma vez por mês. O Carlos é um dos meus queridos padrinhos – responsável pela minha estreia televisiva nos idos de 80 (foi há mais de vinte, é verdade), acreditou neste puto num tempo em que obviamente não sabia do que era capaz. Nunca esquecerei a sua generosidade. De resto, o amor que tem a esta profissão, além da competência e de tudo o que lhe deu, mereceriam por si um blog inteiro... Um dia, a RTP ainda vai ter de lhe reparar a injustiça cometida há uns anos. Mas isso é outra conversa.

Beja, portanto.

O que retenho deste raid alentejano a meio da semana são estas três notas:

Primeira. Medeiros Ferreira, um dos convidados deste “Acontece”, é um deslumbrante contador de histórias. Se os Bichos-Carpinteiros revelaram o talentoso afiador de facas – neste caso, frases curtas e certeiras -, a noite de Beja mostrou um finíssimo contador de histórias, a começar mesmo pela história do seu envolvimento no mundo dos blogues, e a acabar nas memórias açorianas que começam e não terminam. Não vou contar nada do que ele desfiou, publica e privadamente, pois o jeito é só dele. Mas tive vontade de sair discretamente do palco e ir para a plateia, ficar o resto da noite a ouvi-lo.

Segunda. Há muito tempo que não sentia prazer numa conversa de rádio em que eu não sou o moderador/entrevistador/autor. Estar do outro lado e responder ao desafio, contar a historieta, deixar correr a conversa. Ou apenas responder à pergunta que nos fazem. Madalena mostrou-se uma excelente radialista, das que sabe levar a água ao seu moinho - com essencial preparação prévia, e um olhar ameno e um ambiente descontraído que deixa o convidado de guardas naturalmente descobertas. Aprendi algo mais sobre este ofício ali, durante 45 minutos, na Rádio Pax. O tempo voou, o que só acontece quando quem sabe o põe a voar. A Madalena sabe. Eu não a conhecia antes.

Terceira. Por mais redes sociais, blogues e sites, portais e virtualidades de toda a espécie que continuemos a inventar por essa Internet fora, estar ali, “ao vivo e a cores”, na Biblioteca Municipal de Beja, a conversar com 40 ou 50 pessoas, ouvir uma mulher de certa idade desabafar os seus medos em relação ao computador depois de uma vida inteira como dactilógrafa, olhar nos olhos dos outros, e ouvir rir, perceber o fastio de quem sentiu que veio ao engano, ou a surpresa de quem descobriu algo, bom… A vida real, sem ecrãs nem @ nem dot.com, aquela que tem carne e osso e pele, merece eternamente a exclamação interrogativa do anuncio: há coisas fantásticas, não há?”

14
Dez10

O poder da anarquia

O “aparecimento” do site Wikileaks parece ter reaberto o debate sobre o que é o jornalismo nos tempos que correm. Como se antes d0 Wikileaks não tivesse havido “garganta funda”, como se aquilo a que gostamos de chamar “jornalismo de investigação” não fosse, em si, uma espécie de Wikileaks com outros Assanges – e, por fim, mas não menos importante, como se o jornalismo que hoje se pratica fosse efectivamente feito por jornalistas.

Não é demais lembrar que restam já poucas notícias que os jornalistas descubram, testemunhem, possam provar. Exceptuando as honrosas ilhas de reportagem que ainda se encontram por aí – na verdade, quase sempre no Público e no Expresso, para falar apenas da imprensa portuguesa -, a maioria do noticiário que lemos foi previamente filtrado, trabalhado, burilado, e meticulosamente distribuído a partir de centrais de informação, agências de comunicação, gabinetes de relações com a imprensa, assessores, gabinetes ministeriais, empresas, agentes e representantes de protagonistas. Em cada ministério há um Wikileaks, em cada empresa há um Wikileaks, em cada partido há um Wikileaks. Juntos, todos estes “focos de informação” criam uma agenda que condiciona toda a imprensa. Até na contra-informação e na denúncia há sempre uma estratégia montada por Assanges assalariados...

A diferença entre estes e o verdadeiro Julian Assange é o que separa a organização da anarquia. O carácter aparentemente livre, anárquico e caótico do site que anda nas bocas do mundo muda o paradigma da fonte-de-informação-que-é-parte-interessada-na-matéria.

Enquanto dos Wikileaks “legalmente estabelecidos” nós já sabemos que informação vem e que interesses serve, e não contamos com outra, nem esperamos bombas atómicas, do original pode vir tudo, nada, ou assim-assim.

É num enredado universo de interesses que subitamente sucede o inesperado: informação em bruto, livre de interesses e independente de um qualquer poder. É isso que incomoda meio mundo: a falta de controlo, não se perceber o objectivo – ou sequer se há um objectivo -, não se saber “de que lado” está, ou sequer se está de algum lado.

Nunca me canso de citar o exemplo daquele assessor que telefonava aos jornalistas e começava o seu discurso sempre com a mesma frase: “tenho uma excelente noticia para ti”. Na verdade, era uma excelente noticia para aquele a quem o assessor servia, mas a óptica enviesada de quem “dá” noticias é a de que o jornalista “lucra” com a informação.

Não sabermos para quem são “excelentes” as noticias que Julian Assange tem revelado (ou sequer se existe alguém...), é fascinante e novo - mas baralha e confunde a ordem estabelecida. E isso também diz muito do estado a que o jornalismo chegou.

12
Dez10

Cavaco, afinal, vive em Portugal

Leio no Correio da Manhã: «O Presidente da República, Cavaco Silva, considerou que os portugueses têm de se sentir “envergonhados” por existirem em Portugal pessoas com fome, um “flagelo” que se tem propagado pelos mais desfavorecidos de forma “envergonhada e silenciosa”».

Envergonhados, nós? Porquê? E ele, não? Como?

Confesso que o que verdadeiramente me envergonha é verificar que esta frase foi dita pelo mesmo político que foi Ministro das Finanças e do Plano do VI Governo (1980-81), Presidente do Conselho Nacional do Plano, Primeiro-ministro durante dez anos (X, XI e XII Governos, 1985-1995), Presidente da Republica desde 2005, candidato a Presidente da Republica em 2011.

Acordou hoje para o país que tem directa e/ou indirectamente governado desde há 30 anos?

Achará que os portugueses são atrasados mentais ao ponto de o excluírem do Portugal que vivemos em 2010?

Ou a fome chegou a Portugal na semana passada?

Estava capaz de votar Cavaco depois de ler Vasco Pulido Valente, no Público de sexta-feira, explicar o que ele fará logo que for reeleito - mas depois de mais este tiro no pé, qual bolo-rei mal mastigado na boca, tenho a certeza que não consigo. Mesmo.

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Blog da semana

O Diplomata. Dez anos de blog é obra. Alexandre Guerra festeja, e com razão, um espaço de reflexão, análise e opinião do mundo político internacional. Merece o bolo.

Uma boa frase

“Se isto fosse no tempo do Sócrates, a esta hora o Trump já tinha em cima da mesa uma proposta da Mota-Engil para a construção do muro. Com financiamento do BES e projecto do Siza Vieira." Rui Rocha, Delito de Opinião

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