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Pedro Rolo Duarte

30
Nov13

Uma bandeira nacional

(Texto escrito a convite do Nuno Rodrigues para integrar a edição especial que reúne toda a obra da Banda do Casaco. Já está à venda, e é um marco da edição musical de 2013. Talvez mesmo, o marco.)

Mudar de casa é talvez a maior dor de cabeça que um homem só – ou uma mulher, claro – pode ter depois dos 30 anos. Porque mudar é sempre algo abrasivo; porque ao longo dos anos vamos acumulando cada vez mais espólio (há quem lhe chame tralha…);  porque de cada vez que mudamos temos de admitir escolhas, temos de nos reencontrar com o que queremos mas também, e muito, com o que não queremos, porque recordamos o passado que nos toca mas também o que nos dói. Uma maçada.
Nos últimos 15 anos, fiz seis mudanças de casa. Todas me cansaram e em todas jurei não voltar a mudar. Mas em todas houve um momento que valeu os incómodos, as dores nas costas, o cansaço, e os reencontros inesperados: foi o momento em que tive de arrumar os discos no seu lugar. Ao faze-lo, parei muitas vezes para ouvir os melhores da minha vida. Não são muitos – são os suficientes para algumas noites longas que invariavelmente acabaram pela manhã. Nalguns casos partilhei-os com quem me acompanhava na aventura.
Já perceberam certamente onde quero chegar: nas seis mudanças de casa que fiz nos últimos 15 anos, os discos que tenho em CD da Banda do Casaco – seis, para ser rigoroso – foram banda sonora de noites compridas e doces. Noites onde invariavelmente cheguei ao mesmo lugar, ao mesmo ponto, à mesma ideia: não há outra banda portuguesa que tenha conseguido prolongar a sua vida real até aos dias de hoje sem perder um átomo de modernidade, um segundo de criatividade, um tempo dos tempos que a música nos dá.
Neste olhar, confesso, não consigo distinguir este disco daquele, um “Jardim da Celeste” de um “Também Eu” – porque cada um deles, individualmente, releva essa modernidade à sua maneira, seja num arranjo rock ou na voz da Ti Chitas, seja na ousadia de uma letra ou na coragem de uma faixa de nove minutos. A Banda do Casaco é mais do que uma banda – e jogando com as palavras não hesito: é uma bandeira. De Portugal no seu melhor.
Nessa medida, esta edição não é mais do que um acto de justiça e um serviço publico: disponibilizar hoje a mais moderna das músicas portuguesas. Hoje. E a repetição é propositada.

29
Nov13

A eterna Alemanha

 

 

 

Há qualquer coisa de fascista na ideia de que a criação de um salário minimo nacional na Alemanha vai aumentar o desemprego e a falência de pequenos negócios locais.

De facto, é verdade: cabeleireiros e oficinas onde se paga actualmente 1,5 euros por hora de trabalho vão ver dificultadas as suas vidas. Mas seria razoável que esta novas forma de exploração se perpetuasse? Seria natural – já nem vou ao ponto de dizer justo... - que um país com o custo de vida da Alemanha, com a atitude da Alemanha face ao resto da Europa, e com o seu passado recente (que, por menos que queiramos, sempre nos deixa debaixo de olho), aceitasse sem qualquer espécie de vergonha ou constrangimento esta “democrática” escravatura? 60 euros de ordenado por semana?

Observo a austeridade portuguesa, leio as noticias que chegam da Alemanha, vejo o estado de Espanha, França, Itália. Não consigo deixar de pensar que tudo se desenha em cima de um mapa onde vivem pessoas. Somos todos seres humanos – mas agora, como no começo do século XX e em plena II Guerra Mundial, persiste a lei das pessoas com direito à vida sobre a lei das pessoas sem direito à vida.

Cresci a pensar que viveria numa sociedade onde os seres humanos eram iguais em liberdades, direitos e deveres. A seis meses da minha (excessivamente optimista) metade de vida, vejo que pouco mudou.

O exemplo da Alemanha é apenas o mais simbólico.

Há uma minoria que ainda não aceitou a mais rasa das ideias do mundo democrático: ela é igual à imensa e (quase sempre) silenciosa maioria. Algo me diz que vai aprender à força. Mais dia, menos dia.

28
Nov13

Ponto 270 de “Pensar”

Gosto mais quando me encosto ao pensamento de quem é unanimemente considerado superior. Para mim, um génio, e o segundo português do século XX a merecer o Nobel das Letras. Vamos então ler, devagarinho para não ter de fazer desenhos:

 

A seita dos saudáveis. É uma agremiação como a dos escuteiros, dos desportistas, das testemunhas de Jeová, dos comunistas até há pouco e assim. Não beber, não fumar, evitar a carne e sobretudo as gorduras, dar preferência aos vegetais, comer pouco e várias vezes ao dia mesmo sem apetite, deitar cedo, fazer exercícios, evitar o sedentarismo, vigiar o peso, a tensão arterial...

Sim. Mas para que é que eles querem a vida, se não é para a utilizarem? Lembram os que compram roupa mas guardam-ma e não a usam. O seu objectivo na vida não é viverem-na mas cifrar a felicidade ao simples facto de a terem. São exemplares à vista – magros, direitos, ginasticados. Mas não tiram proveito disso, excepto o de serem saudáveis à custa de muito martírio. Ou seja, o de poderem gozar a vida na sua maior amplitude, que apenas é poder. A seita dos saudáveis. Vejo-os com frequência na TV. Mas tiro-lhe o som e ficam mais enfermiços”.

 

Vergílio Ferreira escreveu isto há 21 anos. Melhor era impossível. E actual. Mais de acordo não consigo estar.

27
Nov13

Sobre o Benfica que vai jogar hoje

Os comentadores e jornalistas ligados ao mundo do futebol também têm modas, manias, e palavras-chaves. Se na politica se inventam “Guiões” e “resgates”, ou se disfarçam más noticias com palavras como “mobilidade” ou a mais recente expressão de mau gosto, que é o “regime sacrificial”, no futebol o tempo vai trazendo e levando as modas. Já não se chama “véu da noiva” à baliza, é um facto.

Mas encanita-me muito os clubes que “recepcionam” outros clubes nos seus estádios – e tira-me do sério a frase “clube X está obrigado a ganhar”.

Obrigado a ganhar? Mas há o contrário, obrigado a perder? Não é suposto um clube de futebol estar sempre obrigado a ganhar? Ou há dias em que pode passar?

Dito isto, logo o Benfica está obrigado a ganhar. E se ganhar, diremos todos “obrigadinho”...

22
Nov13

Todos os tios do mundo

(Crónica originalmente publicada na Lux Woman. A edição de Natal já está aí, à Vossa espera...)

 

Há 18 anos, quando o meu filho nasceu, colocou-se entre mim e a mãe dele uma questão de aparente irrelevância, entre tantas efectivamente relevantes, a que não dei excessiva atenção: seguir ou não o pressuposto de muitos amigos, e alguns familiares, de ensinar o António Maria a tratar por “tio/tia” todos os adultos amigos dos pais, independentemente do efectivo parentesto familiar. Sempre fui um pouco quadrado nessas questões mais básicas, e excessivamente liberal nas outras, pelo que a resposta foi simples: tios são os irmãos e irmãs dos pais, ponto final. Achava que essa forma de tratamento não passava de uma mania de novos-ricos a imitar ricos, e a ideia incomodava-me.

Assim, ficou estabelecida a regra, que perdura até aos dias de hoje: o rapaz trataria por tios os que efectivamente eram tios - e os outros, conforme a proximidade, pelo nome. Foi uma enorme estupidez da minha parte, confesso hoje sem qualquer receio. O tempo encarregou-se de me demonstrar que estava errado, e de me fazer arrepender amargamente dessa imposição baseada num pressuposto inútil: o de que as crianças distinguem os mais velhos pelos nomes próprios. Não, não apenas não distinguem como a tendência inata para a deseducação é de tal forma marcante que o tratamento dos adultos é mesmo o primeiro a sofrer violações sem nome: há quem trate um adulto por “você pode dar-me um copo de água?”, como há quem tente a elevação com um inoportuno “A senhora Paula pode dizer-me onde é a casa de banho?”. O pior é que o desconforto que os invade nesses momentos salta à vista e não tem escapatória.

Não há nada pior do que a infância e a adolescência em matéria de relações sociais. Sendo certo que se trata do tempo de todas as aprendizagens, é também o tempo de todas as asneiras, até mesmo com as pessoas que mais desejamos - as paixões, as namoradas, as candidatas. Miúdos e jovens unem-se nesse defeito: estão sempre ao lado. Parecem calhados para tratar de forma errada a pessoa certa – ou a pessoa que merecia o tratamento adequado. E talvez tenha sido por isso que alguém, no passado, inventou essa extraordinária designação do “tio” e da “tia”. É certo que podemos não chegar ao patamar dos espanhóis, que chamam “tio” e “tia” a qualquer pessoa cujo nome próprio não lhes ocorre, mas deixemos os exageros de lado…

A verdade é só uma: traduzindo, onomasticamente, irmão do pai ou da mãe, aplica-se bem aos amigos, aos desconhecidos que passam lá por casa, aos “outros” – que são todos os que não querem nem saber quem são. Sendo palavra de três letras, não causa engulhos nem equívocos. E permite aos miúdos a soltura de não ter de fixar nomes nem idades nem parentescos: é tio e tia a abrir, na sala e na cozinha, no pátio e no meio da rua.

Agora, que me abeiro dos 50, e começa a ser comum ser tratado por tio pelos filhos dos meus amigos, valorizo a ideia e lamento a minha atitude de há 20 anos. O meu filho não foi ensinado assim, e quando vem a Portugal não sabe como deve tratar os meus amigos. E eu, que nunca quis ser “tio” dos que não eram efectivamente meus sobrinhos, porque achava ridícula a ideia, tenho hoje imenso gosto, para não dizer orgulho, quando me chamam “tio”. Sinto que estou num patamar superior – condição e idade… - sem deixar de existir ou ser apenas um qualquer “você” ou “Senhor Pedro”.

Melhor: dá sentido à feliz expressão que a secretária mais profissional e competente que conheci me ensinou (obrigado, Carmo!). Era simples e faz sentido hoje mais do que nunca: “à vontade não é à-vontadinha…”

13
Nov13

Uma alarvidade em pleno Rossio (com correcções)

Nota: como se pode inferir a partir do esclarecimento do grupo Leya, publicado como comentário a este post, não foi da responsabilidade da Editora, mas sim do proprietário da loja, a alarvidade a que me refiro neste post. Naturalmente, não sabia que a Leya era apenas arrendatária do espaço, e que não tem por isso responsabilidade no destino que lhe foi dado. Mantenho a adjectivação quanto aos factos, mas naturalmente peço desculpa à Leya pelo meu erro, cuja gravidade me obriga a uma correcção imediata.


Quando o grupo Leya comprou a Oficina do Livro Editorial Notícias, ficou também com as lojas que a editora tinha. A mais emblemática era a Livraria Diário de Notícias, em pleno Rossio, um ícone da baixa da cidade.
Ontem passei pela esquina da livraria. E o que lá estava era isto:

 



Fiquei verdadeiramente chocado com a forma alarve como se aliena uma marca, um icone, uma loja do centro da cidade. E lembrei-me da espanhola Tous, que comprou a Ourivesaria Aliança, no Chiado, e recuperou todo o seu interior, devolvendo-lhe integralmente a fachada de 1914.
É toda uma diferença.
Pelos vistos, o grupo Leya despachou a o Grupo Leya, arrendatário da Livraria Diário de Notícias do Rossio, não suportou um aumento de renda de 2000% e deixou o espaço. sem nada em troca, nem sequer o compromisso de O senhorio, seja lá quem for, despachou o assunto para canto sem honrar o passado na fachada e no interior.
Sem comentários, claro.

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Blog da semana

Por Falar Noutra Coisa. Humor neste reacordar do blog. Rir é o melhor remédio. Lugar comum indiscutível.

Uma boa frase

“Sucessivos governos ficaram irritados, o actual vai um pouco mais longe, esquecendo que votar é um direito mas nunca uma obrigação. Em países desenvolvidos os cidadãos até votam durante a semana, ao passo que na choldra querem proibir jogos de futebol para obrigar o povo a ir votar." António de Almeida, Aventar

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