






Ganhem os proximos dez minutos:
Este foi certamente o mais estranho mês de Agosto de sempre, desde que me lembro de haver meses de Agosto (o que também não é assim há tanto tempo, lembro-me de tão poucas coisas).
Mas sim, foi um mês estranho.
Houve talvez uma única noite de calor, daquelas em que adormeço ao ar livre e acordo com a alvorada enquanto me coço com o que resta do campo de batalha das melgas.
Não houve dois dias seguidos consequentes – se havia mais calor também tínhamos mais vento, se o mar ficava calmo e suave, logo a chuva vinha estragar tudo. Parecia um mês desapontado com a vida.
Foi o pior mês de sardinhas desde que gosto de sardinhas – ou seja, desde há 20 anos. As melhores que comi, assei-as eu mesmo debaixo de chuva, num instável equilíbrio entre o umbral da casa e as goteiras que me deixaram encharcado.
Foi um mês de marés esquisitas, ventos desencontrados e chuva. Ou sol inclemente sem compensação.
Foi um mês normal porque perdi mais um torneio de Uno – coisa que sucede com metódica regularidade desde que o meu filho sabe o que é Uno. Mas foi anormal porque cheguei a estar a ganhar-lhe 7-1, o que é fora do comum.
Foi um mês de estranhas relações, ou de inesperados encontros e desencontros. Ainda não “estou capaz” de perceber.
E é um mês que termina sem fim. Sem fecho. Os jornais do fim-de-semana são fracotes. O tempo nem sim nem sopas. O mar nem sim nem sopas. O vento, sempre o vento.
Este foi um estranho mês de Agosto. Por mim, passo.
Tudo o que se banaliza perde graça – não no sentido engraçado, mas no sentido do estado em que as coisas boas se devem manter. Nos últimos anos, por causa desta coisa das redes sociais e da internet, o verbo “partilhar” – que tinha algo de ingénuo, familiar e de esquerda, não deixando de ser afecto à religião, o que de alguma forma lhe dava ainda mais “graça” – passou de “in” a “out” a uma velocidade estonteante.
Nunca me apetece dizer partilhar, mesmo quando é disso que se trata.
Como agora. Costumo dizer – já o escrevi aqui, estou careca de o dizer na rádio - que as crónicas do meu Amigo Miguel Esteves Cardoso no Publico são o meu “café da manhã” de todos os dias (com a sorte minha, e a trabalheira dele, de não descansarem nem ao domingo). Sei que “café da manhã” é a expressão brasileira para pequeno-almoço, mas uso-a nesse dúbio duplo-sentido: primeira refeição e primeiro café do dia.
Ontem à noite, estava a trocar mails com o próprio, e saiu-me a expressão que melhor define a minha forma de começar a manhã: eu leio diariamente as crónicas do Miguel como se fossem café.
Não são o meu café da manhã, são mais do que isso: são o que seria o café se o café pudesse vir com o Público.
Como o Público não inclui café, ali está o café que então seria. Não dispenso. Bebo sempre. Faz parte da minha (melhor) rotina. E no fim arrasto o sabor até ao limite.
Sem café, não sou.
Claro que me lembrei do “como se fosse água” do Saramago. Mas há toda uma diferença que ambos sabemos - e mais uma pessoa sabe.
Fica então assim e que se lixe, “partilho”: leio todos os dias as crónicas do Miguel como se fossem café. E são.
Num diálogo entre o Rui Henriques Coimbra e uma amiga, às tantas ele diz sobre Lisboa em Agosto:
“Que saudades desses fins de tarde cheios de promessa...”
E eu sorri com a mesma saudade.