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Pedro Rolo Duarte

28
Nov14

Radical

Desde que me lembro de ser gente que oiço falar no Segredo de Justiça. Mas, tal como sucede com o Pai Natal, deixa presentes mas nunca o vi. Pelo contrário, esfuma-se sempre que precisamos dele para a determinante prova de vida.
Agora, com o caso Sócrates, entre o jornal Sol e o Correio da Manhã, o Pai Natal largou os seus presentes e bazou novamente - segredo de justiça, onde andas tu?
Sou radical: se não vences o inimigo, junta-te a ele. Por mim, acabava de vez com o segredo de justiça, uma verdadeira palhaçada que descredibiliza todo o sistema de justiça, não dá garantias aos arguidos nem reserva aos investigadores (pelo contrário, ridiculariza as instituições e faz troça de quem devia ter direitos), alimenta especulação e boato, e só funciona quando não faz falta.
A sua existência presume, aliás, essa ideia: quando não faz falta, pode ser aplicado - é sinal de que os media se estão nas tintas para o assunto. Quando é essencial, ninguém descansa enquanto não é violado. E se acabássemos de vez com a hipocrisia e assumíssemos que o Estado não consegue controlar nem vencer este quadro de miséria?
Pelo menos livrávamo-nos no ridículo. Ficávamos apenas com a vergonha da casa escancarada. E a essa já estamos habituados.

25
Nov14

Portugal bipolar

No mesmo momento em que Carlos do Carmo é consagrado como um dos mais relevantes artistas do mundo, com um Grammy pela sua carreira…
… Os vistos Gold revelam a face obscura de uma corrupção que se  pressente mas raramente se vê. Ganha luz e espalha escuridão.

Num tempo em que deixamos de ter a Troika como desculpa para a depressão e a crise como explicação para a apatia generalizada…
… Em vez de estarmos preocupados em fazer mexer Portugal, assistimos estupefactos ao desmoronar do castelo de cartas do dinheiro sujo, que começou no BPN, foi para bingo no BES, e parece não ter fim.

monocle.jpg

 

Na mesma semana em que a revista Monocle edita um suplemento sobre Portugal, procurando mostrar que o país está em alta e tem bem mais valor do que apenas sol e praia…
… O ex-primeiro-ministro José Sócrates é preso, juntamente com alguns presumíveis cúmplices, acusado de corrupção, branqueamento de capitais e fraude fiscal agravada.

Perante este quadro, querem o quê? Um país saudável?
Claro que não. Portugal está doente, e vive de respiração assistida, antidepressivos e ansióliticos. Pelo menos.

24
Nov14

Segredos

pao.jpgJá uma vez aqui confessei o meu amor pelo pão. Continuo a achar que a melhor combinação do mundo culinário está no simples e clássico pão com manteiga. Cheguei a fazer um workshop sobre pão, que só não me deixou a fabricar os meus próprios pães porque negligenciei (e depois esqueci...) os sábios ensinamentos do Paulo. E também, valha a verdade, porque é possível comprar muito bom pão em Lisboa, de diferentes origens, e até mesmo a clássica “carcaça” da capital. E sendo um produto barato, é quase um luxo perder tempo a fazê-lo - ainda que a emoção de fazer um pão valha um dia perdido, vos garanto.

Adiante.
Noto que o Pão de Mafra se tornou uma unanimidade no mundo dos pães saloios e rurais que vão chegando a Lisboa. Não está sozinho, mas destaca-se também pelo excelente trabalho da Pani-Mafra na distribuição do dito por toda a parte.
Agora, se querem mesmo saber onde está, pertinho de Mafra, o pão perfeito (que além de ser absolutamente extraordinário, resiste ao passar de dois ou três dias sem mácula…), desafio-vos a passar a um domingo, perto das 5 da tarde, pelo nº 67 da Rua Movimento das Forças Armadas, em São Miguel de Alcainça, a poucos quilômetros de Mafra (na estrada que a liga à Malveira). Uma porta discreta, uma padaria mínima, quem faz o pão é quem vem ao balcão vendê-lo.

Se vos falo em domingo e em cinco da tarde, é apenas porque foi essa a sorte que me tocou… E tocou-me o quê? Bom, um pão a escaldar, acabado de sair do forno, com um cheiro deslumbrante e um sabor ainda mais irresistível. Textura perfeita, comia-se (e comeu-se!) sem manteiga, assim, a seco e quente. Tão bom. Não sei mais sobre horas de fornadas e dias em que está aberta aquela pequena padaria São Miguel de Alcainça, mas vou lá voltar assim que possa. Espero apanhá-lo quente e com a côdea a estalar...

23
Nov14

Os media, Sócrates, o espectáculo

Sim, eu também acho um exagero - e “sinto” promiscuidade - na cobertura que os media, especialmente as televisões, estão a fazer do “caso” José Sócrates. Parece que há quem avise que o senhor vai aterrar, o senhor vai ser detido, o senhor vai ser ouvido, e no entretanto Felícia Cabrita “descobre” todos os indícios e presunções de delito e escarrapacha a matéria, com milhões contados e certezas deterministas, na edição online do “Sol”.
Mas, sem querer defender a classe a que tenho pertencido nos últimos 30 anos, deixem-me que vos diga: para quem está habituado a ver o criminoso sempre pobre, desgraçado, sozinho e doente, posso perceber algum entusiasmo quando, repentinamente, os presumíveis implicados são poderosos, ricos, bem acompanhados, e até talvez com saúde.
Não concordo e não faria assim. Mas percebo. É uma espécie de 25 de Abril, versão 2.0, só para jornalistas e agentes da justiça…
Só faltam nacionalizações e uma nova reforma agrária. Já estivemos mais longe.

19
Nov14

A moda somos nós

(Crónica originalmente publicada na revista Lux Woman. A deste mês saiu hoje, e vale a pena...)

Sei que este 2014 tem sido recheado de polémicas, mas confesso que aquela que mais me divertiu, talvez por se ter vivido no Verão, foi a que opôs os motoristas de táxi e os Tuk Tuks que repentinamente invadiram Lisboa. Vi e li várias reportagens sobre o tema - os taxistas queixam-se de concorrência desleal, falta de regulamentação, balda generalizada… - e o que retive foi uma imagem que, de alguma forma, marca a vida nas cidades portugueses nas ultimas décadas: a do choque entre quem se habituou a viver de “certa maneira”, protegida e sem risco, garantida e tranquila, e as novas gerações, que chegam ao mercado com vontade de ousar, sem medo de inovar, e acima de tudo sem preconceitos sobre horários, estilos de vida, formas de trabalhar. Não passa pela cabeça de um taxista a existência de um Tuk Tuk - mas passa pela cabeça de um dono de um Tuk Tuk que existam táxis. Faz toda a diferença.
É a essas novas gerações - já são várias, se começarmos a contar com o Bairro Alto dos anos 80 e 90 - que se devem os melhores lugares-comuns do ano: Lisboa e Porto estão na moda, o turismo cresce, a imprensa internacional põe no “top mais” uma ou as duas cidades, e vive-se uma dinâmica empresarial e comercial incomuns e provavelmente únicas nos últimos 100 anos. Restaurantes, cafés e bares, lojas conceptuais, hosteis, hotéis de charme, ideias loucas (como a das toalhas de praia Origama, para só citar uma…), ideias obvias (como a promoção do pastel de nata!), de tudo um pouco tem surgido nas duas cidades, e tem cimentado esta lógica de cidade pequena mas mexida, cool, com onda e com estilo.
Porém, o que explica o sucesso turístico de Lisboa e do Porto tem menos que ver com estrangeiros de visita a Portugal e mais com portugueses a viver as suas cidades. Se pensarmos nas grandes capitais europeias, quais são os lugares mais divertidos, onde apetece estar e viver a cidade? São os bairros e praças onde os locais também vão. Não há comparação entre a Torre Eiffel, pejada de flashes indiscretos, e Saint-Germain ou o clássico Quartier Latin; o Raval de Barcelona vale todo o Passeig de Gracia; se falarmos de Londres, Notting Hill ou Shoreditch ganham aos pontos a Picadilly, como já antes Covent Garden valia mais que o próprio Soho.
Quero dizer: o segredo do sucesso desta Lisboa e deste Porto renascidos das cinzas (no caso do Chiado, literalmente…), resulta das ideias e das dinâmicas empreendedoras de muita gente, claro que sim, mas também da circunstancia dos lisboetas e portuenses terem aderido e estarem a viver esta “movida”. Eu vi lisboetas no novo Mercado da Ribeira, ou no Mercado de Campo de Ourique, ou no Intendente, ou mesmo nas lojas da Catarina Portas, antes de ver por lá turistas. Os melhores lugares de uma cidade são aqueles que são vividos pelas suas pessoas, e partilhados com as que as visitam. Esta é a chave e o segredo do sucesso que vivem Lisboa e Porto. Saibamos preservá-lo, alimentá-lo, e tratá-lo com carinho.
Quanto à polémica dos taxis e dos tuk-tuks, bom, é verdade que os lisboetas não andam de tuk-tuk, por isso não se aplica a minha teoria sobre partilhas… Mas aqui entre nós: não fazia mal nenhum aos motoristas de táxi aproveitarem esta onda saudável de amar a cidade e quem nela vive ou a visita e, por exemplo, aprenderem inglês. Ou cultivarem o asseio e a simpatia. Talvez mesmo fazerem dos seus carros um melhor porto de abrigo para quem neles viaja. Ganhávamos todos com isso - e lá juntávamos uma vez mais os cidadãos e quem visita as cidades. Sérgio Godinho um dia cantou, e ninguém mais esqueceu: “isto anda tudo ligado”.

18
Nov14

Três anos do "Povo" com poetas dentro

povo.jpg

Tudo o que tinha a dizer sobre este lisboeta "Povo" está escrito neste post , não muito antigo, sobre o milagre das segundas-feiras.

Mas esta semana há boas razões para voltar ao "Povo": são três anos de vida, poesia e fado pela semana fora, sempre em festa, ali ao Cais do Sodré. Estive lá ontem - e, como de costume, estava cheio. De pessoas, de palavras, de poemas, de palavras ditas e por dizer.

Um conforto em tempos de tanta palavra maldita.

15
Nov14

Sete anos

ME194T.jpg

Há sete anos, publiquei o meu primeiro post.
Sete anos depois, não estou arrependido, não desisto, e cá estou.
Com 1498 posts publicados (por pouco não havia número redondo..).
Com 8939 comentários dos leitores (só eliminei mesmo quem ofendeu, insultou, difamou ou acusou sem provas…).
Com 1.368.433 visitas.
Com 2.085.673 páginas vistas.
São numero simpáticos, muito generosos. Obrigado a todos, especialmente aos mais críticos, porque são sempre os mais estimulantes.

O blog é como a vida: continua. Já no próximo post.

(E agora vou ali fazer uma saúde ao Sapo, na pessoa do Pedro Neves, que discretamente vigia, ajuda e leva ao colo este bocadinho de mim.)

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Blog da semana

O Diplomata. Dez anos de blog é obra. Alexandre Guerra festeja, e com razão, um espaço de reflexão, análise e opinião do mundo político internacional. Merece o bolo.

Uma boa frase

“Se isto fosse no tempo do Sócrates, a esta hora o Trump já tinha em cima da mesa uma proposta da Mota-Engil para a construção do muro. Com financiamento do BES e projecto do Siza Vieira." Rui Rocha, Delito de Opinião

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