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Pedro Rolo Duarte

30
Dez15

O que passa do que passou

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Pediram-me um depoimento que sintetizasse, segundo o meu olhar, as grandes tendências que 2015 nos revelou (algumas já vinham bem de trás…) e que em 2016 vão continuar a ganhar terreno, espaço, relevância. A adivinhação não é o meu forte, nem tenho a mania de que nunca me engano. Olho para trás e vejo o contrário: tanta surpresa, tanta decepção, tanta ilusão, só revelam falta de jeito para adivinhar…
Ainda assim, e separando tendências boas e tendências más, alinhavei o que se segue (escolhendo três itens para cada lado), começando pelas más noticias para acabar de forma optimista:

 

1. O declínio da imprensa diária em papel parece cada vez mais claro (os exemplos do “Público”, “Diário Económico” e “i” são os últimos, mas outros andam por aí a assobiar para o ar, à espera de vez…), e por mais que se possam e devam discutir a má gestão, a falta de criatividade na captação de públicos, os próprios modelos de negócio, os números são demasiado claros: à medida que mais gente consome informação por via digital, mais gente deixa de gastar dinheiro na imprensa diária. Sem receitas, os empresários desinvestem, a publicidade desaparece, e os jornais baixam de qualidade. São cada vez menos diferenciados, e esta pescadinha de rabo na boca não tem vontade de se desatar.

 

2. Se o comum dos mortais já alimentava uma generosa desconfiança em relação a quem nos governa, agora a coisa alargou-se: empresas, instituições tidas como blindadas (os bancos, por exemplo), gestores, o saco da desconfiança cresceu a um ponto quase em rompimento. Basta pensar nos casos nacionais do BES, BPN, Banif, passar por José Sócrates ou pelos Vistos Gold, e fechar o circulo no global escândalo Volkswagen. Neste quadro, se 2015 foi um ano de revelações, 2016 vai consolidar esta tendência para tornar a desconfiança uma das mais fortes atitudes do ser humano para com o seu semelhante. Triste.

 

3. E para não me alongar muito, acrescentei este paradoxo: a evolução tecnológica democratizou o mundo, é extraordinária, não tem limites -  mas vai, por outro lado, continuar a empobrecer a criação e os criadores culturais, com os fenómenos da pirataria, do consumo gratuito desenfreado, e de um assustador desrespeito pelo direito de autor. É mais um daqueles casos em que o melhor se tornou no pior - e o pior não tem remédio.

Do outro lado do espelho…

1. Nas coisas boas que 2015 nos trouxe, e que 2016 vai cimentar, talvez seja justo começar por saudar o regresso à vida mais frugal, mais simples, mais centrada no essencial, dispensando o acessório. Voltar a receber os amigos em casa, voltar a cultivar o gosto pela cozinha caseira, são alguns dos sinais deste movimento, que nos negócios passa pelo artesanato, pela recuperação de marcas quase desaparecidas (da Sanjo ao Sabichão, são dezenas…), pelas lojas de bairro. Parece que estamos cansados do excesso e depuramos os dias. É bom.
Se nos voltarmos para a publicidade, encontramos também esta valorização da simplicidade, do olhos nos olhos, da emoção por cima da razão. Valores como a amizade, a partilha, o encontro, têm feito campanhas fortíssimas, que agradam aos consumidores, seja numa mini-ficção publicitária ou na criação de marcas que personalizam os produtos.

 

2. Na imprensa, enquanto o papel diário de jornal vai caindo, florescem novas revistas, nalguns casos novos modelos de publicações: revistas de nicho, revistas que são livros, publicações que investem no mais apurado design e promovem o encontro quase cara a cara entre quem faz e quem lê. Por enquanto, apenas lá por fora. Em breve, cá no rectângulo?

3. Por fim, por oposição ao mundo virtual que dominou os últimos dez anos, entrámos no momento de dar a volta ao tema e usar o virtual para potenciar e beneficiar o real. Um exemplo: aproveitar as redes sociais e um mundo global para juntar o útil ao agradável e desenvolver o turismo solidário, onde uma viagem de férias também pode servir para um gesto de voluntariado. Este, sim, é um movimento geracional - mas que vai contaminando toda a gente e que tanto se une nos atentados de Paris quanto numa crise humanitária ou numa operação de voluntariado.

Ou seja: por entre a barbárie efectiva que diariamente nos enche os olhos e a cabeça, numa espécie de caos que a informação amplia (sempre no seu pior…) e em simultâneo banaliza, 2016 pode ser o que 2015 quis ser e nem sempre conseguiu: um tempo de renovação. Quero acreditar nisso. E querer é sempre um bom começo.

(Volto em 2016. Tenham um ano cheio. E em cheio.)

29
Dez15

EU de Europa

O lugar-comum "uma imagem vale por mil palavras" nem sempre é verdadeiro. Mas olhando esta capa da revista do New York Times, diria: há capas que valem por mil análises. E acho que estou perto da verdade.

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24
Dez15

Tenham então um feliz Natal...

(E assim vos deixo com uma crónica notável de Agustina Bessa-Luis, descoberta no sempre atento Citador - e que diz mais do que parece, parecendo dizer menos. Até já...)

 

"Todos os anos, por esta altura, quando me pedem que escreva alguma coisa sobre o Natal, reajo de mau modo. «Outra vez, uma história de Natal! Que chatice!» — digo. As pessoas ficam muito chocadas quando eu falo assim. Acham que abuso dos direitos que me são conferidos. Os meus direitos são falar bem, assim como para outros não falar mal. Uma vez, em Paris, um chauffeur de táxi, desses que se fazem castiços e dizem palavrões para corresponder à fama que têm, aborreceu-me tanto que lhe respondi com palavrões. Ditos em francês, a mim não me impressionavam, mas ele levou muito a mal e ficou amuado. Como se eu pisasse um terreno que não era o meu e cometesse um abuso. Ele era malcriado mas eu - eu era injusta. Cada situação tem a sua justiça própria, é isto é duma complexidade que o código civil não alcança.
Mas dizia eu: «Outra vez o Natal, e toda essa boa vontade de encomenda!» Ponho-me a percorrer as imagens que são de praxe, anjos trombeteiros, pastores com capotes de burel e meninos pobres do tempo da Revolução Industrial inglesa. Pobres e explorados, mas, entretanto, não excluídos do trato social através dos seus conflitos próprios, como se pode observar nos livros de Dickens. Actualmente as crianças estão mais isoladas dum processo de libertação adequada à sua normalidade. Não há qualquer lógica entre o pensamento que elas sugerem e a acção que lhes é imposta. Mas isto são considerações de Natal? Confessem que preferem uma história, uma coisa leve, talvez um pouco insensata e graciosa. Pois bem, falemos de pastores.
Um amigo meu passou uns dias na serra da Estrela para se curar duma depressão, uma dessas doenças que são produzidas pela sociedade burocrática onde todos se destroem em boa paz. Cuidou ele que a solidão e a vida rude o haviam de transformar. Mas o sofrimento, que não é disciplina nem necessidade, torna-se em crítica mesquinha. Ele andava pelos montes, com ar de censura e escândalo, perguntando às pessoas como podiam viver sem ir ao teatro e sem comer costoletas panadas. Alumiando-se com azeite e deitando-se ao sol-pôr para não o gastar. Sobressaltava-o muito aquela imobilidade da serra com os rebanhos que pareciam pedras e os pastores com o cão de pêlo assanhado. Sentava-se ao lado deles e travava conversa.
— Olhe lá: você nunca sai daqui? — perguntava. E o pastor respondia:
— Eu, não senhor.
— E então, não se aborrece?
— Eu, não senhor — tornava o homem.
— Mas não se aborrece mesmo, sempre sozinho, a ver só ovelhas, aqui no cimo da serra? — insistia o meu amigo.
Então o pastor, apertado naquele inquérito, fez um esforço para compreender a desordem que provocava no espírito do homem da cidade, e disse, apontando, com um ligeiro movimento do queixo, as ovelhas:
— Ah! Elas às vezes bolem...
Queria desculpar-se, se o conseguiu ou não, não sei. O meu amigo não andou muito tempo por lá. Deu um jeito a um tornozelo e tiveram que o levar de padiola até à localidade, onde arranjou melhor transporte para o hospital. Disse daquilo cobras e lagartos. Também é preciso ver que não era homem para grandes descobertas. Até acha que as descobertas foram um erro histórico. Mas que tem o Natal a ver com isto? – direis. Descubram."

21
Dez15

Natal é quando o homem… deixar

(Crónica publicada na revista Lux Woman. A deste mês já está à venda e está cheia de boas matérias...)

Se o Natal é o tempo das melhores intenções, das boas práticas, do pensamento solidário, cabe aqui uma reflexão um pouco mais distante, e mais pausada, sobre um dos casos que abalou este 2015: a aldrabice que se descobriu sobre a Volkswagen, e a forma como, durante anos, boa parte dos automóveis saídos das fábricas do grupo eram modificados por forma a “portarem-se bem” nos testes sobre a poluição que os escapes emitiam, e depois serem tranquilamente poluidores quando conduzidos pelos compradores comuns nas ruas das cidades europeias, norte-americanas, asiáticas.
Não houve quem não falasse do caso e condenasse o Presidente da companhia, que rapidamente se demitiu (recebendo, escandalosamente, uma choruda pensão). Certíssimo. Em Portugal, a empresa publicou um anuncio na imprensa que primava pela dignidade e pela seriedade: “Quebrámos a peça mais importante dos nossos automóveis: a sua confiança”. E depois deste titulo, um texto discreto, sem desculpas nem floreados, com as palavras certas para remediar o irremediável. O melhor que podiam fazer no meio de tamanho escândalo.
Porém, há um lado mais humano, mais pequeno, e talvez por isso mais sinistro, que ficou a pairar sobre a minha cabeça. De forma simples: para que uma aldrabice, que fez com que milhões de carros poluíssem o nosso ar mais do que seria concebível (por governos já de si permissivos…), durante anos a fio, havia que envolver na mescambilha um generoso numero de profissionais. Engenheiros, quadros técnicos, gestores, directores de marca, directores de vendas, profissionais ligados à construção dos motores, às fábricas, aos acabamentos, no limite até mesmo ao design que permitia acomodar os motores dos carros no seu espaço vital. Sem querer exagerar, é razoável admitir que, na cadeia hierárquica que leva à produção de um automóvel, terá havido dezenas de pessoas que sabiam que, em nome da ganância, se manipulavam carros cuja emissão de poluentes na atmosfera seria muito superior ao desejável para as presentes e futuras gerações de seres humanos a viver à face da Terra.
E é aqui que eu começo a sentir algumas náuseas. Estamos a falar de profissionais que são certamente pais, ou mesmo avós; que vivem na terra e respiram o mesmo ar que todos nós; que deixaram de deitar papeis para o chão, ou começaram a separar o lixo, em nome das ameaças que fomos percebendo que se abatem sobre o planeta onde vivemos… Neste quadro, pergunto-me: quem, em consciência, e em nome do lucro, descarta o ambiente que o seu filho ou neto vai respirar? Quem, na posse das suas plenas faculdades, é capaz de aldrabar meio mundo para obter, a troco da violação de leis razoáveis, um motor mais barato, ou mais potente, e espalhar essa aldrabice? A nenhuma daquelas pessoas revoltava uma manigância que, no limite, podia matar os seus filhos e netos?
É nesta ultima pergunta que me fixei. E é nela que penso quando chegamos a mais um Natal, a mais um tempo de boas práticas e melhores intenções, a mais um tempo que convoca o cuidado e a atenção para com o nosso semelhante, e nos encaminha para balanços e perspectivas. Na verdade, fala-se demasiado da marca de automóveis - mas é bom não esquecer que a marca não existe, a não ser nos painéis dos mercados de capitais. Por trás daquele símbolo, e daquele escândalo, estão pessoas. Que magicaram um crime. E o praticaram. Sem qualquer espécie de vergonha ou pudor.
Não imagino quantas outras aldrabices se praticam por esse mundo fora em nome do lucro e do dinheiro - mas sei que esta, para mais vinda desse país “exemplar”, que sempre quer ser a Alemanha, entristece o meu Natal e os desejos de renovação e de redenção que não deixo de pedir para o ano que se segue. Pior: impede-me de chegar a este momento do ano e pensar que, no fundo, no fundo, não somos tão maus quanto nos pintamos uns aos outros.
Se calhar não somos. Mas por cada escândalo Volkswagen que se revela, há uma espécie de prédio enorme de esperança e boa vontade que se desmorona.
Não queria escrever uma crónica triste no Natal - mas saber que há gente que não se importa de deixar os próprios filhos a respirar um ar menos puro só para garantir lucros, objectivos, dinheiro, não me dá margem de manobra para uma época puramente doce. Desta vez, há um amargo de boca. Pode ser que um sonho da minha pastelaria preferida, ou um coscorão, consiga apaziguar-me. Bem preciso.

18
Dez15

O verdadeiro artista

(Crónica de ontem na plataforma Sapo24)


Quando comecei a trabalhar em jornalismo, há mais de 30 anos, havia uma ideia clara sobre a expressão “verdadeiro artista” (e convém sublinhar que escrevia no “Sete”, semanário dedicado ao mundo dos espectáculos). E o “verdadeiro artista” era, em Portugal, Marco Paulo - como no Brasil seria Roberto Carlos, e em Espanha talvez um Julio Iglésias. Em todo o caso, era sempre alguém cuja atitude, popularidade, capacidade de metamorfose social, se revelavam no momento em que as luzes de um palco se acendiam. Como se não existisse passado nem futuro, como se a vida tivesse efectivamente começado no dia do primeiro disco de ouro. Lembro-me de entrevistar Marco Paulo, sem palco e apenas com um gravador de cassetes, num bar manhoso das avenidas novas, e ele próprio se deixar levar pela simplicidade do seu passado de João Simão da Silva, e deixar cair a máscara que fazia do humilde cidadão uma estrela perseguida pelas admiradoras… Lá está, naquele instante não havia luzes nem plateia.
Mais tarde, a inteligência de Herman José transformou a ideia de “verdadeiro artista” num “cromo” da sua vasta galeria, e Tony Silva reinou, gozando e rindo como podia, anos a fio, para deleite de todos nós. O “verdadeiro artista” passou a ser um personagem. Mas também um adjectivo…
Até que chegou José Sócrates. E tudo mudou outra vez. O “animal feroz” moldou a sua imagem à semelhança do Marco Paulo nos anos 80: sem passado, sem História, uma máscara e um fato que se veste todas as manhãs, imune aos factos e a toda a gente, e “hits” populares para alimentar multidões crédulas, ou ignorantes, ou apenas com vontade de gostar. Vontade de gostar é perigoso, porque não tem controlo, nem lógica, nem pensamento prévio. É como comer chocolate.
Esta semana, Sócrates voltou à televisão. Acenderam-se de novo as luzes. E o “verdadeiro artista” revelou-se em todo o seu esplendor. O inocente. O perseguido. A vítima. Toda uma representação que, infelizmente, é possível - porque temos agentes de justiça fracos, sem capacidade de investigar e responder atempadamente, e que conseguem deixar um arguido sem acusação mais de um ano.
O “verdadeiro artista” existe porque as luzes se acendem - e isso apenas sucede quando há espectadores suficientes e faz sentido a máxima “the show must go on”. Se José Sócrates já tivesse uma acusação consistente e sustentada, talvez as luzes não se acendessem. Talvez a conversa fosse outra. Talvez o espectáculo fosse uma farsa. Mas o episódio desta novela é outro, e o “verdadeiro artista” voltou. Por mim, tenho mais saudades do tempo do Marco Paulo.

14
Dez15

Coincidências?

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Na semana passada, dormi neste lugar, entre livros e amor, e fiz questão de sublinhar o facto nos lugares onde tenho acesso à palavra. E a partilho.

Depois veio esta notícia.

E eu fico com a secreta esperança de que, sabendo que é pura coincidência, algum dia se saiba que afinal não foi, e eu tinha poderes divinos e adivinhatórios.

Davam-me um jeitaço. Enquanto vivo, claro.

 

10
Dez15

Nuvens sobre o clima

(Crónica de hoje na plataforma Sapo24)

Estamos a atingir um ponto limite de desconfiança sobre a raça humana. Até o jornalismo perdeu a sua maior arma: a credibilidade. Ninguém acredita em ninguém, números e factos são sempre contraditados com perguntas e dúvidas, e o óbvio tornou-se duvidoso.
O debate aberto pela cimeira do clima é um bom exemplo. É verdade - porque se vê, não porque se diga… - que o degelo prova algumas teorias mais alarmistas. Cito uma notícia da SIC: “As imagens de helicóptero do maior dos glaciares do Monte Branco são raras e despertam para uma realidade dos nossos dias. Entre 2003 e 2012, o mar do gelo perdeu 4 a 5 metros”. As imagens deste acelerado degelo não têm contraditório possível e não auguram nada de bom - mas, ao mesmo tempo, e enquanto isto acontece, há vozes aparentemente credíveis que levantam dúvidas e nos deixam a pulga atrás da orelha. Philippe Verdier, que nos últimos 20 anos deu a cara pela departamento meteorológico da cadeia de TV France-2, foi despedido no momento em que decidiu escrever e publicar um livro (“Climat Investigation”), em que procurou o outro lado dos efeitos do aquecimento do planeta. No que respeita à França, Verdier contabilizou a poupança energética que o aumento da temperatura permitiu, bem como o aumento da produção de alguns cereais, a diminuição do numero de óbitos em consequência da gripe, e não teve medo de denunciar a sempre delicada ligação entre os investigadores e os “lobbies” económicos ligados ao negócio da ecologia e do ambiente.
Não é a primeira voz a alertar para este outro lado negro de uma situação que nos devia unir, e nunca dividir. Já houve cientistas que lembraram a impossibilidade de prever o futuro de uma natureza que, por si, é imprevisível - e tem demonstrado ao longo de milhões de anos que pode sempre mudar o curso dos acontecimentos quando menos se espera, seja num tsunami ou no acordar de um vulcão.
Numa pesquisa simples na Internet, podemos encontrar James Lovelock, 88 anos, um dos mais influentes cientistas do nosso tempo, afirmar peremptoriamente que a raça humana está condenada: até 2020 a seca será assunto do dia, “o Saara vai invadir a Europa, e Berlim será tão quente quanto Bagdad”. Ele prevê que, até 2100, a população do planeta encolha de 6,6 bilhões de habitantes para cerca de 500 milhões. Mas ao lado, na mesma busca, encontramos o meteorologista brasileiro Luiz Carlos Molion, com mais de 40 anos de trabalho desenvolvido, assegurar que o aquecimento global não constitui qualquer drama para o planeta. E vai mais longe: “o problema é que quem não é a favor do aquecimento global sofre retaliações, têm seus projetos reprovados e seus artigos não são aceites para publicação. E eles (os governos) estão prejudicando a Nação, a sociedade, e não a minha pessoa”…
Há qualquer coisa perto da paranóia nesta sensação de insegurança, de chão a fugir-nos debaixo dos pés. Desconfiamos de tudo e de todos.
Em quem acreditar? Quem seguir? O que fazer? A intuição é suficiente?
Não tenho resposta para qualquer destas perguntas. Mas tenho uma certeza: nunca, como hoje, foi tão difícil acreditar no que nos dizem. E isso preocupa-me tanto ou mais do que o estado do ambiente na Terra.

08
Dez15

Pausa (com devaneio dentro)

caminho.jpg

Gosto de dias de caminhos sem destino. Ou de destinos sem caminho. Não é o mesmo, mas vai dar ao mesmo sitio.
Gosto de dias em que, por momentos, me sinto livre, em que a nada sou obrigado, em que a ideia de viver em sociedade - que me agrada e onde frequentemente sou feliz - deixa de existir. Sobra o caminho, e mais nada.
Não gosto das estações frias - mas reconheço que é neste tempo que se consegue andar à solta pelos caminhos onde só há começo.

O fim não é uma evidência - é apenas uma maneira de controlarmos os nossos impulsos de liberdade e limitarmos o desejo de sermos quem somos. Não gosto. E não me rendo.

03
Dez15

A ferida aberta

(Crónica desta quinta na plataforma Sapo24)   

Tenho ouvido algumas vozes mais precipitadas - não lhes quero chamar  tontas… - dizerem que os 120 despedimentos no processo que envolve os jornais Sol e i só têm grande destaque por se tratar de jornalistas a escrever sobre colegas jornalistas. Como quem diz: há centenas de despedimentos, todos os dias, noutras áreas, e têm menor destaque nos media…
Em teoria, essas vozes teriam razão. Na prática, esquecem ou desconhecem que os media são um dos mais relevantes barómetros de uma sociedade democrática - e nessa medida, qualquer facto que sobre eles ocorre revela mais do que a aparência indicia, e mede o estado geral do regime. Quando assistimos a um investimento fortíssimo de capitais angolanos nos meios de comunicação portugueses, não se trata apenas de negócio e números: estamos a falar de poder, influência, e capacidade de ganhar dimensão noutros negócios que se pretendem fazer. Da mesma forma, quando se anuncia desinvestimento, também se revela mais do que parece. E o que parece já não é, em si, famoso.
É verdade que, neste caso, os dois jornais (comprados pelos mesmo empresário por razões que têm pouco a ver com paixão pela imprensa…), são casos de insucesso económico e financeiro, e só são sustentáveis, no estado em que se encontram, com investimentos a fundo perdido. A não ser que haja superiores interesses políticos, económicos ou financeiros, ninguém quer ver o seu dinheiro ir pelo cano…
Mas a crise do i do Sol deixa ainda mais à vista a ferida que os media portugueses (e não apenas portugueses - ainda que, em mercados pequenos, como o nosso, seja mais visível) vivem desde há anos, e ameaça continuar a abrir-se até ao osso. É uma ferida em camadas sucessivas e com efeito dominó.
Começou com a estrutura do negócio, cujo tsunami Internet ainda não conseguiu reverter ou ver saída: a maioria daqueles que deixaram de comprar jornais não deixou de se manter informado - limitou-se a obter de borla, num telefone ou num computador, o que antes tinha de pagar. A esta mudança de paradigma, os jornais responderam inicialmente com altivez e presunção, mantendo a sua oferta, muitas vezes desperdiçando capital humano (o único que marca a diferença entre meios de comunicação…), acreditando que “a marca” fazia tudo. Não faz. Estão agora a acordar para a realidade, mas lutam com a segunda camada da ferida: a crise económica que entretanto mudou hábitos, refez planos de investimento publicitário, e também alterou as regras do jogo financeiro.
À crise económica e à crise estrutural, em si feridas difíceis de sarar, veio juntar-se a terceira crise: a da ética e dos princípios. Houve um tempo em que os media eram liderados por gestores e empresários verdadeiramente interessados no negócio da comunicação social. Não eram pára-quedistas que queriam ter notoriedade rápida, empresários interessados em veículos de comunicação para os seus negócios, políticos em campanha eleitoral. Eram gestores de media. Também esses - com a honrosa excepção de Francisco Pinto Balsemão - foram saindo de cena. Deram lugar àqueles que, hoje, com a maior facilidade compram um jornal, ou o lançam de raiz, para dali a dois ou três anos mudarem de ideias e venderem ou fecharem o que já não lhes parece “interessante”.
A palavra “interessante”, aliás, ganhou um lugar de honra no mundo dos negócios. É usada como sinónimo de lucro, não como interesse efectivo. Diz muito sobre a ética de quem anda por aí a mexer com a vida de quem trabalha, de quem hoje é aliciado para um “projecto de comunicação” apaixonante e amanhã está no desemprego sem perceber como nem porquê.
Podem dizer-me que é um sinal dos tempos - para mim, é um sinal do fim de um tempo. Para não dizer que é mesmo o fim de um tempo. A ferida não pára de crescer, e não vejo quem a queira tratar.
Os leitores, esses, foram à sua vida e não querem voltar a pagar o que subitamente, há uns anos, começaram a oferecer-lhes. No futuro, talvez tenham o que estão a pedir: nada.

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O Diplomata. Dez anos de blog é obra. Alexandre Guerra festeja, e com razão, um espaço de reflexão, análise e opinião do mundo político internacional. Merece o bolo.

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