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Pedro Rolo Duarte

21
Abr12

O que pode ser

(Crónica originalmente publicada na revista Lux Woman. A edição deste mês saiu ontem e está excelente...)

 

Se me fosse dada a oportunidade de conviver com a Troika por 15 minutos – também não lhes pedia mais, algo me diz que sairia caro... -, queria apenas que os três “fiscais” me respondessem à seguinte pergunta: o que pensam da atitude nacional a que chamo, entre amigos, o “pode-ser”?

A troika ficaria dois dias perplexa com a minha pergunta, porque só mesmo um português pode compreender a ideia. O “pode-ser”. Mas talvez um qualquer assessor lhe explicasse o que significa este modo de estar nacional que, para mim, define a nação, mesmo no mais dramático momento de crise.

E é isto: “pode ser Vidago?”; “pode ser em pão da casa?”; “pode ser croissant?”; “pode ser em preto?”; “pode ser ali?”. Não tem fim a lista de “pode ser” com que qualquer um de nós se confronta permanentemente. A atitude, a que podemos chamar “conceito”, para lhe dar estatuto, traduz um princípio segundo o qual a circunstância de desejarmos qualquer coisita já é, em si, um atrevimento. Se para mais a desejamos em condições específicas – com gelo, fresca, ao ar livre, sem limão, eu sei lá... -, torna tudo mais difícil. Se insistirmos, é pior. E se mudamos de poiso porque não nos satisfazem, oh meu deus, está tudo tramado!

Sucede que este estranhíssimo fenómeno recolocou Portugal na sua eterna fantasia: a de um povo de viajantes. E quem viaja aprende a distinguir, e reconhecer, e aferir do valor da procura e da oferta. Nova Iorque é um sonho, mas basta uma saltada a Paris ou Londres para perceber que o “pode-ser” não faz sentido. O serviço, em qualquer cidade civilizada, não pode ser - tem de ser. Tem de ser com gelo, com limão, com o copo certo, com açúcar, com um copo de água, com delicadeza, com jeito, com educação.

Apesar dos voos low-cost e da Europa, parece que não aprendemos nada e persistimos em não ter o que deve ser para podermos alimentar o “pode ser”.

Mudei de casa recentemente e, com a mudança, descobri novos poisos para o meu café da manhã ou as compras de bairro. Num desses cafés percebi que o dono, ou responsável, se irritava quando eu entrava no estabelecimento, pedia um pão determinado e, à resposta “pode ser bolinha caseira?”, eu respondia “não, não pode, bom dia, vou ali ao seu colega da esquina...”.

Aquele homem entendia a fidelidade a qualquer preço - achava que eu manteria o meu novo hábito mesmo que trocasse pão saloio por croissant ou carcaça por pão de leite, e ficava genuinamente incomodado porque eu não aceitava a alternativa “pode ser queijo?”.

Com a idade perdemos a vergonha. Há umas dezenas de anos, eu teria ficado intimidado com o olhar do empregado do café e talvez dissesse “então pode ser pão de leite...”: hoje, com a maior tranquilidade do mundo, respondo um displicente “esqueça lá isso, se não tem o que eu quero, vou à procura de quem tenha...”. E a vida continua.

Aplico a mesma receita nos restaurantes com as irritantes alternativas Pedras versus Vidago, ou Pepsi versus Coca-cola, ou Luso versus Vimeiro. Posso até mudar de bebida, mas não engulo o “pode ser?” do costume.

A troika não sabe que este é um defeito totalmente português: de quem vende e acha que o cliente leva qualquer coisa, mesmo que não seja o que quer - e de quem compra, que se sente levado a dizer “sim, seja”, mesmo que não queira o que “seja”. Mas este defeito tem feito mal a Portugal – porque contribui para a nossa indiferença, apatia, negligência. E tem feito tão mal que, sem querer, é uma das causas mais profundas da crise em que vivemos. Porque na verdade tem sido assim: “não temos políticos mesmo bons, pode ser assim-assim?”. E nós temos dito sempre que sim.

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