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Pedro Rolo Duarte

19
Mai12

Caprichos do tempo

(Cronica originalmente publicada na revista Lux Woman)

Qualquer que seja o estado do tempo no dia em que estiver a ler esta crónica, já ninguém nos tira um maravilhoso salto do Outono para a Primavera, sem passar pela chuva do Inverno, e a época balnear foi por mim inaugurada sem ter atravessado areia molhada. Nada disso: areia seca desde o começo do Verão passado até aos dias de hoje...

Pois bem. Estamos tão habituados a estações claras, definidas, óbvias, que vacilamos à primeira surpresa. Já não sabemos o que vestir nem o que dizer, a conversa de café torna-se redonda, sem saída, e perdemos as referências essenciais. Até o Carnaval da austeridade deu pela primeira vez razão às autarquias que persistem em despir raparigas em desfiles à chuva e ao frio. Desta vez, nem uma gripe.

O mais paradoxal deste desencontro entre o tempo e as estações vem, como de costume, dos agricultores. Normalmente pedem subsídios porque houve geadas, porque choveu demais, porque a chuva chegou antes do tempo, ou porque não pára de chover. Este ano, é a calamidade: não chove, está tudo seco. Não temos nada, dizem eles. Pedem apoios, vão ter apoios.

A nossa misericórdia vai sempre para a agricultura, ou para a pesca, ou para os incêndios florestais, que tanto perdem quando tudo corre normalmente, como perdem quando tudo descarrila. Se chove, é porque chove – e se não chove, é porque não choveu.

Tenho a tentação de admitir que pensamos, concluímos (e subsidiamos...) demais. Porque nos tornámos quadrados (e escravos...) nesta obsessão de controlar o calendário e as suas medianias, de medir os níveis de “precipitação”, de adivinhar os estragos de cada capricho da natureza. Lá está, “capricho da natureza”. Podia ser nome de chocolate com frutas ou pertencer ao léxico dos comentadores desportivos...

Mas não: o “capricho da natureza” não é mais do que a vida antes de termos a ilusão de a controlar. Os ventos, as chuvas, os desastres naturais, os vendavais e as ventanias, os tremores de terra, os terramotos, os tsunamis. Não sabemos, na verdade, até que ponto a “pegada humana” mudou a natureza e, por conseguinte, as suas manias e pancadas. Mas esse desconhecimento não muda o essencial nem, usando uma “chave” popular de hoje, a pergunta fatal: “qual é a parte de ‘a natureza é que manda’ que nos está a custar aceitar?”.

Defendo a teoria de que o estado do tempo é como o estado de cada um de nós. Caprichoso, com vontade própria, e pouco previsível. Uns anos mais previsível do que outros. Com as suas manias e os seus destemperos. Temos “os nossos dias”, e não abdicamos do direito a um momento “cinzento” de vez em quando. Gostamos de ter a liberdade de ser susceptíveis, não é verdade? Passamos a vida a dizer coisas do género “eu avisei que tinha mau feitio quando tenho sono” ou “já sabem que a fome me deixa louco”. Não mudamos e até usamos com propriedade a clássica expressão “burro velho não aprende línguas”.

Pois bem, deixemos que a natureza seja como nós e mantenha também ela essa reserva de autonomia e liberdade que lhe permite surpreender-nos com um Verão em Janeiro ou uma chuvada em Agosto. Permitamos que tenha “os seus momentos”, os “seus dias”, feitio e personalidade. E, neste ano da graça de 2012, independentemente dos subsídios aos agricultores, saudemos este ameno Inverno que já passou e a Primavera que se antecipou.

Já agora, o Governo que agradeça também: só o sol de Janeiro a Março tapou com melatonina a depressão a que teríamos direito legal por determinação da troika. Alguma coisa teria de ser boa por estes dias, não?

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