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Catedral da Luz
Já o tinha destacado aqui ao lado, mas ainda não tinha sido eleito aqui para o cantinho...
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“Desta vez não há um lord Byron a defender a civilização helénica... A opinião publica europeia é bem mais fraca do que há dois séculos. Uma vergonha para tantos recursos humanos «well educated»”
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Terça-feira, 10 de Janeiro de 2012

Não tem nada a ver com a crise, nem com a Troika – mas calha que o meu filho decidiu ir estudar para fora de Portugal, e os pais acharam que não era má ideia, e lá se entenderam para concretizar o sonho dele. Parte esta sexta-feira, e é para bem longe.
Não quero explorar aqui o lado íntimo deste momento familiar, ainda que em unidades mono-parentais. Mas não resisto a partilhar esta constatação:
Por causa desta mudança, temos – pai e mãe – tratado de uma série de pró-formas e burocracias que exigem explicar a terceiros que o filho vai para fora. Pode ser uma enfermeira do dermatologista ou o barbeiro da esquina, o notário que reconhece assinaturas ou os amigos que têm um familiar no país para onde ele vai, a médica dentista ou familiares mais ou menos próximos.
Além da palavra mais usada ser “coragem”, o que sinto em quase todas as conversas é aquilo a que o dermatologista chamou de “pequena inveja boa”. Uma forma de dizer “se eu pudesse, também ia daqui para fora”. Já me disseram “E que não volte, que isto aqui não vale nada...”, “Devia era ir com ele também”, “Se eu tivesse a idade dele, fazia o mesmo”, “Quanto mais longe disto, melhor”. E algumas frases ainda mais abrasivas...
Os portugueses amam Portugal e não perdoam a quem diz mal do seu país. Mas é como nas famílias: eu posso dizer mal dela, ai de quem, de fora dela, diga mal. Sendo assim, ou ainda assim, noto pela primeira vez, em 47 anos de vida, um desalento, um sentido depressivo, um ambiente de tristeza, mais fundo, mais sério, mais desanimado e desanimador.
Não me lembro de ter vivido num país tão triste.
Calhou-me esta coincidência. Mas parece-me que a crise, a tal crise de que se fala, está chegar ao lugar onde, uma vez instalada, será fatal: ao coração de Portugal, que é o coração dos portugueses.



publicado por PRD às 13:24
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76 comentários:
Desalento é a palavra certa. Um arrastar dos dias, que se arrasta também na cara das pessoas.

deixado em 10/1/12 às 13:52
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Essa tristeza que fala, já está, na minha opinião, instalada no coração dos portugueses. Estamos tristes, cabisbaixos, cinzentos, sem vontade de rir...salvo raras excepções sinto que estamos todos com medo, retraídos, sem esperança, cansados de lutar. Não sou pessimista, nunca fui nem o sou agora, mas não posso deixar de constatar que é esse o mood na generalidade de Portugal. E eu fico ainda mais triste porque não sei lutar sozinha. Não serei a única, obviamente... Como mãe que sou, imagino que deva estar a passar por um misto de emoções. Viva o spkype :) Beijinhos. Paula

deixado em 10/1/12 às 14:00
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eu também disse. e sinto mesmo, até pelo futuro dos meus filhos.

deixado em 10/1/12 às 14:06
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Que beleza de texto, que triste e verdadeira constatação. Sinto o mesmo. Que, se pudéssemos, íamos todos daqui para fora. Tristes e desalentados. Com um nó na garganta. Mas íamos. Boa sorte para ele. Coragem para vocês, os pais (glup, glup, que coração de mãe até vira ervilha só com a ideia de crias tão longe). Mas eu ligo, para te dar beijos telefónicos.

deixado em 10/1/12 às 14:52
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Antónimo
Desculpe-me, mas não estou de acordo consigo.
Quando diz:

Que, se pudéssemos, íamos todos daqui para fora.

Devemos é mandar daqui para fora quem nos (des)governa... nós estamos a ser mal tratados na nossa terra por "tipos" que não querem saber da cidadania para nada... outros foram "corridos" por não resolverem o problema do Ultramar, estes têm de ser corridos, porque não resolvem os problemas dos cidadãos.
Cumprimentos

deixado em 11/1/12 às 15:47
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Que lhe dê algum alento a ideia de que o seu filho é um audacioso português, que vai estudar, abrir o espírito a novas experiências e conhecimentos, a mais e melhores modos de fazer e, quem sabe, se quando regressar, feito homem diferente, traz para o país dele, o nosso, o engenho que tanto clamamos para o transformar em melhor.
:)

deixado em 10/1/12 às 15:01
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Tenho sobrinhas a viver fora do país. Vivem uma vida melhor, mas o coração está em Portugal.
Quando chegam, dizem:"acabei de chegar. adoro Portugal"

Cumprimentos

deixado em 10/1/12 às 18:01
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Ainda hoje comentava que o ano tem 10 dias e já parece velho!
Desalento, descrédito e profunda tristeza...

deixado em 10/1/12 às 18:54
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Ah golimix... vou roubar essa! :-(

deixado em 11/1/12 às 13:06
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Ilda
Concordo perfeitamente com o que diz, também sinto isso, e o mais giro é que a situação em que se vive é notório nas pessoas

deixado em 11/1/12 às 16:41
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Teresa
Parece velho... alto lá!

Aqui há umas semanas, eu e o meu marido rabujavamos e a nossa filha de 13 anos disse: "Vocês desculpem-me mas parecem dois velhos." ao que o pai lhe retorquiu "desculpa porquê? ser velho não tem nada de mal, nem é desonra nenhuma. aliás é orgulho. de vida".

Gostei da resposta dele e vi a mudança no olhar dela ao compreender o que o pai lhe dizia.


Hoje, onze dias depois de um Ano Novo em que ela jurou abdicar do vício (dos poucos que tem) de ver o fogo-de-artifício que Lisboa oferecia na passagem do ano, já não tenho assim tanta certeza. É que esse desculpe começa a aplicar-se a todas as faixas etárias - apetece dizer à jovem que olha desanimada para o extracto do Multibanco: "desculpe, mas vai fazer mais movimentos?", à mãe que conta as moedas para o pão "desculpe lá, importa-se que eu peça o meu? É só uma carcaça.", ao Universitário que olha para o preço do Passe de Fevereiro fazendo contas a quantos almoços de hamburgueres de 1€ terão de passar a ser para poder pagar o mesmo "desculpe lá..."


Quando eu digo que parece "velho" estou, claro está, a metaforizar. Para mim ser velho é um estado de espírito e se calhar o meu espírito, e de muitos que conheço, é que olha para este ano com tristeza, com algum desânimo e cansada de tanta má notícia. Mas também sei sacodir a tristeza e ver nascer o sol nem que seja de forma ténue, ele está lá... (gosto de matáforas =))

deixado em 12/1/12 às 09:14
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Existem dois tipos de pessoas: as que usufruem e as criam.
as que criam passam a vida a arranjar soluções e sabendo que estão sempre a falhar isso impele-as para a solução.
as que usufruem estão sempre tristes e à espera que "venham tempos melhores". e dão pena.
se é para criar, os ires e vires são vida. da boa.
se é para usufruir, lá ou cá a insatisfação virá.
os afectos são outra coisa. sofrer faz bem. liga.
ouvi um cientista, português, dizer que dentro de poucos anos se fará sentir o trabalho que se tem feito nessas áreas. da investigação, não do futebol. diz o homem que dará azo a uma explosão de desenvolvimento, cá dentro. disse ele que está dentro do assunto. pode ser que a tristeza, depois acabe.
texto atabalhoado, como a vida. citando o Abrunhosa "o que é preciso é fazer".

deixado em 10/1/12 às 19:02
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Uma crise no coração que não é uma crise cardíaca... Essas já se tratam...
Também passei por essa experiência: uma das minha filhas também saiu do país para estudar. Regressou, como sempre quis, ao fim de seis anos, já lá vão outros tantos. Ontem dizia-me que já não sente qualquer encanto em continuar a viver por cá e que está a pensar em voltar a sair.

deixado em 10/1/12 às 19:07
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Mário Cruz
O meu filho foi no ano passado. Tenho um ano de avanço. Viva a globalização, viva o skype. Na altura também fiquei depressivo mas essa sensação tem-se vindo a atenuar. Afinal eles estão lá melhor, activos, integrados, libertos da nossa mesquinhice e com uma distanciação higiénica das nossas frivolas preocupações do dia a dia. Ainda ontem lhe contava, pelo fabuloso skype, as novelas idiotas em que nos envolvemos por cá, o Pingo Doce, a maçonaria, o túnel de Alvalade, provocando-lhe sãs e distanciadas gargalhadas. "Oh pai esse país é uma anedota!!" comentou ele, mais uma vez.

deixado em 10/1/12 às 19:17
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