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Pedro Rolo Duarte

31
Out12

Os números

Ainda a propósito deste post, vejo os números de vendas da imprensa no primeiro semestre de 2012. É assim:

 

  • Há 41 811 portugueses que deixaram de comprar jornais diários, incluindo os desportivos, por comparação com o primeiro semestre de 2011. Ou seja, venderam-se menos 7 milhões e meio de exemplares.
  • Há 25 547 portugueses que deixaram de comprar semanários, incluindo as duas newsmagazines que circulam, por comparação com o primeiro semestre de 2011. Ou seja, venderam-se menos 613 mil exemplares.

 

A tendência não oferece dúvidas – o que torna ainda mais surpreendente o imobilismo dos meios. Provavelmente, a imprensa replicará o país: quando estiver à beira do abismo, vai à procura de uma troika que a salve. Nem que venha de Angola.

31
Out12

Das palavras

Num momento tão crítico e sensível, num momento em que os nervos estão à flor da pele, o medo do abismo tolda os movimentos, e já não é o futuro, mas o presente, que nos apoquenta, todos os cuidados são poucos quando temos responsabilidades e falamos publicamente. As palavras são hoje como balas – porque a guerra está ainda no domínio das ideias, não saiu à rua... -, e servem à medida para quem se confronta na praça pública.

Neste quadro, a afirmação de Fernando Ulrich, presidente do BPI – “O país aguenta mais austeridade?... Ai aguenta, aguenta. Não gostamos, mas aguenta” – é muito infeliz. Triste frase, ainda que na essência não traduza nada do outro mundo.

Aos políticos exigimos uma atitude de seriedade no trabalho e respeito para com o sentir dos cidadãos, e fazemo-lo porque exercemos o poder de os eleger.

Aos banqueiros, não podemos exigir muito, porque eles devem lealdade apenas aos accionistas dos bancos que lideram. Porém, podemos pedir que não brinquem publicamente com os seus estados de alma como andaram anos a brincar com o dinheiro dos outros.

E talvez isso seja o mesmo que pedir a pessoas como Fernando Ulrich para cuidar das palavras antes de as usar. Mais ou menos como presumimos que faz com o dinheiro. Pelo menos, com o seu dinheiro.

29
Out12

Old media, new media

O texto mais lúcido e interessante que li nos últimos tempos sobre a crise dos media no mundo ocidental foi publicado na edição de fim-de-semana do Financial Times, pela mão do pintor e pensador David Hockney.

Mantendo a sua clássica ligação ao conceito “bigger”, desta vez ele pretende que vejamos “The Bigger Picture” (titulo da sua mais recente exposição), aquela em que o espectador não tem apenas um infinito, mas múltiplos infinitos para observar e analisar. É um novo tempo no mundo mediático, marcado pelo fim daquilo a que chama “old media”: televisão, cinema e jornais, tal como os entendemos e consumimos. “The old media needed stars. In the new media your friends are the stars”, escreve Hockney, parecendo banal. Surpreende logo a seguir: “Without the old media, how wil you get famous on YouTube?”. Ele está um passo à frente em relação ao presente...

Entre outras provocações, David Hockney deixa esta: “The age of the mass media is also the age of mass murder. That is probably no accident. The terrors of the 20th century – Nazi Germany, Soviet Russia and Mao’s China – needed control of the mass media”. Hoje, acredita, isso não é mais possível porque os media estão nas mãos de toda a gente, e são sua propriedade.

O artigo tem o titulo “The mass media has lost its perspective” link aqui... -, e constitui um desafio para jornalistas, editores e empresários dos media: entender a evolução e o futuro dos meios de comunicação através dos paralelos que estabelece com a pintura, do cubismo à invenção da perspectiva. E encontrar formas mais imaginativas de pensar o futuro...

 

... Pelo menos, mais criativas do que aquelas que conduzem a artigos como o que, no ultimo Expresso, procura explicar o estado da nossa comunicação social. Lendo este texto, como outras matérias que a imprensa tem publicado sobre o seu estado, a crise económica sustenta e explica sozinha as quebras de vendas, potenciadas depois pela baixa no investimento publicitário - e não há quem aceite que o momento que a comunicação social vive resulta mais do seu autismo conservador na reflexão sobre si própria, e de uma terrível incapacidade criativa de responder ao novo paradigma do consumo de informação, do que de uma fase critica, necessariamente passageira, da economia. Quando a crise passar – sim, um dia ela vai passar... -, as empresas de comunicação social vão acordar e perceber que foram mais vítimas do seu imobilismo do que da falta de investimento publicitário. E que talvez tenham perdido a oportunidade de apanhar o comboio do futuro.

Por força de quererem perceber qual o modelo de negócio que se segue, e de não perder um cêntimo, estão a passar ao lado da sua essência: observar, entender, e mostrar o mundo actual, e a partir deste ponto responder às novas tendências com criatividade e imaginação. Assim foi no passado, assim deveria ser no presente. Mas não: os media produzem hoje a mesmíssima informação do passado, com as básicas adaptações técnicas e informáticas que as novas plataformas pedem. Falta ousadia e faltam ideias – exactamente onde sobram paradoxos, replicações e as agendas de sempre.

Nessa medida, ler a análise de David Hockney (não é demais lembrar que o senhor caminha para os 80 anos...) é inspirador e traz boa energia.

Devia estar no palco da conferência sobre o futuro dos Media que o Expresso e a SIC Noticias promovem por estes dias – e devia estar na mesa de trabalho daqueles que editam os jornais e as revistas que se queixam da crise, enquanto vivem em mais do mesmo, num arco cansado que vai dos “novos paraísos algarvios” às “dietas da moda”, e do “sexo que resiste à crise” aos “refúgios para um fim-de-semana com Mr. Grey”. Quem quer ler o que já leu? Pior: quem quer ler o que nunca quis ler?

Ver “The bigger picture” passa por aí.

27
Out12

No Outono

 

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.


Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.


Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.

Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.


Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.


Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.


E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),


É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.

 

(...)

 

Alberto Caeiro

26
Out12

Inferno

 

Fui roubar esta imagem ao catálogo de martelos pneumáticos da Bosch. Para o efeito serve: não há apartamento para onde me mude que, pouco tempo depois, não sofra obras “profundas” no andar de baixo, ou do lado, ou por cima. Desta vez é por baixo.

Os meus dias agora são acompanhados pelo ruído que pode inspirar a imagem de cima. Não admira que ande aos tombos pelas ruas e sinta a cabeça estranhamente parecida com uma melancia. São os chamados dias de tortura.

26
Out12

A notícia da morte dele era manifestamente exagerada...

Conta o Público online aqui: "Um homem brasileiro de 41 anos apareceu vivo no seu próprio velório na casa da mãe, provocando o susto a todos os amigos e familiares que estavam no local. Gilberto Araújo chegou a casa da mãe, em Alagoinhas, perto de Salvador, no domingo, precisamente quando todos estavam à volta do caixão onde acreditavam estar o corpo deste lavador de automóveis. Alguns dos presentes, perante o que julgaram ser uma assombração chegaram mesmo a desmaiar".

A explicação para o milagroso renascimento: "No último fim-de-semana um lavador de automóveis tinha sido assassinado. Suspeitou-se que fosse Gilberto, cujo irmão foi chamado pelas autoridades para reconhecer o corpo. Contudo, segundo disse à mesma cadeia de televisão (BBC), José Marcos já não via Gilberto há quatro meses e o corpo que viu era muito parecido ao do irmão, pelo que o identificou erradamente e o levou para casa da mãe para fazer o velório".

É por estas e por outras que não ouso meter-me nos caminhos da ficção: a realidade demonstra todos os dias ser infinitamente mais rica.

22
Out12

Respirar melhor. Com a Respira

Já tinha ouvido falar da doença cujo nome é mais difícil de fixar do que as mudanças todas do Orçamento de Estado para 2013, mas agora vai ter mesmo de ser: DPOC, ou seja, Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica. Agora vou ter de fixar esta longa denominação – porque desde há uns dias sou parte da Associação Respira (Associação Portuguesa de Pessoas com DPOC e Outras Doenças Respiratórias Crónicas).

Felizmente, pelas melhores razões. O facto de ter deixado de fumar, com sucesso (até agora, seis anos e meio sem qualquer vontade de recair...), e de ter tornado esse facto público, levou a Respira a convidar-me para apoiar a Associação com trabalho de visibilidade pública. Qualquer dos nomes é demasiado pomposo para o meu perfil e exagerado para o que posso “dar”, mas enfim: é assim que eles chamam, nada a fazer. Embaixador. Ou Patrono.

Uma delas eu terei de adoptar. Talvez prefira embaixador, pela conotação diplomática, pela ideia de viagem. Seja: sou então, agora, juntamente com o actor João Didelet, “embaixador” da Respira.

Com todo o prazer e vontade, darei o meu testemunho como ex-fumador (80% das vitimas de DPOC são fumadores), e porei ao serviço de uma IPSS séria e dedicada os modestos meios de que disponho. Este blog será obviamente um deles.

O que quer a Respira? O óbvio:

Um. Alertar e prevenir sobre uma doença irreversível, que afecta mais de meio milhão de pessoas em Portugal (600 milhões em todo o planeta!), e cuja relação com o consumo de tabaco não podia ser mais directa. Repito: 80% dos doentes são/eram fumadores. Os 20% de afectados que restam são pessoas cuja vida e/ou profissão está directamente relacionada com ambientes muito poluídos.

Dois. Acompanhar, apoiar, unir, aqueles que já sofrem com a doença, e cujas vidas perdem qualidade, muitas vezes por falta de solidariedade e informação, ou pelos estigmas associados à DPOC, de que o mais comum e corrente é a visibilidade do recurso ao oxigénio.

A Respira, que existe desde 2007, promove informação e formação, luta para que os doentes possam ter mais e melhores recursos nas unidades de saúde, e quer contribuir para a prevenção de todas as doenças respiratórias crónicas.

E este foi só um começo de conversa. Como é notório, fiquei honrado com o convite e entusiasmado com a possibilidade de ajudar. Por isso, a partir de agora, com a regularidade que for necessária, vão ouvir falar aqui da Respira e das suas iniciativas. E da DPOC. E da prevenção. E de como foi bom ter deixado de fumar aqueles 50 cigarros todos os dias...

Podem começar por dar uma vista de olhos aqui ao site...

20
Out12

Primeiras impressões

(Crónica originalmente publicada na revista Lux Woman. Uma edição novinha em folha já está nas bancas...)

 

Há frases que fixamos na juventude e que se arrastam atrás de nós pela vida fora, sem que saibamos bem porquê: farão sentido? Constituem lições de vida? Marcaram-nos e por isso ficaram no “disco rígido” que nos garante as lembranças?

Nunca saberei, porque a memória que me habita é aleatória e escolhe guardar registos estranhos – todas as matrículas dos carros do meu pai, desde o Fiat-1500 HL-55-85 dos anos 60... – e esquecer momentos relevantes, ou mesmo nomes de pessoas que efectivamente contam.

Às vezes dá jeito, ou é divertido, viver com uma memória trôpega. Não deixa, porém, de criar conflitos, equívocos, enganos, que não dão jeito algum nem divertem quem os subscreve. Passo por arrogante ou malcriado porque nem sempre reconheço quem devia, ou sei o nome próprio de quem supostamente deveria apresentar socialmente, passo por negligente porque a memória apagou um evento relevante, e pertenço ao universo dos fúteis que sabe de cor o dia em que a princesa Diana casou. Explicar isto é como descrever o big bang: pode fazer-se, mas ninguém acredita. Aliás, ninguém liga.

Assim sendo, vivo numa espécie de memória hippie, cool, que escolhe os ficheiros que presume sejam úteis, e atropela alegremente temas e factos que realmente são do meu interesse. É por isso que há anos deixei de confiar nessa tal frase que alguém me disse na juventude e que ficou gravada cá dentro. Diz assim: “não há uma segunda oportunidade para uma primeira boa impressão”. Ainda coloquei a frase no Google, mas fugi logo: apareceram-me documentos sobre Pedro Passos Coelho e referências a uma empresa de impressão e fotocópias...

Volto ao começo: Há frases que se arrastam atrás de nós pela vida fora, sem que saibamos bem porquê: farão sentido? Esta será uma delas? Por que raio não damos uma segunda oportunidade a uma primeira boa impressão? Errar não é humano?

Os anos passam e ganho um olhar diferente sobre o tema. Uma primeira impressão é hoje, para mim, parecida com a mais rigorosa noção que subscrevo do jornalismo: um rascunho do que acontece. Uma vaga ideia da realidade. Conta-se o que sucede, ou sucedeu. É a primeira impressão.

Percebo que confiemos na nossa intuição e, nesse contexto, há sinais que podemos reconhecer num primeiro contacto e que marcam a imagem com que ficamos dos outros. Mas daí até à ausência de uma segunda oportunidade...

Ao contrário do que esperava, a idade não me deu maior descontracção e paz na exposição pública. Pelo contrário: ter de falar em televisão ou rádio, actividades que fazem parte do meu ofício diário, ganhou tensão, ansiedade e inquietação. Há 27 anos, quando apresentei pela primeira vez em directo um programa de televisão, a inconsciência de estar a falar para centenas de milhares de pessoas não mexeu comigo mais do que o friozinho na barriga das estreias. Passados todos estes anos, estou muito pior: mais tenso, cada palavra é medida como se se tratasse de uma escritura. Há 30 anos, a minha primeira impressão era confiante e segura. Porque era inconsciente e imatura. Hoje, a primeira impressão que possa causar será menos confiante, acima de tudo com menos certezas. Sinto-me mais maduro, logo, com mais dúvidas do que certezas.

A idade tira-nos em certezas o que nos dá em capacidade de aceitar uma segunda impressão. E por isso torna falsa a frase feita do começo desta crónica: há uma segunda oportunidade para uma primeira boa impressão? Talvez não. Mas para uma segunda boa impressão, estou certo que sim. E isso vale mais.

19
Out12

Um poema de Manuel António Pina


A morte e a vida morrem
e sob a sua eternidade fica
só a memória do esquecimento de tudo;
também o silêncio de aquele que fala se calará.

Quem fala de estas
coisas e de falar de elas
foge para o puro esquecimento
fora da cabeça e de si.

O que existe falta
sob a eternidade;
saber é esquecer, e
esta é a sabedoria e o esquecimento.

Do livro "Aquele que Quer Morrer"

Pág. 1/2

Blog da semana

Por Falar Noutra Coisa. Humor neste reacordar do blog. Rir é o melhor remédio. Lugar comum indiscutível.

Uma boa frase

“Sucessivos governos ficaram irritados, o actual vai um pouco mais longe, esquecendo que votar é um direito mas nunca uma obrigação. Em países desenvolvidos os cidadãos até votam durante a semana, ao passo que na choldra querem proibir jogos de futebol para obrigar o povo a ir votar." António de Almeida, Aventar

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