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Pedro Rolo Duarte

08
Fev12

O que a minha irmã Fátima escreveu sobre o nosso pai. Ou melhor dito, sobre o nosso pai e a vida.

Para os mais preguiçosos que não queiram clicar aqui, fica o post integral. Notável post (que também devia estar aqui, no quarto dela...), assim:

 

"O Pedro lembrou o número certo de anos e eu acrescento-lhe as horas. Que horas são estas horas para o pai quando o pai nos deixou a todos? Num dia vivo, no outro morto. Lembro-me das pessoas que estavam presentes, eram muitas, muitas, muitas. O pai morreu sozinho num hospital. Que horas terão sido aquelas horas? O que sentiu? O que sentiu o pai? Se o pai fosse vivo faria 83 anos. Seria um senhor velho bonito, como tão bonito é nesta imagem que todos recordamos, os que o conheceram. De cada vez que leio notícias sobre velhos que morrem sozinhos nas casas, largados à sorte deles, sinto cada minuto que passa antes e depois e brinco para afastar daqui deste sítio a coisa má. Muito para trás e muito para a frente. Não há notícia sobre velhos, mulheres, crianças que me cansem, que não me façam parar. Por piores que sejam, por notícias que de notícias não têm nada dentro? Têm. Têm a morte. E a morte, a ausência, a perda não é normal. Não é normal a saudade, não é normal perder pessoas, não é normal a vida que contém a morte. Sendo que sentido tem sentir desta forma tão intensa e ir contra tudo o que de mais normal tem a vida? A morte certa. O pai não foi só um homem bonito, foi o pai. Que diria ele ao ver-se aqui? Não gostaria. Seria contra mas tão contra que aproveitando a sua ausência, a filha oportunista o cola aqui porque a morte é violenta e incompreensível. Sentir não tem certo ou errado. Sentir é isto, uma coisa tão pequena e íntima que tira ao pudor um bocadinho do grande pudor que o pai tinha, que o Pedro tem, a mãe, eu tenho. Souberas tu como cada um de nós, a nosso fraco modo, tem a tesoura grande arrumada. Se pudesses ver como nasceu o dia aqui, há neves e sol, os passos das pessoas, o cheiro das neves. Se não tivesses desandado sozinho para o sítio onde ninguém bom quer alguém bom. Que terás sentido naquelas horas que não sei quantas foram? Terão sido minutos? Pensaste em quê? Pensaste em quem? Pensaste no filme da tua vida, digo, o filme dos filmes que vias no cinema? Como foi a partida, sozinho? Devia haver uma lei, universal, que regulasse cada morte com uma notícia. Todas as mortes merecem notícia. Todas. Mesmo que a notícia comece com a palavra nasceu e termine com morreu e nos pareça parva, irrelevante e risível. Para afastar a morte do sítio onde a morte está, por todo o lado, é normal que seja a cabeça a comandar o coração e que tudo fique racionalmente arrumado para que a vida continue, como aqui, neste espaço carregado de tanta coisa e coisa alguma. Que continua, para baixo, para baixo, empurrada, para baixo. Como o papel de jornal onde eu te lia sobre os outros e li sobre ti: nasceu e morreu."

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Uma boa frase

“O centrão político - conservadores, liberais, social-democratas, trabalhistas - anda há mais de vinte anos a liberalizar os movimentos de capitais, a desregulamentar as actividades financeiras, a promover o "comércio livre", menorizando as consequências resdistributivas destas opções. Andaram a promover a ideia de que o mundo é mais bem gerido pela "mão invisível" dos mercados do que pelos poderes democraticamente eleitos. De que é que precisam mais para perceber que este é o resultado da sua globalização: que Marine Le Pen vença as presidenciais francesas?" Ricardo Paes Mamede, Ladrões de Bicicletas

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