Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Pedro Rolo Duarte

18
Mar11

A mesma Mafalda Veiga, mas outra

 

Há um qualquer preconceito, que não consigo perceber, sobre a pessoa e a obra da Mafalda Veiga. A “intelligentsia” da música prefere menosprezar ou ignorar os seus discos, e o enorme sucesso que tem, a dar-lhe a atenção que merece. O facto é que é muito menos frequente nos jornais do que o seu êxito presumiria. Não faço parte dessa “nuvem” que, felizmente, cada vez conta menos para a existência dos artistas, e sempre gostei do trabalho, do estilo, e do universo da Mafalda.

Ela é uma verdadeira songwriter – tendo embora algumas fragilidades na sucessão temática das letras -, e é uma aplicada cantora e compositora. Cada disco dela é um exemplo de trabalho, empenho, rigor, paixão. Tem uma carreira consistente, um publico fiel, e por isso pode dar-se ao luxo de não ousar nada.

Mas a Mafalda é realmente muito melhor do que se julga. E este ano decidiu arriscar, fazendo o que chamou um “Zoom” sobre as canções. Recuperou alguns temas perdidos do passado, reescreveu temas clássicos e, com a ajuda de Filipe Raposo, concebeu um espectáculo que mistura temas escondidos de álbuns antigos com sucessos recentes totalmente reinventados. Nuns casos, mais electrónicos, noutros praticamente despidos até ao osso na sua pura simplicidade. Em palco, juntou à música meia-duzia de vídeos e um jogo de luz original.

O resultado, que vi ontem à noite no Casino Lisboa, é deslumbrante. Porque a Mafalda não perdeu a sua espontaneidade, nem aquela atitude genuína que se lhe reconhece. As canções são, também, as suas canções de sempre. Mas na verdade o espectáculo é uma finíssima mistura de tudo o que lhe conhecemos multiplicado pelo potencial criativo das próprias canções. Não sei como explicar melhor. Cada canção parecia uma nova canção criada sem chegar a congelar a antiga. Como se pudesse haver dois temas num só, e ambos serem bons e eficazes. Acho que ainda não absorvi bem o que vi.

Por isso, talvez apenas dizer: a Mafalda nunca enganou. Mas desta vez foi mais longe e decidiu surpreender. Já lhe disse que quero um CD com esta Mafalda, que é outra sem deixar de ser a mesma.

16
Mar11

O meu Manifesto

Agora, que parece mais ou menos evidente que vamos ter eleições a prazo, também tenho um pequeno manifesto, mesmo sem página própria no Facebook. O meu manifesto é simples.

Gostava que:

Vós, desempregados, não se esquecessem de ir votar.

Vós, “quinhentoseuristas” e outros mal remunerados, não se esquecessem de ir votar.

Vós, escravos disfarçados, não se esquecessem de ir votar.

Vós, subcontratados, não se esquecessem de ir votar.

Vós, contratados a prazo, não se esquecessem de ir votar.

Vós, falsos trabalhadores independentes, não se esquecessem de ir votar.

Vós, trabalhadores intermitentes, não se esquecessem de ir votar.

Vós, estagiários, bolseiros, trabalhadores-estudantes, estudantes, mães, pais e filhos de Portugal, não se esquecessem de ir votar.

Vós, que protestaram “para que todos os responsáveis pela nossa actual situação de incerteza – políticos, empregadores – actuem em conjunto para uma alteração rápida desta realidade, que se tornou insustentável”, não se esquecessem de ir votar

Vós, que constituem “a geração com o maior nível de formação na história do país”, não se esquecessem de ir votar.

Vós, que não se deixam “abater pelo cansaço, nem pela frustração, nem pela falta de perspectivas”, não se esquecessem de ir votar.

Vós, que têm “os recursos e as ferramentas para dar um futuro melhor a nós mesmos e a Portugal”, não se esquecessem de ir votar.

Vós, que não protestam “contra as outras gerações”, apenas não estão, nem querem estar, “à espera que os problemas se resolvam” e protestam “por uma solução” e querem “ser parte dela”, não se esquecessem de ir votar.

Porque, na verdade, a maioria de vós veio para a rua protestar – e ainda bem -, mas não pode esquecer que tem nas mãos o mais poderoso instrumento de mudança que a democracia participativa oferece: o voto. Nos partidos que existem, nos que mal existem, nos que tentam existir ou naqueles que todos podem criar. A essência do regime passa pelo voto – e agora, que parece evidente o horizonte, vamos todos querer ver até onde vai o protesto que aplaudimos. Não há direitos sem deveres, não há deve sem haver.

 

 

PS – Sei que, em bom português, era mais “esquecêsseis” – mas para manifesto deu-me mais jeito assim. Assim ficou.

14
Mar11

Regresso às eternas “Águas”

 

 

Provavelmente, já postei este vídeo. É bem possível. O problema é que volto a ele com metódica regularidade - e desta vez estamos em Março, o que me permite ter desculpa e pretexto.

Volto a este vídeo e rendo-me sempre às mesmas evidências: o que se adivinha no sorriso desmanchado em riso de Elis, o que se percebe no tom paternal mas respeitoso (e claramente admirador...) de Tom Jobim; a forma suave, ligeira, natural, com que se juntam frente a um microfone e cantam “Águas de Março”, como se não tivessem feito outra coisa toda a vida. É um monumento à música e à sua essência.

A canção é genial, uma das três ou quatro bandeiras da Música Popular Brasileira. Elis Regina é, para mim, a mais notável das intérpretes - a que se dá no palco mais do que recebe, a que parece feita para as canções e por elas feita, a que nunca mente, a que nunca finge - mesmo que um espectáculo seja, em si, um fingimento. Tom Jobim é um maestro que concilia a função com a autoria, e ainda canta – prodigioso homem que está sempre para lá de si próprio, e que foi capaz de criar canções como esta.

Juntos, Elis e Tom tinham tudo para dar certo como esta canção acerta. Mas há mais, e é nesse mais que me comovo e derreto: a simplicidade com que se filma e se apresenta. O despojamento. A verdade. A origem – porque na verdade esta canção está na origem de si própria nesta interpretação dos dois. Como se tivesse voltado a nascer.

Não há efeitos nem estrelinhas nem câmaras aos saltos e “TV em movimento”. Não há mais nada senão o olhar. Porque tudo o que há para ver e ouvir chega e sobra. Não são precisos efeitos nem enfeites. Não é preciso mais nada.

E sempre que tropeço neste vídeo, penso nas raras canções e nos raros intérpretes que, assim, simplesmente, não precisam de mais nada senão deles próprios.

... Quem diz canções e intérpretes que não precisam de mais nada senão deles próprios, diz tudo e mais umas botas. É disso que sinto falta.

13
Mar11

Aritmética domingueira e amanhã é segunda-feira

A ser verdade - e as imagens não mentem... – que a manifestação de Lisboa, ontem, ultrapassou as 200 mil presenças entre a Avenida e o Rossio, podemos afirmar que ela juntou TODOS os que votaram PS, PSD, CDS e PPM nas últimas autárquicas do concelho capital, ou mais do que, nas legislativas de 2009, a soma de votos entre PS e PSD no mesmo concelho.

Haverá sempre quem venha dizer que foi tudo “manipulado” pelo Bloco ou pelo PC. Mas também nesse domínio as imagens eram estupidamente claras: bastava ver os cartazes, ouvir as pessoas, sentir aquele caos, para perceber que se estava perante um “ajuntamento” quase espontâneo de pessoas pura e simplesmente fartas do estado das coisas.

Um primeiro-ministro de um país civilizado – ou um primeiro-ministro civilizado, apenas – olharia para este momento com apreensão. Talvez caísse em si. Talvez percebesse que o seu tempo tinha chegado ao fim.

Em boa verdade, num país civilizado já teria ido para casa antes, só com o numero de escândalos que estão nos arquivos dos jornais, dos submarinos ao “jamais!”, do inglês técnico ao sucateiro Godinho, da licenciatura ao domingo até ao caso PT/TVI.

Mas pronto, cada PIG tem o Berlusconi que merece. O nosso é este, que paternalmente se mostrou compreensivo com o protesto “dos jovens”, imitando Cavaco Silva naquela atitude do “não tenho nada a ver com isto, eu até ía a caminho da missa”...

Já passou a manif. Amanhã é segunda-feira. A normalidade tomará conta do país. O que fica deste sábado é a pontuação que faltava ao texto: já se sabia que o tempo de José Sócrates tinha terminado, agora temos a certeza. Mas não contemos com surpresas: ele fará de conta que não percebeu, e manterá o registo do Portugal vítima da crise dos outros. Vai ser assim até ao cair do pano.  Ou até à falência final do país, que deve ir dar ao mesmo.

 

Adenda - leitor atento chamou-me a atenção: os submarinos não são assunto de José Sócrates. Tem razão. Onde se lê submarinos, leia-se agora blindados da PSP... Cada Governo com o seu equipamento próprio :-)

12
Mar11

... E por fim, uma frase mais pensada

“Heresia é apenas um outro nome para a liberdade de pensamento”.

Graham Greene

 

(Também roubada do fabuloso “O Melhor do Mau Humor”, livro onde Ruy Castro juntou algumas das citações e dos aforismos mais venenosos e desconcertantes de sempre)

12
Mar11

Uma inspiração para o dia de hoje, e uma graçola a propósito

“Uma seita ou um partido político é apenas um eufemismo elegante para poupar um homem do vexame de pensar”.

Ralph Waldo Emerson

 

“Uma das poucas vantagens de ser pobre é que sai muito mais em conta”.

Anónimo

 

(Roubadas do fabuloso “O Melhor do Mau Humor”, livro onde Ruy Castro juntou algumas das citações e dos aforismos mais venenosos e desconcertantes de sempre)

10
Mar11

O protesto de sábado

Tem sido fácil, a quem quer confundir a opinião publica, misturar no mesmo saco diversos protestos que andam por aí a circular nas redes sociais e que convergem numa espécie de “contra tudo e contra todos”, que parece não ter sentido e ser apenas um aproveitamento espúrio do espírito de frustração e crise que atravessa Portugal. Realmente, a confusão está estabelecida – e dá imenso jeito, a quem não quer ver, poder atirar areia para os olhos do cidadão comum usando esta caldeirada de petições.

Mas, por uma vez, podemos ser sérios? Podemos. Quem se der ao trabalho de ir ver este blog, que é o espaço oficial do movimento que desencadeia a manifestação do próximo sábado, vai verificar que as intenções são razoáveis, os propósitos estimáveis, e faz sentido acordar o país para o que esta geração está a viver. O que ali se diz não é um manifesto político no sentido em que não apresenta alternativas? Certamente que sim. Mas nunca ouvi esse argumentário ser usado nas Greves Gerais que se limitam a criticar a “política do Governo”. E toda a vida vi manifestações cuja intenção primeira foi protestar contra um determinado estado de coisas, pedindo respeito pela Constituição. E já agora, o seu cumprimento. É disso que se trata, para quem quiser ler sem preconceitos.

Claro que é mais fácil e cool gozar o prato, chamar-lhes “deolindas” – já vi a palavra usada como adjectivo e claro que me ri, e que é um bom achado... -, e colar com cuspo o Jel, a Parva Que Sou, o discurso de Cavaco Silva e lá vai alho.

Mas não é nesse comboio que este movimento vai.

Confesso: este tipo de protesto não é a minha praia. Não estarei presente, apesar de ser também um trabalhador de recibo verde.

Mas quase sou tentado a participar só para contrariar um generoso número de almas que pura e simplesmente não se deu ao trabalho de perceber o que é que esta gente quer, e se diverte a misturar tudo no mesmo saco para poder menorizar, achincalhar e menosprezar uma iniciativa que, da forma como está exposta no blog, é séria, tem sentido e oportunidade.

O que eles aqui dizem, faz sentido. E o que eles querem também. Alertar as pessoas e acordar as consciências nunca fez mal a ninguém.

Blog da semana

Gisela João O doce blog da fadista Gisela João. Além do grafismo simples e claro, bem mais do que apenas uma página promocional sobre a artista. Um pouco mais de futuro neste universo.

Uma boa frase

Opinião Público"Aquilo de que a democracia mais precisa são coisas que cada vez mais escasseiam: tempo, espaço, solidão produtiva, estudo, saber, silêncio, esforço, noção da privacidade e coragem." Pacheco Pereira

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mais comentários e ideias

pedro.roloduarte@sapo.pt

Seguir

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2007
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D