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Pedro Rolo Duarte

24
Abr12

Partidas da vida

Gostava de escrever sobre o Miguel Portas, com quem tive passado distante e menos distante. Mas a notícia da sua morte deixou-me prostrado, como que vencido pelos factos. Por ser tão inesperada (as ultimas noticias que tive dele, há já largos meses, davam boa conta da sua saúde), foi como se andasse a pairar por aí e me chamassem à terra - oh rapazinho, isto não é tudo estrada, ouviste? – e me pusessem em ordem.

Foi o que senti, assim, num ápice. Pensei na mãe Helena, na sua vivacidade infinita, e de como a sua gargalhada generosa e franca terá sido subitamente calada por este momento terrível. Pensei no irmão Paulo, na irmã Catarina. Lembrei-me inevitavelmente da morte do meu irmão e do que se pode sentir neste encontro entre os que ficam e os que partem. Sem comparações, que as não há.

Recuei umas décadas e encontrei o Miguel, na sala de convívio da sede da UEC, na Rua Sousa Martins, a ensinar-me a ler “O Capital”, de Karl Marx, numa espécie de curso de formação de quadros dos estudantes comunistas. Tinha 14 anos, ele teria 20, era um dos ídolos dos adolescentes que, como eu, por instantes acreditaram naqueles amanhãs a cantar. Naquele tempo, só o facto de poder conviver com ele enchia-me de orgulho... Depois, avancei uns anos largos e estávamos os dois no Snob, eu a entrevistá-lo para a “K” (e como a coisa correu mal, cada a um a puxar a brasa à sua sardinha politica, e no fim a rever as provas, linha a linha, ele sempre firme e enérgico, eu a tentar acompanhar...). Por fim, avencei mais uns anos e lembrei a conversa serena no final de noite da RTP-2, no Falatório. Por momentos, o Miguel voltou aqui à sala. Mas nem por isso fiquei menos enfraquecido por mais esta partida da vida, e por essa via menos capaz de escrever o que queria e saberia. Um dia destes, talvez.

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Retrovisor. Quem lia A.B.Kotter no velho Semanário habituou-se a gostar de ler José Cutileiro. Neste blog, a escrita é outra, mas continua a ser uma delícia. Pena que o "Expresso", que o tem como colaborador, não lhe dê mais espaço...

Uma boa frase

“Este ano será de vida nova, não por mérito ou culpa própria: nós por cá todos bem. Mas Trump, Brexit, Putin, Estado Islâmico, tudo cada vez mais desigual e cada vez mais perto de tudo, vão meter-nos as novidades pela porta dentro, boas e más. Sobretudo más." José Cutileiro, Retrovisor

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