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Pedro Rolo Duarte

06
Fev08

A Sónia voltou

A última vez que sucedeu foi no sábado passado, numa conversa com uma recepcionista de hotel que reconheceu o meu nome. Foi a última vez. Mas é tão frequente, tão recorrente, já tão habitual, que há tempos tentei ensaiar uma resposta-tipo, assim do género “ligou para o gajo a que perguntam pela Sónia, deixe o seu desabafo depois do bip”. Mas não funcionou, porque eu não era capaz de ser sucinto e dizer mais ou menos isto:
“Pois, aquele género de textos ela agora não tem onde publicar, mas sabe como é: um dia, quem sabe, nasça outra publicação com espaço e liberdade para pessoas como a Sónia... Se a quiser ler, no entanto, ela escreve na revista Time Out”.
Então, como não conseguia dizer tudo isto numa frase lapidar, nem sou insensível à pergunta “e aquela jornalista, a Sónia, o que é feito dela?”, desisti. E faço conversa, conforme o meu estado de espírito, a disposição do momento.
(Só nunca digo a verdade, que é ter começado por sentir a Sónia como uma “filha”, às vezes “afilhada”, e hoje a sinto como a “irmã mais nova” que nunca tive, e uma sorte do caraças tê-la “apanhado” no meio de 800 currículos...)
Como digo, a última vez foi no sábado. A funcionária da recepção daquele hotel guardava páginas da Sónia, tinha saudades da Sónia, queria voltar a ler a Sónia. Eu falava da Time Out e ela dizia “não é a mesma coisa, não são certamente aqueles textos, aquelas crónicas em que ela falava das coisas que nos acontecem, aquelas reportagens em que se percebia quando ela se emocionava, se envolvia...”.

Pois, dizia eu, não é bem a mesma coisa.

Não é bem a mesma coisa.

Mas ontem à noite...
... Não é que ontem à noite eu encontrei a Sónia Morais Santos, a Sónia, aqui ao lado em http://coconafralda.blogspot.com/?

A Sónia voltou, porra!
A sério, leiam:

“Amanhã fazes três anos. Faz três anos que eu saí para a maternidade, de mala aviada e barriga-barril prestes a explodir. Amanhã faz três anos que deixei o pai em casa com o Manel, para que ele não sentisse qualquer angústia com a tua chegada. O pai levá-lo-ia à escola, como num dia normal, e depois ia ter comigo à Cuf. Chamei um táxi e disse: "É para a Cuf Descobertas, se faz favor". O homem abriu muito os olhos, engatou a primeira mais nervosa da sua vida de taxista e exclamou, tentando mostrar calma: "Chegou a horinha, hein?" Depois desatou numa correria desenfreada pelas ruas de Lisboa, até eu lhe explicar que não havia pressa, "É uma cesariana marcada, não há contracções, não há aflições, não há sopros e gritos."
Sosseguei-o mas fiquei a pensar naquilo. Olhava a rua pela janela e pensava que isto de ter filhos que não descem tem o seu lado tranquilo mas falta-lhe a cinematografia de um pai aos ziguezagues e um carro de piscas ligados e buzina a avisar que ali vai um bebé a querer nascer. Ali, naquele táxi, ia só uma mulher a querer ter um bebé. Não um bebé a querer sair. Estranho, mas pronto.
Amanhã faz três anos que acabaste com as minhas dúvidas sobre se o amor que teria por ti seria da mesma intensidade que o amor que tinha pelo teu irmão. Quando te vi sair da minha barriga, quando te ouvi chorar soube logo. O amor pelos filhos não se divide. Multiplica-se. Amanhã faz três anos que me multipliquei outra vez. Obrigada”.

Está lá no blog.

A Sónia voltou.

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“O centrão político - conservadores, liberais, social-democratas, trabalhistas - anda há mais de vinte anos a liberalizar os movimentos de capitais, a desregulamentar as actividades financeiras, a promover o "comércio livre", menorizando as consequências resdistributivas destas opções. Andaram a promover a ideia de que o mundo é mais bem gerido pela "mão invisível" dos mercados do que pelos poderes democraticamente eleitos. De que é que precisam mais para perceber que este é o resultado da sua globalização: que Marine Le Pen vença as presidenciais francesas?" Ricardo Paes Mamede, Ladrões de Bicicletas

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