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Pedro Rolo Duarte

31
Jan08

Tcheka

Cada vez é mais difícil um disco, um artista, surpreender-me, encher-me as medidas. Posso gostar pontualmente de uma canção, posso divertir-me com uma banda nova, mas parece que a acumulação de referências ao longo dos anos, a soma de discos ouvidos, de paixões desabridas, de desilusões e amores e perdições, deixou pouco espaço disponível para novidades. No outro dia passei uma hora na FNAC e o único disco que quis comprar... era dos Beatles.

Por isso, quando aparece “alguém” que mexe cá dentro, que obriga a parar e ouvir melhor, o prazer parece triplicar. Já não é aquela coisa adolescente de ouvir música de luz apagada no quarto – mas pode ser um gesto de subir o volume das colunas, como raramente apetece.

O que raramente apetece, apeteceu. Acontece. Aconteceu.

Fui então ver. É um miúdo de sorriso aberto (bom, o miúdo tem trinta e poucos anos...), ar ingénuo. Leio-o numa entrevista:

“Eu viajei para Portugal e conheci um brasileiro, Ricardo Rezende, um realizador, com que trabalhei, e pude ouvir muita música do Brasil, muito boa música brasileira, tipo Tim Maia, Jorge Benjor, Djavan, Gilberto Gil, Caetano Veloso. A partir daí, comecei a ver que a música tinha uma outra dimensão. Então pensei : eu posso trazer os conhecimentos que vi nestas músicas para a minha música do Cabo Verde. Lá eu só ouvia a musica cabo-verdiana. Não temos lojas que vendam discos de outros paises, de outros cantores. Foi com um outro amigo que descobri o Jazz. Esta viagem e este período foram muito importantes na minha vida”.
Tcheka, ou melhor, Manuel Lopes Andrade, é exactamente isto: um musico cabo-verdiano fascinado pelo Brasil, pelo Jazz, pela latinidade, que cria e toca música inclassificável – tão inclassificável quanto irresistível. E boa. O seu último disco, “Lonji”, editado no final do ano passado, reúne uma colecção de 14 temas absolutamente apaixonantes. Foi gravado em 15 dias, no Brasil, sob a produção de Lenine, e mistura três continentes numa sonoridade que se cola à pele, que nos cerca e enfeitiça, e que apetece ouvir sempre mais uma vez, e nessa vez descobrir mais um acorde escondido, um pormenor de percussão inebriante, um tom jamais ouvido.
Pelo que li, Tcheka grava discos há uns anos (deixo aqui um link para um clip antigo, não tão amadurecido, mesmo assim uma aproximação a este “Lonji”: http://www.youtube.com/watch?v=KpQyeQj9zQ4 ).

Nunca me tinha passado pelos ouvidos.
Mas agora passou. E ficou. Há muito tempo que música nova não mexia assim nos meus dias. Há muito tempo que não sentia esta dificuldade terrível em traduzir por palavras o que só pode ser... ouvido. Que bom que é não conseguir traduzir. Melhor, só ouvir.

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