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Pedro Rolo Duarte

30
Set12

Uma palavra de honra

Quando que se fala na palavra “Fundação”, a memória devolve-me à infância e aos jardins da Gulbenkian, onde sempre gostei de passear, onde namorei na adolescência. Mas também ao Museu Gulbenkian, o mais remoto onde me lembro de ter estado. Ao Centro de Arte Moderna, o primeiro espaço de cultura que vi nascer do nada. Ao auditório a céu aberto que me abriu os ouvidos ao jazz. E aos auditórios da Fundação, onde participei, jovem adulto, no Primeiro Congresso dos Jornalistas Portugueses (e me rendi às palavras de Ferreira Fernandes e Fernando Alves...). São só algumas memórias.

A palavra “Fundação” era para mim, até há pouco tempo, uma palavra de honra. Tinha esse sentido de doação de riqueza em prol dos outros, herança solidária e filantrópica.

Não foi por acaso que quis ler a biografia de Calouste Gulbenkian – foi justamente por essa admiração que inspira e convoca futuro, em nome de um passado.

A nossa classe política conseguiu agora, num ápice, tirar a honra à palavra “Fundação”. Melhor dito: “tirar-me” a honra à palavra “Fundação”.

Sei bem que, no momento que vivemos, em face do que pode faltar à mesa, uma palavra é pouco mais que nada. Ainda assim, uma palavra de honra é sempre uma palavra de honra.

Foi mais uma que mataram. Qual será a próxima?

28
Set12

Memória

 

Obrigado, LPA, pelo link. Este blog é mesmo um museu vivo e imperdível...

 

... E de repente lembrei-me dos Monotones, do escritório pequenino no prédio da Embaixada de Israel, dos Pizo Lizo, de "Ser Solidário", de "Quando o Coração Chora", e de tanta coisa mais...

25
Set12

Na melhor revolução cai a nódoa... (ou o clássico "não há almoços grátis")

 

 

Reportagem da revista VIP desta semana com a protagonista da foto-simbolo das manifestações de 15 de Setembro. Claro que "gostava que (esta súbita fama) me desse uma oportunidade profissional". E a pérola: "Gosto muito de fotografia. Não sou vaidosa, mas gosto de me sentir bonita. Revelei a minha faceta feminina. Além de pacífica, também sou mulher".

Vou passar a usar esta construção. Primeiros exemplos: além de Benfiquista, também calço 40; além de cozinhar, também leio Patricia Highsmith; além de hipocondríaco, também sou lisboeta.

Enfim, não há manif sem folclore, e não há folclore sem um emplastro ou um "cromo da bola". Neste caso saiu cromo.

23
Set12

Dá-me música...

(Crónica originalmente publicada na revista Lux Woman. A de Outubro saiu agora mesmo...)

 

Antigamente havia sinais óbvios da idade: a calvície, ou os cabelos brancos, as rugas à volta dos olhos e dos lábios, o pescoço e as mãos enrugadas. O discurso paternal - “no meu tempo, sabes lá...” -, marcava a diferença. Os mais velhos distinguiam-se dos novos com argumentos e factos evidentes, claros, inequívocos. E aos sinais exteriores, correspondiam os sinais interiores: ler os clássicos, citar Eça de Queiroz, gostar de música clássica, cultivar o cinema menos comercial. Era assim, e eu gostei que fosse assim.

Mas agora, que me aproximo dos 50 anos e julgava ter chegado a minha hora de dizer “rapaz, sabes lá o que é música...”, confronto-me com a mudança. A idade deixou de ter sinais óbvios – e não foi apenas, nem essencialmente, por razões cirúrgicas. Podemos esticar a pele, retocar o que a lei da gravidade condena, apaziguar as noites mal dormidas. Mas o que o nosso disco rígido guarda, minhas senhoras, esqueçam lá isso: é o que é.

Nesse sentido, sinto que pertenço à última geração dos que achavam que o rock e a música pop tinham um tempo, e esse tempo era o da juventude dos seus protagonistas.

Cresci a imaginar que os Beatles eram um fenómeno geracional e deixaria de fazer sentido quando fosse adulto (e já em bónus, porque os Beatles são realmente do tempo do meu irmão António), e era obvio que os Rolling Stones acabariam quando um deles fosse pai ou sucumbisse a uma overdose. O que me ensinaram foi bastante linear: o rock é uma música própria da miudagem, e quando se chega à idade adulta ouvem-se cantautores (talvez a mais feia designação que jamais ouvi...) e música clássica. No limite, cada geração teria o seu rock, como se fosse um tipo de refrigerante, ou um daqueles gelados da Olá que duram um Verão. O problema é que não foi nada disso que sucedeu.

A miudagem cresceu, os adolescentes dos anos 60 tem agora pelo menos 70 anos, não se inova na música popular, mais coisa menos coisa, desde os Joy Divison, o que significa 30 anos a refazer musica já feita. Há crianças de 5 anos a ouvir Beatles, o meu filho gosta de Rui Veloso, e conheço uma melómana moderna que descobriu Sting há dois meses e hoje não pára de ouvir canções que os Police tocavam em 1982...

Num dos Festivais de Verão deste ano, o homem que atraiu mais gente ao recinto chamava-se Peter Gabriel, tem 62 anos, e a primeira vez que actuou em Portugal ainda eu não tinha autorização dos meus pais para sair à noite, quanto mais para um concerto em Cascais. As gerações cruzaram-se, misturaram-se, e convivem alegremente à volta de todos os tipos e de todas as idades da musica.

Como definir diferenças, se não há quem não goste de Xutos & Pontapés? Como podemos estabelecer patamares de autoridade, se os sobrinhos nos vêem beber cerveja e abanar o corpo no Rock in Rio ao som de Bruce Springsteen?

Não sei se é uma boa notícia, mas é a notícia que tenho para dar: o conflito de gerações entrou em modo “sleep” no que à música diz respeito. Deixámos de ter autoridade moral e somos pouco respeitados.

Por um lado, sempre desejámos esta comunhão e interacção. Por outro, mostramos a cada concerto que somos iguais a eles, aos filhos (e nalguns casos, já aos netos...), no melhor e no pior. Faz lembrar aquele conselho que os esotéricos dão: cuidado com o que deseja, há fortes probabilidades de se tornar realidade. Amámos tanto a musica que a nossa adolescência nos deu, que ela agora contagia os nossos filhos e não sabemos o que fazer.

Ou sabemos. Eu sei: é ouvir, dançar, e querer mais.

21
Set12

Dúvida metódica

 

Sempre a tive.

Ontem, a ler um jornal francês, confrontei-me com factos objectivos e voltei a pensar no assunto. Que é este: com o fim do velho rolo fotográfico e o nascimento da fotografia digital, que torna praticamente gratuito o “disparo” da máquina, a multiplicação de fotografias pelo mundo foi brutal. Mas entretanto a coisa piorou, porque os telefones tornaram-se, eles próprios, potentes máquinas fotográficas, e são vendidos com o argumento comercial dos pixeis e da qualidade fotográfica – como ainda agora o lançamento do novo iPhone demonstrou.

Dizia o jornal que nos últimos dez anos se multiplicou por dez o número médio anual de fotografias tiradas pelo ser humano. Estima-se que em 2012 se tirarão qualquer coisa como 850 milhões de fotos (e nem consigo imaginar como se consegue chegar a um numero, mas enfim...)...

Por tudo e por nada, fotos. Viagens são fotografias, acontecimentos são fotografias, sentimentos traduzem-se em fotografias.

A minha dúvida é sempre a mesma, há muitos anos: quando desatamos a tirar fotografias não estaremos a deixar de ver e sentir o momento para, num golpe atirado à eternidade, adiarmos para ver e sentir mais tarde no sofá de casa?

Será que ainda somos capazes de apenas ver e sentir o que acontece, no momento em que acontece, sem nenhum filtro entre nós e o que acontece?

Parece-me que não.

Era isso.

19
Set12

Uma lição barata

"Na realidade eu não poderia, com coerência, ficar bem comigo mesma, receber um prémio literário que me honra tanto (...) das mãos de uma pessoa que está empenhada em destruir o nosso país”.

Isto disse Maria Teresa Horta, que recusou receber das mãos de Pedro Passos Coelho o Prémio D. Dinis.

Uma nota apenas. Não fica bem a uma mulher que se diz de esquerda menosprezar umas das riquezas maiores da democracia: a que legitima o exercício do poder por aqueles que o povo livremente elegeu. Não fica bem,  resvala para um maniqueísmo muito pouco democrático e é, no fim de contas, uma lição barata de moral política. Dispensável, portanto, em tempos que pedem mais assertividade e menos demagogia.

17
Set12

Aritmética sexual

O Expresso começou este fim-de-semana a apimentar a nossa vida com um assunto – por fim... – mais interessante do que a crise: a vida sexual dos portugueses. Um mega-estudo, o maior jamais feito na nossa imprensa, que vai encher a revista de sonhos, frustrações, revelações, e as eternas comparações que fazem as delícias de toda a gente.

“O quê, 18,8% dos portugueses só faz amor uma a três vezes por mês? Vês, querido, nós estamos bem acima da média...”

Imagino as conversas que o estudo vai dar...

Por mim, confesso, o que me entristeceu foi o gráfico sobre a satisfação sexual da pátria, cuja curva descendente é de tal forma proporcional à idade que já entrei na tristonha fasquia dos “abaixo de 40%”. O caminho não é famoso, e é sempre a descer. Se soubesse desde a juventude o que o Expresso agora me revela, tinha aproveitado melhor a vida entre os 18 e os 24 anos...

Dito isto, fiquei com ideia que somos pouco imaginativos, temos poucas fantasias e, numa escala de caracterizações sumárias, diria: somos uns caretas. Não falo da minha intimidade, por isso não vos digo se a vida me tem mostrado tal retrato, mas isto é o que vem no Expresso. E foi estudado.

Ainda assim, mesmo sabendo que, neste tipo de matérias sensíveis, há muita mentirinha nas respostas dos inquiridos, e ressalvando o fraco talento que tenho para a aritmética, não consegui ultrapassar uma dúvida metódica.

A saber: em Portugal há mais mulheres do que homens, é verdade, mas a desproporção é pouco significativa - 100 homens para cada 107 mulheres.

Ora, o estudo do Expresso revela que 12% dos homens já teve mais de 10 parceiras sexuais, enquanto apenas 1,2% das mulheres teve mais de 10 parceiros sexuais. Contas básicas, isto daria 550 mil homens com mais de 10 parceiras, e cerca de 70 mil mulheres com o mesmo quadro de honra. Não bate certo...

A dúvida é esta: ou eles partilham um reduzido número de loucas que têm milhares de parceiros, andam sempre em tournée, e não respondem a inquéritos do Expresso, ou... Eles praticam sexo uns com os outros.

Ou então alguém aqui não disse toda a verdade.

Gosto de inquéritos sobre a vida sexual porque... lá está: deixam margem para todo o tipo de fantasias...

 

PS – Ah, uma ideia para o Dr. Gaspar e o Dr. Coelho: com mais de 40% de inquiridos a revelar que tem relações sexuais uma ou mais vezes por semana, não seria de considerar uma taxazita sobre o sexo? Um imposto equitativo, claro: não há quem não pratique...

16
Set12

Mesmo à distancia, pai babado...



Trabalho do meu filho António Maria para a disciplina de Cinema & New Media. A ideia era um filme de 3 minutos sobre uma pessoa. Ele escolheu um australiano no seu mais puro estilo. Do que vou percebendo - através do que me conta de lá... - a escolha foi acertada. E o trabalho, bom, sou suspeito... Partilho, pronto, com pontinha de orgulho...

16
Set12

Se eu fosse...

Se eu fosse primeiro-ministro, depois de ver o país indignado que se mostrou de forma clara neste sábado, falava aos portugueses ainda este domingo. Pedia desculpa por ter errado, pedia desculpa por ter persistido no erro para lá do razoável, e ía para casa. Dava o lugar a quem pudesse acertar, a quem os portugueses dessem mais um voto de confiança. E mantinha-me na política, espinha bem direita, aprendendo a fazer melhor para um dia merecer um qualquer lugar que os eleitores achassem novamente merecido.

Pelo caminho, fazia um “estágio” na vida normal, no mundo do trabalho.

No fundo, ía aprender a ser.

 

Deve ser por isso que eu jamais poderia ser primeiro-ministro.

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Blog da semana

O Diplomata. Dez anos de blog é obra. Alexandre Guerra festeja, e com razão, um espaço de reflexão, análise e opinião do mundo político internacional. Merece o bolo.

Uma boa frase

“Se isto fosse no tempo do Sócrates, a esta hora o Trump já tinha em cima da mesa uma proposta da Mota-Engil para a construção do muro. Com financiamento do BES e projecto do Siza Vieira." Rui Rocha, Delito de Opinião

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