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Pedro Rolo Duarte

06
Jul11

Maria José Nogueira Pinto

Do Falatório da RTP ao Encontro Marcado da SIC-Mulher, calculo que tenha feito qualquer coisa como 250 a 300 entrevistas de vida com gente de todos quadrantes, de todas as áreas profissionais, de todas as idades. Aprendi com todas. Mas quem anda nestas andanças sabe que, por melhor que nos corra cada trabalho, temos sempre uns filhos mais queridos que outros. Neste caso, entrevistas que recordamos com maior carinho e gosto – porque nos surpreenderam, porque foram mais longe do que esperávamos, às vezes por razões aparentemente menores (como descobrir que uma pessoa que julgávamos assim, era afinal assado...).

Dessa pequena lista de momentos especiais faz parte a primeira entrevista que fiz a Maria José Nogueira Pinto, na RTP, em directo, no dia 9 de Fevereiro de 1998 (um dia destes deixo aqui um clip). Não a conhecia pessoalmente, e tinha dela a imagem de uma mulher dura, por vezes áspera, séria e pouco dada ao humor. Ao fim de 50 minutos, a mulher que eu entrevistara tinha-se revelado doce, irónica, divertida, cheia de um apurado e refinado sentido de humor e, apesar de levar a sério as convicções, as ideias e o seu trabalho, nem por isso estava acima de si própria. Rendi-me.

Dez anos depois, voltei a entrevistá-la na SIC-Mulher. Quando nos cumprimentámos, ela sorriu e exclamou: mas ficou alguma coisa para me perguntar desde a ultima vez?! E rimos os dois. É essa memória que vou guardar de Maria José Nogueira Pinto: a da mulher que sabia o momento de rir, sem nunca perder a seriedade das suas convicções.

05
Jul11

No lixo

É a palavra que marca toda a diferença.

A Moddy’s dizia “Portugal é um país que não recomendamos”, e estava tudo bem.

A Moddy’s dizia “Não invistam em Portugal”, e estava tudo bem.

A Moddy’s dizia “Sócrates ainda se encontra em Lisboa, pelo que recomendamos Oporto ou Faro”, e estava tudo bem.

A Moddy’s dizia “Miguel Relvas tem assessor que chamou alforreca ao chefe de Miguel Relvas”, e ainda assim estava praticamente tudo “nos’trinques”.

A Moddy’s dizia “Francisco Louçã não desiste”, e havia reservas mas quase que estava tudo bem.

A Moddy’s dizia “Os portugueses persistem em cuspir para o chão, e os motoristas de táxi cospem para a faixa do lado”, e os investidores vomitavam mas estava tudo mais ou menos como deve ser.

A Moddy’s diz “Lixo”, e o português passa-se. Uma coisa é sermos nós a dizer mal de nós e dos nossos, outra é vir um gajo de fora dizer mal da nossa família.

Leva porrada. Se eu fosse da Moddy’s, não passava férias este ano no Algarve.

03
Jul11

Da ignorância

Noutros tempos, fazia-se de tudo sem problemas. Nem processos. Nem dramas. Fui editor-geral fundador da revista “Visão”, mas passados dois anos, cansado das guerras semanais para vender mais mil revistas colocando a palavra “sexo” na capa, achei que podia ser útil no marketing – e tornei-me um fornecedor da revista, garantindo todas as ofertas extras, coleccionáveis, revistas comerciais, e as respectivas campanhas de lançamento e manutenção.

Diverti-me muito a aprender o negócio do “livro por mais 2,47 euros” ou o coleccionável que prendia o leitor à revista durante o Verão. Foi numa dessas operações – o “Grande Jogo do Mocho”… - que precisei de criar a figura do próprio jogo: um mocho, obviamente desenhado, figura simpática aos olhos de leitores dos 7 aos 77 anos, cujas características teriam de oscilar entre cartoon e figura marcante de Banda Desenhada clássica.

Não sei como, não me lembro quem sugeriu (não havia Google ainda…), fui parar ao telefone de um homem, Alain Voss, que trabalhava basicamente em publicidade, era um freelancer que desenhava em casa, em Sintra, com a ajuda da mulher, e que cobrava preços, dizia-se, exorbitantes. Além de demorar o seu tempo, até porque entregava tudo pessoalmente.

Se calhar era verdade a exorbitância e o tempo. Mas ele gostou de mim e eu dele – e sabendo que a imprensa não era propriamente um negócio milionário, aceitou trabalhar connosco em regime de saldo e à pressa. Tinha um humor corrosivo e inteligente. Aparecia no meu escritório com um sorriso entre o desconfiado e o tímido. Falava um brasileiro que tinha retoques franceses e calão português. Era uma figura – daquelas a que chamamos, como elogio, e jamais depreciativamente, um “cromo”.

Os anos que se seguiram levaram-me para outros caminhos – não tenho a certeza de ter ainda contado com o Alain Voss no DNA, embora tenha uma vaga ideia de o ver pela redacção do DN… -, e entretanto passaram quinze anos.

Ontem, estava a ler o jornal “i”, e apanho uma matéria de 4 páginas sob o titulo: “Alain Vosso, a fera da BD que seguiu sempre o seu traço”. Na entrada, escrevia-se: “Foi um dos maiores artistas de banda-desenhada de Metal Hurlant (ou bíblia das histórias de quadradinhos) e esteve na origem do grupo brasileiro Os Mutantes. Trabalhou em publicações internacionais e fez campanhas de publicidade para marcas como o Azeite Gallo ou a Nestlé. Morreu em Maio em Portugal”.

Num primeiro momento, pensei: coincidência, um tipo com o mesmo nome daquele louco cheio de talento que desenhou o Mocho e mais uma série de coisas para a Visão. Depois reli a entrada, olhei a fotografia do homem e, oh meu deus!, era o Alain Voss. Li o excelente artigo de Sara Sanz Pinto e reconheci o humor, o lado desconcertante que ele às vezes exibia, e o talento brutal para fazer exactamente o que o cliente lhe pedia – ou o que ele queria, quando não reconhecia ao cliente o saber que ele exigia que se soubesse. O artigo do i, infelizmente sem link no ionline, detalha uma vida rica, um saber superior, e tudo o que explica a capacidade daquele homem desenhar “a pedido”, com técnica, sem deixar de ser criativo.

Fiquei triste com a sua morte. Fiquei conformado por dele me lembrar e por ter feito parte dos que, de passagem, lhe reconheceram talento.

Mas acho que fiquei ainda mais triste por ter passado uma vida inteira na ignorância sobre a vida, a importância e o passado daquele homem extraordinário que se cruzou no meu caminho e eu perdi de vista sem nunca realmente ter sabido quem era.

 

(É nestes momentos que me sinto ignorante. Não é quando reconheço que não consegui ler “Ulisses”, de James Joyce, até ao fim.)

03
Jul11

Algo muito estranho

João Gonçalves é rapaz que vomita prosa e opinião sobre melga que se atreve a voar, mesmo quando não morde. Não tem medo de nada nem de ninguém. E em geral é lesto na resposta, especialmente quando provocado. Já fui vitima de porrada, e também de palmada nas costas, por isso no stress. Estou para me deitar, leio coisas como esta, e esta, não falando da página 11 do Expresso sob o titulo "O assessor que chamou alforreca a Passos", e pasmo. João não diz bóia.

O meu interesse é mais profundo do que se possa pensar: João Gonçalves, que nome tem esse comprimido que estás a tomar? É que preciso imensas vezes e não consigo encontrar... Podes mandar por SMS?

Um pouco mais a sério: o episódio João Gonçalves reduz a existência à triste ideia que um dia ouvi de um homem de finança e da politica - toda a gente tem um preço. Pode nem ser em dinheiro. Pode ser um preço simples, como uma tabuleta na janela. Ou um gabinete com vista. Ou a perspectiva de fazer parte daqueles que, passado o sacrifício, ficam por fim na administração de um teatro, uma fundação, qualquer coisa com ópera e noites bem vestidas.

Entretanto fui percebendo. Vamos ver como vai desenvolver-se o episódio.

01
Jul11

O nome dela é Assunção Cristas

Não espero de um novo Governo – mesmo tendo contribuído para a sua eleição -, o milagre dos pães ou o paraíso depois do pântano. Já ando cá há anos suficientes para saber como funciona o “centrão”, e como Bernardino Soares teve razão, ontem, no Parlamento, quando sentiu o “deja vu” dos lugares que se trocam: o PS diz o que PSD dizia, o PSD/CDS agora é o PS “que está”. Não há milagres nem pão para malucos.

Espero deste Governo, em boa verdade, pouco mais do que a diferença do “estilo Sócrates”: mais verdade, mais humildade, menos arrogância, menos clientelismo, menos boys, menos propaganda, mais factos, mais acção. Tudo isto subsiste no domínio da atitude, não do conteúdo. Porque, quanto ao conteúdo, sabemos mais ou menos o que aí vem. Se puder haver melhor justiça, já é um passo em frente. O resto, é “malhar” em cima de nós.

Como se vê, expectativas baixas.

Porém, um sinal mais: a entrevista de Assunção Cristas à TVI-24, ontem à noite, mostrou uma mulher informal, aberta, humilde (sem deixar de mostrar segurança), e com uma incomum capacidade de encaixe. Mesmo quando o jornalista lhe chamou “a miúda do Governo”, Assunção não perdeu o sorriso tranquilo. Respondeu a tudo, explicou as vantagens do seu super-ministério, foi clara na conciliação de ambiente com o ordenamento do território, ou a agricultura, e com isso deixou-me respirar fundo. Quando foi apanhada na curva, disse sem medos “ sobre as barragens ainda não sei nada”. Respirei fundo segunda vez. É normal, tem oito dias de Governo.

Por contraste com o estilo Sócrates, foi como se tivesse renascido a governação de “face humana” inventada (e bem) por António Guterres e muito rapidamente esquecida por todos, de um lado ao outro do hemiciclo.

Talvez Assunção Cristas venha a ser a imagem de uma nova geração de políticos. Com pena minha será, uma vez mais, ver à direita o que era “obrigação” da esquerda. Infelizmente, está a tornar-se comum.

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Blog da semana

Gisela João O doce blog da fadista Gisela João. Além do grafismo simples e claro, bem mais do que apenas uma página promocional sobre a artista. Um pouco mais de futuro neste universo.

Uma boa frase

Opinião Público"Aquilo de que a democracia mais precisa são coisas que cada vez mais escasseiam: tempo, espaço, solidão produtiva, estudo, saber, silêncio, esforço, noção da privacidade e coragem." Pacheco Pereira

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