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Pedro Rolo Duarte

31
Jul11

Um exemplo

O que distingue um país intrinsecamente democrático, livre e culto é aquilo que resulta nesta noticia e na reportagem de Joana Gorjão Henriques, em Oslo, para o Público:

"94% dos noruegueses acham positiva a forma como (o primeiro-ministro trabalhista norueguês, Jens Stoltenberg) geriu o maior ataque à Noruega desde a II Guerra Mundial, mostrou uma sondagem feita pelo jornal VG. O seu Partido Trabalhista também aumentou de popularidade em 10%, passando de 28,1% para 38,7%.  E, segundo o jornal diário Dagsavisen, todos os partidos ganharam novos membros - inclusivamente o Partido Progresso, no qual Breivik foi filiado e que está associado a posições radicais sobre a imigração. Numa ronda pelos partidos publicada na terça-feira, o Dagsavisen apurou ainda que as alas juvenis estavam também a ganhar novos membros (hoje, o jornal ia trazer uma actualização).
Apesar de ser cedo para analisar o impacto político do ataque terrorista em que Breivik matou pessoas ligadas ao Partido Trabalhista, analistas dizem que é muito provável que os trabalhistas tenham um aumento dos votos. Esperam também maior participação eleitoral, depois de o primeiro-ministro ter pedido que se responda ao terrorismo com "mais democracia"".

 

 

29
Jul11

Da importância de escolher as palavras certas

A editora onde publiquei os meus três livros tem vindo a fazer limpezas nos armazéns. O espaço custa dinheiro, o stock é dinheiro, e não há dinheiro a perder, já que o tempo, esse, foi há muito perdido.

Há um ano, ofereci aqui no blog umas dezenas de exemplares do “Fumo” que sobraram justamente de uma primeira vaga de extinção de stocks que a editora não consegue escoar, ou que os livreiros não querem ver pela frente – conforme o ponto de vista…

Agora, veio uma nova vaga para o “Sozinho em Casa”, que é o livro “do meio”. Ficará a faltar o primeiro, “Noites em Branco”, que desconfio já nem existir…

Sempre achei que as palavras que se usam são exemplares sobre a forma como se pensa aquilo sobre o que se fala. Por exemplo, nunca gostei dos profissionais que, nos jornais, se referiam às fotografias chamando-lhes “bonecos” ou “chapas”, como sempre me encanitou os leitores que chamam noticias a tudo, seja uma entrevista ou uma crónica. Não é igual ouvir alguém dizer “li um poema” ou dizer “li uns versos”. Um poema é um poema. Uma fotografia é uma fotografia. E uma reportagem não é uma entrevista. Independentemente de me irritar, o facto das pesssoas usarem estas designações, e não outras, diz muito sobre elas, sobre a relação que têm com o tema a que se referem, e diz mais ainda sobre o entendimento social e cultural do que pode estar em causa.

Tudo isto a propósito da editora que me mandou mais um mail sobre a extinção do stock final do “Sozinho em Casa”.

Titulo do mail: ABATE DE LIVROS.

Não sei porquê – ou se calhar sei – lembrei-me de carne, de talhos, de matadouros. Há palavras lixadas.

25
Jul11

Uma ideia morta

Gosto muito de aforismos, citações, ideias fortes que algum dia alguém teve a felicidade e a fortuna de condensar em uma ou duas frases. Quando comecei a trabalhar, tinha alguma vergonha de dizer que coleccionava Dicionários de Citações, porque achava que era um reconhecimento do gosto por uma cultura digest, uma espécie de fast-food das ideias. A idade é determinante para ganharmos conforto com o nosso modo de ser, e de viver – e hoje orgulho-me do meu gosto, como não escondo o meu fascínio pelo I-Ching ou a mania de cheirar jornais acabados de imprimir...

Mais recentemente percebi que não estava sozinho no mundo do gosto pela citação – e ainda hoje recordo uma edição do Caderno 3 de “O Independente” que dedicámos aos aforismos, e outra no DNA que juntou as frases mais interessantes publicadas no próprio suplemento. Não falando do “Melhor do Mau Humor”, a prodigiosa colecção de frases “assassinas” que Ruy Castro juntou em livro.

Sempre que posso, a propósito de tudo e de nada, lá vou buscar um dos meus livros. E se procuro uma frase sobre - “oh meu deus”... - o amor, acabo sempre a ler sobre religião, comida ou gatos. Vou andando, como um melómano perdido numa discoteca.

Foi o que me aconteceu agora. Queria uma boa frase que dissesse algo sobre o horror de Oslo, o terror daquele olhar desafiador, o “assassino com cara de pianista”, como bem descreveu a Rita Ferro.

Dei comigo a percorrer o Dicionário de Citações de Ettore Barelli e Sérgio Pennacchietti, um dos mais completos que conheço (além de notas sobre os autores das frases, publica as versões originais e traduzidas, e está organizado de uma forma particularmente incomum, mas muito prática). Passei pelo medo, pela guerra, pela morte, até chegar ao “fanatismo”, subsecção que compreende apenas duas citações. Uma delas está, na aparência, longe do fanatismo. Na verdade, está totalmente mergulhada nele. E nessa imersão encontro os olhos frios de Anders Breivik:

“Uma ideia morta produz mais fanatismo do que uma ideia viva. Ou melhor, apenas a morta o produz. Pois os estúpidos, assim como os corvos, sentem apenas o cheiro das coisas mortas”.

(O autor da frase é L. Sciascia, escritor italiano)

23
Jul11

O verbo é estremecer

 

De vez em quando volto ao I-Ching.

Abanar. Abalar. Fazer estremecer. Interrogar. Pôr em causa. Fertilizar.

A minha interpretação é livre - mas eu quero que dê aquela que eu quero que dê. E dá sempre. Como há um ano.

Hoje deu o hexagrama 51.

Não deixou de ser fim-de-semana por causa disso. Mas também não deixei de ficar no lugar onde estava.

Até a raposinha tem o nome que tinha: Conchita.

21
Jul11

Dez anos depois

(Crónica originalmente publicada na revista Lux Woman)

 

Separei-me – ou melhor dito, divorciei-me - há dez anos. Era para ter sido no dia 11 de Setembro, mas como caíram as torres de Nova Iorque, e a televisão nos absorveu literalmente, e toda aquela irrealidade tomou conta da nossa pequena e insignificante realidade, foi no dia seguinte. Estava um dia de calor com o sol escondido, aqueles dias que dão sono.

Os anos que se seguiram foram vagamente caóticos, algures entre a negação de um falhanço e aqueles coices disparatados dos animais, sem direcção certa, sem rumo, apenas com vontade. Aos 37 anos eu queria tudo menos perder tempo, por isso decidi refazer a minha vida o mais depressa que fosse possível. Queria voltar a casar, queria ser pai outra vez, queria fazer tudo igual, mas desta vez bem feito. Dei entrevistas em que me declarei “disponível para amar”, e namorei desalmadamente como se não houvesse amanhã. Não demorei muito tempo a perceber que estava a tentar o duplo salto mortal. Algo como: do mesmo autor de um casamento que não correu bem, um resto de vida que vai correr pior...

Acordei antes do salto final para o abismo. E decidi aproveitar o tempo – isto é, viver. O verbo é muito fácil de conjugar, muito difícil de praticar. Viver, nestas circunstâncias, significa uma série de outros verbos: crescer, amadurecer, aprender, esperar, acrescentar. Nem sempre eles se conjugam com os dias, é verdade, mas tentar não custa. Dez anos volvidos, não voltei a casar, não fui pai outra vez, a minha vida foi refeita por mim próprio, aprendendo a estar sozinho, aprendendo a gostar de estar comigo, fazendo conviver vazios emocionais com vazios profissionais, ou momentos de paixão e amor com intensos desafios profissionais. Não consegui encontrar equilíbrios, mesmo quando me disseram que o melhor era não os procurar. Aprendi a viver no caos. E a tirar partido dele.

De certa forma, tornei-me uma espécie de livro permanente de auto-ajuda, procurando tirar dos maus momentos os bons ensinamentos, e aplicando o que fui aprendendo nos passos seguintes. Muitas vezes invejei os casais felizes que via nos restaurantes ou na praia ou no jardim, muitas vezes me interroguei sobre o facto de não ter voltado a casar. Mas a cada pergunta – isto é, a cada momento vivido -, obtive sempre a mesma resposta: não tenho de me resignar a uma vida que me fará infeliz. Nem a uma paz podre sem saída. Nem à submissão a um estereótipo social. A partir do momento em que aprendi a estar comigo, e a gostar de estar comigo, o patamar de exigência subiu: só saio daqui para melhor. Para muito melhor.

E foi como se tirasse o pipo a uma bóia – a pressão baixou, o ar começou a circular livremente, e eu deixei de ser ingénuo quando vejo uma família aparentemente feliz num almoço de domingo.

Passados dez anos, a pergunta é: Pedro, acredita no casamento?

Passados dez anos, a resposta é: claro que sim. Volto a casar.

A única diferença são os anos passados. O que vivi. O que resulta de ter aprendido a diferença entre “ser sozinho” e “estar sozinho”. Ou a diferença entre ter companhia e partilhar a vida. Ou mais rigorosamente: a diferença entre seguir um guião socialmente escrito ou não abdicar de ser feliz. Felizmente, nestes dez anos houve quem me fizesse ver a luz. Melhor é possível. E eu fui muito mais vezes feliz em dez anos “div” do que em outros anos “cas”. Sozinho ou apaixonado. O que quer isto dizer? Algo tão simples que parece tolo, mas talvez devesse ser o começo de qualquer reflexão: somos nós que fazemos a nossa vida.

20
Jul11

Daqui ninguém sai vivo?

Tenho visto por aí muita morte anunciada de Murdoch, muita machadada no jornalismo tabloíde, muita gritaria desenfreada. O império de Rupert Murdoch tem uma dimensão que se presta ao ódio e à inveja, e isso ajuda a explicar algumas opiniões. É a velha história do “dá-lhe agora, que está a cair”.

Mas há algo de que se tem falado menos: o que está em causa são práticas jornalísticas. Ou seja, ilegalidades e abusos cometidos por jornais, assinados por jornalistas, caucionados por editores. Não vivem em redomas nem vieram agora das trevas – são pessoas como nós, jornalistas em países civilizados como o nosso, trabalhando num negócio igual ao dos nossos jornais. Nessa medida, o que está a ocorrer em Inglaterra é, independentemente do que a justiça venha a apurar, e para lá de tudo o que ética e moralmente possamos pensar, um violentíssimo e duro golpe sobre TODA a imprensa de TODO o mundo ocidental.

Aliás, já li por aí vozes a clamar por Portugal, dizendo que sabemos mais sobre as escutas inglesas do que sobre as que se praticam por cá. O que quer isto dizer?

Simples - quer dizer que por sobre a hecatombe da informação gratuita e rápida que tem feito estremecer a imprensa nos últimos anos, e por sobre a crise económica que afasta anunciantes e compradores, paira agora o mais terrível dos espectros: o do fim da credibilidade, associado ao crime organizado. Falta muito pouco para não haver uma só razão que justifique a existência de jornais. E era bom que pensássemos um bocadinho sobre este facto antes de atirar a matar sobre o velho Murdoch – porque aquela é apenas a ponta de um gigantesco iceberg.

Daqui ninguém sai vivo? Palpita-me que sim.

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Blog da semana

Por Falar Noutra Coisa. Humor neste reacordar do blog. Rir é o melhor remédio. Lugar comum indiscutível.

Uma boa frase

“Sucessivos governos ficaram irritados, o actual vai um pouco mais longe, esquecendo que votar é um direito mas nunca uma obrigação. Em países desenvolvidos os cidadãos até votam durante a semana, ao passo que na choldra querem proibir jogos de futebol para obrigar o povo a ir votar." António de Almeida, Aventar

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