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Pedro Rolo Duarte

25
Mar14

À paulada?

A presidente do Conselho de Finanças Públicas, Teodora Cardoso, teve uma ideia brilhante (inspirada no regime britânico): taxar os levantamentos que são feitos nas contas bancárias onde são depositados os salários e as pensões. Mais genial do que a ideia, só mesmo a argumentação: “Em vez de um imposto que desincentiva o rendimento, este incentiva a poupança”.
Se eu encontrasse a Dra Teodora na rua, mostrava-lhe estas noticias (todas de hoje):

 



 

E depois perguntava-lhe:
Qual é a parte do “não há poupança porque já não há dinheiro sequer para viver, quanto mais para poupar”, que ela ainda não percebeu?
A falta de um mínimo de decoro, sensibilidade e conhecimento da realidade nas declarações publicas daqueles que mandam nesta merda começa mesmo a provocar-me vómitos. Parece que gozam com a nossa cara. Parece que vivem - e vivem mesmo - num outro mundo e não têm qualquer réstia de sensibilidade social. Não é apenas triste - chega a ser ofensivo.
Desde que o banqueiro Fernando Ulrich disse "Se o país aguenta mais austeridade? Ai aguenta, aguenta!”, e depois explicou a frase com a infeliz pergunta "Se os sem-abrigo aguentam porque é que nós não aguentamos?”, tem valido tudo.
Estamos a chegar a um ponto de não-retorno em que a este tipo de discurso apetece responder como na pré-história: à paulada.
Lá está: quanto mais se bate no fundo, mais ele desce.

23
Mar14

Pulseira electrónica

(Crónica originalmente publicada na revista Lux Woman. A deste mês, assinalando 13 anos de vida - Parabéns! - já está nas bancas...)

Aqui entre nós, que ninguém nos ouve, tenho a sensação de que o nosso mundinho anda histérico. Quando digo “o nosso mundinho”, quero dizer a mediania da sociedade urbana, falida ou apenas remediada, que ainda assim não dispensa o smartphone, a ligação permanente à net, as redes sociais, e pelo menos um jantar por semana, no restaurante, com os amigos - os que restam disponíveis sem a frase da “moda”: “não vou jantar, mas apareço para o café”…
Às vezes o cartão de crédito resiste e guincha (o vosso, não sei: o meu, desata aos gritos, esgotado que está…), mas há uma qualquer loucura instalada que leva a maioria a entrar em estado de negação. Confesso: já passei por esse estado, mas passou-me depressa. Agora estou na fase do confronto - ou talvez seja melhor dizer, da depressão?
Voltemos ao tal mundinho histérico.
Pensava nele, e nesta absurda forma de viver que adoptámos, entre a realidade e a ficção, entre o que julgamos ser e o que efectivamente temos, quando alguém me veio falar de FOMO. “Sabes o que é FOMO?”, perguntaram-me. Achei que seria uma nova aplicação para smartphone - app, se me faço entender… -, mas a proximidade à palavra “fome” levou-me a admitir que pudesse ser uma tendência nos ginásios. Ou uma variação de tofu nos restaurantes vegetarianos. Não, nem uma coisa nem outra.
FOMO é “apenas” mais uma nova pancada social que não tarda será patologia certificada por psiquiatras e psicólogos e dará baixas médicas (se ainda houver baixas num futuro próximo…), e explicará recurso a fármacos de ultima geração, além de inesperadas mortes de famosos ou aspirantes. FOMO são as iniciais de “Fear Of Missing Out”. Quer dizer: medo de estar a perder qualquer coisa, medo de estar fora da rede, medo de estar “out”… Aplica-se a todos os que ficam angustiados, stressados, doentes, por estarem temporariamente “desligados” das redes sociais, da net, dos telefones, e por esse facto poderem estar a perder algo potencialmente relevante. Como um pedido de amizade de um desconhecido ou um post irrelevante sobre a “obra da prima do mestre de obras”, para usar uma parvoíce popular.
Imaginemos um casal romântico nas profundezas do Alentejo, talvez no famigerado Pulo do Lobo, que Cavaco Silva celebrizou, onde a rede de telefone escasseia e os velhos cabos telefónicos não chegam. Repentinamente, os dois apercebem-se que estão “fora da rede”, ou seja, fora do seu mundinho sem história, mas cheio de gente e de “citações” e fotografias com animais, e “likes”, e “smiles”, e “cenas”. Ui, “estamos sem rede, amor?”. Quem quer viver sem rede numa vida que é em si mesma o abismo?
(Claro que a história podia ser outra: aproveitar a circunstancia para olhar nos olhos do outro, para ver o mundo límpido e transparente, sem ruído nem interferências. Talvez voltar a viver como sempre se viveu? Talvez repensar esta histeria informativa que nos põe a todos de volta do mesmo, seja Ronaldo ou uma frase infeliz de um político, uma infidelidade ou um programa de televisão, numa espiral sem fim de banalidade e irrelevância. Mas não, a história dos dias actuais é outra).
Imagino o casal a deixar o Pulo do Lobo lá na memória fotográfica de uma cascata de água insignificante, e aproximar-se de Mértola para curar o FOMO que subitamente o assaltou…
Eu não disse que o nosso mundinho anda histérico? FOMO? Mas agora há FOMO? Mas agora há medo de perder um comentário a um post em que escrevemos qualquer coisa como “Eusébio, és grande!”; ou a fotografia da prima distante com os pés a chapinhar na água; ou a ultima revelação sobre a Casa dos Segredos?
E enquanto tudo isto acontece, uma grande superfície faz uma campanha de publicidade onde brinca com uma clássica frase portuguesa. Dizia-se “um copo de água não se nega a ninguém”. A dita marca recriou: “um copo de água e a password do wifi não se negam a ninguém”. Claro, é o FOMO em acção…
Haver quem se tenha dado ao trabalho de criar uma sigla que traduz “Fear of Missing Out”, diz muito sobre o mundo a que chegámos. Saudável, não é. Civilizado, menos. Dependente? Muito. Preso? Absolutamente. Não são eles, os condenados em tribunal - somos nós, os livres, que estamos afinal presos a uma pulseira electrónica. Amarrada às nossas vidas. Poderia haver maior paradoxo e, ao mesmo tempo, melhor imagem do tempo que vivemos?

12
Mar14

Cartão do Cidadão (Parte II, e se calhar última).

Hoje de manha o meu telefone tocou insistentemente de um número que não conhecia. Às tantas, atendi - era um diligente e muito simpático funcionário dos serviços de agendamento do Cartão do Cidadão a explicar o motivo pelo qual os serviços andam um pouco entupidos (passaram cinco anos sobre o lançamento do cartão, é tempo de renovações), e a reconhecer que por telefone se perde menos tempo a marcar, por isso vamos lá abrir agendas.
E está marcado.
Fiquei abazurdido, como diria João Braga. O serviço não apenas funcionou como foi personalizado e eficiente. Nem acredito.

Tu queres ver que há coisas na administração pública que funcionam?

(Não quererão os senhores do Cartão do Cidadão dar uma formação, por exemplo, a Segurança Social, que tem uma reclamação da minha mãe pendente à espera de resposta há dois anos?)

11
Mar14

Cartão do cidadão (parte I)

Estava no Site: “De modo a evitar filas de espera e, com todo o conforto, dirigir-se a um destes postos de atendimento com a certeza de que será atendido à hora desejada, foi criado o serviço de agendamento de pedidos de emissão do Cartão de Cidadão”.
Aderi. Enviei o mail. Resposta:
“Agradecemos o seu contacto. Não foi possível efectuar o Agendamento do Cartão de Cidadão para o local e o horário pretendido. Por favor, indique hipóteses mais alargadas para eventual agendamento, informando desde já que para o local solicitado só existem vagas a partir do dia 03/04”.
Mandei novo mail para outro local, horas e dias mais alargados. Aguardemos.

10
Mar14

Xutos, ano 35


O que releva do concerto dos Xutos & Pontapés no Atlântico, sábado passado:

  • Trinta e cinco anos depois, a energia daquela soma de talentos mantém-se viva, no equilíbrio que a música revela tantas vezes impossível. No mesmo sentido, aqueles que deles gostam são leais e fieis. Eis um dos segredos-duplos do rock, no que tem de melhor.
  • Trinta e cinco anos depois, não perderam a capacidade de fazer canções que ficam no ouvido e fazem sentido cantar no meio da rua.
  • Trinta e cinco anos depois, é evidente o gozo deles - estarem em cima de um palco com a rendição incondicional da plateia - e o nosso: sentirmos que se sentem em casa e nós também.
  • Trinta e cinco anos depois (e sendo certo que eu tenho com os Xutos a relação dura de ter aprendido a gostar, como Pessoa “vendeu”, da coca-cola: primeiro estranha-se, depois entranha-se…), muitas das suas mais antigas canções fazem, política e socialmente, ainda mais sentido agora. O que não augura nada de bom.
  • Trinta e cinco anos depois, eles continuam a não desiludir quem os segue. Sem deixarem de ser quem são, ou sem existirem em esforço. E isso é notável. Faz lembrar um refrão de uma das suas canções emblemáticas, que de tão verdadeiramente simples, parece sempre impossível:

“Se gosto de ti,
Se gostas de mim,
Se isto não chega
Tens o Mundo ao contrário”.

 

É isto. Mas eles duram há 35 anos e há coisas simples que ficam presas no refrão de uma canção.

05
Mar14

Jornal com P grande

 

 


A edição de hoje do Público, que assinala o seu 24º aniversário e arranca com a operação “Ano Grande do Brasil”, é um excelente exemplo do que pode ainda ser o jornalismo nos tempos que correm, e especialmente do que pode ser um jornal impresso em papel nos tempos da net.
Excepcionalmente “dirigido” pela cantora Adriana Calcanhoto, o jornal é quase todo virado para o Brasil - mas feito com criatividade, imaginação, empenho, potenciando as vantagens da “plataforma” papel (a forma como a Carta de Pero Vaz de Caminha é paginada e distribuída pelo jornal é algo só possível em papel…), e ousando os textos longos, as entrevistas de fundo, as reportagens sem caixas e caixinhas.
É um grande Público, o que hoje está nas bancas. Merece bem mais do que o 1,10 euros que custa. E está de Parabéns, claro.

 

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Blog da semana

Por Falar Noutra Coisa. Humor neste reacordar do blog. Rir é o melhor remédio. Lugar comum indiscutível.

Uma boa frase

“Sucessivos governos ficaram irritados, o actual vai um pouco mais longe, esquecendo que votar é um direito mas nunca uma obrigação. Em países desenvolvidos os cidadãos até votam durante a semana, ao passo que na choldra querem proibir jogos de futebol para obrigar o povo a ir votar." António de Almeida, Aventar

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