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Pedro Rolo Duarte

12
Dez11

No meio de umas mudanças...

... Percebo que é altura de me desfazer desta chamada "mesa de sheriff" (parece que é assim que se chama no Brasil...).

Se alguém se entusiasmar ce quiser fazer uma oferta, favor usar o mail "pedro.roloduarte@sapo.pt".

Medidas da coisa: 1,40 por 77 cm de profundidade e 1 metro de altura...

Agradecido...

 

10
Dez11

Asfixia

Quando penso na crise europeia, e nesta incapacidade estapafúrdia de controlar os mercados, como se houvesse entidades superiores – isto é, acima dos seres humanos, e com autonomia... – a trucidar as economias e a moeda, não consigo deixar de me lembrar de um extraordinário conto de Patrícia Highsmith intitulado “O Observador de Caracóis”. Resumindo, trata-se da história de Peter Knoppert, um homem que, como hobbie, começou a observar caracóis, depois de ter surpreendido um casal desses bichos em pleno acto sexual...

Fascinado pelos animais, Knoppert começa a juntar caracóis e a deixá-los reproduzir-se no estúdio de sua casa, e tudo isso foi acompanhado por uma alegria de viver e sucesso profissional que aquele novo mundo lhe trouxera. Num ápice o estúdio passou a “continente” dominado por caracóis, que Knoppert alimentava e observava diariamente, e que não paravam de se reproduzir e de ocupar espaço.

Um dia, quando tentou dominar os milhares de bichos que lhe cobriam a sala e se multiplicavam sem parar, escorregou naquela massa de caracóis, que foram caindo por cima dele, sufocando-o até à morte...

Quem conhece Patrícia Highsmith, sabe que, resumido assim, o conto é apenas assustador – lido, é mais um dos seus extraordinários bocados de ficção que sempre misturaram a misteriosa mente humana e a trivialidade de que se faz a vida.

Voltando ao começo: tudo o que leio sobre a crise e os seus protagonistas – “os mercados”, o Banco central Europeu, as agências de rating, etc... -, deixa-me a ideia de que quem está a matar o sonho europeu, a moeda, a economia, e no limite a nossa sobrevivência, são uma espécie de caracóis a quem demos de comer e agora nos sufocam. Animais informes, sem alma nem parecença com a raça humana, que se reproduzem até nos sufocarem na casa que lhes oferecemos e que alimentámos.

Não haverá seres humanos suficientes para deterem essa caracolada toda?

09
Dez11

Ainda sobre greves (em geral...)

Ora cá está um bom exemplo.

Quando vejo a greve dos pilotos da TAP ser desconvocada – paralisação que era, parece-me, inteiramente justificada, dado que estava em causa um compromisso do Estado para com a classe, que claramente seria esquecido no momento da privatização da companhia... -, dizem as noticias que a Administração terá cedido, não sei se muito ou pouco, nas exigências dos comandantes (melhor seria não lhes chamar exigências, mas sim: cumpram lá o que nos prometeram...).

Para mim isto faz sentido: uma classe profissional sente-se lesada, protesta, convoca greve. A administração da empresa avalia os prós e contras da acção, parte para a negociação, cede na sua prévia atitude. A greve teve UM EFEITO. Faz sentido.

É exactamente o que não vejo, não vi, na Greve Geral. Tudo ficou na mesma – e o que mudou, foi apenas para que o Governo possa dizer que o PS está enterrado até ao pescoço no aprovado Orçamento de Estado.

Era disto que eu falava aqui.

E é isto que penso. Assunto encerrado.

 

07
Dez11

Ainda o estripador, más e boas noticias, e (poucas) ideias

Má noticia: o jornal “Sol” vendeu a sua última edição anunciando uma “grande investigação” que teria descoberto a autoria de crimes que ficaram conhecidos pelo nome do “estripador de Lisboa”. Menos de oito dias depois, a “investigação” parece resultar, cada vez mais, numa brincadeira de dois indigentes, à procura de protagonismo, que enganaram a jornalista Felícia Cabrita, o “Sol” e os seus leitores, além de todos os que replicaram a notícia.

 

Ideia: como nas grandes revistas e jornais norte-americanos, faz falta à nossa imprensa o “departamento de verificação de factos”. Algo que impedisse que uma matéria publicada sob a marca “grande investigação” pudesse agora parecer um balão esvaziado – e com escassa investigação.

 

Boa notícia: o rapaz que tentou entrar na Casa dos Segredos com o segredo “o meu pai é o estripador de Lisboa”, não passou o casting do programa. Ainda não batemos no fundo.

 

Má noticia: O programa “Casa dos Segredos”, que Miguel Sousa Tavares disse na SIC ser o principal responsável por esta caldeirada toda, é visto diariamente, em média, por um a um milhão e meio de espectadores, e supera regularmente a fasquia dos 40% de share (isto é, percentagem de pessoas que, estando a ver TV naquele momento, estão a ver aquele canal).

 

Noticia assim-assim: o Jornal da Noite da SIC, onde Miguel Sousa Tavares disse que a Casa dos Segredos era “culpada”, também supera regularmente o milhão de espectadores mas não consegue chegar perto dos 40% de share.

 

Ideia: não deve tardar o esperto que reclame uma nova “Entidade” reguladora da cabeça dos portugueses que impeça que haja quem queira ver a Casa dos Segredos e, por essa via, acabe de vez com gente mal formada que admita vender o pai por uma mentira qualquer. Ainda não ouvi o clássico “o que isto está a pedir é uma ditadura”, mas não deve faltar muito. Uma “ditadura dos bons”, claro...

06
Dez11

O crime compensa

Depois de anos e anos a enganar os incautos leitores do jornal Público, misturando factos com opiniões e passando assim incólume a todo o tipo de atoardas que foi soltando, sendo amiúde parte interessada nalguns temas (como no tempo em que colaborava na RTP...), Eduardo Cintra Torres foi cair naquele grupo de trabalho que “estudou” o Serviço Publico de Televisão e produziu o mais lamentável, negligente, absurdo e primário documento de que há memória no audiovisual cá da terra. Tão mau que o seu Presidente e porta-voz, João Duque, se desdobrou em entrevistas onde fez questão de se espalhar ainda mais ao comprido, seja na famosa alusão à RTP-Internacional “orientada” pelo Governo ou na admissão infantil e ridícula de que sim, o grupo tinha dedicado pouco ou nenhuma atenção à rádio pública porque... porque tinha acontecido!...

Eduardo Cintra Torres fez parte desta palhaçada a que chamaram Grupo de Trabalho.

Pois bem: depois disto tudo, ou melhor dito, ainda assim, Cintra Torres foi convidado para escrever semanalmente no Correio da Manhã. Sobre media e televisão. Assim se eterniza o bluff. E é como digo: o crime compensa.

05
Dez11

Pensar o meu país

Por causa de um projecto pessoal em que estou empenhado - e que um dia destes, quando puder, contarei, porque vale a pena partilhar o que é bom da vida... -, tropecei num texto absolutamente notável de Vergilio Ferreira, publicado na sua Conta-Corrente (Vol II, ou seja, 1977/79).

É uma reflexão sobre Portugal, os políticos portugueses (e não só...), e se tivesse sido escrita hoje, não havia ponto nem virgula a mudar-lhe. Ora leiam, e deliciem-se:

 

“Pensar o meu país. De repente toda a gente se pôs a um canto a meditar o país. Nunca o tínhamos pensado, pensáramos apenas os que o governavam sem pensar. E de súbito foi isto. Mas para se chegar ao país tem de se atravessar o espesso nevoeiro da mediocralhada que o infestou. Será que a democracia exige a mediocridade? Mas os povos civilizados dizem que não. Nós é que temos um estilo de ser medíocres. Não é questão de se ser ignorante, incompetente e tudo o mais que se pode acrescentar ao estado em bruto. Não é questão de se ser estúpido. Temos saber, temos inteligência. A questão é só a do equilíbrio e harmonia, a questão é a do bom senso. Há um modo profundo de se ser que fica vivo por baixo de todas as cataplasmas de verniz que se lhe aplicarem. Há um modo de se ser grosseiro, sem ao menos se ter o rasgo de assumir a grosseria. E o resultado é o ridículo, a fífia, a «fuga do pé para o chinelo». O Espanhol é um «bárbaro», mas assume a barbaridade. Nós somos uns campónios com a obsessão de parecermos civilizados. O Francês é um ser artificioso, mas que vive dentro do artifício. O Alemão é uma broca ou um parafuso, mas que tem o feitio de uma broca ou de um parafuso. O Italiano é um histérico, mas que se investe da sua condição no parlapatar barato, na gritaria. O Inglês é um sujeito grave de coco, mas que assume a gravidade e o ridículo que vier nela. Nós somos sobretudo ridículos porque o não queremos parecer. A politiqueirada portuguesa é uma gentalha execranda, parlapatona, intriguista, charlatã, exibicionista, fanfarrona, de um empertigamento patarreco — e tocante de candura. Deus. É pois isto a democracia?”

04
Dez11

Há três ou quatro dias que não oiço outra coisa

 

Há três ou quatro dias que não oiço outra coisa. Já li criticas absurdas sobre o Rodrigo Leão “refém” do estilo que criou – como se isso não fosse o melhor que um compositor pode ter e ser, ele próprio no universo musical que desenhou para si... – e já percebi que deve ter chegado a hora de esvaziar a aura. Pode ser um fenómeno Madredeus-II. Dá-me igual. Há um lado eternamente patético na critica, em geral, que sempre me deixou suspenso numa pergunta – “e...?” -, que geralmente resulta da velha ideia do “já não é como era..”. Oh meu deus, tirem-me deste filme, porque eu colecciono elogios a um passado perdido, também tive a minha dose...

Há três ou quatro dias que mato saudades da musica de Rodrigo Leão com a música nova de Rodrigo Leão. Melhor seria impossível. Que prazer voltar a sentir a minha casa, o carro, naquela bolha de alma e espírito, de claridade, música com cheiro, com sabor, uma espécie de lareira sempre acesa, que hipnotiza, que nos leva, que nos faz ir e nos deixa ir.

É assim a “Montanha Mágica” do Rodrigo. Há três ou quatro dias que não oiço outra coisa. E que saudades eu tinha – e por haver discos anteriores, julgava não ter. Ai não, que não tinha...

02
Dez11

O Miguel *

(Esta crónica foi escrita e publicada em Janeiro de 2007 na revista Lux Woman. Hoje, depois da semana que o Miguel viveu -  quem o lê no Público sabe do que falo -, fui buscá-la porque sim, porque claro que sim, porque quero ir comer cabrito ainda antes do Natal naquele sitio que no Verão tem sardinhas, e tudo o resto, até o chá. E as latas. E a Maria João vai estar.)

 

Ele já tinha falado sobre o que é estar perto da morte, e tinha falado do seu casamento feliz com a Maria João, e do prazer das pequenas coisas – cheiros, uma laranja, pão fresco... -, quando o jornalista lhe pergunta: “Certos críticos colocaram alguma reserva à tua ficção. Isso pesa alguma coisa?”. E ele: “Nada. Eu sou um escritor. Escrevo de tudo, da publicidade aos fados. Orgulho-me disso. Orgulho-me de poder escrever um recado à empregada em bom português”. Não contente, o jornalista insiste, como quem procura um final para aquele caminho, e pergunta-lhe se havia alguma crónica por escrever. E ele dá outra: “Então não? As crónicas da vida que me falta. Todas as crónicas até à crónica de estar à boca da morte”.

Confesso: aí caiu-me uma lágrima marota, resistente. E pensei: bolas, que sorte a minha ter um amigo antigo que tanto me ensinou, tanto e tão bom me fez ver, e que ainda hoje, mesmo através de uma entrevista de jornal, me ensina e explica o que ando eu a fazer neste mundo.

É que o Miguel tem toda a razão: a nossa vida, a dele, a minha, a de tantos outros, é escrever, escrever sempre e tentar sempre escrever bem, no recado à empregada ou na crónica, ou no projecto que se adia, ou...

Não vejo o Miguel há mais de um ano. Mas penso nele todos os dias – porque todos os dias, em algum momento, há algo que faço e que a ele se deve. Tenho amigos mais antigos, que amo na mesma e eternamente. Mas ao Miguel eu devo mais do que a amizade – devo a aprendizagem de coisas essenciais à vida e à profissão: a humildade, o reconhecimento de que não adianta levarmo-nos demasiado a sério, a capacidade de encaixe e de aguentar a critica. Se não fosse o Miguel eu teria deprimido quando um critico disse que eu era como um ovo – não tinha ponta por onde se pegasse... Por causa do Miguel não só consegui rir como fui capaz de falar com esse critico e apreciar o seu trabalho. Se não fosse o Miguel, o gin tónico que enfeita os meus finais de tarde era desenxabido sem 3 gotas de limão fresco. Se não fosse o Miguel eu continuava a beber wiskhy escocês e a ter vergonha de gostar muito da Simone. Não falando agora do Gambrinus, ou da comida japonesa quando ninguém por cá se abeirava dela. Se não fosse o Miguel, a forma como olho e penso o jornalismo continuaria hoje menos aberta e descomplexada. O Miguel é monárquico e conservador. Eu sou republicano e liberal. Ele é muito mais liberal do que diz, e eu sou muito mais conservador do que julgo.

É uma sorte ter um amigo assim. Uma sorte que me deu abertura de horizontes e a clara noção da diferença entre o dever, o prazer, a obrigação e o direito. Eu nunca tinha pensado que a maioria das coisas que faço, faço porque quero – e não porque devo. Eu não devo quase nada – eu posso, eu quero e faço, eu tenho prazer e vou, eu uso um direito e cumpro. Mas na vida ninguém “tem de”.

Sempre que um novo ano começa, eu penso que isto não pode continuar e que tenho de ver o Miguel mais vezes – pelo prazer de estar com ele e para continuar a conversa das últimas sardinhas que comemos na Boca do Inferno. Mas depois as coisas nunca seguem o curso que devem e acabo por vê-lo menos do que quero – porque também nisso o Miguel me ensinou que na amizade não há dividas nem cobranças nem direitos e deveres. Há apenas o que tem de haver – e que está lá muito além da presença física ou dos encontros marcados na agenda. Está, por exemplo, no livro que me surpreende no Outono. Ou no telefonema em que sonhamos mais uma revista. Ou nesta entrevista onde ele às tantas diz: “Sou muito feliz. Desde que casei, então, sou felicíssimo”. Era só isso que eu queria saber e ouvir. O resto, bom, a vida encarrega-se do resto.

 

* Esteves Cardoso

Blog da semana

Por Falar Noutra Coisa. Humor neste reacordar do blog. Rir é o melhor remédio. Lugar comum indiscutível.

Uma boa frase

“Sucessivos governos ficaram irritados, o actual vai um pouco mais longe, esquecendo que votar é um direito mas nunca uma obrigação. Em países desenvolvidos os cidadãos até votam durante a semana, ao passo que na choldra querem proibir jogos de futebol para obrigar o povo a ir votar." António de Almeida, Aventar

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