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Pedro Rolo Duarte

30
Dez13

2013

Por acaso sempre gostei do número 13. Nunca o vi como aziago ou menos feliz. Não me ocorrem más memórias em dias 13, sextas 13, e vivi num prédio que ostentava esse numero na porta.
Quando este ano começou, achei que o 13 ia convocar a sorte que contraria a sua fama - e acreditei que ia ser um ano bom.
Não foi. Foi uma bela merda.
Portugal deprimiu ainda mais, a política viveu de folhetins, mentiras e farsas, e cavalgou sobre estatísticas e números, como se os números traduzissem realidades: todos sabemos que, no universo constituído por mim e pelo leitor, se eu comer uma galinha inteira, estatisticamente cada um de nós comeu meia. A estatística, no que à vida diz respeito, é a maior falácia da sociedade moderna. É a droga pesada da política: distorce a realidade à medida do desejo de quem a usa, e cria universos paralelos que servem as maiores mentiras que se queiram dizer.
O pior é que toda a gente sabe disso - mas, ainda assim, usa os números sempre que dá jeito. Uma pobreza sem fim. O debate - e por essa via a informação que circula - está viciado, e o país está bem pior do que a maquilhagem que os números aparentam. Só quem não anda na rua pode acreditar nessa mentirinha.
Confesso: não distingo governo de oposição, esquerda de direita, “classe dirigente” de sindicalistas. Vejo uma amálgama de discursos interessados e interesseiros, vejo becos sem saída e sinto o pântano ganhar a dimensão do país. Ou seja: não vislumbro saída.
A um 13 desta natureza só pode suceder um 14 luminoso? Tudo indica que não. Mas há, dizem os psicólogos, uma criança dentro de todos nós - e nessa medida, a criança que há dentro de mim quer acreditar, ingénua mas sinceramente, que sim, que pode ser que o novo ano traga revelações. Ou pelo menos conforto.
Ou menos gente triste e sem lágrimas nas ruas cinzentas do país que, há 40 anos, sorriu e gritou, depois de tantos anos de boca cerrada e em silêncio. “Vamos ver”, como tenho ouvido.

 

 

Volto em 2014.

27
Dez13

Um logro

O “Público” é o mais caro dos jornais diários portugueses. Talvez seja o melhor, não ponho em causa, mas é o mais caro. À sexta-feira sobe em 50 cêntimos o preço de capa (um aumento de quase 50%), porque reforça a sua oferta com os suplementos Ipsilon e Inimigo Público. Eu gosto de ambos e essa é uma das razões porque compro o Público à sexta-feira.
Pois bem: sem qualquer aviso ao incauto leitor, o “Público” de hoje não inclui o suplemento “Inimigo Público” (que, com o correr dos anos, foi minguando e agora já só tem 4 páginas). Mas cobra na mesma 1,60 euros pela edição impressa. Acho que isto configura qualquer coisa próxima do logro. Intrujice.
No mínimo, um aviso na primeira página (como aliás deveria fazer sempre que um colunista regular não escreve). Nos dias que correm, muita gente compra ainda jornais apenas por causa dos colunistas, das matérias de investigação e reportagem, da fotografia (quando a acarinham, coisa rarissima…) e dos suplementos. Porque a verdade é esta: as notícias, oiço-as na rádio, vejo-as na net...
Respeitar o leitor que ainda procura jornais em papel passa pelo cuidado de o informar sobre as alterações à normal edição de cada dia. Em tempos de austeridade, escolho com rigor a imprensa que compro - e talvez hoje tivesse dispensado o Público se soubesse que não trazia o “Inimigo” e que o Ipsilon está reduzido a 32 páginas. Em resumo: sinto-me enganado. Na semana que vem verificarei o miolo da edição antes de me chegar à frente.

(... e assim vai a imprensa, já doente, caminhando paulatinamente para o abismo... Como se não houvesse amanhã. Cada vez há menos.)

24
Dez13

Natal como deve ser

(Crónica originalmente publicada na revista Lux Woman. A deste mês já está aí nas bancas...)

Este é um Natal ingrato para revistas como a Lux Woman, que vivem tanto do consumo quanto de um olhar realista sobre as tendências da sociedade e o pulsar do mundo das mulheres – logo, por essa via, dos filhos, das famílias, do emprego. Imagino a directora Rita Machado confrontada com o paradoxo do consumo e da austeridade, do desejo e da necessidade, do que queríamos ter e do que efectivamente temos. Manter acesa, em tempos de crise, a chama do optimismo e da esperança, é uma tarefa árdua – e por isso tem o valor do fogo, que é talvez a mais bela das criações da natureza a seguir à água…
Leitor atento, noto na Lux Woman esse cuidado sensível com o que se vive e o que se deseja, o que se sonha e o que se pode. É um fio ténue, que esta equipa gere com profissionalismo e sensatez. Mas esta é excepção a uma regra que menospreza a realidade e faz parecer esquizofrénico o mundo da comunicação: o luxo não deixa de se exibir ao lado da maior miséria, sem qualquer espécie de decoro ou cuidado. Em momentos como este, por mais que se multiplique a solidariedade, dá mais nas vistas o abismo que separa as duas realidades que convivem no mesmo palco.
E talvez seja por isso que o Natal mexe comigo. Na verdade, tendo uma família pequena, talvez tivesse a tentação de, como fazem alguns amigos, meter-me num avião e transformar o bacalhau da consoada numa mariscada na praia, longe de tudo e de todos. Não o faço – resisto e fico. Olho o Natal de 2013 com pragmatismo, mas justamente na medida em que olho o fogo e água: um sem outro não vivem, um e outro se “resolvem”. Fechado o teatrinho fátuo do consumo desmedido, que tanto marcou as ultimas décadas, é tempo de regressar ao essencial e sentir a época como ela é: um tempo de reencontro connosco, com a família, uma altura para parar e pensar, para fazer balanços, para perceber o que raio andamos aqui a fazer.
Desde há uns anos mudei o meu registo natalicio e adoptei uma postura aparentemente frugal, porém profundamente emocional: deixei de comprar presentes, passei a fazer os meus presentes personalizados. Já fiz blends de chás, misturas de especiarias para temperar comida, no ano passado ousei as compotas de autor. Personalizei os frascos, assinei cada exemplar. Enquanto fazia estes mimos, pensava nas pessoas a quem os ía oferecer – e com isso dei ao Natal o real sentido que deve ter. No momento em que personalizo um chá para uma sobrinha, ou para a minha mãe, e penso nos sabores que lhe podem agradar nessa mistura, da canela ao cardamomo, do gengibre à menta, estou a dar sentido a uma quadra que, para quem não tem religião, só faz sentido como momento e aproximação à família e aos amigos. Este ano ando indeciso entre os licores (do poejo à hortelã, esta cabeça não pára…) e um caderno de receitas culinárias pessoais. Qualquer que seja a decisão final, não abdico da ideia central: converter o momento difícil que todos vivemos numa saída menos infeliz. Não me vejo a abraçar árvores nem ver renascimento e felicidade na morte, e não faço parte daquele grupo de falsos felizes que procuram a todo o custo transformar a dor numa oportunidade – nada disso, o que é mau é mesmo mau e quando se sofre, sofre-se mesmo… Mas entre o fundamentalismo da felicidade e uma forma airosa de dar a volta à crise, eu alinho na segunda alínea.
Se é verdade que há coisas boas a retirar de todos os maus momentos, o que eu retiro deste Natal de 2013 é, uma vez mais, essa aproximação ao essencial da vida: os outros, nós com os outros, os nossos, nós com os nossos. A vida só faz sentido quando sentimos o sentido que fazemos entre todos. E todos entre nós.

20
Dez13

O video

Aqui entre nós: o video das advogadas insinuantes, que desencadeou tanta polémica na rede, e fora dela (já chegou à Ordem dos Advogados em queixas formais), e que podem ver aqui, pode ser deontologicamente duvidoso. Lá isso pode.
Mas interessa-me pouco essa apreciação, porque me interessa mais o efeito e os resultados que quer obter. Ora, se bem percebo, aquele video (e o site do escritório, claro) pretende atrair clientes, ganhar massa critica, promover o grupo de advogadas. Foi para ganhar fregueses que o pensaram e produziram…
… Receio, porém, que mesmo sem esta repercussão mediática, um video deste tipo não atraia clientes - pelo contrário, afugenta e assusta quem procura o rigor, a seriedade e “a sabedoria das leis” que a imagem dos advogados nos devolve. Pode ser preconceito, admito - mas não entregaria um caso relevante da minha vida nas mãos de quem se promove desta forma.
Admito que um trolha da Arrentela, aflito com um despedimento, ou um construtor civil de sexta linha, em Mafamude, sem saber como pagar uma divida, possam sentir o apelo pouco racional de contactar as advogadas de saia justa e salto alto a caminhar pelas ruas de Lisboa - mas duvido que haja, entre as milhares de pessoas que precisam, em qualquer momento, de um advogado, quem se sinta motivado a contactar a versão “Sexo & Arrabaldes” da clássica “Sexo e a Cidade”…
Dito isto, espero que o assunto caia e morra por si, sem processos nem Ordem dos Advogados nem coisa alguma. É perder tempo por conta de quem, sem ajuda, já deu o tiro no seu próprio pé. Uma lição para os que querem comunicar e fazer marketing sem consultar quem sabe da poda.
Além disso, faz lembrar a história do escorpião e da rã: nada muda a atitude de quem tem uma marca de identidade na sua natureza.

16
Dez13

… Ou como diria Fernando Lopes, “nós por cá todos bem”

Concordo com Vasco Pulido Valente (no Público de ontem):

Quando se provou que os partidos de esquerda se tinham metido num beco sem saída, a primeira ideia que veio à cabecinha das notabilidades da seita foi fabricar mais partidos sempre à procura da mítica “unidade”, que por toda a parte desapareceu logo na sua auspiciosa criação”.

Na verdade, os movimentos que vejo aparecerem à volta de Mário Soares, ou de Carvalho da Silva, ou o putativo Partido Livre, mais me parecem aquelas simpáticas feiras de produtos artesanais que pontuam agora o fim de semana de Lisboa: resolvem pontualmente os problemas de artesãos e desempregados, animam e entusiasmam, por momentos, os clientes; e morrem tranquila e pacatamente no fim de cada dia. Não têm consistência nem consequência – mas também não precisam de uma ou outra.

Porém, há uma diferença substancial entre as feirinhas (que frequento com gosto) e esta moda nova de criar movimentos à esquerda: as primeiras constituem pequenos negócios sem qualquer ambição disparatada; os segundos, levam-se a sério, ainda que não cheguem a lado algum, e ambicionam mudanças que nem sequer conseguem exibir ou promover.

A uma direita ortodoxa e (contraditoriamente) liberal, sem resposta nem saída para a crise, vem uma esquerda burra responder à procura de encontrar a agulha no palheiro de fogo fátuo da inconsistência e da errância.

Não sei o que será pior. Nem eu nem todos aqueles que se vão chegando paulatinamente à resistência pouco activa da abstenção.

13
Dez13

Mail recebido do director do Liceu Camões:

"Em nome da escola secundária de Camões quero agradecer o vosso inestimável contributo no apoio à Escola Secundária de Camões. Aproveito para vos desejar um Feliz Natal e um próspero Ano 2014. Com os melhores cumprimentos, e amizade

João Jaime

 

A Escola Secundária de Camões adjudicou a obra de recuperação das janelas da biblioteca e do restauro do escudo à empresa HCI Construções, S.A.

Trata-se de uma empresa do sector da construção que é especializada em reabilitação e remodelação de edifícios.

Valor total da obra: 36 801,87€ (IVA Incluído) Início da obra: 18/dez/2013 Duração prevista: 1 mês".

 

Ou seja, valeu a pena colaborar na Gala que nos juntou a todos no Coliseu.

O Estado (e por essa via o Governo), esse, uma vez mais, falhou.

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Blog da semana

Por Falar Noutra Coisa. Humor neste reacordar do blog. Rir é o melhor remédio. Lugar comum indiscutível.

Uma boa frase

“Sucessivos governos ficaram irritados, o actual vai um pouco mais longe, esquecendo que votar é um direito mas nunca uma obrigação. Em países desenvolvidos os cidadãos até votam durante a semana, ao passo que na choldra querem proibir jogos de futebol para obrigar o povo a ir votar." António de Almeida, Aventar

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