Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Pedro Rolo Duarte

10
Jan12

No coração

Não tem nada a ver com a crise, nem com a Troika – mas calha que o meu filho decidiu ir estudar para fora de Portugal, e os pais acharam que não era má ideia, e lá se entenderam para concretizar o sonho dele. Parte esta sexta-feira, e é para bem longe.
Não quero explorar aqui o lado íntimo deste momento familiar, ainda que em unidades mono-parentais. Mas não resisto a partilhar esta constatação:
Por causa desta mudança, temos – pai e mãe – tratado de uma série de pró-formas e burocracias que exigem explicar a terceiros que o filho vai para fora. Pode ser uma enfermeira do dermatologista ou o barbeiro da esquina, o notário que reconhece assinaturas ou os amigos que têm um familiar no país para onde ele vai, a médica dentista ou familiares mais ou menos próximos.
Além da palavra mais usada ser “coragem”, o que sinto em quase todas as conversas é aquilo a que o dermatologista chamou de “pequena inveja boa”. Uma forma de dizer “se eu pudesse, também ia daqui para fora”. Já me disseram “E que não volte, que isto aqui não vale nada...”, “Devia era ir com ele também”, “Se eu tivesse a idade dele, fazia o mesmo”, “Quanto mais longe disto, melhor”. E algumas frases ainda mais abrasivas...
Os portugueses amam Portugal e não perdoam a quem diz mal do seu país. Mas é como nas famílias: eu posso dizer mal dela, ai de quem, de fora dela, diga mal. Sendo assim, ou ainda assim, noto pela primeira vez, em 47 anos de vida, um desalento, um sentido depressivo, um ambiente de tristeza, mais fundo, mais sério, mais desanimado e desanimador.
Não me lembro de ter vivido num país tão triste.
Calhou-me esta coincidência. Mas parece-me que a crise, a tal crise de que se fala, está chegar ao lugar onde, uma vez instalada, será fatal: ao coração de Portugal, que é o coração dos portugueses.

83 comentários

Comentar post

Pág. 1/8

Blog da semana

O Diplomata. Dez anos de blog é obra. Alexandre Guerra festeja, e com razão, um espaço de reflexão, análise e opinião do mundo político internacional. Merece o bolo.

Uma boa frase

“Se isto fosse no tempo do Sócrates, a esta hora o Trump já tinha em cima da mesa uma proposta da Mota-Engil para a construção do muro. Com financiamento do BES e projecto do Siza Vieira." Rui Rocha, Delito de Opinião

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mais comentários e ideias

pedro.roloduarte@sapo.pt

Seguir

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2007
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D