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Quinta-feira, 26 de Maio de 2011

(As crónicas que assino diariamente na Antena 1 são, pela sua natureza, marcadas pela oralidade, juntam citações de blogues e redes sociais, e não merecem mais do que os minutos de áudio a que têm direito. Hoje, porém, excepcionalmente, acho que faz sentido replicar aqui, em texto, a crónica que foi para o ar há minutos...)

 

Na segunda-feira passada começou a circular na Internet um vídeo de uma violentíssima agressão de duas adolescentes a uma terceira, perante o olhar divertido de um grupo de rapazes, nomeadamente do que filmava e dizia “isto vai tudo para o Facebook”. E foi. É um vídeo de uma violência sem descrição, e acima de tudo, um momento de verdadeira insanidade, dado que a vítima está sozinha, é agredida por duas raparigas, e ninguém à volta se mexe. Os rapazes que observam a cena gozam, riem, como se estivessem a assistir a um combate de boxe.

O facto de o vídeo ter sido colocado no Facebook tornou fácil a confusão do costume: de repente, a rede social é que era a culpada da cena, ai Jesus, vamos lá diabolizar a internet.

Nada disso, claro. O que temos de pensar é obviamente como se educam os jovens em Portugal, como se permite que a violência gratuita não provoque mais do que risada e gozo. Neste caso, o Facebook até foi útil – porque a estupidez dos adolescentes, ao mandarem o vídeo para a net, tornou-os imediatamente cúmplices e culpados. Pior: um grupo de anónimos criou na hora um blog, o Rudolfo e as suas Renas, onde se reproduziram em JPG’s os diálogos entre os vários jovens no Facebook – diálogos que, quando o vídeo chegou à televisão, foram prontamente apagados. Quem se der ao trabalho de ler esse blog vai descobrir um verdadeiro mundo de violência juvenil, de ignorância e analfabetismo de toda a ordem (é rara uma palavra estar bem escrita ou sequer bem empregue), e uma cultura muito abaixo de rasca. Parece que já foi detido o autor do vídeo, os envolvidos já foram identificados – não é difícil: através do blog conseguem identificar-se, via facebook, todos eles – e o caso segue nos tribunais.

Mas o que fica deste episódio, na internet mas especialmente nos jornais, é uma vez mais essa diabolização de uma rede social por manifesta incompreensão do que está em causa. O que se passou em Benfica foi uma briga de adolescentes, assistida por outros adolescentes que gozaram o prato de forma animalesca, sem dó nem piedade. Dá que pensar? Claro que dá. Agora, traduzir isso para um crime inspirado pelas redes sociais, é não apenas confundir a estrada da beira com a beira da estrada, como é um mau trabalho jornalístico. Razão tem no seu blog Helena Sacadura Cabral quando escreve: “Vantagens e, simultaneamente, inconvenientes, das redes sociais e portanto da internet. Mas que fazem pensar naquilo que queremos para nós como comunidade!”.

E é exactamente isto: o exibicionismo barato de um vídeo permite a estes pequenos criminosos serem gente por um dia e exibe o nível de valores e o tipo de ética que (não) lhes assiste – mas sem ele, talvez nunca chegássemos a debater que raio de jovens andamos a educar. Entre a ignorância e a informação que preferíamos não ver, apesar de tudo é melhor saber com o que contamos por aí. Nem que seja para, como faz Nuno Dias da Silva, defender a diminuição da “idade penal para os 14 anos para deixar de mandar estes inimputáveis para casa como se nada fosse”. É uma primeira ideia. O debate devia continuar. Não por causa do Faebook, mas graças a ele.


publicado por PRD às 18:30
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3 comentários:
Fico muito mal disposta ao rever as imagens, mas muito disposta a questionar se estamos num mundo onde de facto os actos têm consequências?! Onde andam os pais destes "seres" que agridem assim gratuitamente? Todos, idependentemente da idade, deveriam prestar contas!

deixado em 26/5/11 às 23:58
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certo. o que falha aqui é a educação dos jovens.
se vivêssemos num mundo ideal todos nós seríamos seres educados e inteligentes. mas como não vivemos, não podemos colocar uma venda nos olhos e fingir que este maravilhoso mundo da net existe só para o bem. o que não é verdade. e quem tem algum tipo de falha quer a nível familiar quer a nível neurológico, se calhar, tudo vale para o crime!

deixado em 27/5/11 às 10:07
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Compreendo a tentação de atribuir à educação, ou à falta dela, as culpas quando estamos perante casos destes. É claro que as referências parentais são, muitas vezes, cruciais nestas coisas. E a forma como a escola é entendida também. Mas, em cada uma das pessoas envolvidas, haverá certamente outros aspectos que terão que ser tidos em conta se queremos perceber o que leva a situações extremas destas.
E se em relação ao Facebook , ou outras redes sociais, entendo que não se pode estabelecer uma relação directa entre a sua utilização e a prática de crimes parece-me que não podemos pôr de lado a hipótese da vontade de dar visibilidade a actos, como este de que fala aqui, os proporcionar. Muitos nos perguntamos, neste caso concreto, qual seria a atitude do rapaz agora preso, caso as redes sociais não existissem. Claro que tudo isto são questões demasiado complexas mas o facto é que, como diz Pedro, agora temos hipótese de as tratar de forma mais acessível. Mas atenção que nós somos só opinião pública, não Justiça...

deixado em 31/5/11 às 02:36
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