






"94% dos noruegueses acham positiva a forma como (o primeiro-ministro trabalhista norueguês, Jens Stoltenberg) geriu o maior ataque à Noruega desde a II Guerra Mundial, mostrou uma sondagem feita pelo jornal VG. O seu Partido Trabalhista também aumentou de popularidade em 10%, passando de 28,1% para 38,7%. E, segundo o jornal diário Dagsavisen, todos os partidos ganharam novos membros - inclusivamente o Partido Progresso, no qual Breivik foi filiado e que está associado a posições radicais sobre a imigração. Numa ronda pelos partidos publicada na terça-feira, o Dagsavisen apurou ainda que as alas juvenis estavam também a ganhar novos membros (hoje, o jornal ia trazer uma actualização).
Apesar de ser cedo para analisar o impacto político do ataque terrorista em que Breivik matou pessoas ligadas ao Partido Trabalhista, analistas dizem que é muito provável que os trabalhistas tenham um aumento dos votos. Esperam também maior participação eleitoral, depois de o primeiro-ministro ter pedido que se responda ao terrorismo com "mais democracia"".
"Uma nação não nasce de uma ideia nobre, embora esteja preparada para provar a sua nobreza em qualquer conjectura adversa aos seus direitos de justiça."
Agustina Bessa-Luis, lido aqui
A editora onde publiquei os meus três livros tem vindo a fazer limpezas nos armazéns. O espaço custa dinheiro, o stock é dinheiro, e não há dinheiro a perder, já que o tempo, esse, foi há muito perdido.
Há um ano, ofereci aqui no blog umas dezenas de exemplares do “Fumo” que sobraram justamente de uma primeira vaga de extinção de stocks que a editora não consegue escoar, ou que os livreiros não querem ver pela frente – conforme o ponto de vista…
Agora, veio uma nova vaga para o “Sozinho em Casa”, que é o livro “do meio”. Ficará a faltar o primeiro, “Noites em Branco”, que desconfio já nem existir…
Sempre achei que as palavras que se usam são exemplares sobre a forma como se pensa aquilo sobre o que se fala. Por exemplo, nunca gostei dos profissionais que, nos jornais, se referiam às fotografias chamando-lhes “bonecos” ou “chapas”, como sempre me encanitou os leitores que chamam noticias a tudo, seja uma entrevista ou uma crónica. Não é igual ouvir alguém dizer “li um poema” ou dizer “li uns versos”. Um poema é um poema. Uma fotografia é uma fotografia. E uma reportagem não é uma entrevista. Independentemente de me irritar, o facto das pesssoas usarem estas designações, e não outras, diz muito sobre elas, sobre a relação que têm com o tema a que se referem, e diz mais ainda sobre o entendimento social e cultural do que pode estar em causa.
Tudo isto a propósito da editora que me mandou mais um mail sobre a extinção do stock final do “Sozinho em Casa”.
Titulo do mail: ABATE DE LIVROS.
Não sei porquê – ou se calhar sei – lembrei-me de carne, de talhos, de matadouros. Há palavras lixadas.
Gosto muito de aforismos, citações, ideias fortes que algum dia alguém teve a felicidade e a fortuna de condensar em uma ou duas frases. Quando comecei a trabalhar, tinha alguma vergonha de dizer que coleccionava Dicionários de Citações, porque achava que era um reconhecimento do gosto por uma cultura digest, uma espécie de fast-food das ideias. A idade é determinante para ganharmos conforto com o nosso modo de ser, e de viver – e hoje orgulho-me do meu gosto, como não escondo o meu fascínio pelo I-Ching ou a mania de cheirar jornais acabados de imprimir...
Mais recentemente percebi que não estava sozinho no mundo do gosto pela citação – e ainda hoje recordo uma edição do Caderno 3 de “O Independente” que dedicámos aos aforismos, e outra no DNA que juntou as frases mais interessantes publicadas no próprio suplemento. Não falando do “Melhor do Mau Humor”, a prodigiosa colecção de frases “assassinas” que Ruy Castro juntou em livro.
Sempre que posso, a propósito de tudo e de nada, lá vou buscar um dos meus livros. E se procuro uma frase sobre - “oh meu deus”... - o amor, acabo sempre a ler sobre religião, comida ou gatos. Vou andando, como um melómano perdido numa discoteca.
Foi o que me aconteceu agora. Queria uma boa frase que dissesse algo sobre o horror de Oslo, o terror daquele olhar desafiador, o “assassino com cara de pianista”, como bem descreveu a Rita Ferro.
Dei comigo a percorrer o Dicionário de Citações de Ettore Barelli e Sérgio Pennacchietti, um dos mais completos que conheço (além de notas sobre os autores das frases, publica as versões originais e traduzidas, e está organizado de uma forma particularmente incomum, mas muito prática). Passei pelo medo, pela guerra, pela morte, até chegar ao “fanatismo”, subsecção que compreende apenas duas citações. Uma delas está, na aparência, longe do fanatismo. Na verdade, está totalmente mergulhada nele. E nessa imersão encontro os olhos frios de Anders Breivik:
“Uma ideia morta produz mais fanatismo do que uma ideia viva. Ou melhor, apenas a morta o produz. Pois os estúpidos, assim como os corvos, sentem apenas o cheiro das coisas mortas”.
(O autor da frase é L. Sciascia, escritor italiano)