Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Pedro Rolo Duarte

11
Set11

Há dez anos (V) – um pouco mais, ou pouco menos, e dez anos depois

Foi ainda nos finais do século passado, isto é, dos anos 90. Ele era um estagiário que trabalhava para juntar dinheiro com um objectivo claramente definido: ir a Londres comprar umas botas Doc Martens com sola grossa, preta, consistente, e atacadores invioláveis. Não escondia que trabalhava para cumprir esse sonho, que a encomenda por correio era pouco estimulante, e que nada suplantava o prazer de entrar na loja recentemente aberta em Covent Garden pela marca que fez do amarelo uma cor plausível.

O gordinho, careca, muito moreno, que trabalhava a recibo verde para ir a Londres comprar umas botas Doc Martens, era às vezes inconveniente. Um dia disse à chefe dele que não tinha cara de elevador para andar a subir e descer escadas permanentemente para levar cheques ao banco e cartas aos correios. Um dia, quase o despedi.

Até que teve o dinheiro todo para ir comprar as botas e palmilhar a cidade de Londres. Lá foi. A sua felicidade dependia daquele par de botas.

Voltou uns dias depois, desolado e triste. Tinha ido, tinha comprado as botas dos seus sonhos, e tinha voltado para Lisboa. Mas, em Heathrow, no dia do regresso, a segurança tinha decidido apertar as malhas no controlo dos passageiros. E ele, com a careca a transpirar e a roupa de trazer por casa, tinha dado nas vistas com o brilho das botas novas, acabadas de estrear. O raio-x não conseguia ver para lá da sola, e os polícias desconfiaram. Obrigaram-no a tirar as botas, ele explicou que as tinha comprado um dia antes, eles que sim, tem factura? Tenho sim senhor. Óptimo, é que vamos abrir a sola com uma faca e se não houver problema o senhor vai recuperar o seu dinheiro mediante a apresentação da factura.

De lágrima ao canto do olho, ele viu as suas botas de sonho serem “escaladas”, como um vulgar peixe antes da grelha, viu o desalento dos guardas porque não havia bombas à vista, e depois foi a um balcão recôndito do aeroporto mostrar a factura, entregar as botas rebentadas, receber o dinheiro. E abrir a mala de mão para voltar a calçar os ténis velhos com que tinha saído de Lisboa.

Quando nos contou a sua triste história, ficámos chocados e revoltados e a pensar na falta de jeito e sentido e respeito de todo aquele episódio.

Uns anos depois, houve o 11 de Setembro. Lembrei-me logo da história das botas Doc Martens.

E percebi a diferença entre a profunda incomodidade que nos invade quando confrontados com o ambiente de desconfiança de um aeroporto, a indignação que sentimos quando vemos os nossos direitos ameaçados e mesmo violados, e o vale tudo que resulta do desespero do medo e da ameaça.

Infelizmente, hoje, acho que mais valem umas botas “escaladas”. E não era nada o que eu queria achar.

Foi o que mudou nestes 10 anos para um cidadão comum que gosta de andar por aí: a diferença entre os direitos que temos e aqueles de que abdicamos por causa de uns tipos que não sabem o que é o direito. Ou os direitos. No fundo, não sabem o que é a vida. Ou viver, que é o verbo activo da palavra que lhes diz pouco.

Parecendo pouco, é imenso.

2 comentários

Comentar post

Blog da semana

Ladrões de Bicicletas. Voltar a um dos mais clássicos blogues colectivos de análise e pensamento social e político e reencontrar excelentes textos, opiniões pensadas antes de escritas, e o prazer de um bom serão ao sofá a ler. Like.

Uma boa frase

“O centrão político - conservadores, liberais, social-democratas, trabalhistas - anda há mais de vinte anos a liberalizar os movimentos de capitais, a desregulamentar as actividades financeiras, a promover o "comércio livre", menorizando as consequências resdistributivas destas opções. Andaram a promover a ideia de que o mundo é mais bem gerido pela "mão invisível" dos mercados do que pelos poderes democraticamente eleitos. De que é que precisam mais para perceber que este é o resultado da sua globalização: que Marine Le Pen vença as presidenciais francesas?" Ricardo Paes Mamede, Ladrões de Bicicletas

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mais comentários e ideias

pedro.roloduarte@sapo.pt

Seguir

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2014
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2013
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2012
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2011
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2010
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2009
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2008
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2007
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D