






Sempre defendi que aos jornalistas não deve estar vedado, antes deve ser incentivado, o direito de tornar publico o seu sentido de voto. Enquanto colunista de jornal nos últimos trinta anos (enfim, agora menos, mas mais blogger...), divulguei sempre o meu voto, por entender que na transparência da nossa conduta radica a credibilidade profissional que possamos ter. Votar é uma escolha, não é um acto de militância – ou seja, não impede, pelo contrário até estimula, a independência e a análise imparcial.
Assim, quem me leu e lê sabe que votei quase sempre no Partido Socialista. Nunca, por causa disso, fui beneficiado – pelo contrário, por coincidência ou não, os melhores momentos da minha vida profissional ocorreram em momentos de governação à direita – O Independente, a K, a Visão... -, e do mesmo modo nunca me senti discriminado. Quem me conhece e quem comigo já trabalhou sabe que distingo as coisas e sou rigoroso nessas matérias.
Faltam poucos dias para as eleições e decidi que, uma vez mais, deveria manifestar publicamente o meu voto. Explicando previamente que, no essencial, não mudei. Continuo a considerar-me de esquerda democrática, ou moderada, ou liberal, como lhe queiram chamar. Acredito num estado laico, pouco interventivo, mas dinâmico e assertivo no essencial que deve ser de direito comum: educação, saúde, justiça, segurança social. Defendo um Serviço Publico de Rádio e Televisão, mas não concordo com a subsidiação cultural obrigatória. Defendo o Serviço Nacional de Saúde, mas não me custa aceitar que as taxas moderadoras possam valer 100 euros para quem ganha mais de 3000 euros mensais – se isso significar zero euros para quem ganha o ordenado mínimo nacional. Gostava que os políticos tivessem vencimentos mais generosos – mas também queria vê-los efectivamente julgados quando gerissem mal os dinheiros públicos, e aprovaria uma lei que os obrigasse a uma travessia no deserto depois de um desaire efectivo e provado. Defendo uma reforma na justiça que a torne efectivamente para todos – ou seja, mais rápida, eficaz e preventiva. Defendo a educação universal e gratuita, mas não aceito o facilitismo que conduz ignorantes às Faculdades. Concordo com o subsídio de desemprego e o rendimento de inserção – mas gostava que ambos se aplicassem com rigor, valorizando o trabalho sem que a casta educacional ou social garantisse a recusa do trabalho ou a perpetuação da negligência. Num momento critico como o actual, não posso achar razoável que haja lojas ou oficinas ou fábricas sem empregados enquanto pessoas formadas se dão ao luxo de recusar empregos porque estão abaixo das suas qualificações académicas...
Foram só alguns exemplos, para explicar que nada disso está em causa no Governo que aí vem – e que basicamente vai cumprir um programa previamente definido pelo FMI e seus pares. Não há o risco nem de ruptura nem de inovação. O meu voto, por isso, é de exclusão, ainda que seja convicto.
Jamais voltarei a votar no PS enquanto José Sócrates for seu líder. O actual primeiro-ministro, em quem confiei no passado, constituiu a maior desilusão política dos meus 30 anos de direito de voto. Não apenas secou à sua volta todo um Partido como conduziu Portugal ao beco em que se encontra. Foi provinciano na forma como se exibiu publica e profissionalmente, faltou à verdade vezes sem conta, nunca teve a humildade de reconhecer um erro, enganou os portugueses nas expectativas que criou, nos diagnósticos que inventou, nas soluções que improvisou - e adiou ou omitiu sempre a verdade em nome de uma doentia dependência do poder. No que respeita à comunicação social, não me lembro de Governos tão obcecados, vingativos e ameaçadores como os dois últimos.
Estive convictamente convencido de que votaria no PSD até perceber que o cabeça-de-lista por Lisboa seria (o oportunista politico já profissional) Fernando Nobre, e depois de assistir, estupefacto, ao caos, à desorganização, e à falta de autoridade e preparação que Passos Coelho parece fazer questão de demonstrar a todo o momento – dando razão a um blog onde li que os portugueses todos os dias queriam votar mais no PSD, mas o PSD encarregava-se de todos os dias lhes dizer para não votarem. Não poderia votar na CDU ou no Bloco, porque estas duas forças recusaram dialogar com a troika, o que naturalmente as afasta de qualquer solução governativa.
Na coerência dos argumentos, na firmeza da atitude, na liderança em Lisboa de uma mulher de quem gosto e em quem confio, só me resta um partido: o CDS. Não é a minha família politica nem a minha escolha natural (e até cultural...). Mas é o meu voto sincero no partido que, acredito, vai fazer com que o PSD se equilibre e o PS se reestruture.
Nunca pensei, numas legislativas, votar tão à direita de mim próprio – mas também nunca pensei que o PS descesse tão abaixo dele próprio. Espero reencontrar-me à esquerda no futuro.
Fui ao melhor mercado da Europa que, dizem, é o de Rialto, em Veneza. Não acredito na classificação, tal a voragem turística que tomou conta da cidade, e que impede a vida própria de que carece um mercado de uma localidade. Alguém vive verdadeiramente em Veneza?
Mas é um bom mercado, ainda assim. O peixe é fresco e bem negociado, há flores e muitas categorias de cogumelos, há toda a espécie de frutas.
Vou só ver, não quero comprar nada. Mas dou comigo a olhar os tomates. As espécies. Os preços. As cores.
Os anos – especialmente desde que comecei a gostar de cozinhar – fizeram de mim um dedicado estudioso do tomate. Não é indiferente o tomate coração de boi do tomate chucha, e estes do caro e fabuloso tomate raf, ou do cereja, ou do Santa Cruz.
O tomate tornou-se uma das bases da minha alimentação. Ponho tomate nas sanduíches, com manjericão ou cebolinho; faço todas as saladas com tomate; asso tomate e cebola no carvão para fazer uma salada quase argelina com orégãos, azeite, e sal; uso o tomate na bolonhesa, claro; amo gaspacho; não dispenso tomate na paelha.
Um tomate cherry aberto com uma pitada de sal e um pingo de azeite é aperitivo, snack, ou refeição de praia.
Uma salada de atum sem tomate parece uma noite mal dormida.
Um frango de churrasco sem uma salada de tomate, cebola, orégãos, azeite, vinagre e sal, é uma tristeza.
E sardinhas assadas sem salada com pimentos e tomate é como cozido à portuguesa sem farinheira. Não dá.
Dito isto, percebe-se porque só fotografei tomates no mercado de Rialto.
E também se pode perceber porque acho hoje, mais do que nunca, que Portugal precisa de tomates. Nem que fosse para não oxidar de vez o país.
(As crónicas que assino diariamente na Antena 1 são, pela sua natureza, marcadas pela oralidade, juntam citações de blogues e redes sociais, e não merecem mais do que os minutos de áudio a que têm direito. Hoje, porém, excepcionalmente, acho que faz sentido replicar aqui, em texto, a crónica que foi para o ar há minutos...)
Na segunda-feira passada começou a circular na Internet um vídeo de uma violentíssima agressão de duas adolescentes a uma terceira, perante o olhar divertido de um grupo de rapazes, nomeadamente do que filmava e dizia “isto vai tudo para o Facebook”. E foi. É um vídeo de uma violência sem descrição, e acima de tudo, um momento de verdadeira insanidade, dado que a vítima está sozinha, é agredida por duas raparigas, e ninguém à volta se mexe. Os rapazes que observam a cena gozam, riem, como se estivessem a assistir a um combate de boxe.
O facto de o vídeo ter sido colocado no Facebook tornou fácil a confusão do costume: de repente, a rede social é que era a culpada da cena, ai Jesus, vamos lá diabolizar a internet.
Nada disso, claro. O que temos de pensar é obviamente como se educam os jovens em Portugal, como se permite que a violência gratuita não provoque mais do que risada e gozo. Neste caso, o Facebook até foi útil – porque a estupidez dos adolescentes, ao mandarem o vídeo para a net, tornou-os imediatamente cúmplices e culpados. Pior: um grupo de anónimos criou na hora um blog, o Rudolfo e as suas Renas, onde se reproduziram em JPG’s os diálogos entre os vários jovens no Facebook – diálogos que, quando o vídeo chegou à televisão, foram prontamente apagados. Quem se der ao trabalho de ler esse blog vai descobrir um verdadeiro mundo de violência juvenil, de ignorância e analfabetismo de toda a ordem (é rara uma palavra estar bem escrita ou sequer bem empregue), e uma cultura muito abaixo de rasca. Parece que já foi detido o autor do vídeo, os envolvidos já foram identificados – não é difícil: através do blog conseguem identificar-se, via facebook, todos eles – e o caso segue nos tribunais.
Mas o que fica deste episódio, na internet mas especialmente nos jornais, é uma vez mais essa diabolização de uma rede social por manifesta incompreensão do que está em causa. O que se passou em Benfica foi uma briga de adolescentes, assistida por outros adolescentes que gozaram o prato de forma animalesca, sem dó nem piedade. Dá que pensar? Claro que dá. Agora, traduzir isso para um crime inspirado pelas redes sociais, é não apenas confundir a estrada da beira com a beira da estrada, como é um mau trabalho jornalístico. Razão tem no seu blog Helena Sacadura Cabral quando escreve: “Vantagens e, simultaneamente, inconvenientes, das redes sociais e portanto da internet. Mas que fazem pensar naquilo que queremos para nós como comunidade!”.
E é exactamente isto: o exibicionismo barato de um vídeo permite a estes pequenos criminosos serem gente por um dia e exibe o nível de valores e o tipo de ética que (não) lhes assiste – mas sem ele, talvez nunca chegássemos a debater que raio de jovens andamos a educar. Entre a ignorância e a informação que preferíamos não ver, apesar de tudo é melhor saber com o que contamos por aí. Nem que seja para, como faz Nuno Dias da Silva, defender a diminuição da “idade penal para os 14 anos para deixar de mandar estes inimputáveis para casa como se nada fosse”. É uma primeira ideia. O debate devia continuar. Não por causa do Faebook, mas graças a ele.