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Pedro Rolo Duarte

21
Out11

Ver em HD, ver em LD

(Crónica originalmente escrita para a revista Lux Woman)

 

Ando um bocado irritado com os televisores, os gravadores, as câmaras, os telefones. Cada vez se vê melhor, cada vez há mais nitidez, a “alta definição” passou a ser a medida baixa e as iniciais HD são o “ómega 3” da electrónica: fazem parte do rótulo. Declaração sumária: não quero ver tudo em HD. Gosto da baixa definição, da média definição, da definição zero. Conforme. E falo com conhecimento de causa: eu vejo mal.

Começou tudo aos 15 anos, com uma dor-de-cabeça prolongada. Não foi difícil perceber que tinha um problema e que iria usar óculos. No começo, apenas para ler e ver televisão, mas rapidamente para tudo e mais alguma coisa. Não era nada de preocupante, nenhuma miopia galopante nem sequer um astigmatismo incontrolável, mas o suficiente para o par de óculos fazer parte de mim, hoje, como uma orelha ou o nariz. Tive momentos de amor e ódio com o objecto - hoje, não me passa pela cabeça uma operação ou lentes de contacto. Os óculos tornaram-se uma parte de mim. Aliás, das mais sólidas e consistentes.

Quem os usa, sabe do que falo. E sabe também que o “caixa-de-óculos” – alcunha que, felizmente, nunca tive… - tem uma relação especial com os seus óculos. Há quem os perca em cada esquina, quem adormeça com eles postos, há quem nunca os limpe e viva numa espécie de nuvem de pó e gordura. E depois há obcecados como eu: uma nano-gota de pó obriga a limpeza com água, sabão e papel higiénico (para quem não sabe, o trio maravilha da lavagem de lentes…), nunca perdi um par de óculos, nunca me sentei em cima deles, nunca deixei de os actualizar no máximo de dois em dois anos. Os óculos são como as mãos – para usar e conservar, não perder e manter em bom estado.

Mas mesmo em matéria visual, há coisas que mudam. Tinha a mania de comprar óculos escuros e mandar graduá-los – até ao dia em que experimentei usar óculos de sol sem graduação, porém de uma boa marca. Nesse dia percebi duas coisas: que a modéstia da minha graduação não me impedia de ver sem óculos, e que umas boas lentes fazem milagres num dia de sol. Faltava a lição final: há um generoso número de pessoas, coisas, paisagens e mesmo páginas escritas que ganham pontos consideráveis quando vistas com um ligeiro desfoque.

Sem óculos, as pessoas ficam todas, mesmo todas, mais bonitas. A diferença no foco atenua rugas, borbulhas, marcas, manchas. As caras duras arredondam, e as redondas ganham sorrisos. As cores mal misturadas desmaiam, há páginas de livros e revistas e jornais que deixam de ter leitura. Os cabelos por lavar deixam de se notar. O suor indesejado e inconveniente some-se. O pó desaparece dos móveis e as chávenas de café mal lavadas deixam dúvidas. As ruas ficam menos sujas, nalguns casos mesmo limpas, e os grafittis das paredes perdem atitude. Há sapatos que parecem engraxados.

Não ver bem não é, portanto, um mal imenso. Pode ser uma vantagem. Um doce. No mundo do You Tube – onde o que conta é qualquer coisa que mexe, mesmo que se veja e oiça muito mal – eu estava não apenas feliz mas consolado. Os vídeo do You Tube são quase sempre sem óculos.

… Agora, fazerem-me viver em alta definição, cada gota de suor na minha testa reproduzida em dez milhões de lares portugueses, o pingo de café escancarado na gravata castanha escura, isso sinceramente dispenso. Não quero.

E é por isso que ando um bocado irritado com os televisores, os gravadores, as câmaras, os telefones. Não quero tudo em HD. É tão simples que até chateia. Mas alguém tinha de o dizer: muitas vezes, é por se ver menos bem que se vê melhor.  Em alta definição é que não.

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