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Pedro Rolo Duarte

18
Ago11

Brincadeiras de Verão (V), ou “Juntem a “bela” e o “senão”!”

Entretanto tudo mudou e a sardinha apresenta-se agora como deve ser.

Crónica originalmente publicada na revista Lux Woman.

 

Em Maio já eu estranhava. Em Junho, era incontornável o tema nos fins-de-semana na praia: “A água, este ano, está a uma temperatura extraordinária!”. Toda a gente comentava aquele grau acima que fazia toda a diferença. O Verão prometia o melhor mar que alguma vez a Costa Alentejana viu. E se eu falo do que sei... Nos últimos 25 anos, falhei três vezes o Verão alentejano: num ano estrangeirado, e em duas incursões pelo Algarve, para reconhecer que é hoje bem melhor do que nos anos 80. Mas salvaguardando essas três “traições”, parte do meu Verão passado na praia vive-se na Costa Alentejana. Já foi mais a sul, entre a Carrapateira e a Zambujeira, agora é mais perto da capital, entre Sines e a Comporta. Gosto do mar batido, gosto do confronto com a água fria, gosto das noites frescas, sem aquele calor que me sufoca e me deixa sem fôlego. Parece que tenho o sangue quente, se é que isso é existe. Ainda assim, é claro que entre os 16 graus que no Verão pontuam o mar alentejano e os 18, 19, que têm andado pelas minhas bandas nos últimos tempos, prefiro esta temperatura mais amena. Está abaixo dos 22, 23 do Algarve, e acima dos 15 lá das praias do Norte. Um grau não é apenas um grau quando se fala de mar – é a diferença entre o frio e o gelo... Não me alongo mais sobre estes detalhes, não interessam para o caso. Para o caso interessa que o mundo está todo ligado, e um espirro de uma borboleta no meu pátio provoca uma tempestade de granizo na Bobadela, e nem por acaso se tornou coincidente a conversa sobre a água boa do mar alentejano e a total ausência de graça da sardinha dos primeiros meses de Verão. Sardinha assada, bem entendido. Uma sardinha pequena, sem o chamado “pingo”, que assa e não deita fumo, que tem sabor mas não tem humidade. Uma tragédia para os amantes desse peixe que (por enquanto...) faz tão bem à saúde. Um bocadinho de teoria da conspiração – vai do pepino assassino à gripe A... – e já tínhamos aqui lenha para uma fogueira de Verão sobre o estado a que chegou a destruição do mundo. Mas parece que não temos mais do que um caso banal. Leio no jornal que o fenómeno que trouxe águas mais cálidas à Costa Alentejana é exactamente o mesmo que deixou a sardinha num estádio de desenvolvimento abaixo do desejado. É o vento. Não é o Bento, é o vento. A mais que popular Nortada costuma chegar à costa nesta altura do ano e empurrar as águas mais quentes para o largo do Oceano e deixar as mais frias na costa, pasto do agrado da sardinha, que assim se alimenta e engorda, ficando “a jeito” para o carvão, o pão, o tomate e o pimento. Ora, este ano tal não sucedeu – e aquilo a que se chama “upwelling”, que faz descer a temperatura da água na costa, tardou, adiando a sardinha. Aqui chegados, há uma perguntinha que ando há anos a fazer a mim próprio e que gostava de deixar a quem manda nisto, seja Deus ou a troika ou o professor Marcello: não há hipótese, por remota que seja, de usar a inteligência e todo o sabor humano para criar uma moedinha que tenha apenas uma face? Uma janela que não se feche ainda que uma porta se abra? Não há qualquer réstia de esperança de ter “a bela” e o “senão” em simultâneo? Dito de outro modo: não pode haver um Verão, logo este, de crise e depressão, em que a água do mar esteja na temperatura ideal e a sardinha seja maravilhosa? Não dá para fazer coincidir? Viver no deve e no haver é muito incomodativo. Pronto. Por hoje era isto. Não era crónica, era desabafo. Estou farto da “fome” que não dê em “fartura”, das moedas com duas faces. Quero a “bela” e o “senão” juntos. Noivos. Casados.

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