






É longa, mas é assim mesmo:
Por que raio a Europa serve como termo de comparação para acabar com os subsídios de férias e de Natal (mesmo que os países onde se pagam 12 salários tenham rendimentos médios 3 e 4 vezes superiores ao nosso), e a mesmíssima Europa não sirva para nada quando se fala de televisão pública e se verifica que a esmagadora maioria dos países da União não apenas a tem, como os seus cidadãos a pagam bem mais cara do que os portugueses?
Fico sempre um bocado encanitado quando querem fazer de mim parvo.
Por causa do post de ontem, onde “evocava” a memória desse grande “estadista” que foi José Sócrates, e dos comentários que mereceu dentro e fora do blog, apercebi-me de um fenómeno curioso:
Passamos a vida a criticar os nossos semelhantes – sob a divertida fórmula substantiva “Os portugueses...”, que sempre nos exclui... – dizendo que têm “memória curta”. É por terem “memória curta” que votam sempre nos mesmos, que elegeram Cavaco, que dão vitórias a autarcas corruptos, que aplaudem o mesmo Portas que antes vilipendiaram.
Porém, os que criticam a “memória curta” nacional e a convocam para exigir mudança, ocupam-se agora a limpar o passado recente com a pergunta/fórmula “ai o Sócrates ainda tem culpas?”. Ou mais candidamente: “e não podem deixar o Sócrates em paz?”. Ou misericordiosamente: “Coitado do Sócrates, não o largam...”. Ou militantemente: “ele ía a caminho da missa quando veio a crise e deu cabo de tudo”...
Ou seja: uma vez saído de seis anos da mais lamentável governação, e encontrando-se discretamente a beber capuccinos nas esplanadas de Paris, José Sócrates ganha estatuto de impunidade, torna-se inimputável, e deixa de contar para as contas da miséria em que nos encontramos?
Eu diria que ele continua a fazer parte do quadro. Acho mesmo que ele é um dos protagonistas do quadro.
Mas a nossa extraordinária capacidade de perdão já lhe devolveu a folha em branco, e só passaram seis meses...
É milagrosa, de facto, a capacidade que temos de passar a limpo o passado. Ou visto do lado da realidade crua e triste: nunca vamos aprender com os erros cometidos. Por isso eles se “sucedem constantemente”, como “as ondas do mar salgado”. “Umas trazem peixe, as outras principalmente”.
É por aí que vamos novamente. Bute lá, então. Quanto mais se bate no fundo, mais fundo ele pode ir, não é assim?
Leio no jornal que Basilio Horta, deputado (agora) socialista, terá dito que o ministro da economia Santos Pereira vai ficar conhecido como o “ministro do desemprego”. Na televisão, à noite, vejo uma mulher aos gritos na Assembleia – ou era a Aiveca do Bloco ou a jovem Rita Rato do PCP – a chamar ao ministro Santos Pereira, já e com todas as letras, o “ministro do desemprego”.
Faço uma pequena busca pelo INE e verifico que há dez anos a taxa de desemprego se situava em 4,2%. Governava então, em fim de ciclo, o socialista António Guterres. Seguiu-se a sequência aziaga de Durão Barroso/Pedro Santana Lopes/José Sócrates. Só o homem que nos enterrou de vez governou os últimos seis penosos anos. O desemprego subiu, desse longínquo 2001 até ao actual 2011, para os 12,1%. Triplicou.
Não é “ligeiramente” exagerado, para não dizer objectivamente falso, chamar a Álvaro Santos Pereira, que tomou posse há cinco meses, o ministro do desemprego?
Não seria mais acertado e justo dizer que esta é ainda o país que herdámos de José Sócrates, a que se soma uma Europa de pantanas e um mundo à deriva? Isto é o que eu vejo, claro.
Mas lá está: cada um vê o que quer.