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Pedro Rolo Duarte

23
Fev17

Portugal moderno

(Hoje, quinta, na plataforma/newsletter Sapo24)

Nos últimos dias, os media deram-nos conta de factos que, de uma vez por todas, comprovam que Portugal chegou ao primeiro mundo. Uma ex-agente da CIA, cá das nossas, foi detida, para cumprir pena já decretada, por ter participado no rapto de um líder religioso egípcio, em 2003, em Itália. É certo que a senhora tem agora 61 anos e se chama Sabrina, mas isso interessa pouco – é um momento alto da nossa capacidade de espiar e raptar. Ao mesmo tempo, perigosos fugitivos chilenos conseguem fugir da prisão de “alta segurança” de Caxias, sem rasto nem lastro. Na semana passada, um assalto em pleno dia no Centro Comercial das Amoreiras veio mostrar que, em matéria de roubo à mão armada, estamos à altura dos americanos (ou, pelo menos, das series televisivas americanas...). E já tinham sido apanhados em território nacional traficantes de primeira do mundo da droga. Uma vista de olhos diária ao Correio da Manhã prova o que falta para chegar onde quero: não é apenas no sistema Multibanco, Via Verde, no turismo de Lisboa e Porto, ou na queda dos números do desemprego, que Portugal marca pontos e está na cabeça do pelotão do desenvolvimento – também no reverso da medalha começamos a dar cartas. Temos entre nós malandros de estatura internacional, crimes de peso, e um Carnaval (a imitar cada vez melhor o brasileiro...) a animar as ruas nos próximos dias.

Perante este conjunto de incontornáveis factos, recordo ainda que era Donald Trump uma criança e já nós convivíamos com Alberto João Jardim, que havia família Salgado quando a realeza espanhola se revelou, e que a nossa banca não deve nada às estrangeiras em matéria de vulnerabilidade por evidente má gestão.

Ou seja: somos tão bons como os outros, da mesma forma que somos tão maus ou piores do que eles. Com uma ligeira desvantagem para nós: a escassa dimensão, a eterna pequenez, e uma tendência inata para o “logo se vê”.

Talvez por isso, no momento em que o Governo vem vangloriar-se dos progressos conseguidos, dos números e das estatísticas, do progresso e da “geringonça”, o espectador comum, como eu, duvida e pergunta-se: será assim, ou vamos esperar sentados a próxima desagradável surpresa? Vivemos, como escreveu João Miguel Tavares, na “bolha da inconsciência”, ou chegámos por fim a um patamar de equilíbrio em que, como escrevi, também o crime chega a níveis internacionais?

Até há uns anos, tínhamos a imprensa – que nos ajudava a perceber a relevância e hierarquia de tudo isto. Hoje temos cada vez menos imprensa – ou, como dizia há dias o director do Washington Post, mais evidências de que a imprensa pode acabar, e menos de que continue... -, e cada vez mais títulos soltos nas plataformas que dominam a informação. E esta dispersão baralha-nos ao ponto de podermos achar que uma ex-expiã da CIA, por fim detida, nos coloca na linha da frente do desenvolvimento, apenas pelo facto de ser portuguesa...

Algo me diz que o mundo, mais do que perigoso, está baralhado e confuso. Já ninguém percebe o que se passa, parece-me. Mas uma coisa é certa: não é pelas redes sociais nem pelos googles desta vida que vamos saber mais e melhor.

Saudades de uma coluna de Victor Cunha Rego, ou de uma primeira página “desenhada” por Mário Bettencourt-Resendes...

17
Fev17

O “abismo” numa fotografia

(Ontem, na plataforma Sapo24)

Há polémica sobre a fotografia do ano do World Press Photo. A foto, como já é sabido, é um instante do momento dramático em que um atirador isolado, Mevlut Mert Altintas, dispara sobre o embaixador russo na Turquia, Andrei Karlov, na inauguração de uma exposição na Galeria de Arte Contemporânea de Ancara. O autor da imagem é o turco Burhan Ozbilici, da Associated Press, que terá decidido passar pela Galeria sem serviço marcado. Todos vimos o vídeo que captou o momento, mas a imagem fixa, parada, do atirador a erguer a pistola, com o corpo do embaixador inerte no chão, tem qualquer coisa de ainda mais negro – nem que seja pelo instantâneo que se revela pela falta de enquadramento, a surpresa que toda a composição mostra, e a loucura que o quadro exibe cruamente. Uma imagem definidora de um tempo e da forma como o podemos ver.

Há quem ache que a imagem mistura sensacionalismo com publicidade aos efeitos do terrorismo, e que ter ganho, num ano em que estão também a concurso fabulosas imagens do drama dos refugiados, e da emigração na Europa, é injusto.

Os argumentos podem ser razoáveis, mas são pobres. Aquela fotografia revela o estado em que estamos nos dias de hoje, a imprevisibilidade dos dias, o parco valor da vida, o confronto entre culturas e forma de vida – ou de morte.

As palavras de João Silva, o fotógrafo luso-descendente que foi premiado, e agora é jurado, do World Press Photo, dizem tudo sobre a escolha do júri: “Vejo o mundo a caminhar em direcção a um abismo. Este é um homem que claramente chegou a um ponto de ruptura”. É essa ruptura com que nos confronta Burhan Ozbilic (cujo sangue frio e a coragem não é demais sublinhar), como se fosse uma prova, uma testemunha, uma evidência.

De resto, a imagem é também simbólica para os momentos que o jornalismo vive, e para responder de forma meridiana, mas exemplar, às “não-verdades” que por aí andam: os que a acusam de promover o terrorismo pretendem que não se veja o que efectivamente acontece? Num instante me lembro de, até ao 25 de Abril de 1974, serem cortadas pela censura todas as notícias que revelassem suicídios, para não contagiar a população nem mostrar realidades incomodativas.

Não me parece, de todo, um bom caminho para voltar a ter a verdade ao serviço do jornalismo e os factos verificados e confirmados por quem os testemunha. O que o fotógrafo da AP fez foi justamente servir o jornalismo, mostrando um facto tão incómodo e chocante quanto verdadeiro, e raras vezes visto no momento em que ocorre; foi denunciar o tal “abismo”, a que chamo loucura, que varre o planeta e nos deixa diariamente aturdidos e confusos sobre os caminhos que levamos; foi registar, correndo risco de vida, o instante preciso em que o atirador se revela barbaramente satisfeito com o crime que acaba de cometer.

É bom que tenhamos a noção de que vivemos lado a lado com pessoas como esta, e que amanhã esta imagem nos pode bater à porta sob a forma de um facto inesperado, daqueles que achamos que “só acontecem aos outros”. Nessa medida, esta fotografia é a um tempo um grito e um sinal. Sem encenações. Sem filtros. Sem recurso a dramatismos exteriores ao que os factos já encerram.

Como se estivéssemos a voltar a um qualquer começo, é o jornalismo na sua essência. Puro e duro. Surpreendente e chocante. Mas sempre verdadeiro. No momento que vivemos, em que a verdade se inventa e os factos se esfumam, isso vale mais. Para não dizer que vale tudo.

08
Fev17

Mais novos do que nunca – e do que sempre

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Está a fazer agora dois anos que eu e a produtora Joana Jorge começámos uma aventura que semanalmente nos surpreende, nos envolve, e muitas vezes nos maravilha. O projecto “Mais Novos do Que Nunca”, na Antena 1, nasceu para revelar na rádio pública o que faziam os recém-licenciados com os seus anos sabáticos, “gap years”, pausas entre o final de um curso e a entrada no mercado de trabalho.

Porém, rapidamente nos apercebemos que esse universo era, afinal, bem mais rico e vasto, não tinha limite de idade (a não ser na cabeça...), e constituía um sinal dos tempos: gente que muda de vida a meio da vida, gente que muda de carreira porque um dia acorda e percebe que não é feliz, gente que investe tudo em voluntariado porque descobre que é isso que faz sentido nesta passagem pela Terra, gente que aposta na inovação.

Dois anos passados, o “Mais Novos do que Nunca” é a janela aberta e o ar puro de que precisava para resistir aos tempos duros que todos vivemos, e um espaço de libertação e inovação para quem o ouve com a mente aberta. É uma lição semanal: de humildade, de coragem, às vezes apenas de capacidade de dar o pequeno passo, que tantas vezes pensamos dar e nunca damos, e que faz a diferença entre acordar para a rotina ou acordar para a vida.

Estou grato – e a Joana também, seguramente – pela oportunidade que a rádio nos deu. Dá trabalho, é trabalho – mas ao mesmo tempo é inspiração e respiração, é prazer e paixão, e é aprendizagem permanente. O meu pai já dizia que gostar do que fazemos, e ainda nos pagarem por isso, era um privilégio que não devíamos menosprezar. Se, para lá disso, ainda nos ensinam e inspiram para uma vida melhor, que mais podemos querer?

Nada. Apenas continuar. E continua.

03
Fev17

A vida de cada um

(Ontem, na plataforma Sapo24)

Estou a ver na TV, num canal de notícias, uma curta troca de argumentos sobre a eutanásia. Estremeço. Antecipo o “amplo e profundo” debate que o Presidente Marcelo desejou há dois dias: vai dar asneira. Um dos intervenientes era mesmo o bastonário da ordem dos médicos, José Manuel Silva - e a forma como ridicularizou as opções que um doente terminal pode ter, para concluir que o mais “barato” era o suicídio, deu para perceber como podem extremar-se questões tão delicadas e sensíveis como esta, e como se pode cair lamentavelmente na demagogia e no disparate. Ora, se com a vida não se brinca, então com a morte…
Confesso: sou impotente para vir a terreiro argumentar sobre a eutanásia. Parece-me uma questão de foro tão intimo e pessoal, tão individual e tão pouco política ou sequer ética, que não consigo ver quem possa “querer” ter razão e taxativamente estar “contra” ou “a favor”. Por mais que haja quem pense que a vida não nos pertence - a quem pertencerá? Ao Estado? A Donald Trump? Aos constitucionalistas que decidiram a nossa vida? -, não consigo escapar à evidência: se cada um de nós faz da sua vida o que entende e quer, parece meridiano que a vida de cada um de nós é mesmo de cada um de nós, desculpadas as repetições e redundâncias. E assim sendo, cabe a cada indivíduo decidir o que fazer com a vida quando ela está em causa, quando não tem saída, quando já só resta sofrimento e dor. Quem sou eu para confrontar um ser igual a mim que decide, pela sua cabeça, conscientemente, antecipar o inevitável em nome de uma qualquer paz interior? Quem sou eu para dizer a 90% dos necessitados de cuidados paliativos, que os não recebem por falta de capacidade de resposta da rede, que não devem ou podem recorrer à eutanásia?
Não me passaria pela cabeça debater a eutanásia justamente por entender que ela já existe, interiormente, na opção de fim de vida de todos os seres humanos, mesmo quando não lhe têm legalmente acesso. Menos ainda referendar ou levar ao Parlamento. No limite, legislar sobre as condições essenciais - de saúde, ou falta dela - que garantissem que a decisão não serviria para abusos, desvios, fatalidades, facilidades. O mínimo indispensável.
Dito isto, parece-me que o debate vai dar disparate. Vamos ver repetir-se a dicotomia esquerda/direita, católicos/ateus, novos/velhos, numa estúpida cisão sem sentido, ditada por preconceitos e falsas premissas, e que não corresponde, seguramente, ao sentir da maioria. Enquanto nas ruas cada um pensará por si, nas televisões e nos jornais vamos ver “frentes unidas” com cargas ideológicas e religiosas, numa repetição de outros debates passados, alguns deles de infeliz memória. É mais tempo perdido, mais energia gasta desnecessariamente - enquanto se adiam, se esquecem e apagam tantos debates por fazer, tanto país por construir.

Blog da semana

Por Falar Noutra Coisa. Humor neste reacordar do blog. Rir é o melhor remédio. Lugar comum indiscutível.

Uma boa frase

“Sucessivos governos ficaram irritados, o actual vai um pouco mais longe, esquecendo que votar é um direito mas nunca uma obrigação. Em países desenvolvidos os cidadãos até votam durante a semana, ao passo que na choldra querem proibir jogos de futebol para obrigar o povo a ir votar." António de Almeida, Aventar

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