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Pedro Rolo Duarte

12
Fev12

O paradoxo da bateria, ou um desabafo de domingo

Podia começar no fogo, na descoberta do fogo. Mas andemos uns anos para a frente...
... O Homem descobriu a penicilina. Foi à Lua. Inventou o computador. Inventou a Internet. Reduziu a memória informática a nano-milímetros, de forma a ser possível ter num IPod 60 gigas de música, são dezenas de milhares de canções, e filmes “e o catano”. Temos internet no telefone, Facebook, GPS, e programas que nos localizam tudo – até a casa de banho mais próxima. Há mecanismos que reconhecem a voz, há satélites que rastreiam milimetricamente as nossas ruas. Falo pelo Skype com o meu filho que está do outro lado mundo, e vejo-o como se ele ainda estivesse em casa da mãe. Há 3-D e HD, há fibra e meo-go, agora até podemos ter os nossos próprios canais de televisão.
Tudo e mais umas botas.
Porém...
Porém, lá inventarem um estupor de uma bateria de telemóvel que dure mais do que 12 horas, uma coisinha que nos deixe livre dos carregadores e das paredes por, vá lá, 24, 48 horas... Isso não dá mesmo para inventar? Mesmo?
Qual é a parte do “não faz sentido, no meio de tanta modernice, a bateria ser do tempo da Guerra do Solnado”, que vos escapa, oh campeões da tecnologia?!

11
Fev12

O que é preciso é “saudinha”

Anda toda a gente muito exaltada, acirrada, enervada. Não é para menos, que o momento é tenso e duro – mas daí a tornar manchete uma frase inócua de Pedro Passos Coelho, porque pediu que não fossemos piegas, parece que entrámos no domínio do delírio.
Não alinho nisso.
Acho que um politico não pode insultar, mentir, ofender, achincalhar, humilhar, fazer de nós parvos, e ser negligentemente surdo. Ou seja, não pode ser como Sócrates quando mentiu, não pode ser como Cavaco quando falou das suas contas pessoais. Mas pode pedir para não sermos piegas.
O mais saudoso Presidente americano, John Kennedy, também nos deixou coisinhas meigas e nem por isso é menos admirado e lembrado. Uma para amostra: “Não reze para ter uma vida fácil. Reze para ser um homem forte”. Não falando em Churchill, que nos deixou dezenas: “O vício do capitalismo é a distribuição desigual de benesses; o do socialismo é a distribuição por igual das misérias”...
Não estou a comparar o génio destes com o modesto percurso de Passos Coelho, estou apenas a tentar dizer que os políticos, mormente os governantes, não deixam de ser pessoas e de poder fazer afirmações num estilo informal. Mário Soares terá sido, nesse domínio, o primeiro a saber conjugar a linguagem acessível, até mesmo o desabafo de ocasião, com a elegância e o estatuto.
Dito isto, e aqui entre nós, quando ouvi o primeiro-ministro falar de piegas, dei-lhe alguma razão. Lembrei-me logo dos gerentes de restaurante e dos taxistas a quem, em anos de crise ou de vacas gordas, na miséria ou na riqueza, se perguntarmos como vai o negócio, nunca deixam de ensaiar o discurso (piegas) da lamúria (lembrando Sampaio): “ah, sabe lá, isto anda mal, o negócio já não é como era dantes...”.
Um estilo que vem de longe e se remata com o clássico “saudinha é que é preciso”. Pois é. Mas concordo que este é um bom momento para tentarmos ser menos piegas. Menos queixinhas. E mais chegados à frente.

09
Fev12

Onde fica a porta da rua?

Circula pelo Facebook um pedido escandalizado e indignado de muita gente que diz mais ou menos o seguinte: “O facebook mudou: todos os comentários, os cliques sobre "gosto" serão a partir de agora públicos no Google. Façam-me um favor: - passem o cursor por cima do meu nome, esperem que a pequena janela se abra, cliquem sobre "subscrição" e retirem a subscrição de "comentários e gostos", no que me diz respeito. Se me pedirem, farei o mesmo por cada um de vós e desta maneira os nossos comentários sobre amigos e família não serão divulgados: obrigado”.
Traduzindo: os indignados do Facebook querem estar na rede social – reparem no nome, “rede”, “social”... – mas querem pouca rede e menos socialização. Querem mostrar as fotografias da família, comentar a vida, querem pôr likes e sugerir canções – mas tudo isso às escondidas...
Sempre que vejo estes movimentos apetece-me perguntar: e porque não saem do Facebook?
Querem comentar a família? Telefonem à família. Querem dizer ao artista que o amam? Mandem-lhe um postal. Querem combinar qualquer coisa? Usem a SMS ou o telefone.
Não há nada nem ninguém que nos obrigue a estar numa rede social, embora a forma como estas “comunicações” aparecem nos dê a entender que as pessoas são “obrigadas” a isso.
No dia em que me sentir “ameaçado” no Facebook por falta de privacidade ou abuso sobre a minha informação, é simples: porta fora com ele. Adeus e um queijo. Bye Bye Maria Ivone...
Até lá, please, são tantas as definições de privacidade possíveis para cada utilizador, que não percebo onde pode estar a indignação e a revolta...

08
Fev12

O que a minha irmã Fátima escreveu sobre o nosso pai. Ou melhor dito, sobre o nosso pai e a vida.

Para os mais preguiçosos que não queiram clicar aqui, fica o post integral. Notável post (que também devia estar aqui, no quarto dela...), assim:

 

"O Pedro lembrou o número certo de anos e eu acrescento-lhe as horas. Que horas são estas horas para o pai quando o pai nos deixou a todos? Num dia vivo, no outro morto. Lembro-me das pessoas que estavam presentes, eram muitas, muitas, muitas. O pai morreu sozinho num hospital. Que horas terão sido aquelas horas? O que sentiu? O que sentiu o pai? Se o pai fosse vivo faria 83 anos. Seria um senhor velho bonito, como tão bonito é nesta imagem que todos recordamos, os que o conheceram. De cada vez que leio notícias sobre velhos que morrem sozinhos nas casas, largados à sorte deles, sinto cada minuto que passa antes e depois e brinco para afastar daqui deste sítio a coisa má. Muito para trás e muito para a frente. Não há notícia sobre velhos, mulheres, crianças que me cansem, que não me façam parar. Por piores que sejam, por notícias que de notícias não têm nada dentro? Têm. Têm a morte. E a morte, a ausência, a perda não é normal. Não é normal a saudade, não é normal perder pessoas, não é normal a vida que contém a morte. Sendo que sentido tem sentir desta forma tão intensa e ir contra tudo o que de mais normal tem a vida? A morte certa. O pai não foi só um homem bonito, foi o pai. Que diria ele ao ver-se aqui? Não gostaria. Seria contra mas tão contra que aproveitando a sua ausência, a filha oportunista o cola aqui porque a morte é violenta e incompreensível. Sentir não tem certo ou errado. Sentir é isto, uma coisa tão pequena e íntima que tira ao pudor um bocadinho do grande pudor que o pai tinha, que o Pedro tem, a mãe, eu tenho. Souberas tu como cada um de nós, a nosso fraco modo, tem a tesoura grande arrumada. Se pudesses ver como nasceu o dia aqui, há neves e sol, os passos das pessoas, o cheiro das neves. Se não tivesses desandado sozinho para o sítio onde ninguém bom quer alguém bom. Que terás sentido naquelas horas que não sei quantas foram? Terão sido minutos? Pensaste em quê? Pensaste em quem? Pensaste no filme da tua vida, digo, o filme dos filmes que vias no cinema? Como foi a partida, sozinho? Devia haver uma lei, universal, que regulasse cada morte com uma notícia. Todas as mortes merecem notícia. Todas. Mesmo que a notícia comece com a palavra nasceu e termine com morreu e nos pareça parva, irrelevante e risível. Para afastar a morte do sítio onde a morte está, por todo o lado, é normal que seja a cabeça a comandar o coração e que tudo fique racionalmente arrumado para que a vida continue, como aqui, neste espaço carregado de tanta coisa e coisa alguma. Que continua, para baixo, para baixo, empurrada, para baixo. Como o papel de jornal onde eu te lia sobre os outros e li sobre ti: nasceu e morreu."

07
Fev12

Sobre isto do Carnaval

O Governo já prometeu actualizar ainda este ano os dados para que saibamos, em rigor, quantos funcionários tem a administração pública. Calcula-se, a contas de 2009, que andem pelos 670 mil. De cada vez que se corta um feriado ou uma tolerância de ponto, estamos a falar de 670 mil dias de trabalho que se ganham. Ou do trabalho de um dia de 670 mil pessoas.
É certo que não trabalham todos de igual forma.
Só para dar um exemplo, estou à espera de uma resposta a uma reclamação que fiz à Segurança Social, em nome de uma familiar, de uma cobrança coerciva infundada (para lá de largamente prescrita...), há praticamente um ano. Não me digam que é excesso de trabalho ou de processos, porque até no balcão onde reclamei me disseram na hora que eu tinha razão. Ou seja, é apenas excesso de negligência e desprezo para com o contribuinte pagante.
Ora, se a toleranciazinha de ponto do Carnaval, ou um feriado a menos, reduzir em alguns minutos o tempo que espero – eu e tantos milhares... - por uma resposta, por hipótese, da Segurança Social, acho que valeu a pena.
Quem demora (pelo menos...) um ano a responder a uma reclamação, depois de ter executado a putativa “pena” sem apelo nem agravo, talvez tenha mesmo de trabalhar no Carnaval...
... Porque a verdade é esta: se eu demorar um ano a fazer algo que supostamente devia fazer em dias ou semanas, perco o meu trabalho. Sem tolerância.

04
Fev12

Pensamentos soltos (sobre o frio) para este sábado:

 

Que o frio nos sirva para arrefecer os ímpetos e estimular reacções.
Que o frio nos aproxime e com isso nos aqueçamos.
Que o frio nos lembre o calor que nos falta – e não desistamos de o procurar e encontrar.
Que o frio nos dê ar – porque o calor nos tira.
Que o frio nos torne mais tesos – tesos, sinónimo de rijos, é bom observar... Precisamos disso para os tempos que se seguem.
Que o frio nos guie – porque lá à frente vem calor.

 

(a roupa pendurada nas janelas foi uma inspiração como outra qualquer. Tipo, frio para mim é roupa a sair do estendal...

Na verdade a fotografia foi tirada nas ruas de Veneza, há uns meses largos)

02
Fev12

Regime e governo

Volta não volta reabre o debate sobre a monarquia. Ou melhor, sobre a restauração da monarquia. É um bom debate, porque permite que se “converse” sem gritos: os monárquicos são, regra geral, pessoas muito educadas, boa parte dos melhores fazem o favor de serem meus amigos, e confesso a minha simpatia “emocional” pela causa.
Sucede que não apenas não partilho a causa como não concebo a vida em democracia sem o voto dos cidadãos, das pessoas, enfim, de nós, que cá andamos. Para tudo o que mete governação, por mais simbólica que possa ser, defendo o voto.
Também desanimo com a democracia tal e qual existe, com o centrão que alterna entre si o poder e se vai servindo do tacho sem excepção, também desanimo com o alheamento dos eleitores que se queixam sem terem dado um passo para mudar o que quer que seja. Mas tudo aquilo de que me queixo não passa pela mudança de República para Monarquia – mas apenas pela mudança de atitude: de eleitores passivos a activos, de desinformados a informados, de analfabetos a letrados. O problema português – e nem acho que seja apenas português – não passa tanto pelo regime, mas muito mais pela capacidade de aproveitar o melhor do regime para mudar a governação, quem governa, como se governa.
É fácil: basta googlar Islândia (monarquia que se tornou república por referendo com esmagadores 95% de votos) e aprender com a experiência recente de um país bem formado.
Dito isto, amanhã, se o dia me correr bem, vou à noite beber um copo aqui...

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Blog da semana

Gisela João O doce blog da fadista Gisela João. Além do grafismo simples e claro, bem mais do que apenas uma página promocional sobre a artista. Um pouco mais de futuro neste universo.

Uma boa frase

Opinião Público"Aquilo de que a democracia mais precisa são coisas que cada vez mais escasseiam: tempo, espaço, solidão produtiva, estudo, saber, silêncio, esforço, noção da privacidade e coragem." Pacheco Pereira

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