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Pedro Rolo Duarte

18
Fev12

E porque não sushi?

(Crónica originalmente publicada na revista Lux Woman)

 

Aqui há dias fui fazer um workshop de sushi e sashimi – em rigor, aprender o básico sobre a preparação do arroz, o corte do peixe, o enrolar da alga naqueles rolinhos que “primeiro se estranham e depois se entranham”, como tão genialmente escreveu Pessoa sobre a coca-cola. Na verdade, depois de anos e anos de quase clandestinidade, os restaurantes japoneses ganharam o gosto e o estatuto, tornaram-se moda, e depois da moda vão ficar como os chineses, os indianos, os italianos, formando o leque de opções que ainda nos suscitam uma saída nocturna, ou um almoço de trabalho.

Mas não era sobre isso que eu queria escrever. Era sobre aquele momento. Não conhecia ninguém envolvido na ideia, descobri o workshop no Facebook, inscrevi-me e fui. Um sábado à tarde. Pensei: o pior que pode acontecer é ter de jantar o sushi que fizer com pessoas que não conheço (e eventualmente poder não gostar de alguma delas…). Isso era certo e seguro. O resto: preço convidativo justamente porque no fim da tarde de aprendizagem os “alunos” comeriam o que tinham produzido. Por um valor pouco acima do que pagariam por uma refeição num bom restaurante japonês.

Quando cheguei ao local, além de verificar que havia mais homens do que mulheres a aprender, percebi que a “sushi-woman” era uma normalíssima profissional de outras artes que tinha feito um bom curso de cozinha japonesa e transformara o seu hobbie num rendimento extra.  Com mails posteriores a explicar o que faltava: “Desligue o lume e deixe ficar com a tampa semi-fechada mais 15 a 20 minutos. Reserve a alga. Coloque o arroz numa tigela ou tabuleiro de madeira, de forma a absorver a humidade ainda existente. Deixe arrefecer e tempere com o preparado de vinagre, açúcar e sal”. Por aí fora…

A tarde foi animadíssima, o resultado foi razoável (não foi o melhor sushi que comi, mas já passei por bem pior, e este sempre foi feito por nós…), e acho que sou capaz de fazer uns rolinhos cá em casa... Mas o que ficou daquele episódio, e o que não consegui deixar de pensar, foi a circunstância de haver cada vez mais gente a virar a cara à crise, a dizer “não vais tomar conta de mim”, “não me deprimes”, e a dar a volta pelo lado menos óbvio. Cozinhar para fora? Cozinhar para fora. Colocar os nossos conhecimentos ao dispor dos outros, em workshops, cursos ou simples fins-de-semana de “aprenda a fazer pop-ups”? Porque não?

A crise condena-nos a viver com menos – mas não nos obriga a viver menos. Não escrevo isto de ânimo leve – faço parte daquele generoso grupo de pessoas que, sendo escrupulosamente cumpridor, adora ter um pretexto para não fazer o que tem de fazer. De novo Pessoa: “Ai que prazer / não cumprir um dever. / Ter um livro para ler / e não o fazer!”. Sou desses, e não escondo.

Mas também não me deixo derrotar por conta de uns tipos que, pura e simplesmente, não souberam governar-nos, foram incompetentes, são mentirosos de corpo e alma, e ainda riem na nossa cara, aqui em Lisboa ou ali em Paris. Não. Não lhes posso tirar tudo o que têm e limitá-los ao Rendimento Social e de Reinserção – era o que estavam a pedir… -, mas posso rir-me na cara deles e dizer: nem com a vossa incompetência e aldrabice me roubaram a vontade de ser feliz.

E esse foi o ponto na tarde passada à volta da “gota zen”, da alga bem rija e do corte do peixe: aquela dúzia de pessoas que ali se juntou numa grande mesa tinha em comum essa vontade. Esse espírito. À ideia de derrota, contrapor vitória. À tentação de desistir, procurar resistir. Não queríamos ficar amigos uns dos outros – mas naquele bocado, fomos amigos, ajudámo-nos, aprendemos, partilhámos. Foi uma lição dos tempos que correm.

Um sinal também, e uma frase clássica: o que não nos mata torna-nos mais fortes. Nem que seja a golpes de faca japonesa…

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