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Pedro Rolo Duarte

22
Jun12

Só ficava o “na”

(Com o maior orgulho do mundo, aceitei o convite da Sónia e escrevi o prefácio para o livro que “nasceu” do seu blog, Cocó na Fralda. É mais do que um prefácio – é uma maneira de lhe agradecer o privilégio de ela ter aceite, um dia, trabalhar comigo, e depois ser minha amiga, e no fim ainda ser afilhada. Tudo o que a Sónia conquistou foi exclusivamente pelo seu talento, a garra e a vontade de ser todos os dia um bocado mais do que no dia anterior. Eu só assisti, acarinhei, apoiei. Por razões profissionais, não vou poder estar mais logo no lançamento do livro. Mas estou com a Sónia sempre, e para sempre – e com autorização dela, deixo aqui o Prefácio que lhe escrevi lá no livro)

 

Terei de começar por contar uma história pessoal: o meu irmão mais velho chamava-se António Manuel porque a madrinha que a minha mãe escolheu determinou que ele se chamaria António Manuel. Parece que havia a tradição de serem as madrinhas a escolher os nomes dos afilhados. Uns anos mais tarde nasceu a minha irmã e a madrinha disse que ela teria de se chamar Maria de Fátima. Assim foi. Só quando eu nasci a minha mãe se irritou: “nem madrinha nem meia madrinha, quem põe o nome a este sou eu!”. E felizmente sou Pedro.

Ora, é verdade que formalmente eu sou apenas padrinho de casamento da Sónia Morais Santos – mas, num caso típico de mimetismo mafioso, sinto-me mais do que isso. Sinto que sou padrinho profissional da Sónia. Não no sentido menos nobre dessa condição, mas na qualidade de irmão mais velho que jamais fui, chefe que fui mas raramente exerci, amigo que sou mesmo quando não estou. E se a tradição determina que o padrinho escolhe o nome dos filhos, eu gostava de ter escolhido o nome do blog da Sónia. Era aqui que eu queria chegar: nunca gostei do nome Cocó na Fralda. Ainda hoje não gosto, apesar de me ter habituado. Nem sequer sei se Cocó leva acento, e se leva é no primeiro “o” ou no segundo, não, não, tirem-me deste filme. Detesto dizer o nome do blog. E chamo a este livro, de forma absolutamente premeditada, “o livro da Sónia”.

Bom, talvez por ser padrinho profissional da Sónia – com um orgulho tão desmedido que estou no segundo parágrafo e já lá vão duas referências... -, tive a tentação de pensar que raio de nome daria ao blog, se ela tivesse respeitado a tradição e me tivesse pedido uma sugestão antes de ousar criar o seu quartinho (melhor dito, uma suite luxuosa visitada todos os dias por qualquer coisa como 15 vezes mais pessoas do que as que visitam o meu blog, 3 vezes as que passam no blog de Pacheco Pereira, e apenas a cinco mil visitantes de ultrapassar o numero de compradores actuais do jornal onde a Sónia deixou de ser uma miúda de camisolas com ursinhos bordados e golas em redondo para passar a ser a potencial autora de livros como este).

Onde é que eu ía?

Ía no nome. Então fiquei a pensar no blog da Sónia e no nome que devia ter em vez deste Cocó na Fralda. Quis matar o “Cocó” e evitar o “Fralda”. Mas não desgostei do “na”.

E não tive duvidas. O blog da Sónia, com “na”, porém sem “Cocó” e “Fralda”, era a mais pura verdade que vão encontrar nas páginas que se seguem: “Coração na Boca”.

A Sónia é isto. Um coração sempre na boca. Uma jornalista sempre humana. Uma mulher sempre empenhada. Tive uma sorte do caraças: pus um anúncio num jornal a pedir jornalistas novatos para diversos projectos editoriais e, entre centenas de candidatos, estava a Sónia. Começou assim, num dia primeiro de Abril, e no entanto era verdade. Depois, veio o DNA (suplemento do Diário de Notícias) e foi o que se sabe: caos, prazer e trabalho, durante quase dez anos, os suficientes para a miúda das camisolas com ursinhos ganhar, por direito e mérito próprios, o estatuto de extraordinária jornalista e começar e vestir-se como deve ser. E não me julguem leviano: escrevi outros adjectivos – dedicada, óptima, excelente... – antes deste. Mas é este o correcto: extraordinária. Fora da ordem normal, da ordem habitual, da ordem a que nos habituamos quando chefiamos equipas de jornalistas. Na sensibilidade, na forma como maneja as palavras, na capacidade de usar a informalidade da linguagem em prol do sentido dos sentimentos. A escrita da Sónia – talvez ela ainda não se tenha dado conta, mas ela na verdade é uma escritora – serve o jornalismo inteligente como uma luva. Mas claro que serviria ainda melhor um blog, plataforma onde a liberdade não tem fim e vale tudo, sem livros de estilo nem códigos de conduta.

O blog da Sónia – que se chama “Coração na Boca” apesar de se chamar “Cocó Na Fralda” – é a jornalista Sónia Morais Santos. No entanto, sem filtro. E com a desmedida paixão pelos seus filhos, forma simples de dizer o amor profundo ao marido Ricardo e ao que desse amor só podia resultar. Uma família feliz. Talvez ficasse bem agora uma pequena referência aos filhos e à relação entre o blog, o livro e a maternidade. Talvez ficasse. Mas isso é para quem vai ler e já sabe que vai ler.

O que me interessa mesmo é dizer a quem não vai ler o que afinal vai perder. Vai perder a voz inteligente, divertida, comum, mas nunca banal, da minha afilhada Sónia, que é escritora, na prática jornalista, mas tem a humildade dos que nunca se deixaram deslumbrar pelo sucesso. Deve ser também por isso que, passados todos estes anos, eu olho para a Sónia e não consigo deixar de ver nos seus olhos o coração de quem, no começo da sua própria aventura, não sonhava ter tanto talento.

Claro que devia ter chamado Coração na Boca ao blog que se chamou Cocó na Fralda. Mas errar é humano – e se falamos da Sónia, ponham lá humano nisso.

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