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Pedro Rolo Duarte

18
Mar12

Eu, crítico

A crítica disse tão mal de “Florbela”, de Vicente Alves do Ó, que fui ver o filme cheio de vontade de gostar dele. No Público, Luís Miguel Oliveira caracterizou-o como “tão insípido, tão indistinto, como a mais vulgar série de televisão”. O Expresso foi ainda pior. 

Alimento há muitos anos uma generosa distância para com a crítica (intelectualmente, é bom de ver...). Ocorre vezes demais gostar dos filmes de que a maioria dos críticos não gosta. O pior é que, em muitos casos, os argumentos para chumbar esses filmes são justamente aqueles que me levam a aprová-los. Neste quadro, leio o que se escreve e consigo detectar na bola preta os sinais de que há ali razões para comprar o bilhete.

Desta vez, porém, fui ao tapete.

“Florbela” é, como dizem as críticas que lemos, um filme sem nexo, sem lógica, sem ponta por onde se lhe pegue. Tem uma fotografia bonita, sem dúvida, e uma composição de época que por instantes nos ilude.

Mas logo a realidade se encarrega de nos pôr no lugar: os diálogos são confrangedores, de tão pobres (embora muitas vezes travestidos de profundos, na citação mais óbvia ou no insuportável lugar-comum), o argumento parte de lado nenhum para chegar a lado algum, a pobre Dalila do Carmo bem grita e se esforça mas não consegue dar espessura maior do que uma folha de papel à personalidade de Florbela Espanca, e o filme acaba sem que se perceba sequer o que nos quis mostrar o realizador, ou que história quis contar. Não é uma biografia, não tem uma história, não é um episódio – são rascunhos de momentos de uma novela mexicana, colados com cuspo e alimentados por uma música estupidamente melodramática (que ameaça sempre um tsunami em quadros onde nem uma brisa se sente...).

Eu quis mesmo gostar de “Florbela” – mas desta vez foi bingo ao contrário. Senti-me um crítico. Pior era impossível.

11
Mar12

Parte de brunch feito em casa

Está na moda essa coisa do “brunch”, mas o conceito é a minha praia mesmo quando não tinha nome: ao fim-de-semana, desde sempre, acordar tarde, fazer tudo tarde, e comer a uma hora algures entre o pequeno-almoço e o lanche. Vem dos tempos das Noites Longas ou das “rave parties” (em armazéns que ainda hoje não sei onde ficavam, tendo porém lá estado...), passou pelas tardes ao balcão do Gambrinus, apanhou intervalos do tempo em que a Moda Lisboa começava cedo.

Na Praia Grande, o brunch era uma sanduíche mista com tomate e alface no Angra. No Alentejo, era aquela pasta de atum do Bar da Luz na praia do Carvalhal.

Enfim, hoje decidi recuperar um “brunch” da minha adolescência  - ovos mexidos com tomate (receita simples, os ovos são misturados e batidos com tomate cortado em pedaços bem pequeninos, cozinham-se em azeite com sal e pimenta, o ponto é a gosto, para mim bem passado...) – mas acrescentei-lhe consistência: algumas fatias finas de presunto pata negra (cura de 18 meses, levezinho), espargos brancos cortados grosseiramente, um fio da maionese, cebolinho cortado fino. Tostas de pão de Mafra.

A companhia ideal para este pratinho é uma blanche Hoegaarden, que sendo mesmo cerveja até leva coentros e casca de laranja...

Bom, até à hora do jantar, está feito. Um bom domingo.

09
Mar12

(a gritar) ESTOU TÃO FARTO DISTO

A noticia: “A Coca-Cola e a Pepsi vão alterar a composição dos seus refrigerantes eliminando substâncias potencialmente cancerígenas, nomeadamente o 4-metilimidazol (4-MI), que dá às bebidas o tom de caramelo”.

O que me faz gritar que estou farto disto é a ironia da coisa: até a bebida mais simbólica do capitalismo selvagem é apanhada pelo politicamente correcto que tomou conta desse mesmo capitalismo.

Tudo mata, tudo faz mal, e eu começo a perder a paciência para os updates diários do software da nossa vida: hoje os ovos fazem bem ou mal? A sardinha continua na prateleira verde ou já lhe descobriram o ingrediente para mudar para o encarnado e ir fazer companhia à carne de vaca? A dourada é boa – mas se for de “aviário”, parece que é má. Farinheira, sabe tão bem e “diz que” faz tão mal.

E quantos cafés posso beber? Para não abusar no café, bebo descafeinado – “faz pior”, diz logo alguém. Para prevenir diabetes, uso adoçante – “ui, isso é péssimo”, já sei...

E o vinho, continua no verde se bebido “à taxa” de um copo por refeição? De que tamanho pode ser o copo?

Acabei de me informar e confirma-se que o porco é omnívoro, o que significa que na sua alimentação podem entrar bolas de ping-pong, óculos partidos e mesmo cadeiras. A bifana está ameaçada? Não devo comer a minha querida carne de porco à alentejana?

Agora é a Coca-Cola. Por deus, dá para não meterem a Coca-Cola nisto? Podiam fazer o favor de nos deixar em paz (pelo-menos-sobre -uma-bebida-que-já-sabíamos-que-devia-fazer-mal-mas-não-queríamos-que-nos-maçassem-com-o-assunto)?

 

PS _ Disseram-lhe que o leite não era lá muito bom para a saúde dos adultos? Pois esqueça: “Travar ou mesmo prevenir o aparecimento das células malignas responsáveis por alguns tipos de cancro da mama pode passar por um gesto tão simples como beber leite”. Leia o resto aqui. E ria, ria muito. O mundo não está perigoso, está mas é ensandecido...

08
Mar12

Sarkozy, filho de húngaro e casado com uma italiana, e a imigração

Ía escrever sobre o tema, mas tendo o Manuel Jorge Marmelo escrito exactamente o que me apetecia escrever, e melhor do que eu escreveria, o melhor é reproduzir na íntegra e agradecer-lhe. Obrigado.

Cá vai:

 

"Nicolas Sarkozy, o anão em saltos-altos, considera que há demasiados estrangeiros em França. Como costuma suceder sempre que alguém profere frases deste teor, haverá quem se tenha escandalizado e quem esteja exultante. Não será, porém, caso nem para uma coisa nem para a outra. Sarkozy tem razão. Há demasiados estrangeiros em França e também há demasiados franceses em França. Há demasiados alemães na Alemanha, e a Espanha, então, está a rebentar de espanhóis e de indivíduos das mais diversas nacionalidades. A China é habitada por uma quantidade perfeitamente excessiva de chineses. E por aí adiante, ao ponto de muitas vezes, escutando com atenção o Governo português, eu também me sentir um pouco a mais em Portugal. Feliz ou infelizmente, não sei, é também muito complexa a operação de escolher um país para o qual possa emigrar sem que ali venha a transformar-me num estorvo estrangeiro. O próprio Sarkozy está a mais no mundo, o qual passaria perfeitamente sem a sua presença, mesmo se é difícil determinar se ele é um francês supranumerário em França ou, antes, um filho de estrangeiros que ali está a estorvar quem apenas quer viver um dia de cada vez, sem ter de estar sempre a procurar o impossível país onde um homem, ou uma mulher, possam simplesmente pousar a cabeça"

06
Mar12

Ponte

Calhou que no fim-de-semana tirei esta fotografia:

 

 

E depois "googlei" ponte e "saiu-me" isto, aqui:

 

"entre o agora e o agora,

entre o que sou e o que és,

a palavra ponte.

 

entrando nela

entras em ti:

a palavra liga

e fecha como um anel.

 

de um banco ao outro

há sempre

um corpo longo:

um arco-íris.

dormirei sob as suas cores".

 

E ficou. É de Octavio Paz.

 

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Gisela João O doce blog da fadista Gisela João. Além do grafismo simples e claro, bem mais do que apenas uma página promocional sobre a artista. Um pouco mais de futuro neste universo.

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