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Pedro Rolo Duarte

15
Jun11

Aprender a aplicar a lei

Noticia de hoje, tirada daqui, sobre pessoas que, em breve, vão ser juizes e, nessa qualidade, julgar o certo e o errado, a lei e a violação da lei, a culpa e a inocência, a verdade e a mentira à face da lei:

"Indícios de que 137 auditores que estão no Centro de Estudos Judiciários (CEJ) a formarem-se para serem magistrados copiaram num teste levou à anulação do exame. Face à impossibilidade de encontrar uma data para repetir o teste a direcção da instituição decidiu atribuir nota dez a todos os futuros magistrados. (...) Num despacho de 1 de Junho assinado pela directora do CEJ, a desembargadora Ana Luísa Geraldes, a que a agência Lusa teve acesso, é referido que na correcção do teste de Investigação Criminal e Gestão do Inquérito (ICGI) “verificou-se a existência de respostas coincidentes em vários grupos” de alunos da mesma sala. O documento indica que, em alguns grupos, “a esmagadora maioria dos testes” tinha “muitas respostas parecidas ou mesmo iguais”, constatando-se que todos os alunos erraram em certas questões. No despacho é dito que as perguntas erradas nem eram as mais difíceis do teste, tendo-se verificado também o inverso: numa das questões mais difíceis ninguém falhou".

Ou seja: houve um copianço geral mas, face a dificuldades de agenda, a "punição" exemplar foi passar administrativamente toda a gente. Justiça, é do que se fala e trata no CEJ.

Medo, eu tenho muito medo.

14
Jun11

Arqueologia de trazer por casa

Do que me lembro quando puxo pela mais antiga memória que ainda tenho, era assim o telefone na minha infância. Discávamos naquele aparelho um número com seis algarismos, e falávamos com pessoas que estavam “do outro lado do fio”, como se costumava dizer.

Quando viajávamos, a primeira coisa que fazíamos ao chegar ao hotel era ligar para Lisboa, 00351, e dizer “cheguei bem”.

No Penedo, onde tínhamos a casa de férias, só havia um telefone em toda a aldeia – estava na mercearia, tinha um contador, toda a gente ouvia a nossa conversa, e não raro havia fila para telefonar. O que mais encanitava a Dona Emília, dona da loja, era quando ía para lá receber chamadas – ou seja, usar o telefone e não pagar...

Lembrei-me do aparelho há poucas semanas, quando entrei num quarto de hotel, numa cidade longe daqui, e dei comigo a olhar para um telefone fixo - com teclas, porém suficientemente antigo para me levar até esta memória.

Para que serve hoje um telefone num quarto de hotel? Quem o usará para ligar à família e dizer “cheguei bem”?

Subsiste ao tempo que passou e ao tempo que mudou. Algum dia será uma memória semelhante ao telex ou ao telegrama?

Vou mandar fazer uma t-shirt a dizer: “eu sou do tempo do telefone fixo”.

13
Jun11

Outra lista

 

Ir a uma praia onde nunca antes tinhamos ido.

Ou... Estes:

 

Prazeres

O primeiro olhar da janela de manhã
O velho livro de novo encontrado
Rostos animados
Neve, o mudar das estações
O jornal
O cão
A dialéctica
Tomar duche, nadar
Velha música
Sapatos cómodos
Compreender
Música nova
Escrever, plantar
Viajar, cantar
Ser amável.
Bertold Brecht

11
Jun11

TOP de coisas um bocado tolas que me dão prazer sem qualquer consequência para o estado da nação

1. Silenciar o televisor sempre que chega um intervalo e a publicidade me entra aos gritos pela sala dentro.

2. Arrancar as etiquetas absolutamente desnecessárias que marcam os preços das revistas estrangeiras (cujos preços, na verdade, estão impressos nas capas e são reconhecidos pelos códigos de barras...)

3. Mudar de canal de TV quando vejo alguém que, por razões objectivas ou subjectivas, me desagrada.

4. Cortar à mão, em bocadinhos, para as saladas, as folhas de manjericão fresco que cultivo e rego dedicadamente.

5. Cheirar um jornal acabado de imprimir – ou algumas revistas cujo cheiro é especial, como a “Monocle” ou a “Esquire” espanhola.

6. Fazer a barba depois de um dia sem fazer a barba.

7. Criar listas de canções no I-Pod e dar-lhe nomes pouco claros, como os meses do ano.

8. Ter deixado de ser cliente da TMN e continuar a receber facturas da TMN.

9. Tomar CLA e acreditar que vou ficar sem barriga sem fazer mais nada.

10. Fazer listas idiotas e rir-me com elas.

10
Jun11

80 anos, a idade da minha mãe...

 

Dez de Junho, Dia de Portugal, lá está, mas face a este outro aniversário, vão perdoar-me, por uma vez prefiro assinalar o menos português: João Gilberto, João Gilberto Prado Pereira de Oliveira, faz hoje 80 anos.

Foi com ele que entrei na música popular do Brasil, mesmo sem saber que era por ele que estava a entrar. Eu só conhecia as canções. Ouvi “Chega de Saudade” num acampamento militante no Vale do Jamor – e ainda não sabia que já sabia sentir a saudade quando chorei a ouvir os “milhões de abraços, e carinhos e beijinhos sem ter fim”... – e até hoje oiço canções de João que julgo serem de outros, e algumas que julgo dele e não são.

É o mais perfeito caso de confusão legítima, saudável e bonita entre o mestre-de-obras e a obra do mestre.

Se eu mandasse, todas as rádios do mundo dedicavam hoje o seu bocado a João Gilberto. Há uma que dedica mesmo. Aquela onde colaboro com gosto – e onde faço sociedade semanal com o João Gobern. Como diz, e bem, o António Macedo, o João fez um “João por João” na autoria de “Melhor do que o Silêncio”, série de programas dedicada justamente a este numero redondo de anos do génio. Passa logo à noite, na Antena 1, e pode ser ouvido também aqui.

É uma homenagem com sabedoria dentro, e muita musica. E naquela velha teoria dos vasos comunicantes, não me alongo no post – afinal, sinto que a justiça que é devida a João Gilberto, nos seus 80 anos, está cumprida na hora semanal de rádio que o outro João, Gobern, assina. Com a paixão pela musica que se lhe reconhece. E que eu tento, sem sucesso, mas propositadamente, contestar semanalmente quando nos encontramos no Hotel Babilónia. Se fosse hoje, lá baixava as guardas e concordávamos alegremente: João, o Gilberto, não é melhor do que o silêncio – é tão maior que o explica e justifica.

08
Jun11

A treta do ciclo

Só para terminar esta conversa das eleições e de José Sócrates e assim:

Andam todos, do Bloco ao CDS, a falar no fim de um “ciclo politico” ou no começo de um “novo ciclo”, como se a vida politica e eleitoral fosse uma espécie de Cinemateca onde se programam ciclos de cinema que começam quando outros ciclos acabam.

Parece que andam a gozar o pagode.

Mas não há nada para gozar nem há ciclo para assinalar: houve um homem, chamado José Sócrates, que foi eleito para governar com uma maioria generosa. Criou expectativas, foi uma esperança e uma luz depois de Santana Lopes. Mas enganou meio-mundo, promoveu o clientelismo, colocou a sua sede de poder acima de qualquer sentido de estado ou sequer noção ética. Governou mal, enterrou financeiramente o país - mas dado que tinha um especial poder oratório e uma máquina de media e propaganda jamais vista em Portugal (um case study para quem quiser um dia perceber como se pode perpetuar o poder...), conseguiu ainda uma segunda maioria. Mais modesta, porém suficiente. Mas essa segunda maioria era já uma espécie de manifesto de um país desconfiado.

Se ele soubesse governar e se soubesse como se reagia a uma crise internacional, talvez a confiança voltasse. Não soube. Como lhe sobra em arrogância o que sempre lhe faltou em humildade, fingiu. Fez sapateado. Brincou com a verdade. Gozou com a cara de quem o elegeu. E foi atirado ao tapete pela oposição – que tinha tanta, tanta razão, que o povo, chamado a votar, mandou José Sócrates e o seu governo para casa. A este fenómeno chama-se democracia, caso Ana Gomes e pessoas do mesmo estilo não saibam.

E foi isto. Não há fim de ciclo nem começo de ciclo. Há apenas a história triste de um português comum – que, como o comum dos portugueses, tentou desenrascar o país e desenrascar-se a ele próprio. Não é assim que se faz, mas às vezes dá certo. Com ele já tinha dado, da licenciatura dominical aos projectos assinados lá na terra. Desta vez não deu. O país é um bocadinho maior, felizmente.

07
Jun11

Day after

Entre os comentários ofensivos que recebi (e apaguei, claro) nos últimos dias – algo que já não acontecia desde as últimas eleições... -, houve um que ficou a pairar na minha cabeça. Dizia, recheadinho de palavrões, algo como “pode ser que te lixes com o teu voto, estás à espera do tacho e ele não vai chegar”.

Ficou a pairar pela mais simples das razões: de tal forma os portugueses se habituaram a assistir à troca de votos e apoios por tachos e panelas, que lhes sai naturalmente o comentário do “deve & haver”, como se fosse óbvio, como se não pudesse ser de outra forma. No meu caso, é tão estúpido e infantil quanto é certo que sou um profissional livre, sujeito às flutuações do mercado, e menos sujeito às flutuações da política. De passagem: o mercado está péssimo, já estava antes de Sócrates, e promete continuar no futuro. É do mercado e de quem manda nele, não é do governo nem de quem governa.

Esta ideia do voto e do empenhamento a “preço certo” também ajuda a explicar a abstenção – injustificável, porém real... – e o desinteresse pela coisa pública: a maioria dos portugueses acha realmente que quem se candidata quer servir-se e “encher-se”, que “andam todos ao mesmo”, que quem se empenha e debate, ou se expõe publicamente, ou se candidata, quer ir comer ao tacho ou quer emprego ou quer qualquer coisa. Não é verdade – mas infelizmente, é este o quadro que temos vivido, essa é a memória que fica quando olhamos as composições das administrações publicas e privadas e vemos todos os Varas desta vida, ou quando descobrimos os “desaparecidos em combate” nos lugares mais obscuros dos Institutos, das Secretarias, das autarquias, dos Observatórios, das Comissões. E como esse é o padrão, o português aplica-o religiosamente. Nessa medida, os governos de José Sócrates consolidaram o padrão até à náusea.

E como o exemplo leva ao comentário ofensivo e à incompreensão por um voto devidamente explicado ou enquadrado, o que é que dá vontade?

Dá vontade de passar a falar apenas de culinária e da meteorologia. É tão mais fácil ser alforreca, como os anónimos que arrotam postas de pescada impunemente nas caixas de comentários...

05
Jun11

Citação rima com eleição

Hoje, que vamos a votos, pensemos nestas palavras escritas há mais de cem anos por um português como todos os outros, porém excepcional e eterno:

"Diz-se geralmente que, em Portugal, o público tem ideia de que o Governo deve fazer tudo, pensar em tudo, iniciar tudo: tira-se daqui a conclusão que somos um povo sem poderes iniciadores, bons para ser tutelados, indignos de uma larga liberdade, e inaptos para a independência. A nossa pobreza relativa é atribuída a este hábito político e social de depender para tudo do Governo, e de volver constantemente as mãos e os olhos para ele como para uma Providência sempre presente".
Eça de Queirós, in 'Cartas de Inglaterra'
, tirado daqui, como de costume

Blog da semana

Gisela João O doce blog da fadista Gisela João. Além do grafismo simples e claro, bem mais do que apenas uma página promocional sobre a artista. Um pouco mais de futuro neste universo.

Uma boa frase

Opinião Público"Aquilo de que a democracia mais precisa são coisas que cada vez mais escasseiam: tempo, espaço, solidão produtiva, estudo, saber, silêncio, esforço, noção da privacidade e coragem." Pacheco Pereira

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