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Domingo, 29 de Maio de 2011

Sempre defendi que aos jornalistas não deve estar vedado, antes deve ser incentivado, o direito de tornar publico o seu sentido de voto. Enquanto colunista de jornal nos últimos trinta anos (enfim, agora menos, mas mais blogger...), divulguei sempre o meu voto, por entender que na transparência da nossa conduta radica a credibilidade profissional que possamos ter. Votar é uma escolha, não é um acto de militância – ou seja, não impede, pelo contrário até estimula, a independência e a análise imparcial.

Assim, quem me leu e lê sabe que votei quase sempre no Partido Socialista. Nunca, por causa disso, fui beneficiado – pelo contrário, por coincidência ou não, os melhores momentos da minha vida profissional ocorreram em momentos de governação à direita – O Independente, a K, a Visão... -, e do mesmo modo nunca me senti discriminado. Quem me conhece e quem comigo já trabalhou sabe que distingo as coisas e sou rigoroso nessas matérias.

Faltam poucos dias para as eleições e decidi que, uma vez mais, deveria manifestar publicamente o meu voto. Explicando previamente que, no essencial, não mudei. Continuo a considerar-me de esquerda democrática, ou moderada, ou liberal, como lhe queiram chamar. Acredito num estado laico, pouco interventivo, mas dinâmico e assertivo no essencial que deve ser de direito comum: educação, saúde, justiça, segurança social. Defendo um Serviço Publico de Rádio e Televisão, mas não concordo com a subsidiação cultural obrigatória. Defendo o Serviço Nacional de Saúde, mas não me custa aceitar que as taxas moderadoras possam valer 100 euros para quem ganha mais de 3000 euros mensais – se isso significar zero euros para quem ganha o ordenado mínimo nacional. Gostava que os políticos tivessem vencimentos mais generosos – mas também queria vê-los efectivamente julgados quando gerissem mal os dinheiros públicos, e aprovaria uma lei que os obrigasse a uma travessia no deserto depois de um desaire efectivo e provado. Defendo uma reforma na justiça que a torne efectivamente para todos – ou seja, mais rápida, eficaz e preventiva. Defendo a educação universal e gratuita, mas não aceito o facilitismo que conduz ignorantes às Faculdades. Concordo com o subsídio de desemprego e o rendimento de inserção – mas gostava que ambos se aplicassem com rigor, valorizando o trabalho sem que a casta educacional ou social garantisse a recusa do trabalho ou a perpetuação da negligência. Num momento critico como o actual, não posso achar razoável que haja lojas ou oficinas ou fábricas sem empregados enquanto pessoas formadas se dão ao luxo de recusar empregos porque estão abaixo das suas qualificações académicas...

Foram só alguns exemplos, para explicar que nada disso está em causa no Governo que aí vem – e que basicamente vai cumprir um programa previamente definido pelo FMI e seus pares. Não há o risco nem de ruptura nem de inovação. O meu voto, por isso, é de exclusão, ainda que seja convicto.

Jamais voltarei a votar no PS enquanto José Sócrates for seu líder. O actual primeiro-ministro, em quem confiei no passado, constituiu a maior desilusão política dos meus 30 anos de direito de voto. Não apenas secou à sua volta todo um Partido como conduziu Portugal ao beco em que se encontra. Foi provinciano na forma como se exibiu publica e profissionalmente, faltou à verdade vezes sem conta, nunca teve a humildade de reconhecer um erro, enganou os portugueses nas expectativas que criou, nos diagnósticos que inventou, nas soluções que improvisou - e adiou ou omitiu sempre a verdade em nome de uma doentia dependência do poder. No que respeita à comunicação social, não me lembro de Governos tão obcecados, vingativos e ameaçadores como os dois últimos.

Estive convictamente convencido de que votaria no PSD até perceber que o cabeça-de-lista por Lisboa seria (o oportunista politico já profissional) Fernando Nobre, e depois de assistir, estupefacto, ao caos, à desorganização, e à falta de autoridade e preparação que Passos Coelho parece fazer questão de demonstrar a todo o momento – dando razão a um blog onde li que os portugueses todos os dias queriam votar mais no PSD, mas o PSD encarregava-se de todos os dias lhes dizer para não votarem. Não poderia votar na CDU ou no Bloco, porque estas duas forças recusaram dialogar com a troika, o que naturalmente as afasta de qualquer solução governativa.

Na coerência dos argumentos, na firmeza da atitude, na liderança em Lisboa de uma mulher de quem gosto e em quem confio, só me resta um partido: o CDS. Não é a minha família politica nem a minha escolha natural (e até cultural...). Mas é o meu voto sincero no partido que, acredito, vai fazer com que o PSD se equilibre e o PS se reestruture.

Nunca pensei, numas legislativas, votar tão à direita de mim próprio – mas também nunca pensei que o PS descesse tão abaixo dele próprio. Espero reencontrar-me à esquerda no futuro.



publicado por PRD às 11:23
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61 comentários:
Revejo-me e identifico-me completamente neste post. Parece-me ser mesmo a única solução razoável à vista.

deixado em 29/5/11 às 12:52
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Jose
Sobra a pergunta: considerou algum dos outros partidos? (que não estão na assembleia).

deixado em 29/5/11 às 14:24
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Muito bem, Pedro. Honestidade e espinha, duas coisas que aprecio muito. Parabéns.

deixado em 29/5/11 às 15:06
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Concordo com quase tudo no seu post. o " problema" principal de Passos Coelho é o de ser ele próprio, com tudo o que isso trz de bom e mau na política que temos.
Daí que o meu voto, por muito do que o Pedro escreveu, também irá mais á direita do que o habitual, dado o estado a que chegámos, muito por nossa culpa também.

deixado em 29/5/11 às 15:07
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Anónimo
Ora, ora...E eu que ainda cheguei a pensar que seria no PCTP-MRPP.

deixado em 29/5/11 às 16:02
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É-me visceralmente impossível votar mais à direita que PS. Tenho votado em branco, nos últimos anos, mas nestas eleições decidi não o fazer.

Vou no sentido contrário ao teu :)
O meu voto, desta vez, vai para o Garcia Pereira.

deixado em 29/5/11 às 16:02
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Identificando-me eu com a ala esquerda do PSD, identifico-me a 95% com o texto. Mas tenho que arriscar no PPC. Não posso correr qualquer risco de que o José Sócrates ganhe as eleições. E isto é um receio muito forte que eu tenho. Não sei quem são os estrategas do PSD, mas gostaria de saber para não correr o risco de me aconselhar com eles.
Vou partilhar o seu texto, que me agrada bastante. Até porque o seu socialismo e a minha social democracia aparentam ter muitas linhas cruzadas!
Abraço

deixado em 29/5/11 às 17:05
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SÓNIA CARDOSO
Não conseguiria concordar mais com este comentário.
Nem que quisesse.

deixado em 2/6/11 às 13:50
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Rosário
Excelente! Faço minhas as palavras do Pedro.

deixado em 29/5/11 às 18:24
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Isabela
Caro Pedro, também me considero da esquerda democrática, estou muito próxima das suas ideias sobre o que deve ser o papel do Estado e onde deve intervir. Mas não deixa de ser estranho que uma pesssoa que pensa assim se veja obrigada a votar num partido tão à direita e tão conservador como o CDS. Por muito valor que possam ter as pessoas que o representam. Enfim, a perfeição não existe... e a situação política em que vivemos também não ajuda.

deixado em 29/5/11 às 18:46
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fatima graça
Concordo com a sua análise excepto na opção tomada!!! Não era de todo capaz de votar à direita apesar de Portas ter um perfil pessoal com o qual simpatizo...educação principalmente, factor que admiro em qualquer ser humano.
Acredito em Sócrates, voto Sócrates e não entendo o porquê de tanto ódio!...e não sou PS.

deixado em 29/5/11 às 19:52
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Adelaide
Fátima,
A sua lógica é totalmente ilógica. Concorda com a tese e, no final adopta a antítese. E onde está o ódio? O Pedro faz uma análise racional, coerente e lógica.


joao quintino
Desculpe que lhe diga Fátima,
mas a sua opção de voto não é coerente com a analise que faz. Será que não é mesmo do PS???

deixado em 1/6/11 às 13:48
responder a comentário | início da discussão

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