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Pedro Rolo Duarte

31
Out11

Uma pergunta ao ministro Miguel Relvas

É longa, mas é assim mesmo:

Por que raio a Europa serve como termo de comparação para acabar com os subsídios de férias e de Natal (mesmo que os países onde se pagam 12 salários tenham rendimentos médios 3 e 4 vezes superiores ao nosso), e a mesmíssima Europa não sirva para nada quando se fala de televisão pública e se verifica que a esmagadora maioria dos países da União não apenas a tem, como os seus cidadãos a pagam bem mais cara do que os portugueses?

Fico sempre um bocado encanitado quando querem fazer de mim parvo.

28
Out11

Uma contradição bem portuguesa

Por causa do post de ontem, onde “evocava” a memória desse grande “estadista” que foi José Sócrates, e dos comentários que mereceu dentro e fora do blog, apercebi-me de um fenómeno curioso:

Passamos a vida a criticar os nossos semelhantes – sob a divertida fórmula substantiva “Os portugueses...”, que sempre nos exclui... – dizendo que têm “memória curta”. É por terem “memória curta” que votam sempre nos mesmos, que elegeram Cavaco, que dão vitórias a autarcas corruptos, que aplaudem o mesmo Portas que antes vilipendiaram.

Porém, os que criticam a “memória curta” nacional e a convocam para exigir mudança, ocupam-se agora a limpar o passado recente com a pergunta/fórmula “ai o Sócrates ainda tem culpas?”. Ou mais candidamente: “e não podem deixar o Sócrates em paz?”. Ou misericordiosamente: “Coitado do Sócrates, não o largam...”. Ou militantemente: “ele ía a caminho da missa quando veio a crise e deu cabo de tudo”...

Ou seja: uma vez saído de seis anos da mais lamentável governação, e encontrando-se discretamente a beber capuccinos nas esplanadas de Paris, José Sócrates ganha estatuto de impunidade, torna-se inimputável, e deixa de contar para as contas da miséria em que nos encontramos?

Eu diria que ele continua a fazer parte do quadro. Acho mesmo que ele é um dos protagonistas do quadro.

Mas a nossa extraordinária capacidade de perdão já lhe devolveu a folha em branco, e só passaram seis meses...

É milagrosa, de facto, a capacidade que temos de passar a limpo o passado. Ou visto do lado da realidade crua e triste: nunca vamos aprender com os erros cometidos. Por isso eles se “sucedem constantemente”, como “as ondas do mar salgado”. “Umas trazem peixe, as outras principalmente”.

É por aí que vamos novamente. Bute lá, então. Quanto mais se bate no fundo, mais fundo ele pode ir, não é assim?

27
Out11

Ver o que se quer ver

Leio no jornal que Basilio Horta, deputado (agora) socialista, terá dito que o ministro da economia Santos Pereira vai ficar conhecido como o “ministro do desemprego”. Na televisão, à noite, vejo uma mulher aos gritos na Assembleia – ou era a Aiveca do Bloco ou a jovem Rita Rato do PCP – a chamar ao ministro Santos Pereira, já e com todas as letras, o “ministro do desemprego”.

Faço uma pequena busca pelo INE e verifico que há dez anos a taxa de desemprego se situava em 4,2%. Governava então, em fim de ciclo, o socialista António Guterres. Seguiu-se a sequência aziaga de Durão Barroso/Pedro Santana Lopes/José Sócrates. Só o homem que nos enterrou de vez governou os últimos seis penosos anos. O desemprego subiu, desse longínquo 2001 até ao actual 2011, para os 12,1%. Triplicou.

Não é “ligeiramente” exagerado, para não dizer objectivamente falso, chamar a Álvaro Santos Pereira, que tomou posse há cinco meses, o ministro do desemprego?

Não seria mais acertado e justo dizer que esta é ainda o país que herdámos de José Sócrates, a que se soma uma Europa de pantanas e um mundo à deriva? Isto é o que eu vejo, claro.

Mas lá está: cada um vê o que quer.

23
Out11

Auto-regulação

 

Ontem arbitrei quatro jogos num torneio de futebol entre este grupo de adolescentes. O pretexto eram os 16 anos do meu filho. Fui acusado de ser árbitro "de menos" - porque pedagogicamente deixei que a auto-regulação fosse a regra, e o meu apito a excepção.

Mas aprendi mais um bocadinho sobre o ser humano: prefere um apito arbitrário (e até, porventura, injusto), à obrigatoriedade de se auto-julgar.

(Ainda assim, uma esperança: na esmagadora maioria dos casos, os jogadores não apenas se entenderam como souberam aplicar-se a si próprios as faltas cometidas).

Não correu mal, apesar das criticas ao árbitro distraído.

Claro que o melhor da festa foi vê-los felizes, a jogar à bola. E o meu filho nas suas sete quintas.

22
Out11

Vergonha alheia

As imagens da morte de Muammar Khadafi e dos momentos que a rodearam enchem-me de vergonha alheia.

Não me interessa de quantos mil mortos ele foi responsável – não partilho da lei de talião que reza o clássico “olho por olho, dente por dente”. Por isso, gostava que tivesse sido capturado com respeito e julgado com justiça. E também por isso, receio pelo futuro da Líbia: não acredito que a mesma gente que mata e vibra com a morte desta forma desprezível e desumana seja capaz de se converter a uma qualquer espécie de civilização razoavelmente próxima da democracia.

Da mesma forma, noto que os mesmos que se sentaram à mesa com Khadafi, sabendo bem quem era e de que forma governava, saúdam agora a sua morte, duplicando em mim a vergonha alheia.

Às vezes gostava de não ser pessoa, para não ter de me sentir, pelo menos na aparência, igual a esta espécie de meus semelhantes.

O mundo desilude-me diariamente.

E todos os dias eu respiro fundo e digo para mim mesmo: vai ser melhor, vai ser melhor.

Mas há dias difíceis.

21
Out11

Ver em HD, ver em LD

(Crónica originalmente escrita para a revista Lux Woman)

 

Ando um bocado irritado com os televisores, os gravadores, as câmaras, os telefones. Cada vez se vê melhor, cada vez há mais nitidez, a “alta definição” passou a ser a medida baixa e as iniciais HD são o “ómega 3” da electrónica: fazem parte do rótulo. Declaração sumária: não quero ver tudo em HD. Gosto da baixa definição, da média definição, da definição zero. Conforme. E falo com conhecimento de causa: eu vejo mal.

Começou tudo aos 15 anos, com uma dor-de-cabeça prolongada. Não foi difícil perceber que tinha um problema e que iria usar óculos. No começo, apenas para ler e ver televisão, mas rapidamente para tudo e mais alguma coisa. Não era nada de preocupante, nenhuma miopia galopante nem sequer um astigmatismo incontrolável, mas o suficiente para o par de óculos fazer parte de mim, hoje, como uma orelha ou o nariz. Tive momentos de amor e ódio com o objecto - hoje, não me passa pela cabeça uma operação ou lentes de contacto. Os óculos tornaram-se uma parte de mim. Aliás, das mais sólidas e consistentes.

Quem os usa, sabe do que falo. E sabe também que o “caixa-de-óculos” – alcunha que, felizmente, nunca tive… - tem uma relação especial com os seus óculos. Há quem os perca em cada esquina, quem adormeça com eles postos, há quem nunca os limpe e viva numa espécie de nuvem de pó e gordura. E depois há obcecados como eu: uma nano-gota de pó obriga a limpeza com água, sabão e papel higiénico (para quem não sabe, o trio maravilha da lavagem de lentes…), nunca perdi um par de óculos, nunca me sentei em cima deles, nunca deixei de os actualizar no máximo de dois em dois anos. Os óculos são como as mãos – para usar e conservar, não perder e manter em bom estado.

Mas mesmo em matéria visual, há coisas que mudam. Tinha a mania de comprar óculos escuros e mandar graduá-los – até ao dia em que experimentei usar óculos de sol sem graduação, porém de uma boa marca. Nesse dia percebi duas coisas: que a modéstia da minha graduação não me impedia de ver sem óculos, e que umas boas lentes fazem milagres num dia de sol. Faltava a lição final: há um generoso número de pessoas, coisas, paisagens e mesmo páginas escritas que ganham pontos consideráveis quando vistas com um ligeiro desfoque.

Sem óculos, as pessoas ficam todas, mesmo todas, mais bonitas. A diferença no foco atenua rugas, borbulhas, marcas, manchas. As caras duras arredondam, e as redondas ganham sorrisos. As cores mal misturadas desmaiam, há páginas de livros e revistas e jornais que deixam de ter leitura. Os cabelos por lavar deixam de se notar. O suor indesejado e inconveniente some-se. O pó desaparece dos móveis e as chávenas de café mal lavadas deixam dúvidas. As ruas ficam menos sujas, nalguns casos mesmo limpas, e os grafittis das paredes perdem atitude. Há sapatos que parecem engraxados.

Não ver bem não é, portanto, um mal imenso. Pode ser uma vantagem. Um doce. No mundo do You Tube – onde o que conta é qualquer coisa que mexe, mesmo que se veja e oiça muito mal – eu estava não apenas feliz mas consolado. Os vídeo do You Tube são quase sempre sem óculos.

… Agora, fazerem-me viver em alta definição, cada gota de suor na minha testa reproduzida em dez milhões de lares portugueses, o pingo de café escancarado na gravata castanha escura, isso sinceramente dispenso. Não quero.

E é por isso que ando um bocado irritado com os televisores, os gravadores, as câmaras, os telefones. Não quero tudo em HD. É tão simples que até chateia. Mas alguém tinha de o dizer: muitas vezes, é por se ver menos bem que se vê melhor.  Em alta definição é que não.

20
Out11

Do tempo

Não é para citar a canção, mas sim, o tempo mudou entre ontem e hoje. Voltou a vento, baixou a temperatura, sentiu-se por fim o cheiro a Outono.

Mesmo aqueles que, como eu, não conseguem viver sem praia e sem mar, já pediam menos graus no ar e mais folhas de árvore em terra.

Mas, ao mesmo tempo, sinto no ar uma espécie de nostalgia antecipada: o tempo arrefece, vem aí a realidade. Agora é que vão ser elas.

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Blog da semana

Por Falar Noutra Coisa. Humor neste reacordar do blog. Rir é o melhor remédio. Lugar comum indiscutível.

Uma boa frase

“Sucessivos governos ficaram irritados, o actual vai um pouco mais longe, esquecendo que votar é um direito mas nunca uma obrigação. Em países desenvolvidos os cidadãos até votam durante a semana, ao passo que na choldra querem proibir jogos de futebol para obrigar o povo a ir votar." António de Almeida, Aventar

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