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Pedro Rolo Duarte

31
Out14

Inquietação

A carne é fraca e a raça é pior: os 51 detidos em Espanha, suspeitos de crimes de corrupção (ou a ela associados), não são diferentes dos brasileiros que protagonizam o “petrolão” ou dos portugueses que sabemos. É tudo farinha do mesmo saco. Mas a multiplicação de casos por este mundo fora - antigamente, dizíamos que estas coisas só se passavam na América Latina e em África, lembram-se? -, à esquerda e à direita, nas classes baixas, médias e altas, empurra a democracia para o abismo e convoca a pergunta inevitável: será incompatível o exercício da liberdade com a ética da transparência e o principio da honestidade? Dito de outra forma: será que só somos sérios à força, e debaixo de câmaras de vigilância?
Não imaginava chegar a esta fase da vida com dúvidas de uma tão triste e miserável natureza. Não imaginava sequer poder duvidar do regime.
Confesso: todos os dias há qualquer coisa que me faz estremecer e sentir a “Inquietação” que José Mário Branco tão bem cantou: “Há sempre qualquer coisa que está para acontecer / qualquer coisa que eu não consigo perceber / Porque, não sei / Porquê não sei ainda”.
Porém, e ao contrário do remate da canção, “essa coisa” não é linda. Mesmo.

28
Out14

Cinquenta, primeiro capítulo: “ao perto”

Uso óculos desde os 16 anos. Ligeira miopia e astigmatismo que, ao longo dos anos, evoluíram lenta e tranquilamente, sem nunca me darem grande trabalho ou despesa. A ultima vez que fiz o exame completo aos olhos, num oftalmologista como deve ser, foi-me elogiada a “tensão ocular” e tudo estava em ordem.
Há uns meses, comecei a sentir que a graduação dos óculos que usava estavam a falhar o objectivo, tanto “ao longe” como “ao perto”. Lá fui rever a coisa e confirmou-se que havia alterações na graduação. O optometrista insistia que eu devia tentar lentes progressivas, pois os novos óculos que estava a comprar não teriam grande efeito na vista “ao perto”, corrigindo apenas a “geral”. Do alto da minha presunção, pensei: ora, se usei uns óculos únicos para perto e longe toda a vida, não é agora que isso vai mudar.
Pois não.
Há semanas, já um pouco irritado por ver cada vez pior “ao perto”, comprei um par daqueles óculos “de leitura” que se vendem nas farmácias. Nos primeiros dias foram-me muito úteis para ler jornais ou bulas de medicamentos. Agora, já preciso deles para o computador, para o telefone, para tudo o que é “ao perto”.
O optometrista tinha razão. E eu começo a perceber o que é ter 50 anos.

26
Out14

Da obsessão inesperada

"- Sempre pensei que a verdade me libertaria - disse ele (Patrick) -, mas a verdade só nos enlouquece.
- Dizer a verdade pode libertar-nos.
- Pode ser. Mas o autoconhecimento por si só é inútil.
- Bem, permite-te sofrer mais lucidamente - contestou Johnny.
- Oh, sim, não queria perder isso por nada deste mundo.
- No fim de contas, talvez o único modo de aliviar a nossa infelicidade seja ficarmos cada vez mais afastados de nós mesmos e mais ligados a qualquer outra coisa - disse Johnny.
- Aconselhas-me um passatempo - riu-se Pactrick - Fazer cestos ou coser sacos de correio?
- Bem, na verdade estava a pensar numa forma de evitar essas duas ocupações em particular…
- Mas seu eu for libertado do meu estado de espirito amargo e desagradável - protestou Patrick -, o que me restaria?
- Não muita coisa - admitiu Johnny - mas pensa no que poderias colocar em seu lugar."

(De “Alguma Esperança”, Edward St Aubyn, tradução de Daniel Jonas)

edward.jpg

 

É raro apaixonar-me por um autor ao ponto de devorar em modo contínuo os seus romances. Mas foi isso que sucedeu agora com a saga de Edward St Aubyn sobre a figura tão extraordinária quanto complexa e caótica de Patrick Melrose. Vou no terceiro livro, faltam-me dois. Mas as noites têm ficado mais curtas por causa desta escrita, deste escritor, e deste universo que subitamente invade a minha vida. Se isso não é um bom escritor (e bons romances), não sei o que é um bom escritor (e bons romances).

24
Out14

Um verdadeiro UAU!

estamos_todos_300x230.jpgNa quarta-feira estreou no Casino Lisboa o novo espectáculo “para-um-homem-só” do José Pedro Gomes: “Estamos Todos?”. A equipa é de luxo. Texto de Luísa Costa Gomes, cenários de António Jorge Gonçalves, encenação do Adriano Luz, música de Filipe Melo, luz de Paulo Sabino. É claro que o resultado é excelente: uma hora e meia entre sorriso e gargalhada, com o José Pedro Gomes a vestir 8 personagens nos momentos que antecedem um casamento… Aviso já: o velho e o padre são antológicos.
Mas o que mais mexeu comigo, confesso, não foi o espectáculo, apesar da excelência em cena. O que mexeu comigo foi, no fim, dizer-se naquele palco que a UAU  assinalava 25 anos nesta semana.
Já passaram 25 anos?
Fiz contas às minhas contas para perceber que sim, que passaram mesmo. E não quis deixar de vir aqui dizer o que penso há muito tempo e não sei se alguma vez tive oportunidade de escrever. É isto:
A equipa da UAU, liderada pelo Paulo Dias, introduziu no teatro português uma equação até aí difícil de entender: qualidade pode traduzir-se em sucesso de bilheteira. Qualidade não é sinónimo de subsidio e cadeiras de pau. Esta coisa óbvia era, há 25 anos, tudo menos óbvia. E o Paulo, com a sua equipa, com boas ideias de marketing, com faro e intuição, e seguramente com muito trabalho, transformou a equação numa realidade. No teatro e fora dele. Penso nisso sempre que, no final das estreias a que fui, o vejo subir ao palco, com uma modéstia e timidez que não deixam margem para dúvidas: só por amor se faz o que ele faz e como ele faz.
Hoje, a UAU é o mais claro exemplo de que a palavra “subsidio” não é essencial ao bom teatro - e que, nessa matéria, não somos melhores nem piores do que os “outros”. E é também um forno de novas ideias, de espectáculos inesperados, e mesmo de riscos que as companhias mais clássicas, sem o clássico “apoio do estado”, não correriam.
O Paulo vai atrás do que lhe cheira a essa soma feliz: qualidade + ligação à realidade + trabalho = sucesso. Há 25 anos. Este espectáculo do José Pedro Gomes é um excelente presente de aniversário.
A UAU merece um UAU!. Aqui fica o meu.

22
Out14

Trabalhar sem aquecer

(Crónica originalmente publicada na revista Lux Woman. A deste mês saiu hoje mesmo!)

Matéria recente numa revista de Televisão: “O meu filho quer ser estrela de TV. E agora?”. Só este titulo inspiraria uma tese de mestrado. O que é uma “estrela de TV”? Pode um pai deixar que a questão se coloque sem antes se interrogar sobre o absurdo da própria questão? Que raio de profissão é esta, “estrela de TV”?
O artigo era surreal nalguns pontos de um pretenso guia prático para pais cujos filhos concorrem a concursos de TV (com e sem talento): além dos miúdos faltarem às aulas para os ensaios e algumas gravações, o (cito) “encarregado de educação também deverá faltar ao trabalho”. Referências aos peculiares contratos que deixam menores de idade nas mãos de empresas de televisão, e ao facto de não haver qualquer espécie de assistência psicológica em caso de derrota, já nem me conseguiram surpreender.
Mas o artigo remeteu-me para um cantor de generosa idade que dizia numa entrevista algo como isto: “quando comecei, era preciso trabalhar para se ser conhecido; agora, é preciso ser-se conhecido para se ter trabalho”.
As duas realidades - a do artigo sobre “estrelas de TV” e a do lamento do cantor - cruzam-se no momento em que atingimos o grau zero da sensatez no mundo laboral. Já nada é garantido, válido, ou sequer lógico. Ter um curso ou não ter, ter talento ou não ter, ter experiência ou não ter - tudo é aleatório, caótico e imprevisível. Há quem cresça a querer “ser famoso” - e há pais que acham “isto” razoável e normal.
Se aceitamos que “ser famoso” pode ser ambição profissional, somos forçados a aceitar que ter idade pode ser algo desprezível. Um empresário meu amigo, já perto da reforma, e que deixou as suas empresas aos filhos, dizia-me que nem se atrevia a sugerir um profissional sénior aos herdeiros, mesmo sabendo que tinha talento e sabedoria para os lugares em falta - “o meu filho e os seus colegas não querem ouvir falar de pessoas com mais de 40 anos - acham que lhes falta ritmo, vontade, rapidez, e acima de tudo não querem pagar o valor da experiência. Para eles, experiência vale zero, pode até ser empecilho”. Falava sem ponta de indignação - conformado, como se fosse assim mesmo, sem retorno, óbvio.
Quando penso em todas as variáveis que um percurso profissional encerra nos dias que correm, acabo invariavelmente deprimido: não consigo compreender um mundo onde o saber adquirido é desprezado, a energia jovem é explorada sem dó nem piedade, “ser famoso” pode ser uma ambição de vida, e o trabalho é encarado como um numero de processo. Não consigo perceber que um mundo feito de pessoas - sim, ainda são pessoas a mandar em pessoas, a decidir, a pensar, a governar - possa ser tão cruel para com… pessoas. Uns contra os outros? Uns contra os outros.
No mesmo mundo que um dia percebeu que a escravatura não fazia sentido, que mais tarde reconheceu o absurdo do racismo, que por fim caiu em si e conseguiu ver homens e mulheres em pé de igualdade, e direitos das crianças reconhecidos, não concebo que se tenha descido tão baixo nas relações laborais, no respeito pelo trabalho e pelo trabalhador, e nas lógicas empresariais que levam à contratação e ao despedimento. Ou mesmo à ideia de que o esforço e o estudo podem ser substituídos pela fama instantânea num concurso onde se comem minhocas ou se imitam cantores. Estarei a envelhecer ou apenas excessivamente lucido? Não sei. Mas sei que pensar nesta loucura em que se tornou o trabalho me deixa pouco optimista quanto ao futuro dos filhos de quem o tornou tão estupidamente injusto e ingrato.
O mundo mudou, já todos sabemos. Mas não era preciso ter mudado tanto. Ou afinal tão pouco, se recuarmos ao passado mais passado…

20
Out14

Sobre jornalismo, simbolicamente...

É uma história sem qualquer importância, mas diz alguma coisa, simbolicamente, sobre o estado do jornalismo. Não mais do que isso. E conta-se assim:
No domingo, 12 de Outubro, a revista 2 do jornal Público trazia uma matéria de duas páginas, assinada pela jornalista São José Almeida, sobre o novo programa da RTP-I “Barca do Inferno”. Surpreendeu-me o titulo, “Uma barca de mulheres para quebrar o telhado de vidro da TV”, e estes dois parágrafos:

  • “Barca do Inferno quebra ainda com uma outra hegemonia, a do dominio dos homens no espaço público mediático de comentário. É o primeiro programa de debate de actualidade feito apenas por mulheres”.
  • “Uma solução que parece inverter em espelho o estereótipo de que o comentário político e televisivo é território masculino. E deste modo pode contribuir para quebrar o telhado de vidro que aparentemente não se vê, mas está lá, tapando o acesso ao espaço público mediático e mantendo aí as mulheres invisíveis”.

Ora, perante o facto de haver aqui um erro factual, escrevi um mail à jornalista São José Almeida onde corrijo o que, de alguma forma, justifica a matéria e até está na sua origem: “uma busca simples no google permitir-lhe-ia verificar que a mesma RTP-I (à época RTP-N), teve nos anos 2010 e 2011 (ou seja, há apenas 3 anos...) um programa de debate de actualidade só com mulheres, moderado por mim, chamado “Fala Com Elas”. Tinha um painel fixo (Isabel Stilwell, Estela Barbot e Joana Amaral Dias, entretanto substituída por Manuela Azevedo e por fim por Bárbara Coutinho), e sempre uma convidada diferente. Abordavam-se os temas da semana, da politica à economia, do desporto à cultura, nacionais e internacionais, ao longo de uma hora. Todas as semanas. Não sei se terá sido o primeiro programa de actualidade só com mulheres na televisão nem tenho a pretensão de ter louros de inovação - mas sei que a Barca do Inferno não é de todo o primeiro.
Fico triste quando o trabalho feito é esquecido e ignorado, em nome de um entusiasmo que oblitera a necessário investigação ao passado. Mas enfim, são coisas que acontecem, e achei que lhe devia dizer. Se entender que merece correcção nas páginas do jornal, fico grato. Se tal não ocorrer, também não vem daí mal ao mundo”.
E não vem mesmo. A jornalista São José Almeida não achou o meu mail merecedor de resposta pessoal nem de correcção no espaço “O Público errou”. A matéria continua online aqui. Percebe-se que ficaria esvaziada e sem sentido se porventura fosse corrigido o erro e assumida a negligência. Mas para quê? No meio do barulho das luzes, tudo passa, nada fica. Daqui a nada já nem eu me lembro disto.

16
Out14

De volta ao Alfa

IMG_3848.jpg

Na terça-feira encontrei o Edgar Pera no lançamento lisboeta do livro “A Casa Azul”, da sua mulher, e minha amiga, Cláudia Clemente. Falámos na combinação que eu tinha com a Cláudia de gravar hoje, quinta-feira, uma edição do TPC com ela nos estúdios da RTP-Porto.
E vai ele e diz:
- Adoro a viagem de comboio para o Porto. Escrevo imenso, tenho ideias, leio, é a viagem perfeita.
Concordei e acrescentei:
- … E ainda dá para dormir um bocadinho… No momento em que começa a cansar, e nos fartamos, a viagem termina. Foi muito bem estudada, esta cena…
Rimos os dois. Foi bem estudada a distância de Lisboa ao Porto? Não foi estudada. Mas calhou bem. Receio que a distância em horas de comboio seja mais curta do que, muitas vezes, a distância efectiva nas oportunidades, no acesso ao poder, na efectiva realização. Mas isso seria outra discussão.
Por agora, apenas o facto: as duas horas e trinta e picos minutos que nos separam no Alfa são boas, úteis, e dão para quase tudo. Quase.

14
Out14

A língua portuguesa ainda me surpreende...

 ... Quando, por exemplo, oiço esta extraordinária canção de Vitor Ramil e me rendo à conjugação de futuro e presente e passado em verbos que aparentemente se desencontram - mas, afinal, se encontram num sentido único com todo o sentido do mundo.

Em momentos destes, de descoberta e revelação, tenho a certeza: ainda há muito a fazer com a bela língua portuguesa. E claro, "a nossa pátria é a nossa língua".

(Sim, é a segunda vez que posto esta canção em poucos dias, mas que querem? Não lhe resisto e agora é a versão completa e ao vivo.)

10
Out14

E por que não Mook?

Leio uma crónica na revista de domingo do El Pais sobre uma revista francesa, com nome inglês - “Well, Well, Well” - que se destina ao mercado homossexual feminino. A crónica é sobre a questão do target, a mim interessou-me mais o conceito. Tem duas edições anuais e custa 15 euros. Não é caso único: há mais revistas cuja periodicidade não é já a do costume (semanal, mensal), com volumes de páginas e preços muito fora do comum, e formatos ainda mais variados - e todos os dias se fazem novas experiências com o velho e bom papel, tão delicioso quanto fora de moda.
Todos sabemos que as modas mudam.
O que mais me agradou na crónica foi saber da designação que encontraram para estas revistas “fora de formato”, que nem são as clássicas comerciais nem as óbvias digitais. Chamam-se “Mook” - mistura fina de “magazine” com “book”. Gostei do conceito. Ando a pensar nele, não consigo deixar de pensar nele.

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Blog da semana

Por Falar Noutra Coisa. Humor neste reacordar do blog. Rir é o melhor remédio. Lugar comum indiscutível.

Uma boa frase

“Sucessivos governos ficaram irritados, o actual vai um pouco mais longe, esquecendo que votar é um direito mas nunca uma obrigação. Em países desenvolvidos os cidadãos até votam durante a semana, ao passo que na choldra querem proibir jogos de futebol para obrigar o povo a ir votar." António de Almeida, Aventar

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