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Pedro Rolo Duarte

26
Abr13

Aos 12 anos

(Crónica originalmente escrita para a revista Lux Woman. A deste mês já está aí, quentinha, nas bancas...)

 

Quando a directora me disse que a revista fazia 12 anos, senti uma espécie de frio na barriga. Ela nem sequer pediu que a crónica fosse alusiva à data, mas senti-me subitamente a rodopiar numa espécie de funil que me mergulhou no passado. Num instante lembrei-me que o tempo existia e senti-me com 12 anos.

Recuei. Voltei à entrada do Liceu de Camões e vi-me sentado numa carteira manhosa, num anexo meio-improvisado, com uma professora de inglês a perguntar-me a cor das minhas unhas. Estava na fase da aversão à água, e o pediatra que os meus pais consultaram terá explicado, numa onda revolucionária (era ainda o ano de 1976...), que há “uma fase assim mesmo”, os rapazes não tomam banho. O resultado foi lamentável, uma vergonha na turma, mas nem por isso impeditivo de alinhar politicamente e me empenhar nessa guerra já então perdida. Até perceber que aquilo a que chamavam “centralismo democrático” não era mais do que uma ditadura a fingir-se de democracia, andei por aquelas bandas todo contente. Mas não deixava de ter 12 anos. De dia, militante político e fumador dos primeiros SG-Filtros da vida...

... E depois de noite, em casa, inventando jornais para a família e criando cidades de Lego onde me imaginava bombeiro. A vida aos 12 anos é uma enorme confusão, pelo menos para o rapaz que eu fui: num mesmo universo misturam-se a vontade infantil de brincar com Legos e carrinhos e a convicção adolescente de que se pode fumar ou beber café, mas também a paixão assolapada que nos faz sofrer profundamente. Ter 12 anos é o maior drama de uma existência – ainda não se é mais do que uma criança, mas já se sente a adolescência e julgamo-nos donos da razão. Pior é impossível.

O outro lado deste drama é maravilhoso: aos 12 anos, uma paixão é mais ou menos como correr a maratona e ganhar. Falta-nos em ar o que nos sobra em felicidade, e a angústia tem um sabor próximo do algodão doce. A vida corre suavemente sobre os carris dos pais, da escola, e de um mapa bem desenhado. Ah, e temos muito mais direitos do que obrigações...

Mas há um drama maior quando se tem 12 anos. Chama-se, em psicologia barata, “a seguir temos 13 anos”. Melhor dito: é quando nos deixam de desculpar os 12 anos e nos cobram o que há a cobrar. É cair na realidade e perceber que a idade não apenas não é um posto, como rapidamente deixa de ser uma desculpa.

Quando, aos quatro anos, a filha mais pequenina de uma amiga diz que “nasceu na eternidade”, toda a gente ri, é romântico e fica bem. Quando eu, aos 13 anos, disse aos meus pais que “nasci com o direito a dedicar-me à política e chumbar o ano por faltas”, não teve graça, ninguém riu, e foi uma estupidez sem nome. Hoje não me sobram dúvidas: a vida vive-se ao contrário. Quando se sabe o que antes se devia saber, é tarde para aplicar o que se aprendeu. E quando nada se sabe e tudo se julga saber, não há como iluminar a sombra invisível. O que vale é que nascemos todos iguais: por mais tecnologia, internet e redes sociais que se criem, ninguém vai saber aos 12 o que devia saber aos 30. Nem o contrário. E no dia em que a nossa Lux Woman faz 12 anos, há quem esteja a nascer, há quem esteja a morrer. Mas em nome das velas a apagar, há quem tenha 12 anos e sofra o pior dia da existência porque não sabe se o miúdo lá do fundo da sala olhou mesmo, fingiu olhar, sorriu, ou é aquele perfil do Facebook que lhe pediu amizade. Aos 12 anos, o fim do mundo é qualquer destas coisas. E é tão bom, não foi?

24
Abr13

Slides perdidos

Quando era miúdo, havia fotografias e slides (já adulto, também era assim - mas dá-me jeito fixar o tempo naqueles anos longínquos...). Os slides eram a cores, o que os distinguia do preto e branco das fotografias (e máquinas) caseiras, mas tinham um enorme inconveniente: nas fotos havia um negativo original que permitia cópias e algum tratamento na câmara escura, já nos “diapositivos” (a palavra em português), dado que eram o “positivo” de um “negativo” único, não havia segunda oportunidade nem “ajustes” possíveis. Isto é: enquanto existiam, eram exactamente a fotografia “tirada” – e quando se riscavam ou perdiam, eram um caso perdido para sempre.

Todos os anos, entre o 25 de Abril e o Dia do Trabalhador, lembro-me de um slide perdido. Sou eu, com 9 anos, no primeiro 1º de Maio livre, em 1974. Nas traseiras do (actual) Estádio Primeiro de Maio, o fotógrafo Eduardo Gageiro desafiou os meus pais a porem-me em cima de uma chaimite cheia de cravos e soldados felizes, para a fotografia de um tempo cuja mudança viviam e sentiam. Os meus pais alinharam, e eu lembro-me de estar em cima daquele carro esquisito.

Era um slide num caixilho de cartão branco, que me acompanhou por muitos anos - juntamente com outro slide, que o meu amigo Gonçalo Rosa da Silva tirou, comigo encostado ao que restava do muro de Berlim, algures em 1990.

Ambos me escaparam das mãos em alguma das mil mudanças de casa que pontuaram os últimos 25 anos.

Estão perdidos, como esse tempo em que tudo parecia fácil, óbvio, e bom.

Talvez esse facto possa constituir uma metáfora do que me rodeia. Um aviso. Ou um conselho. Os “haveres” são sempre o que sobra do que se perdeu.

20
Abr13

Caso queiram, é obrigatório

 

Este fim-de-semana, no âmbito do “Ano do Brasil em Portugal”, passa por Lisboa a Companhia de Dança Deborah Colker. Estreou ontem, sexta, mas tem espectáculos hoje e amanhã, sempre no Teatro S. Luiz.

Percebo pouco ou nada de dança – nem por isso sou insensível a uma encenação prodigiosa, uma coreografia que nos envolve em histórias que não podemos mais do que imaginar, música e iluminação surpreendentes.

Foi isto que senti ontem à noite no São Luiz, no espectáculo “Tatyana” (2011), e claro que quis saber mais sobre a bailarina e coreógrafa Deborah Colker, que dá nome a esta companhia: estudou Psicologia, foi jogadora de vólei e estudou piano durante dez anos, segundo a biografia original. “A partir de 1980, dançou, coreografou e deu aulas durante oito anos no grupo Coringa, sob a direção de Graciela Figueroa. Em 1984, convidada por Dina Sfat para coreografar os movimentos da peça “A Irresistível Aventura”, com direcção de Domingos de Oliveira, Deborah deu início ao que seria a vertente mais importante de sua carreira nos dez anos seguintes: directora de movimento, uma expressão sugerida por Ulisses Cruz para definir seu trabalho”. Pelo caminho, também trabalhou com o nosso conhecido Cirque du Soleil.

Não sei isto chega, mas o que vos garanto é hora e meia de puro deslumbramento, de surpresa consecutiva, de intensa criatividade – sem que nunca se perca o sentido de ritmo, o rigor da dança, e a qualidade da música.

Rendido, voltei para casa e disse: amanhã “posto”. Está postado.

14
Abr13

Palavras ditas, palavras lidas

 

Ontem, no “True Tales” da Grant’s no Cinema São Jorge, a Clara Ferreira Alves e o Miguel Esteves Cardoso recordaram a revelação, o fascínio e a surpresa que encontraram quando Vergílio Ferreira publicou “Para Sempre”. Era o começo dos anos 80 e do caos criativo que deu origem a projectos como “O Independente” ou a “K”.

Cheguei quatro mais tarde, a tempo do jornal e da revista, mas atrasado para essa surpresa. O “meu primeiro” Vergílio Ferreira foi “Até ao Fim”, em 1987. Depois vieram todos os outros, os anteriores e os seguintes (ando agora a ler “Pensar”).

Mas soube-me bem ouvi-los falar do meu Professor, e do escritor por cujos livros tive tempo de, desde 1987 até aos dias de hoje, me apaixonar e a eles ficar rendido. Por entre gargalhadas e histórias do tempo que passa, aquela passagem da Clara e do Miguel pelo “meu” escritor português favorito deixou-me em paz com o mundo para o resto do fim-de-semana.

E pronto, é isto:

"Quais são as tuas palavras essenciais? As que restam depois de toda a tua agitação e projectos e realizações. As que esperam que tudo em si se cale para elas se ouvirem. As que talvez ignores por nunca as teres pensado. As que podem sobreviver quando o grande silêncio se avizinha."

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Blog da semana

O Diplomata. Dez anos de blog é obra. Alexandre Guerra festeja, e com razão, um espaço de reflexão, análise e opinião do mundo político internacional. Merece o bolo.

Uma boa frase

“Se isto fosse no tempo do Sócrates, a esta hora o Trump já tinha em cima da mesa uma proposta da Mota-Engil para a construção do muro. Com financiamento do BES e projecto do Siza Vieira." Rui Rocha, Delito de Opinião

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