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Pedro Rolo Duarte

30
Abr14

Os otários que paguem a crise (parte 3)

Noticia do dia: "João Correia é suspeito de corrupção e participação económica em negócio relativamente a contratos de obras públicas para instalações das polícias, confirmou o DN. PJ fez buscas em todo o país. MAI enviou para o Ministério Público dados sobre Direção Geral de Infraestruturas e Equipamentos".

Parece, vejo na televisão, que o alegado crime pode envolver mais algumas dezenas de pessoas.

Repito então um post de há dias:

"Quase todos os dias penso nisto: há uma enorme discrepância entre a crise - traduzida tanto em números públicos como na forma como a sinto na pele, com rendimentos que encolheram aos níveis dos anos 80 e praticamente me deixam falido - e as multidões que vejo encherem os supermercados e centros comerciais, ou o parque automóvel que me cerca (pelo menos em Lisboa…).
Nada bate certo nesta crise. Nem o numero de smartphones vendidos, nem os concertos esgotados, nem os estádios de futebol cheios, nem os restaurantes da moda sem lugares vagos, nem o Algarve em alta na Páscoa - e depois, a realidade dos cortes nos salários, nas pensões, os impostos, as taxas, enfim, o que sabemos.
Repito: quase todos os dias penso nisto. E depois leio noticias como esta - neste caso, a que envolve João Correia - e começo a perceber: anda meio mundo a enganar outro meio. Fico deprimido mas bem mais tranquilo: não estou enganado, sou apenas um dos poucos otários que vive mesmo do seu trabalho. Quando há trabalho, claro".

29
Abr14

O milagre das segundas-feiras


Todas as semanas, à segunda-feira, dia em que a noite é mesmo noite e quase tudo está fechado, ou adormecido, dá-se um milagre na rua cor de rosa do Cais do Sodré, em Lisboa.
Pela mão de três apaixonados pela poesia - José Anjos, Alex Cortez, Nuno Miguel Guedes -, a partir das dez da noite começa a juntar-se gente no bar “O Povo”. São pessoas que, de livre vontade, saem de casa numa noite de segunda-feira, muitas vezes com frio e chuva, e vão ali para concretizar o milagre: ouvir poesia. Entre um copo e dois dedos de conversa, ouvem poesia dita por convidados que, apenas pelo prazer de ler e partilhar, aceitam passar a noite de segunda-feira naquele espaço.
Todas as semanas um tema, convidados diferentes, de todos os “ramos”, para todos os gostos. Já por lá passaram vozes tão diferentes quanto as de André Gago e Edson Athayde, Odete Santos e Sandra Celas, Manuel João Vieira e Francisco José Viegas, não falando nos promotores do milagre, que muitas vezes assumem as rédeas do microfone.
Ouve-se poesia antiga, moderna, clássica - ouvem-se nomes incontornáveis, como Pessoa e O’Neill, ou inesperados, como Alberto Pimenta e Assis Pacheco, mas também há espaço para os convidados lerem os seus próprios poemas, e tudo isto é acompanhado por músicos que sublinham, apontam, ilustram as palavras ditas.
Melhor seria difícil. Mas o milagre que ocorre n’O Povo não é a noite em si, que seria sempre de elogiar - é o facto de todas as segundas-feiras aquele espaço encher e muita vezes transbordar. Gente que quer ouvir, que se candidata a ler, que se junta à volta de palavras e mais palavras.
Ontem, uma vez mais, foi assim, sob o mote da “Poesia e Censura”. Gostei da escolha da Joana Amaral Dias, ri-me com a poesia dita por Rui Zink, gostei de ouvir (mais uma vez) o André Gago e o José Anjos. O ambiente era de festa suave, como pede uma segunda-feira, como puxa a poesia. Quando saí d’O Povo, estava reconfortado e reencontrado comigo próprio.
Num país deprimido e triste, onde parece nada acontecer, e só ter sucesso o mínimo denominador comum, o milagres das segundas-feiras d’O Povo é o sinal mais animador da cidade e uma espécie de prova de vida regular da nossa existência. Segunda que vem, eu volto.

27
Abr14

Entre o 25 de Abril e o 1º de Maio, 40 anos depois, só me ocorre um poema sobre a Liberdade. Perfeito.

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
Sol doira
Sem literatura
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como o tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D.Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,

Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

Mais que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa, "Cancioneiro"

26
Abr14

40 anos de sonho e realidade

(Crónica originalmente publicada na revista Lux Woman. A edição de Maio já anda aí nas bancas, linda como sempre...)

Há coincidências  terríveis: no ano em que assinalamos quatro décadas sobre a revolução de 25 de Abril, os debates que abriram este estranho e ainda imperscrutável 2014 recaíram sobre a co-adopção por casais homossexuais e sobre as animalescas praxes académicas. Como se o Universo nos quisesse abrir os olhos e dizer: queridos portugueses, vocês mudaram bem menos do que o país onde vivem. E como é isto possível?
Como é possível que, 40 anos depois, tenhamos um país moderno na aparência, radicalmente diferente do cinzento Portugal do regime anterior, mas tristemente povoado por uma maioria que, na essência, não mudou quase nada em si?
As imagens não mentem: Portugal é outro país neste começo do século XXI. A rede de comunicações é excelente e aproximou cidades, interior e litoral, norte e sul; o consumo e o comércio tornou-nos cosmopolitas, iguais entre iguais numa Europa que sempre foi distante; acompanhámos as mudanças dos outros países na facilidade em viajar, na forma como adoptámos a ideia de moda, até na linguagem. Evoluiu a imprensa, a rádio, a televisão, e aderimos facilmente a tudo o que é novo, do telemóvel à internet. Fomos até capazes de inovar, como a Via Verde comprova. Mas…
… Mas, por outro lado, há 27 mil queixas de violência doméstica por ano, e em 2013 foram mortas, nestas circunstancias, 33 mulheres. E há partidos políticos que aceitaram o casamento entre pessoas do mesmo sexo mas impedem que as crianças adoptadas por um de dois homossexuais sejam co-adoptadas pelo casal. E continua a cuspir-se para o chão como se fosse óbvio. E as ruas das cidades continuam a ser depósito a céu aberto das fezes dos animais. E quando há inquéritos de rua, ninguém sabe dizer mais do que “os políticos são todos iguais”, ou as lamurias do costume ditas de forma que nem os Gato Fedorento ousariam imaginar. Nem preciso de falar nos reality-shows.
O esquema baixo, a pequena corrupção, o jeitinho persistem em dominar a nossa forma de estar no Mundo - dizem que somos especialistas no desenrasca mas essa característica, até prova em contrário, não constitui qualidade. E até as revelações que resultaram do debate sobre as praxes académicas exibem traços ordinários, rasteiros, primários, de uma educação familiar e escolar que esperávamos fosse diferente nesta fase da evolução da raça. Nada disso - iguais a homens de uma qualquer pré-história.
Resultado: evoluimos na aparência, mas não mudámos quase nada na essência. Mais de um século depois, Eça de Queiroz continua a ter razão: "A agricultura aqui é a arte de assistir impassível ao trabalho da natureza”. Quem diz a agricultura, diz praticamente tudo. É a nossa forma de ser o que somos: acreditar na sorte, no desenrascanço de ultima hora, na pena suspensa, no gong que nos salva no ultimo momento.
É verdade que há uma geração nova que empreende e quer mudar - e boa parte dela, felizmente, vai conseguindo. Mas vive num movimento de contracorrente, sempre contrariada pela falta de incentivo, pelo imobilismo do estado (que só sabe modernizar-se para cobrar impostos ou controlar as vidas alheias), pelo mais carregado sistema de impostos de que tenho memória, e por esta “estranha forma de vida” que acredita seriamente que se deve mudar qualquer coisa para que tudo fique na mesma.
Vamos festejar quatro décadas de democracia e é uma efeméride digna de ser assinalada. A liberdade é um valor supremo e, ainda que com as limitações que sabemos, na verdade podemos dar graças ao facto de sermos livre. Mas há uma outra verdade, menos coloridas e igualmente marcante, que tristemente assinalamos também: tivemos 40 anos para nos tornarmos muito melhores. Mas faltou-nos o querer - e somos mais iguais do que parecemos.
Acredito que, nos próximos quarenta, os nossos filhos vão tornar realidade o que nestas décadas ainda ficou no lugar do sonho.

24
Abr14

Saber passar o 25 de Abril

(Quando ganhei consciência de mim, lembro-me de haver comemorações do 5 de Outubro de 1910. Tinham passado qualquer coisa como 60 ou 70 anos sobre a data, e o facto dizia-me rigorosamente nada. A mim e aos meus amigos, sem excepção)

Desde há uns anos, penso nisto sempre que penso no 25 de Abril. Se, para mim (à beira dos 10 anos em 1974), a data convoca e comove, faz sentido e é relevante, e entra no top 10 das datas mais importantes da vida vivida, também percebo que ela seja uma espécie de 5 de Outubro de 1910 para os que nasceram depois de 1974. Percebo, respeito e não me ponho de cátedra a falar da ignorância dos mais novos - porque, na verdade, não é muito diferente da ignorância dos mais velhos.
Dito isto, acho que o 25 de Abril de cada ano devia ser menos celebrado na saudade da revolução, na evocação da revolução, na promoção eterna dos heróis da revolução - devia, antes, ser o momento de enaltecer a democracia, a liberdade, os direitos humanos, o ideal de justiça, de paz, o direito à saúde, à educação, e à igualdade de oportunidades. Essas são as pedras basilares do regime - e é isso que devemos “ensinar”, transmitir, passar, valorizar em cada 25 de Abril.
O resto, adocica e enternece quem viveu esse momento único de uma vida - mas diz cada vez menos a quem precisa cada vez mais de perceber o que ganhou com a revolução. Antes que se vire contra tudo o que ela nos trouxe de bom.
Há razões para festejar. Mas era bom que quem tem de saber porquê, saiba porquê. Com romagens de saudade não vamos lá. Pelo contrário.

17
Abr14

Os otários que paguem a crise (parte 2)

Pelo menos quatro médicos de várias especialidades, um deles director de serviços, estão sob investigação num esquema para "desviar doentes de hospitais militares para unidades privadas de saúde, para a realização de tratamentos com preços inflacionados e que muitas vezes nem sequer eram necessários. A radioterapia interna seria um deles, que chegava a custar à ADM 16 a 18 mil euros, comparticipados a 100%. No público, o mesmo tratamento ficaria por cerca de seis mil euros". Isto conta o Público aqui. Com todos os pormenores.

Repito: anda meio mundo a enganar outro meio, como comecei a desembrulhar neste outro post. Fico deprimido mas bem mais tranquilo: não estou enganado, sou apenas um dos poucos otários que vive mesmo do seu trabalho. Quando há trabalho, claro.

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Blog da semana

O Diplomata. Dez anos de blog é obra. Alexandre Guerra festeja, e com razão, um espaço de reflexão, análise e opinião do mundo político internacional. Merece o bolo.

Uma boa frase

“Se isto fosse no tempo do Sócrates, a esta hora o Trump já tinha em cima da mesa uma proposta da Mota-Engil para a construção do muro. Com financiamento do BES e projecto do Siza Vieira." Rui Rocha, Delito de Opinião

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