Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Pedro Rolo Duarte

17
Abr11

Aprender a encarar a realidade (I)

Este fim-de-semana, a propósito da inauguração do último bocado da CRIL, vi numa reportagem de televisão um quadro que mostrava os três itens financeiros da obra: o custo orçamentado, o que foi gasto nas expropriações de terrenos, e… a derrapagem da obra. A “derrapagem” do custo de uma obra pública é já, como o seu próprio valor, um dado adquirido no processo? Assumimos de vez que não cumprimos com o que nos comprometemos e que vai ser sempre assim?

Bem podem mandar o FMI embora. Pelos vistos, não mudamos nem à força.

Será que ainda em vida verei um quadro, no jornal ou na TV, sobre uma obra pública, onde os valores dos subornos vão também figurar na contabilidade oficial? Receio sinceramente que sim.

 

16
Abr11

Só não muda o que já morreu

(Ainda se apanha por aí á venda -  a próxima sai a 21 de Abril – a edição que assinala o 10º aniversário da Lux Woman, revista onde escrevo mensalmente com muito, mesmo muito gosto... Esta foi a crónica dos 10 anos...)

 

 

À meia-noite do 1º dia de Janeiro de 2000, o mundo não acabou. Eu estava, como toda a gente, um bocado expectante, mas não ocorreu nada de extraordinário - e limitei-me a cumprir o previsto: saltei da terra húmida para a laje que sustentava uma casa que estava a começar a construir. Não podia haver melhor começo para um ano e uma década, mesmo discutindo se o novo século começava no 2000 ou no ano seguinte. Simbolicamente, chegar ao ano 2000 era uma aventura extraordinária, sobre a qual tinha pensado muitas vezes. Teria de viver 36 anos para lá chegar – e como toda a gente sabe, ser jovem tanto significa achar que se vive eternamente como ter a certeza de que se vai morrer cedo demais. Nem uma coisa nem outra, e ainda assim chegar ao ano 200o e ver que nada acontecia – um big bang qualquer, o degelo em massa, a noite fazer-se dia… - foi o contrário de maçador: foi exaltante! E assentar bem os pés num bocado de cimento novo foi ainda melhor.

O século novo só podia ser fantástico – e nem fazia sentido viver de outra forma os primeiros dias do ano 2000: com entusiasmo, com esperança, e com aquela sensação boa de que “agora é que vai ser”. Foi só preciso esperar um ano para perceber que, afinal, a década podia não ser tão prodigiosa quanto aquele momento inicial fazia prever, e que há demasiados acasos na vida para que os possamos ignorar.

Em 2001 houve Setembro, e dai para a frente mudou tudo. Houve Madrid e Londres, houve a explosão do euro e a crise que arrasou com a Europa, explodiu a Net e implodiu o emprego, eu sei lá: os primeiros dez anos do século XXI puseram tudo em causa, abriram brechas, deixaram perguntas sem respostas e respostas para perguntas que nunca nos ocorreu fazer. Se há dez anos me explicassem o Facebook – uma espécie de site gigante onde toda a gente mostra o que anda a fazer e troca informação tão relevante quanto irrelevante… -, eu riria baixinho e diria que era mais uma invenção de um informático desempregado. Se me dissessem que era popular twittar 140 caracteres por dá cá aquela palha, eu mudaria de conversa para não me entediar. Se alguém me mostrasse imagens de pessoas a descalçar botas e a deitar fora garrafas de água nos serviços de controlo dos aeroportos, eu acharia que a viagem era para uma qualquer ditadura da América latina. Se me exibissem internet num telemóvel ou internet no meio do deserto sem um computador e uma grande antena, não acreditaria.

Mudou tudo. Não mudou a aparência – mudou o fundo, o paradigma, a lógica da vida. E essa mudança ninguém, com rigor, podia adivinhar. Na verdade, ninguém pode ainda entender em toda a sua dimensão. No momento em que escrevo esta crónica há gente aos gritos de felicidade pela presunção de uma democracia no Egipto – mas aqui no meu cantinho, não tenho a certeza dessa democracia. Nem do que a “revolução” egípcia poderá desencadear no médio oriente. Este década, se alguma coisa nos ensinou, foi mesmo a deixarmos de ser taxativos e cheios de certezas.

Quando chegou o ano 2000, se me perguntassem o que acharia do projecto de mais uma revista feminina no mercado, seria tentado ao clássico “o mercado não comporta mais uma”. “Mas olhe que um dia você vai ser colunista dessa revista, e feliz!”, diria o meu interlocutor. Eu faria aquele sorriso tão educado quanto amarelo e diria: “quem sabe, não é?”.

Agora eu sei. E a LuxWoman também. Só não muda o que já morreu, só não nasce o que já nasceu. O resto, que adivinhe quem quiser enganar-se militantemente.

14
Abr11

A bem dizer, é sobre política

... E não fui eu quem escreveu, mas invejo quem soube:

 

"Como pode ser-se idiota e, ao mesmo tempo, feliz, pergunta-me um leitor? Pois explico já. A idiotia e a felicidade são ideias muito vagas, difíceis de cingir em conceitos de circulação universal, digamos. Mas, pensando melhor, acho que certa idiotia é susceptível de conferir ao idiota seu proprietário (ou seu prisioneiro) uma espécie de segurança em si próprio que o levará, em determinados momentos, julgo eu, a uma beatitude muito próxima do que se pode chamar estado de felicidade.Assim sendo, não vejo incompatibilidade entre o ser-se idiota e o ser-se feliz. Bem sei que há várias maneiras de se chegar a idiota. Uma delas foi experimentada comigo. Uma parente minha queria por força reconverter-me ao Catolicismo e, deste modo, passava a vida a dizer-me: «Alexandre, não penses. Se começas a pensar estragas tudo. A crença em Deus, se, em vez de pensares, reaprenderes a rezar, vem por si. É uma graça, sabias? Vá, reza comigo.» E ensinava-me orações que eu, muitas vezes de mãos postas, repetia aplicadamente. Acabei por não me casar com ela. Não quero dizer, com isto, que não acredite na chamada (creio eu) revelação. Se revelação não existisse, como poderia um poeta do tomo de Paul Claudel entrar um dia em Notre-Dame e sentir-se, naquele preciso momento, convertido irresistivelmente ao Cristo e à irradiação da sua verdade e da sua beleza? E não pode afirmar-se que o grande poeta fosse um idiota.
Agora a minha parente era-o, de certeza, e queria fazer de mim outro idiota. Não por desejar reconverter-me, mas por aconselhar-me, como meio, o de eu não pensar, o de eu principalmente não pensar. Se tivesse casado com ela (que não era filha da minha lavadeira) talvez tivesse sido feliz - não se sabe - idiota e feliz. Assim, fiquei longos anos idiota e infeliz, infeliz por ser idiota e saber que o era e que não podia deixar de o ser. Ora, um idiota que é infeliz por saber que é idiota já pode estar a caminho de deixar de o ser. É uma possibilidade. É a tal luz no fundo do túnel, como se disse tantas vezes a propósito da situação económica deste idiota de país.
Não se espante, por conseguinte, o leitor de que um qualquer idiota possa, ao mesmo tempo, ser feliz. É, até, assaz corrente. Há idiotas que se consideram inteligentíssimos, o que é uma forma muito comum de idiotia, e extraem dessa certeza alguma felicidade, aquela maneira de felicidade que consiste em uma pessoa se julgar muito superior às que a rodeiam.
O leitor gostaria de ser ministro ou secretário de Estado? Pois fique sabendo que há quem goste, embora - será justo dizê-lo - também há quem o seja a contra-gosto, por dever partidário ou patriótico.
Os idiotas, de modo geral, não fazem um mal por aí além, mas, se detêm poder e chegam a ser felizes em demasia podem tornar-se perigosos. É que um idiota, ainda por cima feliz, ainda por cima como poder, é, quase sempre, um perigo.
Oremos.
Oremos para que o idiota só muito raramente se sinta feliz. Também, coitado, há-de ter, volta e meia, que sentir-se qualquer coisa"

Alexandre O'Neill, in "Uma Coisa em Forma de Assim", encontrado aqui

11
Abr11

O padrão Sócrates, o padrão Nobre

A escrever a crónica de hoje para a rádio, noto que blogues e redes sociais ligam pouco ao Congresso do PS – mas ligam muito ao rali que levou Fernando Nobre até ao refeitório onde serve o PSD.

Lembro-me de discutir com alguns amigos esta ideia da “cidadania” – não que a ache disparatada, não que não defenda o envolvimento dos não-militantes dos partidos na vida publica, mas porque a memória me devolve sempre exemplos de “cidadania” que mais não eram do que desempregos temporários na politica. Precários… mas bastante flexíveis.

Assim nasceu um partido chamado PRD, cheio de referências históricas da cidadania, assim saltitou Helena Roseta do PSD até ao PS, assim tem andado Manuel Alegre (que só é do PS quando lhe dá jeito), e mais distantemente me recordo dos “movimentos” independentes à volta do PSR antes da formação do Bloco de Esquerda. Para não falar dos Verdes, do MEP e do folclore habitual em redor dos votos.

Não sei o que mais desanima o eleitor comum, espectador desta “rave partie” sem fim: se um primeiro-ministro que vai para um Congresso do seu Partido falar como se quem estivesse a governar Portugal há 6 anos fosse outro que não ele, prometendo “um novo ciclo” e um rumo até à felicidade – ou se, por outro lado, ver o homem da cidadania, cuja vida não passava pelos partidos, menos ainda pela ambição de um “lugar”, aceitar, nem seis meses depois de perder a Presidência, o primeiro “posto” que um partido lhe oferece.

Por incrível que pareça, ambas as situações obedecem ao mesmo padrão: o de que pode haver dois homens dentro do mesmo homem - ou, na visão mais romântica, o de que há sempre uma criança dentro de um adulto...

Dentro do José Sócrates que governa Portugal há 6 anos há um outro, mais jovenzito, que “ía a caminho da missa” enquanto o crescido Sócrates governava, e agora pretende um novo ciclo para mostrar como é que é. Dentro do Fernando Nobre que proclamava a hora da cidadania contra a hegemonia dos partidos, está também um jovem Nobre mais cool que diz “estou cheio de te ouvir, ó velho!”, e bora lá com o PSD que é muito mais rápido.

O PS já tinha perdido o meu voto há uns anos. O PSD parece-me que acaba de o perder também. Com que mais tiros ao lado nos pretendem surpreender os putativos partidos que mandam nesta chafarica?

10
Abr11

Não estou cá para outra coisa

O vento e as nuvens não deixam que a temperatura passe dos 21 graus. Mas a resposta à pergunta habitual do meu filho – “não vais tomar banho?” – é sempre a mesma:

- Não estou cá para outra coisa.

Ele vai e volta com a prancha. Mas de fato vestido, claro, noto eu sem “cê”.

Depois de resistir, e de tomar decisões definitivas, e de tentar ler o jornal com vento em excesso, e depois de ver que ninguém, mesmo ninguém, mergulha nesta água gelada e violenta, com ondas que nem nos deixam molhar os pés, há uma qualquer loucura que de mim se apodera e aos poucos, habituando-me à temperatura, cedo ao meu desejo profundo e deixo que uma onda passe por cima de mim e me deixe tão gelado quanto feliz. Parece que a onda varre impurezas, tristezas, memórias, o FMI, a colecção de cromos do “telefono-te para a semana”, desilusões. Mesmo “em frio”, o sol no corpo com sal é redentor. Sem isto não vivo.

O António Maria persiste em confrontar as ondas. E faz bem.

Ao fim da tarde, depois de um generoso gin tónico, refaço de raiz espetadas compradas no supermercado: misturo porco com vaca, acrescento tomate grosso em lascas, echalotes descascadas, pimento verde, sal grosso posto na hora. Quando tudo aquilo passa pelas brasas, feitas na rua, e ganha cor de se comer, percebo que o Verão está mesmo perto.

Nada vai mudar por vir a ser Verão – mas pelo menos sei que vou sentir-me mais vivo e menos parte do que nos torna a todos infelizes. O facto de nada mudar não quer dizer que não mudemos. Apenas por nós, ou apesar disso.

É como a esperança, mas com temperatura e cor.

08
Abr11

Quase uma pergunta de algibeira

E é esta: como se candidata a ser primeiro-ministro de um país que acaba de pedir a ajuda do FMI o mesmo homem que há menos de um mês declarou peremptoriamente que se recusava a governar esse mesmo país com a presença do FMI?

Das duas, uma: ou já sabe que vai perder e não tem que se preocupar com mais esta contradição; ou realmente é um homem que não está bem, e que deveria ser observado por um especialista. 

Este fim de semana, o Partido Socialista vai aclamar-lhe a liderança - e não há ninguém que o confronte com estas palavras. Não há ninguém que o confronte com a ficção em que persiste. Não há ninguém que o confronte com ele próprio. Não há ninguém que o confronte com o estado em que deixou o país.

O mundo não está perigoso - e o Vasco tem razão de novo: o mundo ensandeceu de vez.

 

 

 

 

 

 

 

05
Abr11

O país de Sócrates contado (pelo próprio) às criancinhas

Era uma vez um país cheio de Sol, de pessoas felizes, borboletas coloridas esvoaçantes pelo céu. Nesse país, todas as pessoas trabalhavam alegremente para o bem comum, sob a batuta de um maestro dedicado, uma espécie de padre – já que tudo fazia pelos outros, pelo país, e nada por ele próprio, nem pelos músicos da sua orquestra. Era um país muito bonito, esse, e cheio de esperança, optimismo e riquezas mil.

Mas como sempre acontece nas histórias, nesse país lindo cheio de Sol e de pessoas felizes, havia um pequeno grupo de pessoas muito más, praticamente pessoas a preto e branco, a que o maestro chamava, conforme as ocasiões, jornalistas ou oposições. Essas pessoas realmente más tudo faziam para tentar ensombrar a felicidade do país, espalhar o pessimismo e enterrar toda a riqueza num poço muito fundo e muito escuro.

Um dia, essas pessoas realmente más decidiram dar algumas noticias e chumbar um Plano Evidentemente Colorido que traria ainda mais felicidade e alegria às pessoas do país cheio de sol, pessoas felizes, borboletas coloridas esvoaçantes pelo céu.

Caaaabummm.

Começou a chover, a felicidade e as borboletas coloridas afundaram-se num lamaçal de tragédias e desgraças, veio o abismo e comeu o país.

Coitado do maestro que tudo fez pelos seus condidadãos e tinha dado ao país tantas alegrias e bons momentos. "It's an injustice, it is".

(Moral da história: os maus existem nas histórias para safarem os bons de se revelarem ainda piores...)

Blog da semana

Mesa do ChefePara quem, como eu, gosta de cozinha, gastronomia e restauração, este é mais um dos poisos certos...

Uma boa frase

O Insurgente“Isaltino Morais: perda de mandato autárquico; condenado a 9 anos de prisão por fraude fiscal, abuso de poder, corrupção passiva para acto ilícito e branqueamento de capitais. Resultado 2017: 41.7% Esta é a imagem do país. Em suma, temos o país que merecemos, com os políticos que merecemos, com o fado que merecemos." Mário Amorim Lopes

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mais comentários e ideias

pedro.roloduarte@sapo.pt

Seguir

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2007
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D